<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581</id><updated>2011-07-07T19:22:19.247-03:00</updated><title type='text'>preteXtos para matar júlias</title><subtitle type='html'>Textos, imagens, papos, causos, poemas.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>53</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8629548210272768312</id><published>2011-05-04T18:06:00.003-03:00</published><updated>2011-05-04T18:21:14.693-03:00</updated><title type='text'>Vamos vomitar juntos</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-HKAe2iuSz_I/TcHBkKVOV9I/AAAAAAAABNs/YzrgFXkJuQo/s1600/francis-bacon-11%255B1%255D.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 374px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/-HKAe2iuSz_I/TcHBkKVOV9I/AAAAAAAABNs/YzrgFXkJuQo/s400/francis-bacon-11%255B1%255D.jpg" border="0" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5602972238418434002" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Se você me atinge, tenho todo o direito de também atingi-lo. Se você me persegue, corra de mim quanto puder. Há um código que é válido para todos, outro para alguns poucos e ai de quem não cumpri-lo direitinho. Sua ditadura é minha amiga, pode então governar por 100 anos. Sua ditadura não me satisfaz, posso invadi-lo, derrubá-lo, julgá-lo, pendurá-lo pelo pescoço. Sua vida me pertence e não interessa se tens ou não razão, pois a razão está do lado da força, sempre. O meu código é o código do poder e ele me dá o direito de agir onde  e como bem entender, em nome da minha proteção. Por uma questão de honra ferida, estouraram a cabeça de Bin Laden e multidões comemoram a carcaça do inimigo que, dizem, foi jogada ao mar. Não, não estamos em eras primevas e bárbaras, não estamos comemorando a cabeça perdida de um rei visigodo ou um chefe de tribo germânica no século II dC.  Somos filhos do Iluminismo, da ciência, da civilização letrada e religiosa. Somos todos filhos de Darwin, Newton, Einstein. Jovens letrados, bem alimentados, cristãos, em sua maioria protestantes, foram comemorar o assassinato de um inimigo e as tevês do mundo inteiro vêm me dizer que isso é legal, que isso é bacana. Que povo civilizado pode se dar o direito de celebrar como um carnaval fora de época o assassinato de seu inimigo desarmado? Um povo que se julga dono do mundo, um milhão de prêmios Nobel, as melhores universidades do planeta, que já chegou a Lua e além dela, um povo assim difere daqueles mesmo árabes que comemoram a queda das torres gêmeas? Que diferença há entre o sorriso de Osama celebrando a explosão de inocentes no World Trade Center  e a empáfia de Obama e Bush diante dos sucessos de seus meninos em Islamabad e Bagdad? Será que só eu estou enxergando a bestialidade inerente a essas cenas ou o silêncio de todos é uma espécie de condescendência temerosa? Os irmãos do império do mal acima do Rio Grande invadiram o Iraque alegando mentiras escandalosas, explodiram o país, acabaram com sua estrutura, depuseram e eliminaram o ditador, assassinaram milhares e milhares de civis e agora posam de defensores da liberdade do mundo? Quantos iraquianos morreram sob a mão pesada de Sadam Hussein e quantos sucumbiram ao exército norte-americano? Uma pergunta que sempre me percorre: Porque não julgar George Bush, filho, por crimes de guerra? Crimes contra a humanidade são para chefes de pobres Estados apenas? O que é preciso para que se faça esse julgamento Coragem? O que a comunidade internacional diria se qualquer outra nação invadisse o território de uma outra nação independente e, segundo seus critérios, eliminasse um inimigo? Que diferença há, grosso modo, entre a ação de escroques de Pinochet eliminando o ex-chanceler Letelier em Washington (1976) e os meninos de Obama explodindo a cabeça de Osama? Não haverá protesto algum se um comando italiano invadir Brasília e explodir a cabeça de Batisti. Haverá? Confesso que tanta hipocrisia e crueldade me deixam cada dia mais enojado com essa nossa política internacional. Nao te convido para brindar, não há motivo. Vem, vamos vomitar juntos.&lt;br /&gt;Segue um poema do Eduardo Alves da Costa e que parece ter sido escrito hoje, diante das notícias sobre a morte de Osama Bin Laden:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No Caminho, com Maiakóvski&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como a criança&lt;br /&gt;humildemente afaga&lt;br /&gt;a imagem do herói,&lt;br /&gt;assim me aproximo de ti, Maiakóvski.&lt;br /&gt;Não importa o que me possa acontecer&lt;br /&gt;por andar ombro a ombro&lt;br /&gt;com um poeta soviético.&lt;br /&gt;Lendo teus versos,&lt;br /&gt;aprendi a ter coragem.&lt;br /&gt;Tu sabes,&lt;br /&gt;conheces melhor do que eu&lt;br /&gt;a velha história.&lt;br /&gt;Na primeira noite eles se aproximam&lt;br /&gt;e roubam uma flor&lt;br /&gt;do nosso jardim.&lt;br /&gt;E não dizemos nada.&lt;br /&gt;Na segunda noite, já não se escondem:&lt;br /&gt;pisam as flores,&lt;br /&gt;matam nosso cão,&lt;br /&gt;e não dizemos nada.&lt;br /&gt;Até que um dia,&lt;br /&gt;o mais frágil deles&lt;br /&gt;entra sozinho em nossa casa,&lt;br /&gt;rouba-nos a luz, e,&lt;br /&gt;conhecendo nosso medo,&lt;br /&gt;arranca-nos a voz da garganta.&lt;br /&gt;E já não podemos dizer nada.&lt;br /&gt;Nos dias que correm&lt;br /&gt;a ninguém é dado&lt;br /&gt;repousar a cabeça&lt;br /&gt;alheia ao terror.&lt;br /&gt;Os humildes baixam a cerviz;&lt;br /&gt;e nós, que não temos pacto algum&lt;br /&gt;com os senhores do mundo,&lt;br /&gt;por temor nos calamos.&lt;br /&gt;No silêncio de me quarto&lt;br /&gt;a ousadia me afogueia as faces&lt;br /&gt;e eu fantasio um levante;&lt;br /&gt;mas manhã,&lt;br /&gt;diante do juiz,&lt;br /&gt;talvez meus lábios&lt;br /&gt;calem a verdade&lt;br /&gt;como um foco de germes&lt;br /&gt;capaz de me destruir.&lt;br /&gt;Olho ao redor&lt;br /&gt;e o que vejo&lt;br /&gt;e acabo por repetir&lt;br /&gt;são mentiras.&lt;br /&gt;Mal sabe a criança dizer mãe&lt;br /&gt;e a propaganda lhe destrói a consciência.&lt;br /&gt;A mim, quase me arrastam&lt;br /&gt;pela gola do paletó&lt;br /&gt;à porta do templo&lt;br /&gt;e me pedem que aguarde&lt;br /&gt;até que a Democracia&lt;br /&gt;se digne aparecer no balcão.&lt;br /&gt;Mas eu sei,&lt;br /&gt;porque não estou amedrontado&lt;br /&gt;a ponto de cegar, que ela tem uma espada&lt;br /&gt;a lhe espetar as costelas&lt;br /&gt;e o riso que nos mostra&lt;br /&gt;é uma tênue cortina&lt;br /&gt;lançada sobre os arsenais.&lt;br /&gt;Vamos ao campo&lt;br /&gt;e não os vemos ao nosso lado,&lt;br /&gt;no plantio.&lt;br /&gt;Mas ao tempo da colheita&lt;br /&gt;lá estão&lt;br /&gt;e acabam por nos roubar&lt;br /&gt;até o último grão de trigo.&lt;br /&gt;Dizem-nos que de nós emana o poder&lt;br /&gt;mas sempre o temos contra nós.&lt;br /&gt;Dizem-nos que é preciso&lt;br /&gt;defender nossos lares&lt;br /&gt;mas se nos rebelamos contra a opressão&lt;br /&gt;é sobre nós que marcham os soldados.&lt;br /&gt;E por temor eu me calo,&lt;br /&gt;por temor aceito a condição&lt;br /&gt;de falso democrata&lt;br /&gt;e rotulo meus gestos&lt;br /&gt;com a palavra liberdade,&lt;br /&gt;procurando, num sorriso,&lt;br /&gt;esconder minha dor&lt;br /&gt;diante de meus superiores.&lt;br /&gt;Mas dentro de mim,&lt;br /&gt;com a potência de um milhão de vozes,&lt;br /&gt;o coração grita - MENTIRA!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8629548210272768312?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8629548210272768312/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8629548210272768312' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8629548210272768312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8629548210272768312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2011/05/vamos-vomitar-juntos.html' title='Vamos vomitar juntos'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/-HKAe2iuSz_I/TcHBkKVOV9I/AAAAAAAABNs/YzrgFXkJuQo/s72-c/francis-bacon-11%255B1%255D.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-7853898445909564782</id><published>2010-07-02T09:27:00.000-03:00</published><updated>2010-07-02T09:28:21.350-03:00</updated><title type='text'>A flor do cão</title><content type='html'>Quando pequeno, curvado por tanto sonho, me disseram que aquela flor vermelha no cerrado era a “flor do cão”. Não me ocorre agora quem me a batizou naqueles tempos. Pode ser que tenha sido meu pai, um amigo dele, um colega de escola, não lembro agora. Mas de uma coisa nunca me esqueci, aquela era a “flor do cão”. Para quem a conhece, é flor de um vermelho agressivo, quase vivo, e que salpica o verde e cinza do cerrado com pontinhos escarlates, peludos. Sim, é uma flor peluda, minúsculos filamentos rubros que se expandem numa explosão de cor e volúpia. No menino que ouviu esse nome, ficou guardada a imagem de flor do Diabo, do Demo, não flor canina. As caminhadas para a escola, feitas numa trilha no meio do mato, eram testemunhadas por algumas dessas flores, que também me viam correr, ao fim da tarde, para assistir ao Batman na TV Tupi. Era 1968. Quantas vezes me peguei perguntando o porquê de “flor do cão”. Será que o inferno era assim vermelho? Mas se fosse, seria tão bonito o reino do capeta, eu cria, e ao mesmo tempo mergulhava num dilema que envolvia a idéia de não poder haver beleza no cão, nem em seu reino. Naquela época eu ainda temia papai do céu e as artimanhas do capiroto e era inadmissível haver coisa boa em Lúcifer. Então , menino bobo, me perguntava: Por que flor do cão? O menino que fui guardou a imagem e o nome. Hoje, caminhando, deparei-me com alguns exemplares dessas flores do cerrado e, por instantes, vi-me um menino velho, curvado menos por sonhos que por reumatismo, e me ajoelhei para flagrar-lhe a face rubra no meio do mato. Acho que tinha muito de resgate de um Léo que não volta mais, que perdeu-se naquelas trilhas do cerrado, cercado por flores do cão, em disparada para ver o homem-morcego derrotar pingüins e charadas. Sei que esse ponto vermelho no cerrado tem um nome, dizem–no Caliandra, nome sem graça, sem mito, sem fantasia. Ao adentrar cuidadosamente o mato, com medo de cobra e escorpião, e me apoiar num galho seco para registrar a flor, senti-me como o narrador do Aleph, ridículo e decidido, acomodando-me na melhor posição para ver, naquela flor peluda e vermelha, uma vida inteira. Sim, era essa a sensação que tinha ao fotografar a flor: estava lembrando de mim, menino morto e esquecido, abandonado lá atrás, de olhar perdido numa guirlanda fúnebre de flores do cão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-7853898445909564782?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/7853898445909564782/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=7853898445909564782' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7853898445909564782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7853898445909564782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2010/07/flor-do-cao.html' title='A flor do cão'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-4868833526157782523</id><published>2010-07-02T09:19:00.003-03:00</published><updated>2010-07-02T09:23:47.339-03:00</updated><title type='text'>O garoto-toco: digressões sobre felicidade e miséria</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/TC3Z80Z0ViI/AAAAAAAABMg/piD5SV4XYCk/s1600/why-so-alone.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/TC3Z80Z0ViI/AAAAAAAABMg/piD5SV4XYCk/s400/why-so-alone.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5489283159716812322" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Recebi de uma grande amiga uma mensagem que dizia: Ele começa o dia com um sorriso. E você? A mensagem trazia uma sequência de fotos com um lindo garoto branco, de sorriso branco, num local limpíssimo, e sorriso estampado. O Detalhe trágico da foto era que lhe faltavam as pernas. O menino caucasiano de sorriso meigo aparecia exibindo suas próteses e se divertindo, dentro de sua limitação, com esportes telúricos e aquáticos. Ora, é evidente que essa minha amiga queria me dizer algo como: Não seja mal-humorado, pois você tem tudo e alguns que não têm nada são tão mais receptivos. OU, pior ainda, talvez quisesse me dizer: Não reclame da vida, tem gente em muito pior estado do que o seu. E aí me vêm duas perguntas: Que estado é o meu? E o que eu ando fazendo para merecer a culpa de não querer começar o dia sorrindo? Peguei-me a pensar nisso e cheguei a algumas crenças fundamentais que vão pautar a minha vida:&lt;br /&gt;1. Eu não sou obrigado a ser feliz. Não sou obrigado a procurar a felicidade. Não sou obrigado a ser sempre meigo e doce com quem quer que seja. Felicidade é invenção da literatura burguesa. Além do amor, os escritores e artistas burgueses, inventaram esse negócio de ser feliz e sorrir toda manhã. Schopenhauer, e muito antes dele, Sidharta e todos os budistas, já tinha desconfiado de que essa tentativa esquisita de ser feliz a qualquer preço é o princípio trágico da infelicidade. Ora, se gasto meu tempo tentando ser feliz e – cá pra nós – são raros os momentos de felicidade, é óbvio que na maior parte do tempo estarei frustrado e... triste. Portanto, não me submeto a ser feliz para agradar ninguém.&lt;br /&gt;2. Porque o fato de um pobre sem pernas sorrir pelas manhãs deve servir de paradigma para toda a raça humana e fonte de obrigação? Ora, se o garoto-toco sorri nas fotos ( que nem sei se realmente é sintoma de felicidade) é porque ele tem seus motivos que não são os meus. Ora, se a nova prótese lhe causa menos dor, isso é sim um motivo para que ele sorria, né mesmo? O fato de ser um garoto-toco, por outro lado, não é condição primeira para ser triste. Claro que não. Ser triste também não é obrigação de ninguém. &lt;br /&gt;3. Mensagens desse tipo sempre trazem como princípio lógico – ou que se quer lógica – o fato de que a miséria do mundo é sempre maior do que a minha e, portanto, eu devo agradecer aos céus por ser menos miserável. Ora, que desgraceira é essa? Se milhões morrem na Etiópia eu devo ficar feliz por ter comida em minha mesa? Se o garoto-toco é um toquinho caucasiano, eu devo regozijar-me por ter, intactos, meus cambitos? Claro que não, lamento muito a ausência de pernas nos homens-toco do mundo. A miséria de qualquer um no mundo me diminui. Sei que não resolverei nunca os problemas do mundo, até porque a única coisa de que disponho é a minha literatura pobre, tosca, mas nem isso me dá o direito de achar que estou confortável porque tenho pernas e comidas, coisas que outros não têm.&lt;br /&gt;4. Ser feliz é uma invenção do diabo para nos provocar a gula, a ambição, a guerra. Ser triste, por sua vez, é coisa de um Deus que nos quer temerosos do fim do mundo e passemos a encher igrejas para garantirmos a felicidade...no céu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-4868833526157782523?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/4868833526157782523/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=4868833526157782523' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4868833526157782523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4868833526157782523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2010/07/o-garoto-toco-digressoes-sobre.html' title='O garoto-toco: digressões sobre felicidade e miséria'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/TC3Z80Z0ViI/AAAAAAAABMg/piD5SV4XYCk/s72-c/why-so-alone.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6258109039471580701</id><published>2009-08-11T14:59:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T15:01:04.644-03:00</updated><title type='text'>TOPOGRAFIA DA HISTÓRIA DE JÚLIA</title><content type='html'>ABERTURA    &lt;br /&gt;Em algum lugar dentro de nós  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTE I  - ÍMPETO      &lt;br /&gt;1 – Guará II, pista central, madrugada de domingo      &lt;br /&gt;2 – Via L2 Sul, 609, Associação Cristã de Moços     &lt;br /&gt;3 – Aeroporto Internacional de Brasília      &lt;br /&gt;4 – Guará II, Edifício Saint Moritz      &lt;br /&gt;5 - Lago Sul, QL 05        &lt;br /&gt;6 -Universidade de Brasília       &lt;br /&gt;7 –Guará II, 4a Delegacia de Polícia      &lt;br /&gt;8 -Asa Sul, Edifício “The Tower”      &lt;br /&gt;9 -Aeroporto Internacional de Brasília      &lt;br /&gt;10-Asa Norte, SCLN 405        &lt;br /&gt;11-Setor de Motéis no Núcleo Bandeirante, Motel Ibiza    &lt;br /&gt;12-Asa Sul, Edifício “The Tower”      &lt;br /&gt;13-Setor Econômico do Sudoeste       &lt;br /&gt;14-Instituto Médico Legal        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTE II – RELAXAMENTO       &lt;br /&gt;1 –Setor de Clubes, Iate Clube de Brasília     &lt;br /&gt;2 -Centro Comercial Gilberto Salomão, Restaurante La Cantina   &lt;br /&gt;3 -Guará II, Edifício Saint Moritz      &lt;br /&gt;4 -Ponte JK (ex-Mosteiro)       &lt;br /&gt;5 -Guará II, Edifício Saint Moritz      &lt;br /&gt;6 –Setor de Clubes, Iate Clube de Brasília      &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARTE III – DANÇA    &lt;br /&gt;1 -Setor Comercial Norte, sede da Empreiteira Prado    &lt;br /&gt;2 -Asa Sul, Edifício “The Tower”       &lt;br /&gt;3 -Setor Comercial Norte, sede da Empreiteira Prado    &lt;br /&gt;4 - Guará II, pista central       &lt;br /&gt;5 - Guará II, 4a   Delegacia de Policia       &lt;br /&gt;6 – Setor Comercial Sul, Companhia Telefônica     &lt;br /&gt;7 - Ibotirama, Bahia, casa dos Silva na Fazenda Congadinha   &lt;br /&gt;8 - Igreja Universal do Império Divino      &lt;br /&gt;9 - Centro de Polícia Especializada, Instituto de Criminalística  &lt;br /&gt;10-Lago Sul, QL 05        &lt;br /&gt;11-Centro de Polícia Especializada      &lt;br /&gt;12-Ibotirama, Bahia, casa dos Silva na fazenda Congadinha   &lt;br /&gt;13-Rodoferroviária de Brasília       &lt;br /&gt;14-Jataí, Goiás, cemitério municipal       &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEQUENO GRAN FINALE                 &lt;br /&gt;Em algum lugar dentro de nós&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6258109039471580701?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6258109039471580701/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6258109039471580701' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6258109039471580701'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6258109039471580701'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/topografia-da-historia-de-julia.html' title='TOPOGRAFIA DA HISTÓRIA DE JÚLIA'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-1520112095548585304</id><published>2009-08-11T14:58:00.000-03:00</published><updated>2009-08-11T14:59:24.508-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 14</title><content type='html'>&lt;em&gt;14&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velha ajoelha-se sobre a folha de jornal estendida no chão pelo marido, um velho magro, arqueado, de olhos embaçados pela catarata e pelo tempo, que masca um fumo de corda preto e cospe de banda. Chegaram há alguns minutos, acenderam algumas velas que o vento desta tarde fria insiste em manter apagadas. Têm os olhos marejados, as faces vincadas, são muitas histórias, algumas tristes, outras alegres, e neste momento rezam. Flores secas sobre a sepultura de terra ainda virgem e outros tocos de antigas velas, cujas luzes há muito se foram com o vento, compõem a paisagem imediata. Desolação é a palavra para a cena. &lt;br /&gt;No olhar do velho, que fita o cruzeiro sobre o morro ao longe, se pode ver a figura de uma menina de cabelos longos e loiros, comendo carambola, sentada na cerca de madeira do curral, observando os homens que vacinam o gado. É a mesma menina que, nos olhos da mãe, aprende a bordar, prende o fino tecido branco na armação circular de madeira e, com os dedinhos miúdos, de unhas roídas “Menina levada, olha que cotoquinhos de unha, vou botar pimenta neles”, tenta seguir, com agulha e linha amarela, o traço que desenha uma pata e seus patinhos. As meninas estão ali, em olhos diferentes, e no entanto são a mesma menina que eles vêem deixar a cidade numa noite de chuva, “Vou pra Goiania, mãe, ganhar a vida”. Na pequena rodoviária, vêem-na embarcar com a mesma alegria e tenacidade com que chupava uma carambola e bordava o tecido. A cerca do curral não a viu mais, nem o bordado foi concluído, a pata ficou sem patinhos, as carambolas apodreceram. A menina virou mulher e sumiu por anos e anos, até que foram avisados que eram avós. Naquele momento, só lamentavam o fato que não tivesse marido, era muita vergonha para eles, e por esse motivo nunca aceitaram cuidar da neta. &lt;br /&gt;Agora não tinham escolha, a menina, loira como a mãe, caminhava entre as sepulturas. A velha, apoiando-se no marido, levanta-se, rangendo seu reumatismo, acabou a reza. Vamos embora, ela diz, autoritária, chame a Laurinha, Hildefonso. Ele cospe a baba grossa e fétida, e resmunga: Arre, sô, donde foi essa diabinha? E espicha os olhos por sobre os túmulos, avistando-a ao longe, de prosa com um moço moreno estranho, de dentes muitos brancos e chapéu puído de feltro verde, que manca e anda de maneira estranha, como se estivesse de banda, mas parece estar se divertindo com as infantilidades da menina. Vem cá, Laura, tua vó te chama, grita o velho, engasgando-se no  enfizema de estimação. Observa que o moço alisa a cabeça da pequena, acena gentilmente para ele em despedida, e some por trás de um túmulo muito antigo que ostenta uma imagem, em tamanho natural, do anjo Gabriel. O moço estranho sumiu, diz a menina, ele tava falando que viu mamãe e que ela está bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PEQUENO GRANDE FINAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho não poderia ver que o diabo, pairando na respiração quente do cerrado, sorria seus dentes brancos sob o chapéu de feltro, flutuava sua graça pelas nuvens, jogando fora as botas que lhe comprimiam, desconfortavelmente, os cascos fendidos, cuspindo de banda ossinhos e dentes, gravatas, fardas e batinas, cipós e cartilhas, tudo mastigando com vontade: livros, laudos, bulas, artistas e desastres, desenhos e engenhos, missas e festivais de rock, missais e broquéis. Com sua boca imensurável engolia agora a terra e sua língua alucinante percorria gado e cientistas, assassinos e escultores, policiais e traficantes, santos e pecadores, putas e donas de casa, escritores e leitores, políticos e carcereiros, árabes e judeus, torre 1 e torre 2, bins e bushes, enfim, júlias de todas as espécies de júlias que infestam o planeta. De onde está e domina, ele tem a certeza de que essa história nunca terá fim, pois o tempo, seu companheiro de eternidade, escarradeira de deuses e demônios, esse rio escuro e lodoso, é voragem, é vertigem, é viagem, é passagem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-1520112095548585304?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/1520112095548585304/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=1520112095548585304' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/1520112095548585304'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/1520112095548585304'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulo-14.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 14'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-903057404149060310</id><published>2009-08-11T14:57:00.000-03:00</published><updated>2009-08-11T14:58:02.712-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 13</title><content type='html'>&lt;em&gt;13&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher tem os olhos inchados. Chorou demais e sente que não chorou o suficiente. Mais e mais lágrimas seriam necessárias para poder afogar tamanha dor. Se fosse possível, seria capaz de inundar o mundo e berrar seu sofrimento aos quatro ventos; tornar-se-ia a carpideira universal, a mãe de todas as desgraças. Aquela mulher de olhos fundos, encostada à parede suja, parece aguardar a morte e carregar toda a dor do mundo. Nenhum sentido, nada que signifique valer a pena estar viva. &lt;br /&gt;Cantarola baixinho: “O perdido pecador/ Vem a Cristo, o Salvador/ Pois não quer que ninguém se perca/ Ó, escutai: /Reconciliai-vos já com Deus!”. Essa canção não lhe sai da cabeça e, embora ela não esteja mesmo prestando atenção ao que dizem os versos, continua, baixinho, como que orando: “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já!/ Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai.” &lt;br /&gt;Há menos de três meses estava neste mesmo lugar, aguardando o mesmo ônibus, com destino idêntico ao que agora lhe é tão dolorido fazer. Naquela oportunidade havia esperança e medo; agora, apenas dor, vazio, saudade. Lembra que foi tudo tão rápido, não teve tempo para agir de outra maneira. Mesmo que tivesse, tem certeza de que não agiria de outra forma. O filho era tudo o que tinha. O que tinha, repete baixinho e maldiz o tempo verbal. Lutara muito por aquele menino, nunca toleraria perdê-lo. Nunca, ela diz baixinho, pensando alto, enquanto crava as unhas roídas na palma da mão. &lt;br /&gt;Quando Zequinha era pequeno, por volta dos sete anos, ela relembra, ainda estava casada com o desgraçado do Valdemar, um mecânico musculoso, de bigode farto, que a seduzira com o cheiro de graxa e testosterona . Depois de alguns encontros e falsas juras de amor, passaram a morar juntos: ela, Zequinha, Valdemar e a cachaça. O que parecia ser um perfeito encontro de almas gêmeas, mostrou-se em breve ter sido o seu maior engano. Um inferno, isso sim. Brigas, hematomas, pratos quebrados, copos atirados contra a parede. &lt;br /&gt;O menino sempre fora um garoto diferente, sensível, flor rara naquele ambiente de olhos roxos e palavras vulgares, cuspidas com o álcool de bebidas vagabundas. Não suportava ver a mãe chorando pelos cantos, o padrasto bêbado berrando palavras que não entendia, buceta, caralho, tomar no cu, porra, só pressentia, pelo tom em que eram ditas, que não eram termos muito gentis. Inferno, era o que a mãe costumava dizer, e essa palavra ele achava bonita, tinha graça, embora não soubesse o que significava. Trabalhava o dia inteiro, manicura excelente, freguesia fixa e crescente. Valdemar, por sua vez, apesar de bom mecânico, viu-se desempregado em virtude das cachaças diárias. Isso fez com que, a partir de um certo dia, de que não se lembra, mas que amaldiçoa com todas as suas forças, ele e Zequinha se aproximassem, o suficiente para se repelirem. &lt;br /&gt;O homem passava os dias bêbado e o pequeno, assustado. Ela chegava do trabalho, os pés num estado lastimável de tanto chão e ele, já calibrado por várias doses da maldita, esperava o suado dinheirinho que ela trazia para abastecer-se de mais e mais aguardente. O tempo acabou por ensiná-la que, nessas horas, isso era o melhor que lhe podia acontecer, pois, ao sair  para os bares, os brindava com um artigo raro naquela casa: sossego. Ficavam então, mãe e filho, sozinhos, entregues aos carinhos e carências um do outro, assistiam televisão, comiam pipoca, lambiam-se. Sentia que o pequeno precisava de atenção, andava a cada dia mais estranho, triste, calado. Irritava-se com uma facilidade incrível. Era outro menino. Não entendia o que se passava com Zequinha, aquela criança tão doce e alegre estava se tornando um menino triste e mudo. Precisava arranjar um jeito de passar mais tempo com o filho. Não podia contar com seu companheiro e, para ser sincera, há algum tempo estava pensando em separar-se dele. Só não tinha tomado ainda a decisão, pois julgava que o divórcio, agora, representaria selar o destino trágico do mecânico. No fundo, acreditava, Valdemar era um bom homem. A culpa de todo o mal que o mecânico fazia a si e aos seus era exclusivamente da cachaça. Sem seu apoio e sua paciência, Valdemar não teria muito futuro. Acreditava em sua recuperação. Por isso insistia para que  fosse aos Alcoólatras Anônimos. Tudo em vão : um bando de frouxo, ele dizia, tá me estranhando, porra? Apertando os órgãos genitais e balançando-os na direção da mulher, concluía: sou é macho, tá me ouvindo?  &lt;br /&gt;Ela não viu quando Valdemar chegou em casa e flagrou o pequeno Zequinha brincando com a boneca da vizinha, uma dessas Barbie made in China, adquiridas nas mãos de camelôs por uma bagatela. Partiu para cima do pequeno aos murros e palavrões, arrancou violentamente a boneca de suas mãozinhas trêmulas. Agora é bichinha mesmo? Seu viadinho dos diabos, berrava, babando sua gosma, espumando ódio e frustração sobre o menino, que se encolheu no canto da sala e continuava a ouvi-lo. Seu filho de uma puta, tem que ser homem, seu corno. Com bonequinha, seu viadinho?  &lt;br /&gt;Encolhido, em seu pavor, o menino de apenas sete anos não tinha idéia do que se passava naquele momento. Aquele bêbado vociferava, era assustador. Ele, aterrorizado, quase não respirava. O fio amarelo de urina desceu quente pelo calção, percorreu suas pernas trêmulas, infiltrando-se entre o pé e a sandália de borracha que calçava. Medo absoluto. Valdemar foi à cozinha, pegou um martelo e partiu em sua direção. Sentou-se ao lado do menino, que tinha os olhos arregalados. Começou a desferir golpes na cabeça da boneca e a xingar cada vez mais forte. Boneca? Tu quer boneca, viadinho? Seu fresco, filho de uma puta. Seu mijão de merda, olha o que faço com tua boneca. O brinquedo esfacelava-se, tufos de cabelos, bracinhos e pernas de borracha  para todos os lados. Em alguns segundos a boneca tornara-se um amontoado de plástico distorcido. Ora lembrava uma perna, ora um braço, um tronco. &lt;br /&gt;Valdemar segurou o menino pelo pescoço e, depois de dar-lhe uns safanões, esfregou seu rostinho no chão, ferindo-o com os fragmentos da boneca. Não era isso o que tu queria, frutinha? Toma. Zequinha ameaçou um choro miúdo, tímido, mas foi impedido por sonora bofetada desferida pelo padrasto. Já sei o que tu queria, era isso né? E foi tirando o membro flácido para fora da bermuda jeans manchada de óleo.  O menino engoliu o choro, estava em choque. Eu sei que é isso o que tu quer, tu é igual a tua mãe, gosta de macho, né? E, puxando Zequinha pelos cabelos, Valdemar enfiou a cabeça do menino entre suas pernas, esfregando a face doce e ingênua em seus pêlos pubianos, seu escroto, a aberração de seu corpo alcoolizado. Chupa seu paisinho, vai veadinho, faz igual sua mamãesinha, ele dizia, engrolando as palavras.  &lt;br /&gt;Ela chegou a tempo de ver a cena e ouvir a voz distorcida do companheiro dizendo ao menino: Vamos continuar nossas trepadas, fresco. Tudo se explicou da pior maneira possível. Naquele instante, conseguiu entender a razão de seu pequeno Zequinha estar mudando a cada dia, tornando-se um vegetal. Era isso o que deveria estar acontecendo em sua ausência, era essa a desgraça que estava matando o Zequinha que tanto amava. Desesperada, resgatou o filho das mãos da besta bêbada, xingando-o, batendo nele. Gritando por socorro,  expulsou-o de casa com a ajuda dos vizinhos, que ainda ensaiaram um pequeno linchamento, dando-lhe uma surra no meio da rua, deixando-o desacordado e ferido, até que uma patrulha da Polícia Militar o levou ao Pronto Socorro. A última notícia, anos depois, dizia que tinha largado a bebida, casara-se com uma viúva, com quatro filhos pequenos, e se tornara pastor, dono de uma próspera igreja em Palmas. &lt;br /&gt;O fato é que o que ainda havia de doçura, meiguice e inteligência no menino teve seu fim naquela tarde. Nunca mais foi o mesmo, trancou-se em si mesmo, enlouqueceu completamente, virou bicho. O garoto foi internado em clínicas de repouso. Locais que ela visitava e que, apesar de sabê-los não muito bons para tratar de seu Zequinha, era tudo o que seu mirrado dinheiro podia pagar. Sabia que mais cedo ou mais tarde o teria de volta, como antes, sorrindo, encantando a casa. &lt;br /&gt;O menino cresceu entre tratamentos psiquiátricos, drogas pesadas, castigos, solitárias. Saía aparentemente curado, mas evidentemente histérico em função das drogas que lhe eram ministradas. Tinha recaídas, voltava para a clínica, saía novamente. Toda a sua adolescência transcorreu assim: internações, remédios controlados, fugas, convulsões, depressões, histeria, passividade, visões, delírios. Alternava momentos de lucidez - quando ela então alimentava esperanças de ter de volta aquele menino doce, meigo, inteligente - e momentos de total loucura, quando gritava assustado e dizia ver o diabo mastigando o rabo e cuspindo o sangue nele. Era terrível. Tudo se dissolvia, de repente, num ataque convulsivo, que incluía extrema agressividade, palavras desconexas, choro incontrolável. Depois de um tratamento que ela realmente nunca soube como se desenvolveu, o menino, agora quase um homem, acalmou-se e cresceu qual uma planta estúpida, uma coisa, um peso morto. &lt;br /&gt;Até que, naquele domingo, sem que ela soubesse, ele bateu na porta da vizinha, uma loirinha jovem que há pouco se mudara para o prédio. Quando ela finalmente deu por sua falta, encontrou-o assustado na porta do apartamento. Lá de baixo, as vozes vinham subindo as escadas e traziam aquela melodia, os versos que lhe ficaram tão familiares: “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já!/ Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai”. De dentro do apartamento, a voz da vizinha era o que ela ouvia, a  elevar-se acima da canção dos crentes. “Seu monstro, sai já daqui. Olha o que você fez com ela.” Júlia, transtornada, cuidava da pequena Laura que chorava muito. Ela viu que a criança, além das calcinhas rasgadas, tinha sinais de sangue entre as pernas. Zequinha, assustado, feito uma criança que é flagrada roubando um doce, permanecia como a ocultar-se atrás da parede. Nos olhos dele, a presença daquele mesmo menino de anos atrás, quando expulsara Valdemar. Chorava e deixava transparecer tamanho terror, que ela viu a poça de urina a formar-se no chão, aos seus pés descalços.&lt;br /&gt;Que houve? ela perguntou, já sabendo o que tinha acontecido. Não era estúpida e sabia muito bem o que Zequinha tinha feito. Júlia levantou-se com a menina no colo, chorava e tentava acalmar a filha. Esse monstro, ela disse, apontando para Zequinha, abusou de minha filha. Vou chamar a polícia. &lt;br /&gt;Naquele instante, anteviu a perda do filho. Pensava consigo mesma, com a velocidade e a tensão que a situação exigia, não poderia permitir que a vizinha denunciasse o filho. Sabia que se isso acontecesse o levariam e certamente não o teria mais de volta. Tentou argumentar, pediu que tivesse calma, aquilo era um mal entendido, Zequinha nunca fizera isso, era um menino bom, nunca faria tal coisa, você não pode fazer isso sem ter certeza, Dona Júlia, ela disse. Mas não adiantou, a moça estava decidida a tomar uma atitude. Eu vi, eu o vi em cima de minha filha, com o negócio de fora da calça tentando botar nela, não sou cega. Esse monstro feriu minha menina, tem que ir pra cadeia. Zequinha chorava, a menina chorava, Júlia chorava, ela chorava e ouvia as vozes que subiam as escadas e adentravam a sala: “Vinde a Deus sem receio/ Cristo já remiu/ Todo pecador/ Por Seu grande amor/ Dá perdão aos que crêem/ Pois Ele o garantiu”. Foi quando a moça fez menção de sair com a filha no colo e ela a segurou pelos braços, implorando que não fizesse aquilo: Eu o mando para a casa da minha irmã na Bahia, dona Júlia, por favor, não vá à polícia.&lt;br /&gt;De repente, sem que ela pudesse entender o que estava se passando, Júlia tombou para a frente com menina, que ela prontamente recolheu, evitando que se machucasse. “Eis a ordem do céu/ Do Nosso Deus e Pai:/ O perdido pecador/ Vem a Cristo, o Salvador/ Pois não quer que ninguém se perca/ Ó, escutai:/ Reconciliai-vos já com Deus!”  Zequinha, com um martelo em punho, havia desferido um golpe violento na cabeça da mulher e continuava, agora no chão, a golpeá-la, ensandecido, gritando: Boneca, boneca, boneca. “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já”&lt;br /&gt;Ela soltou a menina no chão e tentou desesperadamente evitar tudo aquilo. Pára, Zequinha, pelo amor de Deus, pára, filho, mas ele estava tomado de ódio, deveras transtornado. Boneca, boneca, boneca, repetia, e, a cada sílaba, um golpe que espargia sangue. Isso parecia atiçar ainda mais a ira de Zequinha, que era muito mais forte que a mulher, mais forte até que muitos homens. “Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai/ Vinde a Deus sem receio/ Cristo já remiu/ Todo pecador”&lt;br /&gt;Quando finalmente conseguiu controlá-lo, já não havia muito a fazer. Ele se encolheu num canto, suas roupas encharcadas com o sangue de Júlia, olhar distante, parecia estar prestando atenção nas vozes que dançavam pela sala: ”Por Seu grande amor/ Dá perdão aos que crêem/ Pois Ele o garantiu/ Reconciliai-vos já com Deus.” Ela também tinha respingos daquele sangue inocente em seu rosto, nos óculos, nas roupas. &lt;br /&gt;A mulher, encostada na parede suja da estação rodoferroviária, morde os lábios e pensa que não podia ter agido de outra forma, não, nunca. Júlia estava no chão, a cabeça esmagada. Ela então tentou simular uma cena de estupro, foi o que lhe veio à mente naquela hora. Despiu a moça, amarrou-a, repassou, tudo num segundo, mil vezes a cena do crime, buscando algo que incriminasse o filho. Não poderia deixar vestígios. Nada. Tratou os ferimentos da menina, deu-lhe chá e analgésicos. Colocou-a para dormir e depois levou-a para o seu quartinho. Limpou tudo o que pudesse ter impressões digitais do filho ou dela própria naquele apartamento. Naquele momento, tinha a sensação de que sua cabeça trabalhava no limite máximo, tudo corria, tudo explodia, e ela tinha a necessidade vital de estar atenta a tudo, não podia deixar sinais, não podia dar bandeira. Foram horas em minutos. Despiu Zequinha e deu-lhe um banho demorado. Retirou dele todo o sangue acumulado na face, nas mãos, entre as unhas do pé. Sangue já coagulado e difícil de lavar. E ele estava catatônico, os olhos pareciam ver algo que ela não via. Temia por ele, que balbuciava coisas sem sentido. Insistia em dizer que o capeta estava cuspindo nele. Colocou num saco preto de lixo as roupas encharcadas pelo sangue de Júlia e o martelo que ele usara. Banhou-se também e parecia mesmo tentar, através do banho, livrar-se de tudo aquilo, daquele pesadelo, daquele inferno. &lt;br /&gt;Esperou que a madrugada chegasse, roendo as unhas, repassando a cena da tragédia. Esquecera alguma coisa? Desceu as escadas em silêncio, pegou seu carro e andou pela cidade. Estava desorientada. Onde descartaria aquelas roupas?  Estacionou, por fim, numa região escura, onde resolveu dar fim a tudo aquilo, e não percebeu que um bêbado a observava.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-903057404149060310?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/903057404149060310/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=903057404149060310' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/903057404149060310'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/903057404149060310'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulo-13.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 13'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-4575121955510002872</id><published>2009-08-11T14:55:00.002-03:00</published><updated>2009-08-11T14:56:42.165-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 12</title><content type='html'>&lt;em&gt;12&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pequena casa é uma construção antiga, muito simples, dois janelões de madeira, azuis, ladeando uma porta branca, da cor parda das paredes. Está localizada numa bela região que, na época do inverno, ostenta um verde irritante e tedioso. Há várias pessoas pelo quintal da casa, uma vez que em seu interior não há mais espaço para bípede algum. Conversam enlutadas, caminham para lá e para cá, entre algumas cabras e galinhas soltas. &lt;br /&gt;As luzes já foram acesas, pois ali escurece muito cedo. O sol desmaia repentinamente por volta das cinco e meia da tarde. Fica aquele vermelhão bucólico de crepúsculo alumiando o gado e os homens. E é nesse estágio fotocromático que a tarde desliza sobre as gentes neste momento. Lá em cima, em algum lugar de não-sei-onde, o demônio masca a cauda e cospe-se na terra, urrando e sorrindo, observando a tudo e a todos. Os homens, em pequenos grupos, mascam fumo e palitam os restos de dentes amarelos. As mulheres, carpindo e rezando o terço, revezam-se na cantoria religiosa e no choro convulsivo que se faz ouvir lá de dentro da casa. Algumas transitam seus corpos obesos e sinceramente tristes com bandejas de café preto e quente. Há dor e sofrimento. &lt;br /&gt;Um recém-chegado pergunta pelo paradeiro do compadre Antonio. Respondem que sumiu no mundo, antes do delegado de Ibotirama aparecer. Foi pras bandas de Lençóis, arrisca um velho desdentado. Uma mulher que serve o café desdiz o velho: Cumadi Zefa diz que ele fugiu pra Salvador, sussurra ela, olhando para os lados, certificando-se de que ninguém a ouviu falar o paradeiro do compadre. Um homem cospe de banda o fumo mascado e levanta as sobrancelhas expondo sua resignação. No interior da casa, entre velas, flores e rostos velhos e plangentes, o corpo da pequena Rosa, filha de Zefa e Antonio, repousa sem vida sobre a mesa de madeira, como uma tétrica xícara de café frio no centro da sala. A cabeça está envolta em um lençol branco que deixa entrever manchas avermelhadas. A menina parece dormir um sono dolente. Definitivamente, não parece ser aquele tipo de cadáver que descansou da vida. A pequena Rosa tem expressão dorida, de quem não estava pronta para partir. E quem, em sã consciência, está pronto para esse tipo de partida? Quem? &lt;br /&gt;Alguns homens estão no fundo da casa, no galpão onde Antonio costuma guardar os defensivos agrícolas e as ferramentas da lida diária. Há uma vela acesa e um corpo no chão de terra batida, envolto numa rede, frio, silente. Esse cadáver, pelo qual ninguém chora ou reza, abandonado num galpão fétido e escuro, não vai mais procurar por bonecas e sua mãe, moradora do edifício Saint Moritz em Brasília, ainda não sabe que o cunhado, o foragido Antonio, tratou de enviar seu amado filho único para o Inferno, logo após tê-lo pego em flagrante esmagando o cérebro da pequena Rosa, com o martelo de bater carne.  &lt;br /&gt;O rapaz, aproveitando-se de que Antonio estava para Ibotirama com a mulher, amarrou a menina na cama dos pais e, alucinado, após rasgar-lhe a vagina violentamente chamando-a de boneca, desferiu-lhe tantos golpes na cabeça quanto suportou seu braço. Transformou-a numa pasta humana. Antonio, cego pelo ódio, transtornado, armou sua espingarda e, sem piedade, despachou-o para a próxima taberna, antes de fugir para São Paulo prometendo à mulher mandar notícias em breve.&lt;br /&gt;A polícia de Ibotirama acaba de chegar à fazenda. É noite completa, noite estrelada e fresca. O corpo de Zequinha, o louco, é levado para a cidade onde aguardará a chegada da mãe. A pequena Rosa será enterrada na manhã seguinte, num pequeno cemitério do sertão baiano. Em algum lugar acima de todos, o capeta lamenta o fato de estarem rezando, mas tem a certeza de muito trabalho ainda por fazer. Achou bonito o chapéu de feltro verde que um bêbado portava. Com simpatia, e sem que a vítima pudesse percebê-lo, surrupiou-lhe o chapéu. Ficou a mirar-se e a se achar bonito.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-4575121955510002872?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/4575121955510002872/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=4575121955510002872' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4575121955510002872'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4575121955510002872'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulo-12.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 12'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6751228094272026176</id><published>2009-08-11T14:55:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T14:55:52.237-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capitulo 11</title><content type='html'>&lt;em&gt;11&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O repórter de uma revista de circulação nacional entrevista o porta-voz da Secretaria de Segurança, delegado Fernandes, sobre a eficácia do trabalho policial no Distrito Federal. A revista, inspirada na onda de violência urbana que assola o país, prepara uma reportagem especial sobre capacitação dos policiais brasileiros, comparando-os com seus similares na Inglaterra e nos Estados Unidos. O repórter faz o levantamento das ocorrências policiais e verifica o número de casos resolvidos pela polícia brasiliense. Outros repórteres estão fazendo o mesmo levantamento em oito capitais brasileiras, dentre as quais Rio de Janeiro e São Paulo. O jornalista, um recém-formado e empregado, ouve incrédulo as explicações do delegado, um sujeito de bochechas vermelhas e barba e cabelos grisalhos, que lhe apresenta os registros de 526 homicídios nos últimos doze meses, 88% deles resolvidos pela perspicácia e pela competência de nossa Polícia Civil do Distrito Federal. Esse desempenho fantástico na resolução de casos de homicídios, diz o delegado, nos coloca como a melhor polícia do Brasil, e, em termos mundiais, só perdemos para os canadenses. O repórter fica impressionado com tudo aquilo e não percebe, e não é sua função perceber, pelo menos neste momento, que o assassinato de Júlia Buonarroti integra a relação dos 12% de homicídios sem solução. Isso não será comentado, 12% dos assassinos estarão provavelmente livres, 12% de vítimas estarão provavelmente sem justiça. Na reportagem, que será publicada algumas semanas depois, Júlia será um número, estará diluída num gráfico de barras que, apesar de representar a insolubilidade de alguns casos de assassinato, atestará a competência da polícia do cerrado. &lt;br /&gt;Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, na 4ª DP do Guará, Michel reconhece, na foto do jornal, o homem que acompanhava Geraldo Prado naquela tarde, há quase dois meses, em que foi esperá-lo no aeroporto. Os jornais estão se deliciando com o escândalo. A manchete é de uma grosseria tremenda: Socialite toma porrada do marido. A reportagem informa que “o executivo João Carlos, 52 anos, espancou barbaramente a sua esposa, Silvia Magalhães de Alencar Rego, 37 anos. Na delegacia, para onde foram levados pela polícia que socorreu a mulher, o executivo, visivelmente nervoso, restringia-se a dizer que não tinha nada a declarar. Silvia Magalhães, conhecida figura da corte, foi encaminhada ao hospital e ao Instituto Médico Legal para perícia.” &lt;br /&gt;O que não podem prever os leitores que se deliciam com aquele escândalo é que, em breve, muito antes que os hematomas de Sílvia desapareçam, o casal estará às mil maravilhas, descansando em Aspen, onde ela terá um caso relâmpago com um musculoso instrutor de esqui que lhe aquecerá a cama na ausência do marido e que ele, por sua vez, pagará uma mixaria  pelo  companhia furtiva  de um porto-riquenho, funcionário do hotel em que ficarão hospedados. Tudo uma maravilha, todos felizes. &lt;br /&gt;As investigações estavam num beco sem saída, nenhuma pista a seguir, nada. Silvia havia confirmado o álibi apresentado por Gerado Prado. Garçons confirmaram a presença do casal no restaurante no dia e horário do crime. Pelo andar da carruagem, presumia, mais um caso sem solução. Um crime perfeito, pensava Michel. O criminoso, ou criminosos, tinha realizado uma obra-prima, tudo sem resposta, instigante. Por quê? Como? Quem? Tudo no caso Júlia indicava a perfeição do crime. Com certeza, pensava ele, aquilo tinha sido obra de um genial criminoso. Por mais que a equipe se aprofundasse, menos indícios encontrava. &lt;br /&gt;Ele esteve diversas vezes no local, incomodou a vizinhança de tal forma que sua presença já estava virando fato comum. Chegou mesmo a crer que tinha encontrado o fio da meada quando um dos fiéis da Igreja Universal do Império Divino o procurou para denunciar o envolvimento do pastor Valter com a vítima. Aparentemente, o pastor tinha tudo para ser o criminoso, pois era amigo de Júlia, soube-se então que estava obcecado por ela, a perseguia escancaradamente. Aproveitando-se de sua posição de pastor de almas, tinha intenções nada evangélicas com relação àquela ovelha desgarrada. Tudo isso ele levantou junto ao suspeito mas, mesmo aqui, nada havia de concreto que pudesse ligá-lo ao crime. Nenhuma digital, nenhum pêlo, nada, nada. A partir dos depoimentos de membros da Igreja, Michel forçosamente teve que concluir pela inocência do pastor&lt;br /&gt;O fato de ter sido constatada a montagem da cena no apartamento de Júlia, com indícios de limpeza geral no piso, nas paredes, móveis, apontando a preocupação do criminoso, ou criminosos, em ocultar impressões e dificultar ao máximo a resolução do homicídio, fez com que começasse a crer num trabalho de profissionais. Mas por quê? Que segredo poderia guardar a mocinha do Ministério da Saúde? Que grande importância poderia ter aquela garota de programa na vida dos assassinos?&lt;br /&gt;Dois meses se passaram e quanto mais se distancia daquela manhã, quando lhe avisaram na academia que havia um homicídio no Guará, mais ele se convence de que aquele crime não terá condenados. E como é duro ter que admitir a ineficácia, reconhecer a impotência, a frustração, o ódio de pensar que um assassino cruel deve estar rindo de sua cara, de toda a equipe, da Polícia Civil, da vítima. O riso do fantasma que durante todo esse tempo perseguiu suas diligências, suas atitudes. &lt;br /&gt;Nos depoimentos de Geraldo e de Sílvia ficou evidente a inocência do empresário. As cartas com as chantagens de Júlia a Geraldo e Heloísa, onde ela ameaçava promover um escândalo caso não fosse concedida uma ajuda para criar a filha, foram apresentadas e esvaziadas com a explicação do empreiteiro. Ele se submetera às ameaças da mulher e, mais que ajudar a filha, fez o teste de paternidade e reconheceu-a, dando-lhe dinheiro. Enfim, não havia nada que indicasse culpa do empresário. Michel, desde o início, duvidava que Geraldo tivesse cometido tal barbaridade. Não tinha o perfil requerido para tal atitude. Era criminoso de outra espécie de crimes. Nada de armas de fogo ou brancas. Nunca seria capaz de meter-se em sangue. Era bandido de papéis, negociatas, negócios escusos. O homem perfumado que a vizinha afirmou ter visto no dia do crime, descobriu o investigador, era João Carlos que, a mando de Geraldo, havia levado dinheiro para a vítima. Estaca zero.&lt;br /&gt;Quem teria matado Júlia? E por quê? Nunca saberiam? No fundo ele pressentia que essas eram perguntas fadadas a permanecerem sem respostas e isso lhe doía demais. Muitas júlias morreram, morrem e morreriam ainda, ele não duvida disso e sabe também que nem tudo tem um sentido. Se tem, nos foge ao controle e ao entendimento. O que sobra? Um corpo em decomposição, algumas lágrimas e a certeza do dever cumprido. &lt;br /&gt;Os outros policiais da equipe de homicídios já estavam concentrados em outros casos e ele ali, ainda remoendo os papéis do processo, relendo o laudo do Instituto de Criminalística pela fullésima vez, buscando uma pista, um vestígio qualquer. Nada. Um lance de dados jamais abolirá o acaso? pensava ele, um tira malarmaico.&lt;br /&gt;Pela manhã, esteve na Universidade de Brasília. Resolveu inscrever-se para a seleção do Mestrado em Literatura. Perguntou pela professora Heloísa e lhe disseram que estava de sabática, que não se encontrava no Brasil. Apenas obteve a confirmação do que já sabia pelos jornais: Heloísa abandonara o marido e sumira no mundo.&lt;br /&gt;Helena ligou para ele na parte da manhã. Convidou-o para pegar um cinema. Está passando Morte em Veneza, no cine Academia, vamos? Ele, surpreso com o convite, que obviamente aceitou, acendeu um cigarro, vício que, sucumbindo ao desejo, acabara por retomar, e pensou consigo mesmo: Hoje, depois de semanas, tenho nicotina e perereca. E riu-se escandalosamente, despertando os olhares curiosos do pessoal da delegacia. &lt;br /&gt;Lembrou de como a conhecera, há tempos, numa apresentação tumultuada da Cassia Eller, ainda desconhecida, num barzinho cult da Asa Norte, o “Bom demais”. Estava com alguns amigos, ela com amigas. Foi tudo muito rápido e direto. Nessa mesma noite, dormiram juntos e iniciaram um relacionamento temperado por mal entendidos, separações, voltas. Agora, anos depois, nesse novo reencontro, após ele cochilar durante a projeção do filme,  embalado por Mahler, ela lhe dirá que perdeu o bebê. Sangrou durante uma caminhada no Parque da Cidade e o médico, com a cara mais tranqüila do mundo, após checar os exames de sangue a que se submetera, informou que acabara de abortar. Ela vai confessar que esteve muito triste, que tudo aquilo doeu muito, que se sentiu inútil. Tudo isso ela lhe dirá enquanto comem uma boa massa. Ele, de início, demonstrará sinceramente o seu espanto: Como foi acontecer isso? Depois encenará remorso, numa performance convincente: Me perdoa, eu não deveria ter dito aquilo. E fechará com chave de ouro, dizendo que a ama e sente muito a falta de seu amor. Tudo isso lhe dirá, mas sabemos que estará pensando apenas em perereca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6751228094272026176?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6751228094272026176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6751228094272026176' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6751228094272026176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6751228094272026176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulo-11.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capitulo 11'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-1057359393577840896</id><published>2009-08-11T14:53:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T14:53:58.067-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 9 e 10</title><content type='html'>&lt;em&gt;9&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala é um amontoado de papéis e preocupação. Os peritos conversam, trocam idéias, sugestões. A matéria com que lidam não é das mais agradáveis, mas é necessário encará-la de maneira decidida, fazer, periciar, buscar explicação para essas pequenas tragédias diárias, tentar estar imune a elas, super-homens de nervos de aço: a mocinha que se suicida e deixa um bilhete ao namoradinho; a criança, de apenas dois anos, carbonizada no barraco de madeira; o velho homossexual, torturado e assassinado no banheiro; os presos mortos no motim na Papuda; e lá estão eles, os peritos, com suas maletas, suas bússolas, seus corações bombeando emoção contida, fitas adesivas e olhares atentos. Homens e mulheres debruçando-se sobre o fim de outros homens e mulheres. E não é essa a natureza humana, guiarmo-nos mesmo na morte? Michel conversa com um dos peritos que lhe entrega um pequeno dossiê onde está escrito: LAUDO DE EXAME DE LOCAL DE MORTE VIOLENTA. Falta assinar, mas já está pronto, pode dar uma folheada.&lt;br /&gt;Ele então começa a ler aquela peça importante do processo, está revivendo a cena do crime:&lt;br /&gt; “...2 Do Cadáver&lt;br /&gt;Trata-se de adulto, do sexo feminino, de compleição mediana, de cor branca, com cabelos lisos, loiros, identificado como sendo JÚLIA DE ASSIS BUONARROTI, com 23 (vinte e e três) anos de idade, nascida em 14/05/1977. Ver fotografia número 32.&lt;br /&gt;Encontrava-se em decúbito ventral, sobre a cama de casal, com a cabeça junto da parede e os membros superiores e inferiores atados às costas, a face voltada para o chão, conforme descrito a seguir. Rever fotografia número 09.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.2.1 Das Vestes&lt;br /&gt;A vítima não trajava roupa alguma, estando com os pés descalços. Portava um relógio no pulso esquerdo, em funcionamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.2.2 Perinecroscópico&lt;br /&gt;Examinando-se externamente o corpo, que se encontrava com rigidez cadavérica nos membros inferiores, foram observadas as seguintes lesões:&lt;br /&gt;- feridas contusas de formatos irregulares, nas regiões fronto-parietal e occipital (fotografias números 35 e 36)&lt;br /&gt;- uma ferida contusa no pavilhão auricular direito (fotografia número 37)&lt;br /&gt;- escoriação em placa nos tornozelos e na parte anterior de ambos os pulsos (fotografias números 38 a 40)&lt;br /&gt;- hematoma de formato regular no ombro esquerdo, evidenciando pigmentos de característica uniforme e constante (ver fotografia 41) &lt;br /&gt;Apresentava, ainda, a língua protusa e arroxeada. Rever a fotografia número 42.&lt;br /&gt;Encontrava-se com impregnações de sangue na cabeça, membros superiores e parte superior do tronco, sendo coletada uma amostra para pesquisa própria em Laboratório deste Instituto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pobre Júlia, o que fizeram com você. Ele fecha o dossiê, evita olhar as fotos,  bastam-lhe as lembranças ainda frescas, o cheiro de sangue, o som do choro da pequena Laura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“4  Discussão&lt;br /&gt;Ante a análise e interpretação dos elementos materiais assinalados e retrodescritos, assim os peritos interpretam a dinâmica do evento: encontrava-se Júlia de Assis Buonarroti próxima à porta de saída do apartamento, quando fora atingida por golpes de instrumento(s) contundente(s) não identificado(s) no local, nas regiões anatômicas retrocitadas, sendo que pelo menos parte dos golpes foi dada com a vítima deitada no piso de cerâmica; em seguida, fora arrastada até a cama, amordaçada e manietada com as mãos para trás, vindo a falecer devido à gravidade das lesões experimentadas.”&lt;br /&gt;Michel entrega o laudo ao perito, agradece e parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;10&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você tem certeza de que não quer me dizer nada, Silvia?&lt;br /&gt;João Carlos fechou o livro que até então fingia ler com interesse e que, com a chegada da mulher, tornou-se dispensável. Ela, senhora de si, estranhando a reação do marido, simplesmente emitiu um “O quê?” João Carlos, ameaçador como nunca antes, levantou-se, foi em direção à mulher, que, assustada, desequilibrou-se em seu salto alto. Paciência tem limite e a minha paciência acabou. Afundando seus dedos nos braços da mulher, ele continuou num tom de seriedade e de acabou-a-mamata-baby,  Seria interessante que você abrisse o jogo, não acha? &lt;br /&gt;Ele tem andado muito estranho, pensa Sílvia, há dias tenho notado que o João Carlos não é o mesmo, peguei-o mexendo em minha bolsa, perguntando pela conta telefônica do meu celular, um absurdo, ele nunca fez tal coisa. Que estará pensando? Você está louco? Quem pensa que é? Silvia defende-se atacando, conhece a fundo a natureza pacífica e passiva do marido, sabe que um tom alterado de voz é o suficiente para recolocá-lo em seu devido lugar: o ponto cego. Pelo menos tem sido assim nesses treze anos de casamento, contabiliza. &lt;br /&gt;Nenhum filho, alguns amantes, dois abortos, presentes, viagens. Pela primeira vez sente algo diferente, a situação lhe parece adversa, surpreendentemente adversa, age como um animal assustado que capta o cheiro do predador em seu território. Definitivamente aquele não é o João Carlos dos eternos sins. A falta de sexo sempre foi compensada por atenção, carinho, gentileza, subserviência e liberdade total para sair e chegar quando e como quisesse. Ele nunca se importou, nunca perguntou e, é claro, devia saber que ela não andava rezando, nunca foi lá muito católica. Uma mulher como ela, bonita, fogosa, não iria se contentar com diamantes e flores, faltava algo mais profundo, faltava pica, e isso ela conseguia facilmente, numa ida ao shopping, ao clube, a um dos estacionamentos do Parque da Cidade, num vernissage, muito embora gostasse de dizer que o melhor lugar para se conseguir um bom homem era, sem sombra de dúvidas, num supermercado. Nada de campo de futebol, oficina mecânica,  quadra de tênis. O melhor mesmo era desfilar com um carrinho de compras pela seção de utilidades masculinas, ali onde se encontram chaves de fenda, parafusos, extensões elétricas, filtro de óleo. Bastavam alguns minutos e logo fisgava o primeiro olhar furtivo, geralmente de homens casados que deixavam as mulheres e a prole enchendo os carrinhos com arroz, macarrão, creme dental, e ficavam ali, oferecendo a ela um pepino duro e maltratado, carente.&lt;br /&gt;Ela sabia muito bem como tratar devidamente um pau abandonado. Dizia à Madá, esposa de um falecido e jovem senador, que desistira de caçar em vernissages ou lançamentos de livros, Ali, minha filha, falava do alto de sua sabedoria, só tem veado e quem se diz não-veado é moderninho demais para uma mulher como nós. Sexo e intelectuais são coisas conflitantes, nunca conheci um homem de letras, ou das artes em geral, que soubesse valorizar a simplicidade de uma trepada bem dada. Eles vêm com certos requintes idiotas, quase patológicos, e acham que isso é refinamento, que isso dá sabor a uma transa. Qual o quê. Esses caras muito cheios de teorias não sabem mesmo o que é uma xoxota, eles chupam a gente como se estivessem lendo Jung, procurando simbolismos vesgos em vaginas. Tive uma vez uma transa com um artista plástico, meu Deus, que horror! O cara queria que eu rolasse com ele sobre uma tela enorme, lambuzados de tintas, dizia que era uma forma de deixar gravados nossos gozos. Que gozo porra nenhuma, como é que eu ia gozar com o  rabo grudando de tinta acrílica? É como lhe digo, se quer um macho, comum, eficaz, eficiente, fuja dos intelectuais. Eles não entendem nada de mulher.&lt;br /&gt;O caso com Geraldo se desenrolava há pouco tempo. Ela sempre o cobiçou, um homem desses, tão mal utilizado – suspirava - que desperdício.  O fato de serem amigos, amigos de longa data, de partilharem almoços, festas, férias, hotéis, não significou muita coisa quando finalmente foram para a cama, que na realidade foi a própria mesa de trabalho do empresário, na sede da empresa. Ali, numa tarde em que fora visitar o marido, mas no fundo buscava outro macho, ele a penetrou violentamente. Deitou-a sobre a mesa, um móvel enorme de madeira, derrubando papéis, processos, porta-retratos, numa selvageria típica do tesão represado. Na sala ao lado, o marido, João Carlos, nem poderia imaginar que logo ali, tão perto, seu grande amigo estava a comer o cu de sua esposa, chamando-a vulgarmente de piranha, puta, gostosa, vou te mostrar o que é um macho, não é aquele corno do João, isso te garanto, safada, e ela só dizia, sim, sim, sim.&lt;br /&gt;O marido sempre esteve numa espécie de sala ao lado, perto dela e ao mesmo tempo tão distante. É óbvio que ele deveria ter lá os seus casos, ela nunca se incomodou com isso, era uma forma diferente de gostar. Mas hoje, agora, ele não era o João da sala ao lado, estranhamente ele estava muito próximo a ela, como nunca tinha estado, daí porque ela berrou: Quem te deu o direito de falar assim comigo, João Carlos? Mas dessa vez sua estratégia é desmontada por uma sonora e violenta bofetada. João Carlos deixa marcados os cinco dedos da mão direita no rosto da mulher, que cai no chão, estupefata, sem fôlego. Ele estende a mão para ajudá-la a levantar-se. Vamos ter a nossa conversinha agora, querida?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-1057359393577840896?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/1057359393577840896/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=1057359393577840896' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/1057359393577840896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/1057359393577840896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulos-9-e-10.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 9 e 10'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8235624596739329642</id><published>2009-08-11T14:50:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T14:51:25.286-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 7 e 8</title><content type='html'>&lt;em&gt;7&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadê Zequinha? Na beira do rio de novo? A gente tem que abrir o olho com esse teu sobrinho, Zefa. Tu sabe que ele não regula bem, tenho medo de ele fazer uma doideira e aí a gente tá no sal. Pastor Fábio andou me dizendo que o sangue do Senhor pode tirar esse mal dele. Disse pra nós levar ele pro culto do domingo, que ele vai exorcizar o diabo no corpo de Zequinha. Que que tu acha? Nós leva? Tua irmã pediu pra gente tomar conta dele, confiou ele a nós e tu sabe que sou homem de palavra, num sabe? Só não entendo porque carga d’água ela trouxe esse infeliz praqui, se lá em Brasília tem muito mais recurso pra cuidar dele. Aqui é que não dá certo, tu sabe que não gosto dele e ainda tem Rosinha, não confio naquela cara de tremelique que ele tem, mas fazer o que né? Se ela pediu num sou eu que vou dizer não, mas que é um desperdício da porra, lá isso é sim, um cabrão desse, cheio de sustança,  e a gente nem pode contar com ele na lida. Ontem ele tava de novo procurando boneca, boneca, que diabo de boneca é essa que ele procura tanto, tu sabe? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;8&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim, é claro que eu conhecia a irmã Júlia. Ele disse isso sem titubear, foi direto, sem tremer, mas eu quase que podia perceber a alteração de suas pupilas, como Harrison Ford entrevistando um replicante. Disse a ele que tinha recebido uma ligação anônima me dizendo que ele tinha relação com a vítima, que fora visto no local na noite em que ocorrera o crime, e que eu não estava ali por acaso. Ele tinha muito a dizer e eu queria muito ouvir a sua história.&lt;br /&gt;Sou casado, começou ele e sua voz já não tinha a mesma segurança, estava contaminada por algo que eu supunha ser medo, mas que poderia ser mera emoção. Muito bem casado, fez questão de reforçar. Ela me ajuda nos trabalhos da igreja, nos cultos, nas visitas aos doentes, cuida da casa, dos nossos filhos, de mim. Sou, para lhe ser sincero, um homem abençoado por Deus, que me deu essa mulher, essa família. Sem eles, eu nada seria. Mas... ela apareceu.&lt;br /&gt;Ele estancou, enfiou o rosto entre as mãos ossudas e abaixou a cabeça, respirando fundo. Ela cruzou a porta da Igreja, eu conversava com os rapazes e moças do grupo jovem e não pude desviar os olhos daquela aparição. Trazia Laurinha pela mão e creio que levava um cigarro aceso na outra. Na primeira vez que a vi eu não podia supor que Deus estava me testando, me pondo à prova. Logo eu, que sempre fui fiel cordeiro. Por quê? Me pergunto, por quê? Serei Jó? Achei que a melhor estratégia era deixar que ele desabafasse. Não havia ninguém no escritório da Igreja, apenas eu e ele. O tempo parecia estar virando, talvez chovesse e já era mesmo tempo de chover. As mãos secas, a pele um horror, as narinas um corredor onde o ar costumava passar arrastando as sapatilhas com pregos. No caminho para cá, em frente ao Zoológico, o mato seco consumia-se em chamas e o ar era cinza e irrespirável. Sobre o viaduto perto do Shopping, antes de descer para o Guará, vi que, na direção do Gama, as nuvens estavam escuras, chumbo-chuva. Essa possibilidade de água no deserto animava-me a prosseguir o interrogatório. Eu tinha a certeza de que estava ali o assassino de Júlia e ele iria me confessar tudo. Perguntei se eles mantinham um caso e ele me fuzilou com o olhar úmido. Não, nunca tivemos nada. Eu me acostumei a vê-la chegar do trabalho, pois daqui da porta da Igreja temos visão total das pessoas que saltam no ponto de ônibus. Virou rotina e necessidade. Ela nunca percebeu que daqui eu a via passar, excitava-me seu jeito doce. Tinha um quê de prazer proibido, de roubar fruta madura no quintal do vizinho. Isso mexia comigo. Quando a visitei pela primeira vez, eu só queria convidá-la a participar de nosso culto, a visitar nossa Igreja. Ela me atendeu educadamente, disse que uma hora dessas ela viria mas é claro que nunca orou conosco. Ofereceu-me um pouco de café e logo se despediu de mim dizendo estar cansada. Algo que eu nunca sentira antes começou a se apossar de meu juízo, era ele, Satanás, que veio para mim sem que eu, acostumado a despachá-lo para o inferno, pudesse perceber sua aproximação. Veio disfarçado de Júlia, tocou-me no ponto fraco, soprou a brasa adormecida de meu desejo e pôs fogo em mim. Comecei a sentir os desejos da carne, e Júlia era o objeto desse desejo. Antes, eu a via passar como fruta madura, biscoito raro, mas agora eu, imaginava suas pernas, seus seios, seu corpo inteiro em chamas. Sua presença me excitava constantemente, não tinha mais sossego, perdera minha paz. A primeira vez que fomos para a cama eu paguei o que ela me pedira, paguei com prazer, valera todos os tostôes que gastei da Igreja. Já que não podia tê-la de coração, comecei a usar os serviços dela. No início, uma vez a cada quinze dias. Fazíamos amor no apartamento dela, depois do culto. Em casa eu dizia que tinha visitas a fazer a membros da comunidade, e então corria para os braços de Júlia. Só eu sei o quanto estava cego, louco, tomado por Satanás. De repente, sem que desse conta de mim, estava querendo mais e mais. Comecei a visitá-la com mais freqüência e notei que ela me desprezava completamente. No início ainda tentava ser gentil, mas logo me recebia à porta com um “Porra, você de novo?” e nessas horas o que eu mais queria era abraçá-la, contar a ela tudo o que eu sentia.  Eu seria capaz de largar tudo, doutor, abandonar mulher, filhos, igreja, Deus, sim, seria capaz de abandonar minha vida por ela. E ela, aquela Madalena,  ria de mim. Minhas investidas sempre foram repelidas, e quase sempre com violência. Alguns fiéis notaram que eu não era mais o mesmo. Minha santa esposa há muito percebera minha possessão e comentara com os pastores Caio e Fábio. Chegaram mesmo a me questionar claramente sobre o assunto e eu, cego e estúpido, disse que não havia nada, que estavam todos malucos. Em casa, minha vida virara de pernas para o ar. Não conseguia mais relacionar-me sexualmente com minha esposa, pensava em Júlia, queria apenas Júlia. E foi pensando nisso que a visitei naquela noite. Ó Jeová, como sou grato por me enviares os sinais. &lt;br /&gt;Eu quis saber que sinais eram esses, o que aconteceu naquela noite. Notei que ele tremia muito, visivelmente exaltado. Eu acreditava que agora ele confessaria tudo, ajeitei-me na cadeira, e pedi que ele continuasse. Disse-lhe que nossa conversa ali era informal, que ele podia se abrir comigo. Fiz isso como forma de deixá-lo a vontade e confiante, para que me contasse como matara Júlia, pois o porquê ele já me tinha dito. Tínhamos um culto especial naquela noite - ele começou -  a igreja estava repleta de irmãos.Estávamos recebendo a visita de irmãos de outra cidade e, como sempre, nesses casos, o culto estava a cargo do pastor visitante. Eu estava completamente ansioso, excitado, perdido, possuído por ele, o anjo negro. Aproveitando-me de um momento de desatenção de minha santa mulher, saí furtivamente, subi as escada correndo, o coração entre os dentes. Todos cantavam alegrement, e minha alma, naquele momento, cantava os salmos infernais do desejo. Bati à porta e ela se abriu sozinha, estava apenas encostada. Empurrei-a e entrei. Tudo estava estranhamente calmo. E então... ele olhou para mim, os olhos fundos clamando perdão. &lt;br /&gt;Ao longe ouvimos o barulho de trovões e isso me alegrou. Chuva sempre me alegrou. Eu vi o sangue, ele continuou,  muito sangue, e ela nua, amarrada, morta. Meu coração disparou, Deus estava a me mostrar o destino dos ímpios, a me dizer que havia tempo para a minha redenção, que Satanás deveria ser expulso de meu coração, que a tentação findara tragicamente e que eu deveria retornar ao caminho do sangue do cordeiro. Eu a vi, Júlia, amarrada, sem vida. Laura dormia um sono agitado, conferi que ela estava bem, graças a Deus. Eu voltei, não havia mais o que fazer, tinha que sair dali. O medo de ser flagrado no apartamento e não ter como explicar, aliado ao meu arrependimento por tudo que eu andara fazendo, fizeram-me cair em prantos.  Encostei a porta, eliminei minhas impressões da maçaneta e desci as escadas chorando. Voltei para a igreja e louvei a Deus a plenos pulmões. Naquela noite, sob o sangue de Júlia, eu renasci, tornei-me outro homem. Quando viva, aquela mulher representou minha danação, sepultou minha alma no pecado  mas, ao morrer, ela salvou-me do inferno. Ele tinha os olhos úmidos e eu podia notar um certo alívio no tom de sua voz, na respiração funda e compassada. Aquela conversa, que ele disse nunca ter tido com ninguém, tinha sido mais que desejada. A voz anônima que lhe telefonou, o fez porque pedi que fizesse. Minha esposa ligou para o senhor, a meu pedido. Não se surpreenda, eu não sabia como agir, e não queria escândalo. Eu o aguardava desde aquela noite, mas tudo tem seu tempo, tempo de matar e de morrer, de calar e de falar. &lt;br /&gt;Eu não sabia o que dizer, aquela história que acabara de ouvir não era o que eu esperava ouvir e, por isso, não me soava convincente. A perícia não constatou nenhum vestígio que pudesse atestar a presença do pastor no apartamento de Júlia. Nenhuma impressão, fio de cabelo, nada. Conversei com vários fiéis e todos afirmaram que o pastor Valter não tinha se ausentado da Igreja naquela noite. Eu sabia que isso era uma inverdade, mas sabia apenas por que ele próprio me confessara essa ausência. Nada a fazer, o homem estava livre. Eu não tinha nada que pudesse incriminá-lo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8235624596739329642?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8235624596739329642/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8235624596739329642' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8235624596739329642'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8235624596739329642'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulos-7-e-8.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 7 e 8'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6668512558809403560</id><published>2009-08-11T14:47:00.003-03:00</published><updated>2009-08-11T14:52:38.956-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 5 e 6</title><content type='html'>&lt;em&gt;5 &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virou crente agora, Michel? pergunta o escrivão apontando os versos que ele rabisca no papel: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 &lt;em&gt;Ó cega cupidez! Ó ira ardente,&lt;br /&gt;                  Que a tantos leva ao mal na curta vida,&lt;br /&gt;                  E na eterna castiga eternamente! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sorri e responde perguntando: Você acredita em inferno, Moura? O escrivão faz muxoxo de agnóstico e traga o cigarro que um dia o levará ao purgatório. Você acha que há castigo para esses elementos que a gente prende? E para aqueles que a gente não consegue prender?  Moura, um gorducho bonachão, de bigode farto e cabelos parcos, responde mordendo o cigarro: Não entro nessas questões, poeta. Minha praia é outra, diz com o sotaque carregado dos chiados de Santa Teresa e Bonsucesso, e fazendo um gesto malicioso que une polegares e indicadores. Além do mais, chia ele no irritante carioquês, esse negócio de versinho é coisa de boiola. E ri escancaradamente com seus cinqüenta e dois dentes amarelos.&lt;br /&gt;Michel aponta-lhe o dedo médio, expondo-lhe o característico gesto obsceno de domínio público, que inspirou o clássico conto A teoria do gesto de um de seus autores favoritos. Babaca, isso é Dante, Divina Comédia, Canto XII do Inferno, berra irritado e sua mente, por instantes, voa.&lt;br /&gt; “As now can’t reveal the mystery of tomorrow&lt;br /&gt;    nut in passing will grow older every day&lt;br /&gt;    just as all is born is new&lt;br /&gt;    do know what I say is true&lt;br /&gt;    That I’ll be loving you always...’&lt;br /&gt;Puxa, há tempos não ouvia essa canção. Linda! &lt;br /&gt;Ela disse assim, de um jeito tão doce, e nem parecia a perua arrogante que eu julgava ser quando me ligou na delegacia marcando esse encontro. Disse que queria sigilo, escolheu este Café na asa norte e pediu-me que viesse sozinho. Encontrei-a nervosa, muito bem vestida, olhos úmidos, olheiras aparentes inutilmente disfarçadas, parecia ter chorado muito. Fui descobrir depois que tem chorado há tempos. Falou-me do marido, entregou-me a carta-chantagem, contou-me sobre a noite do crime, sobre o desaparecimento de Geraldo, suas desconfianças, que o amava, mas que tinha muito medo, não sabia mais em que acreditar. Da formalidade inicial, acabei passando involuntariamente a uma espécie de confessor sentimental, mais para padre que para tira. &lt;br /&gt;Sempre tive esse lado messiânico. Messiânico não, que de Messias eu não tenho porra nenhuma. Quero  dizer que sempre atraí pessoas querendo confessar algo, e não me refiro a crimes, mas a coisas de suas vidas que precisavam ser ditas a alguém que tivesse cara e jeito de orelha, olhar de tímpano. Eu sempre fui esse auditor ambulante. As mulheres adoram me confessar tristezas, sentimentos de perda, carências. Os homens normalmente me vêm com histórias de traição, de como se arrependem de não ter quebrado a cara de alguém, de como dizer à mulher que andaram comendo fora de casa. Coisinhas assim. E eu, de Cristo, ouvindo-os e invejando-lhes a grandeza de atitude, de buscar no outro o consolo, o conforto. &lt;br /&gt;Nunca fui assim, nunca procurei ninguém para falar um xis da minha vida. Sempre achei que isso era agir covardemente, só a mim interessa o que sinto. Enquanto falávamos, George Michael começou a cantar essa canção de Stevie Wonder, “As”, que ela reconheceu imediatamente, vendo-se mesmo transportada para a Nova York de 1976, quando, ao lado do marido, um jovem engenheiro carioca chamado Geraldo Prado, cheia de planos, fazia o doutorado em literatura comparada. Era um verão maravilhoso, disse-me, costumávamos andar no Central Park e repartíamos nossas vidas, nossas descobertas, nossas frustrações. Foi um tempo esplendoroso aquele, e essa canção me leva melancolicamente àquele época.  &lt;br /&gt;Disse-lhe que preferia o original, na voz do velho Tirésias negro Stevie Wonder, rodando e chiando, no álbum duplo Songs in the key of life, que comprei num sebo em São Paulo. Ela se contentou em sorrir maravilhosamente e em dizer que eu deveria ser a musa inspiradora de um tal de Nick Hornby. Curioso diante do comentário quis saber de quem se tratava e ela falou-me de um romance inglês dos noventa, onde o protagonista é um cara que interpreta a vida e as pessoas a partir de sua loja de discos de vinil. Já de cara gostei do  fulano e perguntei pelo título do livro. High Fidelity, disse-me ela, literatura pop, fast food literário interessante, dá uma idéia do que se produz agora na Inglaterra. Bom? Quis saber, e ela emendou “Quer mesmo saber?” e sorriu de um jeito tão doce e triste. &lt;br /&gt;Me falou que infelizmente a arte involuía a passos largos. Estes são tempos de bijuterias, não existem mais diamantes. Continuou me dizendo que não era possível mais esperar grande coisa na literatura. O que se via, nesses dois milênios de letras, era realmente a queda de qualidade dos textos literários. Assim, com uma didática de doce de goiaba, ela me dizia de Homero aos trágicos uma primeira queda, o que diremos então dos trágicos aos latinos? E a queda continua, em ritmo acelerado, até chegar aos modernos. E moderno é Cervantes, não T.S.Elliot. E ela ria gostosamente. Não há como comparar Nick Hornby com nada disso. É a literatura contemporânea. É o resto pop e fútil com que nos brindam nesse fim de milênio, fast food literário, repetiu. É bom? Valem a pena a grana e o tempo gastos com ele? insisti, Não sei, é o que temos, ela me disse sem nenhuma ponta de rancor acadêmico, se é que existe tal tipo de rancor, mas o que quero mesmo dizer é que ela simplesmente constatava isso tudo, não sofria por isso. Concluiu essa história me dizendo Se eu fosse você, optava por ler Thomas Mann. Comece com Tonio Kröger, vai gostar. Confessei a minha preferência pela poesia, o que a surpreendeu claramente. Um policial e poesia? sorriu, que coisa mais surrealista. &lt;br /&gt;Era essa a idéia de todas as pessoas. E eu achava que, no fundo, isso tudo era uma grande besteira. Tirei alguns pontos da professora Heloísa devido a esse comentário idiota. Disse-lhe, num tom de ensaio acadêmico, que não via motivo para tamanho espanto, uma vez que  poesia e criminalidade tinham a mesma raiz. Disse isso assim, para provocar, para espantar, e consegui o meu objetivo, pois ela arregalou seus lindos olhos e fez cara de “My god!”. Sim, isso mesmo, continuei, um crime perfeito. O crime a que me refiro é o assassinato e, sendo ainda mais categórico, o homicídio premeditado. Um crime assim é como um poema perfeito, sem quebras que comprometam sua métrica, de rimas ricas quando as há, e aí entra o estilo do poeta, o padrão do assassino. Na criação de suas obras - e tente me ouvir e me entender sem um pré-conceito moral, ou ético; seja fria, acadêmica, por favor - ambos partilham o ideal do belo. Para matar ou compor sonetos há que se render à estética. Os grande assassinos são indubitavelmente grandes estetas, e não me refiro aqui a esses criminosos absurdos que vêm de roldão na insanidade, acompanhados de explosões de fúria, passionais ao extremo. Trato exclusivamente daqueles sofisticados matadores que compõem sua obra com paciência, que a planejam ardilosamente, escolhem sua vítima como se escolhe um tema para uma sextilha, seguem-na e estudam-na como se mergulhassem na sua alma, como faz qualquer bom poeta, e acabam por executá-la com requintes de inteligência e extrema sensibilidade, demonstrando esmero, como na composição de um hai kai, e nos deixando, policiais e críticos literários, simplesmente de mãos e pés atados. Não quero de forma alguma defender o assassino, minha função é acabar com eles, mas não vou aqui dizer ingenuamente que não existe crime perfeito, pois existe sim, há poetas e versos de sangue. Ela me olhava com a expressão de espanto agradável.&lt;br /&gt;A conversa tornou-se amena e ela parecia querer aproveitar minha presença para falar e falar e falar, indefinidamente. Contou-me que era filha de militar e que, em função da atividade do pai, durante a adolescência, vivia mudando de cidade. Porto Alegre, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília consumiram bons a maus anos de sua vida. Fiquei observando os gestos suaves que fazia com as mãos ao falar. A cada opinião ou conceito emitido pela voz macia, as mãos emendavam um gesto que tinha a função de reforçar o que a boca dizia. Era delicioso notar a graciosidade desses movimentos. Tenho esse defeito terrível: para minha percepção, a linguagem do corpo fala mais alto que a própria voz e por essa razão, é comum eu sacrificar um pouco do teor de uma conversa em detrimento da análise do movimento das mãos, o franzir das sobrancelhas, a torção e o tremor dos lábios. Acho que tal vício tem sua origem nas porradas que brotavam repentinamente das palavras do meu finado pai.&lt;br /&gt;Perguntou-me se não tinha interesse em fazer o mestrado em literatura, e sorriu. Disse a ela que o depoimento do marido estava marcado mas,  pela conversa que tinha tido com ele, não conseguia ver nenhum sinal evidente de seu envolvimento na morte de Júlia. Afirmei que, pessoalmente, não acreditava nisso, pois Geraldo tinha sido muito coerente, embora realmente não me tivesse dito onde se encontrava na noite do crime. Ela sorriu irônica e sugeriu alguma mulher. Eu disse que não sabia, não era minha função. Ela me pareceu muito triste, e mesmo deixava transparecer, mais do que tristeza, uma mancha escura. Ódio, presumi. Saiu do Café da maneira mais linda que uma mulher pode sair, sem olhar para trás, nem para os lados. Neste momento, pelas caixas de som, a voz grave e máscula do finado Renato Russo me dizia “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós”&lt;br /&gt;Tudo um grande quebra-cabeça. A cabeça quebrada, esmagada, de Júlia, atrai muitas alternativas e, por isso mesmo, ele se vê perdido e temeroso. A carta-chantagem de Júlia, que Heloísa lhe entregou pela manhã, toda aquela história do desaparecimento de Geraldo na noite do crime, a ausência de indícios, a falta de pistas e o silêncio da vizinhança, o escândalo com um grande empresário, tudo isso pesa em seus ombros. Sabe que a investigação ainda está no começo, mas a sensação desagradável de crime sem solução parece rondar sua enxaqueca. Antevê a impunidade,  sangue sem sentença, vítima sem vingança, morte sem culpado, crime sem castigo. Lembra de Ana Lídia, do corpo mutilado da menina em pleno cerrado. Daquela época, menino ainda, Michel guarda o clima de tragédia que se abateu na cidade, o trauma provocado pela descoberta do corpo da criança e, o pior de tudo, o zum-zum-zum sobre a participação de filhos de políticos poderosos no crime. Sabe que, apesar de tudo, nada incrimina Geraldo Prado concretamente. Pressente mesmo sua inocência e não sabe para onde direcionar sua investigação. A arma do crime? Impressões digitais? Nada, nada. Quem? Vêm-lhe à mente os versos de Sófocles, em Édipo Rei: “Que disse? É pouco, mas um mínimo detalhe /  talvez nos leve a descobertas decisivas  /  se nos proporcionar um fio de esperança.” E ele suspirou resignado, pois não acreditava em oráculo algum. Seu grande temor era que o caso de Júlia viesse a se tornar um segundo caso Ana Lídia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;6&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta é a caixa de recados de 9987.6589. Após o sinal, deixe o seu recado: &lt;br /&gt;Por favor, Gera, não faça besteira. Não vá dizer que estivemos juntos naquela noite, pelo amor de Deus. Não faça isso comigo. E meu casamento? E o seu? E sua amizade com o Jota?  Vai arriscar tudo isso? Não, nunca. Eles nunca entenderiam, Agá e Jota nunca entenderiam, Geraldo. Ela nunca me perdoaria. Me liga, por favor. Não faça loucura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6668512558809403560?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6668512558809403560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6668512558809403560' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6668512558809403560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6668512558809403560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/5-virou-crente-agora-michel-pergunta-o.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 5 e 6'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-153887970990696005</id><published>2009-08-11T14:45:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T14:46:57.141-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 3 e 4</title><content type='html'>&lt;em&gt;3&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como ousa dizer que estou ficando louca? Até quando pensa levar essa mentira? Onde você estava ontem? Não me venha dizer que ficou em casa, não sou estúpida. E essa coitada? Júlia não sei de quê, foi você que fez isso com ela? Além de adúltero, agora é um assassino também? Eu tenho uma carta onde ela te faz ameaças, é tudo tão horrível.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;E por que nunca me falou nada? Por que, Geraldo? Monstro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;4&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um batalhão de empregados do Departamento de Obras Públicas está envolvido num mutirão de limpeza e saneamento. Homens e mulheres, de todas as idades, taras e fomes,  portam, além da máscara da pobreza, vassouras, sacos de lixo, cortadores de grama, baldes de cal e tinta branca para o meio-fio. Riem, alguns maldizem-se, reclamam da situação econômica, do sol , da poeira, do salário, da derrota do time de futebol, do chefe de equipe que lhes cobra pressa e capricho, enfim, trabalham e comentam o que confere graça ou desgraça a suas vidas. Uma coisa os une indubitavelmente: a mesma vida dura e sem futuro. Seus filhos e netos, se sobreviverem à fome, ao frio, à poeira de suas favelas, ao tráfico, às drogas, aos maus-tratos em casa e na rua, à nossa insensibilidade doentia, também varrerão as nossas ruas, cortarão nossos gramados, servirão cafés e chás vestidos de branco e sisudez teatral, recolherão nossos lixos, passearão com nossos cachorros, dirão sim, exatamente como seus pais fizeram a vida inteira. Sim, sim, sim, senhor. &lt;br /&gt;Não me engano com esperanças vãs de que algo nessa situação mude milagrosamente para melhor e, afinal de contas, que importa se eu me engano ou deixo de enganar? O que importa é que eles estão aí, com seus estômagos berrando sua fome em nossa porta, com sua anemia e subnutrição sujando nossas ruas, pedindo o trocado e vigiando carros nos estacionamentos, carregando seus filhotes de olhar apalermado, fruto de fomes e febres. Sua prole, farta e doentia, continuará a encher de terra os buracos das auto-estradas, a morrer soterrada em tempo de chuva forte nas favelas, elegerá os filhos dos mesmos homens que agora governam seus pais, perpetuará suas desgraças. Suas filhas serão empregadas domésticas, prostitutas, balconistas, professorinhas de beira de rio, donas de casa infelizes e chagásicas. Alguns, pouquíssimos, conseguirão concluir, com a ajuda de crédito educativo, um curso universitário vagabundo, a duras penas, e, de posse de um certificado de conclusão que, na realidade, ratifica sua pobreza de espírito, escaparão da vassoura e dos baldes de tinta, para se tornar profissionais liberais e se envergonhar dos pais que varreram ruas e pintaram meios-fios. Estes, que sobreviverão às mazelas da pobreza e da falta de esperança, certamente estarão limpando, com suas línguas covardes e pestilentas, o caminho por onde passará a elite que ajudaram a se manter no poder. Usarão seus corpos fétidos e miseráveis, de uma miséria mais profunda, uma miséria moral, para formar uma ponte cruel por onde cruzarão, como sempre cruzaram, os burgueses disfarçados de sociólogos, de intelectuais amigos do povo, de salvadores da pátria, todos camuflados e ardilosos, sugando as tetas de uma nação cuja miséria se encarregaram de compor com seus discursos de modernidade duvidosa, corretos gramaticalmente, de português castiço, de palavreado único e quase artístico, atrás de suas gravatas de seda pura, seus sorrisos de porcelana, sua vaidade globalizada e vã. &lt;br /&gt;Nesta manhã, seus genitores, avós e tios, indefesos e alienados, mal alimentados e iludidos, honestos e humildes, estão cuidando de embelezar as ruas da cidade que os acha tão feios e assustadores, que os teme e repele. Olhem o que nós achou, Joaquim Paraíba exibe um martelo com o cabo de madeira chamuscado, acaba de recolhê-lo do fundo de um bueiro onde havia cinzas e lixo. Não percebe que a mancha escura na superfície contundente do objeto é sangue, um misto de sangue e pêlos que sobraram, reticentes ao fogo, nas ranhuras do metal. Levará a ferramenta para o barraco no final do dia e, com ela, poderá pregar algumas tábuas nas paredes mambembes de sua residência, para proteger do frio um moleque, o primogênito de três meses, que batizou com o sugestivo  nome de Jeová.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-153887970990696005?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/153887970990696005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=153887970990696005' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/153887970990696005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/153887970990696005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/pmpj-parte-final-danca-capitulos-3-e-4.html' title='Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 3 e 4'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8376108229378284108</id><published>2009-08-11T14:43:00.001-03:00</published><updated>2009-08-11T14:44:59.494-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte Final - Dança - Capítulos 1 e 2</title><content type='html'>&lt;em&gt;1&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Leia isso, disse João Carlos ao amigo, entregando-lhe um caderno de jornal. É  de hoje. O tempo vai virar para você. A voz demonstrava evidente preocupação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“MÃE É ASSASSINADA NA FRENTE DA FILHA&lt;br /&gt;A funcionária do Ministério da Saúde, Júlia Buonarroti, de 23 anos, foi encontrada morta em sua residência, no Guará II. No apartamento de quarto e sala na comercial da QI 33, onde a vítima residia com a filha Laura, de 3 anos, policiais da 4a DP, alertados por vizinhos preocupados com o choro convulsivo da criança, encontraram-na nua, amarrada, com o crânio esfacelado. &lt;br /&gt;Funcionários do Ministério da Saúde, colegas da vítima, se mostram chocados com o ocorrido e afirmam não terem conhecimento de motivo algum que possa explicar essa tragédia. “Júlia era uma moça maravilhosa, doce e meiga. Uma santa. Não entendo como fizeram essa barbaridade” depôs, visivelmente abatido, Otávio Fraga, 56 anos, chefe do Departamento de Projetos Sanitários, onde a vítima trabalhava.&lt;br /&gt;A polícia trabalha com a hipótese de crime premeditado, uma vez que nada foi subtraído da residência da funcionária pública. Os vizinhos não souberam explicar como tudo pode ter ocorrido sem que ninguém percebesse um grito de socorro. Dona Maria Odete, costureira, vizinha de Júlia, declarou ao Correio: “É um absurdo, uma coisa que mete muito medo. Mataram ela na frente da filha, gente. Como é que pode?“ A população do Guará, que durante anos se orgulhou do reduzido número de ocorrências policiais, sente-se cada dia mais temerosa. Este é o terceiro caso de homicídio nas duas últimas semanas. &lt;br /&gt;O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal para autópsia e está sendo aguardada a presença de familiares para que seja liberado. O corpo será sepultado na cidade de Jataí, onde moram os pais da vítima.&lt;br /&gt;As primeiras investigações indicam que Júlia Buonarroti mantinha relações com empresários e políticos da cidade. Um dos nomes é o de Geraldo Prado, empreiteiro envolvido em escândalos no governo, o que pode ser comprovado pela paternidade da pequena Laura, cujo teste de DNA, encontrado no local do crime, o aponta como genitor da criança. Além disso, segundo fontes extra-oficiais, um cartão da Construtora Prado, com o nome do empresário foi encontrado entre os pertences da moça.&lt;br /&gt;Procurado por nossa reportagem, o empresário Geraldo Prado não quis dar entrevista e mostrou-se indiferente ao ocorrido.“&lt;br /&gt;Geraldo fechou o jornal, olhar criogênico, encarou o amigo: “Que merda, João. Bote  nossos advogados para trabalhar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;2&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Heloísa está ao telefone. Sua voz, em tom mais baixo que o normal, traz nervosismo e raiva. Um exemplar do jornal sobre o colo, a mão direita à boca, as unhas se vão roídas ao ritmo da conversa. Do outro lado da linha, Silvia se desespera.&lt;br /&gt;Eu te disse, ele tem outra. Ou tinha, já que ela está morta. Não consigo acreditar no que está ocorrendo, mas não encontro outra explicação. Por quê? Não me venha defendê-lo, Silvia, você mesma leu no jornal. &lt;br /&gt;Heloísa não sabe o que pensar, o que dizer. Sente que algo não se encaixa nessa história toda.&lt;br /&gt;Não fica assim, amiga. É claro que deve haver explicação. Como você pode pensar isso do Geraldo? Meu Deus, Helô, ele precisa de apoio. Claro que o defendo, eu conheço vocês dois, defenderia vocês dois, amiga. Quer que eu vá praí agora?&lt;br /&gt;Sílvia treme diante da possibilidade de que seu caso com Geraldo seja descoberto.&lt;br /&gt;Ainda não sei o que fazer, Sílvia. Mas de uma coisa eu tenho certeza, teremos uma conversa definitiva. Que apoio que nada? Como vou apoiar um homem que tem outra vida? E que acabo descobrindo sobre essa outra vida nos jornais, junto com toda a Brasília? Não, não venha, não estou muito bem hoje. Não te disse isso, mas ontem, durante a festa no Iate, ele fingiu dor de cabeça e me deixou sozinha. Para onde foi? Quem sabe?&lt;br /&gt;As duas mulheres, por motivos contraditórios, atiçam seus sentidos, e, embora unidas, é justamente essa união o que as afasta.&lt;br /&gt;Nessas horas, Helô, a gente inventa coisas, a cabeça da gente cria coisas, sabe? Você precisa tomar um chá, pede a Gorete, amiga. O Geraldo sempre teve enxaqueca, eu sempre o vi se queixar. Não entendo essa sua desconfiança. Puxa vida, então você acha o quê? Que ele foi se encontrar com essa tal de Júlia? Ou que a matou? &lt;br /&gt;Heloísa teme encarar suas desconfianças, mas sente necessidade de assumir que começa a crer nessa terrível possibilidade. O marido eliminou a outra. O que seria pior?&lt;br /&gt;Não é por aí, Sílvia. Ele não tinha dor de cabeça alguma, eu sei, eu conheço o Geraldo em profundidade. Sei de todos os seus sinais. Quando sente dor, quando mente, quando pensa que engana, quando está enganando, eu sei, eu sinto, e tenho certeza que ontem ele estava bem. Usou a desculpa para me deixar sozinha e fazer sabe lá Deus o quê. Ele voltou tarde, cheirando à bebida, tinha trocado de roupa. O que posso pensar, meu Deus?&lt;br /&gt;Silvia percebe que a voz de Heloísa adquire o tom do choro, aquele exato timbre que antecede o soluço e o gemido baixo e dolorido de quem chora. E ela nada pode fazer para aliviar aquela dor que se confunde agora com a sua. Traidora, pensa de si mesma e se tortura. &lt;br /&gt;Acho melhor você parar por aí, Helô. Você já não está raciocinando direito, está começando a dizer bobagens, amiga. Cadê a Gorete? Já trouxe seu chá de jasmim? Olha, vou já praí.&lt;br /&gt;O que dizer para Heloísa? Que andava saindo com o marido dela? Que naquela noite estavam juntos? O que? Sílvia sabia que tudo estava por um fio.&lt;br /&gt;Não, Silvia, não venha. Vou sair, tenho algo a fazer. Não perca sua viagem, obrigada.&lt;br /&gt;Do outro lado da linha, Sílvia não teve tempo de retrucar, ficou ouvindo o sinal do telefone que dizia em diapasão: des-li-gou...des-li-gou...des-li-gou...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8376108229378284108?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8376108229378284108/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8376108229378284108' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8376108229378284108'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8376108229378284108'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/08/ppmj-parte-final-danca-capitulos-1-e-2.html' title='Ppmj - Parte Final - Dança - Capítulos 1 e 2'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-9174141012721517744</id><published>2009-07-23T15:00:00.010-03:00</published><updated>2009-07-23T15:28:12.383-03:00</updated><title type='text'>Intermezzo II - Em nome do pai - uma leitura de "Lavoura arcaica"</title><content type='html'>Deixo aqui, para quem quiser se aventurar, uma leitura muito particular que fiz da obra de Raduan Nassar, &lt;em&gt;Lavoura arcaica&lt;/em&gt;. Trata-se de um pequeno artigo que redigi durante o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade de Brasília. Quero deixar claro que, por absoluta preguiça, nao fiz a revisão do texto para sua adequação às novas normas ortográficas. Sinceramente? Fodam-se essas normas, há revisores para isso, e eu não sou, nem estou revisor, portanto relevem os deslizes. O tema e todo referencial teórico têm sua validade e seu lugar, daí porque gosto muito desse pequeno ensaio. Para os que tiveram o prazer de ler o romance e a adaptação cinematográfica (maravilhosa, quero logo deixar explícita minha paixão pelo filme), que se divirtam com este ensaio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Smiq3mhDAAI/AAAAAAAABL0/LQdUQNmhovg/s1600-h/lavouraarcaica.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 253px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Smiq3mhDAAI/AAAAAAAABL0/LQdUQNmhovg/s400/lavouraarcaica.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5361723228593258498" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;EM NOME DO PAI&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de colher a planta.” (Eclesiastes, 3:1-2). A voz ancestral ecoa ainda em nossos ouvidos, dissemina-se pelos quatro cantos da terra, assegurando-nos que devemos esperar o momento propício. Essa espera, para alguns, como André, o protagonista de Lavoura arcaica, romance de Raduan Nassar, é insuportável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este pequeno ensaio tem como meta mergulhar no tempo mítico do homem, resgatando junto ao texto de Raduan Nassar os elementos que vêm ao encontro de uma perspectiva humanista, vistos sob um filtro histórico que compreende a escalada humana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ao pensar a obra, o suporte material do artefato, como portadora de um conteúdo manifesto, racionalizado pelo autor, e oferecido aos leitores como sua visão peculiar, particular, de eventos que, à sua maneira, sob sua ótica, julgou compor, o crítico menos prevenido corre o risco de lançar seu olhar sobre a ponta de um iceberg, e nesse caso, estaria inconscientemente abrindo mão de mergulhar numa camada de texto mais profunda, e por isso mesmo, mais reveladora da obra. Nesse sentido, considerando a existência de um conteúdo latente sob a aparente capa da narrativa em Lavoura arcaica, conteúdo este que, independente da intenção do autor, está a emitir sua voz muda por entre as palavras, lançarei um olhar atento, analítico, sob certas estruturas ou elementos presentes nos discursos das personagens que julgo representarem, muito mais que a simples questão do incesto e o tabu, o choque entre o Pai (Iohána) , enquanto esfera apolínea da ordem e do cosmos, símbolo da civilização, e o filho (André) , elemento emblemático do homem em sua sede de liberdade e busca do prazer, representante dionisíaco da transcendência, do caos, do devir enquanto tal. &lt;br /&gt;Em Lavoura arcaica, romance de Raduan Nassar, publicado em 1975, o autor compõe, numa narrativa vigorosa e de feição lírica, a tragédia de uma família de camponeses cujo pai comete o assassinato da própria filha sob suspeita de incesto com o filho André. O enredo do romance, em poucas linhas, não fornece ao leitor, de imediato, a força e a beleza com que é tratada a tragédia no texto, pelas mãos hábeis do desertor da literatura . No romance, o que salta aos olhos é o atrito, bem narrado e composto pelo autor, entre uma ordem que, de maneira comedida,  quer se manter no poder e sobreviver, representada pelo pai, e outra via de entendimento do mundo, que é abraçada pelo discurso apaixonado do jovem André. Não é por outro motivo que o velho Iohána diz ao filho: “- Cale-se! Não vem desta fonte a nossa água, não vem destas trevas a nossa luz, não é a tua palavra soberba que vai demolir agora o que levou milênios para se construir; [...]; por isso, dobre a língua, eu já disse, nenhuma sabedoria devassa há de contaminar os modos da família!” (Lavoura arcaica, p.169)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agindo como um psicanalista, de linha freudiana, e nesse sentido considerando o texto como um paciente, e que a verdadeira forma de sua consciência está, não no que nos diz, mas no que tenta esconder, devemos considerar os discursos de André, de seu pai e do irmão Pedro, como o afloramento de algo muito maior que o simples choque de gerações. A figura do pai é símbolo de duplo significado, ao mesmo tempo que podemos interpretá-la como representante da ordem, do valor, do trabalho, da norma, do todo organizado, englobando  tudo o que decorre dessa representação: a repressão, o castigo, o comedimento, a dominação e a posse, e portanto assumindo ares de um símbolo castrador, por outro lado, podemos interpretá-la como a eventualidade do oposto, da possibilidade do novo, da geração, da viável , mas nem sempre possível, transcendência e superação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele (o pai) é uma representação de toda forma de autoridade: chefe, patrão, professor, protetor, deus. O papel paternal é concebido como desencorajador dos esforços de emancipação, exercendo uma influência que priva, limita, esteriliza, mantém na dependência. Ele representa a consciência diante dos impulsos instintivos, dos desejos espontâneos, do inconsciente; é o mundo da autoridade tradicional diante das forças novas de mudança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O Pai, assim como Uróboro – a serpente mitológica que morde o próprio rabo, encerra em si sua própria antítese: é caos e cosmos, apolo e dionísio, norma e anarquia, “contém ao mesmo tempo as idéias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, em conseqüência, de eterno retorno” . Por esse caráter duplo é que, para a superação do reino do pai, faz-se necessário o confronto, a supressão do pai, a instauração de nova ordem que surge no filho. Iohána, em seu discurso de tom bíblico e sábio, não tem consciência de que é matriz de sua própria superação, seu filho André porta o discurso da inexorável nova ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina ( a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu só o meu ponto de vista, (Lavoura arcaica,  p.111)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então tudo não passa do choque entre potências opostas? O Pai na defensiva, paciente, moderado, senhor do discurso e da razão; e do outro lado, o filho, rebelde, ingênuo, ousado e petulante, empunhando a bandeira da paixão irrefreada? Aparentemente sim, mas o que me interessa no embate entre Iohána e André, é situá-los num esquema maior, como representantes da civilização (o homem coletivo) e do indíviduo (o homem por si).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EM NOME DO FILHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SminWdg-oCI/AAAAAAAABLU/G4zgwq7mf7I/s1600-h/lavoura.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 247px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SminWdg-oCI/AAAAAAAABLU/G4zgwq7mf7I/s400/lavoura.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5361719360706486306" /&gt;&lt;/a&gt;  Selton Melo na adaptação cinematográfica do romance "Lavoura arcaica"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo esta parte pela citação direta de Freud: “A palavra ‘civilização’ descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos”     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de uma definição como essa, de aparente simplicidade, e mesmo até de total falta de originalidade, podemos iluminar a via escolhida de interpretação do texto. Presumindo-se que o Pai encarna a civilização, e nesse sentido suas palavras são norma de conduta em comunidade, é de se esperar que encontremos no texto a ratificação dessa hipótese. E certamente encontramos, a cada discurso proferido pelo velho Iohána, ou mesmo quando é citado por seus filhos, principalmente por André, a ocorrência da regra, da lei. A família, encabeçada pelo pai, é o microcosmo da civilização, e é nela que se representa o duelo mítico do homem em face da comunidade. A família, como a civilização no conceito freudiano, dá abrigo, carinho, afeto, consolo: “O amor, a união e o trabalho de todos nós junto ao pai era uma mensagem de pureza austera guardada em nossos santuários, comungada solenemente em cada dia, fazendo o nosso desjejum matinal e o nosso livro crepuscular;” (Lavoura arcaica, p.22);        “- Você sempre teve aqui um teto, uma cama arrumada, roupa limpa e passada, a mesa e o alimento, proteção e muito afeto.” (Lavoura arcaica, p.160)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repousa sobre essa visão de comunidade, que aqui fazemos questão de identificar à esfera da civilização, a idéia de que apenas e tão somente dessa forma, é possível ao homem sobreviver e perpetuar-se. Ainda iluminados pelos estudos de Freud, percebemos que o preço pago pelo homem, para viver em sociedade, é justamente o que tem de mais característico em si: sua liberdade. Civilização, nas palavras do grande pensador, não combina com liberdade: “A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização.[...] O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições.”   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas;  (Lavoura arcaica, p.148)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; É lógico então deduzir que, ao mesmo tempo em que a família se encarrega de proteger, cuidar e velar pelos seus, como forma de manter-se enquanto família, como grupo, deve apresentar também suas regras, suas normas, impor limites e sanções. E essa postura legalista tem seu fundamento na repressão aos instintos básicos do homem, na castração de suas pulsões vitais, do princípio do prazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SminqL-sqwI/AAAAAAAABLc/SUdgfcYdi_k/s1600-h/Raduan.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 313px; height: 400px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SminqL-sqwI/AAAAAAAABLc/SUdgfcYdi_k/s400/Raduan.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5361719699596684034" /&gt;&lt;/a&gt; Raduan Nassar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A civilização só é viável a partir do momento em que consegue, por mecanismos próprios, desviar o indivíduo do princípio natural do prazer para o princípio da realidade, sendo este assentado sobre o trabalho e sobre a abdicação forçada dos instintos sensuais primitivos. Se assim não fosse, o caos, na sua mais literal interpretação, estaria estabelecido, guiando-se o mundo pela sucessão selvagem do poder entre fortes. Marcuse afirma que “se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que se conjugam. O Eros incontrolado é tão funesto quanto a sua réplica fatal, o instinto de morte.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ao optar por viver em sociedade, o ser humano viu-se privado de sua liberdade, caracterizada fundamentalmente, pelo seu direito ao prazer. Civilização então, torna-se sinônimo de repressão à libido. Essa repressão, durante os séculos, foi efetivada por leis, por preconceitos, por procedimentos culturais, e infiltrou-se no inconsciente coletivo. A família de Iohána, prega suas leis, seja através do discurso paterno: “Por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna [...]; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois [...];e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto” (Lavoura arcaica,  p.55)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou através de Pedro, o filho mais velho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e que para manter a casa erguida era preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta, respondendo ao pai quando ele perguntasse, não escondendo nossos olhos ao irmão que necessitasse deles, participando do trabalho da família, trazendo os frutos para casa, ajudando a prover a esa comum, e que dentro da austeridade do nosso modo de vida sempre haveria lugar para muitas alegrias, a começar pelo cumprimento das tarefas que nos fossem atribuídas, pois se condenava a um fardo terrível aquele que se subtraísse às exigências sagradas do dever;   (Lavoura arcaica, p. 23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedro, a quem competiu a missão de resgatar o irmão perdido e trazê-lo ao aconchego da família, é , sem sombra de dúvidas, a perpetuação do discurso conformista e legalista de Iohána. Encarna a cega obediência às leis, ao princípio da ordem e da razão. Por isso mesmo tem seu lugar à mesa, justamente à direita do pai “O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes” (Lavoura arcaica, p.156). A subjugação dos instintos, imposta pelo pai à família, encontra sua eficácia na figura de Pedro que acaba por encarnar o indivíduo escravizado que “introjeta seus senhores e suas ordens no próprio aparelho mental.”  Também não é por outra razão que se chama Pedro, homônimo do apóstolo de Cristo, sobre o qual assentou sua igreja. Pedro, de pedra, rocha, é imutável, é o continuador, a sentinela atenta, completamente integrado aos ditames do pai, da família. Suas ações e palavras saem de uma mesma e atemporal língua: a do pai primordial, ancestral. Tem a incumbência de manter tudo como está, e a família, para tal objetivo, não vacila em emitir suas sanções quando ameaçada: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um banco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonas, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; (Lavoura arcaica,  p.57/58)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O processo de transferência do princípio do prazer para o da realidade dá-se na caminhada humana, das estepes aos salões de chá elegantes. É óbvio que uma ruptura tão profunda, mesmo que lentamente efetivada, deixa marcas visíveis na psiquê humana. Os indivíduos trazem dentro de si, latente e sufocado, o desejo reprimido durante o processo histórico da barbárie à civilização. É de se esperar que eventualmente essas pulsões se manifestem, irrompam surpreendentemente no seio cálido e sereno das melhores famílias. André exercita o direito de afirmar-se e reivindica seu espaço, seu direito ao prazer, pois “o que a civilização domina e reprime – a reclamação do princípio do prazer – continua existindo na própria civilização. O inconsciente retém os objetivos do princípio do prazer.”  Nesse sentido, uma das mais importantes estratégias utilizadas pela civilização para conter e controlar os impulsos individuais foi, sem sombra de dúvidas, a ênfase no trabalho.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, seja eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade.  (FREUD, Mal-estar na civilização, p.99)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa luta surda do homem com sua máxima realização, a vida em sociedade, é de fundamental importância a interferência sempre presente do componente erótico. E erótico aqui não se reduz aos desejos sensuais de Afrodite, mas a algo muito mais amplo que está diretamente ligado ao princípio do prazer. Eros, portanto, tem um papel crucial na manutenção do espírito de liberdade e na erupção de comportamentos de revolta às normas estabelecidas. Apesar de toda a aparente calma com que se revestem os sistemas sociais, a presença incômoda de Eros está latente em todos os indivíduos, dos menores gestos e contravenções, aos grandes movimentos sociais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entretanto, Eros não está morto. Não obstante a tremenda conspiração ideológica adversa, ele sobrevive. A igreja pretende destruí-lo, o mercado manipulá-lo, a moral desqualificá-lo, mas o Homo eroticus aí está livre, indomável, ao menos em poucos exemplares. Não logrando espaço na sociedade oficial, ele assume formas alternativas [...] Em suma, os tipos desprivilegiados, cujo comportamento não se enquadra nos estreitos limites dos dogmas da sociedade burguesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Mas o que importa neste ensaio é verificar a sua ação decisiva no comportamento de André e na consecução da trama narrativa de Lavoura arcaica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fuga do protagonista, provocada pela sua insubmissão e revolta, motivada pelo suposto incesto e pelo desenvolvimento de um sentido sensual amplo que não encontrou espaço sob a rigidez de conduta na família,  e sua volta, arquitetada pelo irmão mais velho, um personagem construído sob o molde paterno, com quem se identifica e mesmo se confunde, tem, obviamente a marca de uma ação erótica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na realidade, a grande ameaça à estabilidade familiar, que aqui estamos considerando emblema da civilização, é a quebra da estrutura de poder assentada na norma e na submissão. Mais que isso, há em Lavoura arcaica, sob o discurso de Iohána, o primado da razão enquanto regra de sobrevivência e controle social. A paixão, via dionisíaca de transcendência e concretização do princípio do prazer, é ameaça, é perigo, deve ser combatida sob pena de extinção. Iohána não está alienado quanto a esse perigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; (Lavoura arcaica,  p.56/57)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debatendo-se contra a perda do filho amado, que o velho pressente estar escapando a seu férreo controle, ele vaticina: “- Você está enfermo, meu filho, uns poucos dias de trabalho ao lado de teus irmãos hão de quebrar o orgulho de tua palavra, te devolvendo depressa a saúde de que você precisa.”  (Lavoura arcaica, p.161)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vemos então o trabalho sendo engenhosamente receitado como antídoto à peçonha das pulsões instintuais inoculadas por Eros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SmiqU2ywr9I/AAAAAAAABLs/PlEbKn6ns10/s1600-h/lavourapai.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 268px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SmiqU2ywr9I/AAAAAAAABLs/PlEbKn6ns10/s400/lavourapai.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5361722631667101650" /&gt;&lt;/a&gt; Iohána, o pai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;APOLO E DIONISO – O EMBATE NAS TREVAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como qualquer sistema, a família de Iohána , inconscientemente, sabe que traz em si a causa de sua própria ruína. A civilização, como prolongamento da família, tem consciência das ameaças que rondam sua sobrevivência, e certamente a questão erótica ocupa lugar de destaque como inimiga do equilíbrio. É de Pedro, ao conversar com o irmão na penumbra de um quarto, que parte o alerta: “mas que era preciso refrear os maus impulsos, moderar prudentemente os bons, não perder de vista o equilíbrio, cultivando o autodomínio, precavendo-se contra o egoísmo e as paixões perigosas que o acompanham,” (Lavoura arcaica, p.24)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É sintomático que o encontro entre os irmãos dê-se na escuridão. A luz é elemento apolíneo, portanto está diretamente ligada à ordem das coisas, ao equilíbrio, ao comedimento. André simboliza o indivíduo em busca de sua ordem própria, portanto não poderia estar sob a luz do mesmo mundo que seu irmão. Das trevas fez-se a luz e é a luz própria que André busca, e ele só poderá encontrá-la a partir da escuridão, que abraça o caos e engendra o novo cosmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André está engajado numa cosmogonia individual e ao encontrar o irmão, representante daquilo que ele combate e quer transcender, sacia-se com o vinho, símbolo do conhecimento e da iniciação, devido à embriaguez que provoca. Está associado ao sangue, à vida, à alegria, elemento dionisíaco de pura transcendência . Dioniso é o deus grego do teatro, do vinho. Encarna a possibilidade  humana de tocar o divino, de transcender a esfera terrestre, de superar a ordem apolínea e, a partir do caos inebriante, alcançar o sagrado, e por esse motivo é elemento desagregador, subversivo. Através do vinho, cujo efeito inebriante tem a propriedade de desvelar o inconsciente, rompendo as barreiras do ego, André se expõe ao irmão. É óbvio o descompasso entre os discursos de ambos, mesmo porque falam a partir de dimensões distintas, praticamente opostas. Enquanto representante da velha ordem, Pedro cumpre seu papel de convencer o irmão a assumir o erro e retornar ao sistema familiar. André tenta arrastá-lo em sua desesperada luta pela liberdade e pelo direito de ser. Na tentativa de cooptá-lo e julgando harmonizar seus discursos, oferece-lhe vinho para que celebrem Dioniso: “Pedro, Pedro, é do teu silêncio que eu preciso agora,[...] por isso molhe os lábios, molhe a boca, molhe teus dentes cariados, e a sonda que desce para o estômago, encha essa bolsa de couro apertada pelo teu cinto, deixe que o vinho vaze pelos teus poros, só assim é que se cultua o obsceno” (Lavoura arcaica, p.69)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há nesta passagem a representação típica do ritual dionisíaco enquanto via de acesso à outra dimensão humana. André sente que seu caminho está muito além do que o irmão tenta lhe oferecer. Pedro, por sua vez, pressente a ameaça que representa a atitude revoltosa do irmão, e estrategicamente aceita partilhar com ele o vinho. Vemos aqui a metáfora dos ardis da civilização, como o de qualquer sistema, que tenta sobreviver. Na realidade qualquer regime social, político ou econômico tem consciência de que é preciso haver certas concessões aos componentes antagônicos para que a estrutura inteira permaneça incólume, sob pena de explodir completamente. A civilização permite certos “excessos” não porque seja boazinha, mas porque sabe como controlá-los e mantê-los em seus limites e, mais que isso, tem a total consciência de que esses pequenos “excessos” lhe conferem uma falsa aparência de condescendência e democracia. Nada mais hipócrita, nada mais engenhoso. Por esse caminho é que Pedro acompanha o irmão na bebedeira daquele momento sagrado: “ ‘ah, meu irmão, começamos a nos entender, pois já vejo tua boca descongestionada, e nos teus olhos a doce ação do vinho fazendo correr o leite azul que espirra agora das pupilas,” (Lavoura arcaica, p.70)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas esse “leite azul” que mancha as pupilas de Pedro, não é o mesmo leite azul que inebria a alma apaixonada de André. De forma alguma falam a mesma língua, têm as mesmas visões, compartilham os mesmos anseios. Na realidade estão na postura de dois combatentes lutando acirradamente por espaço e por poder. André já tem consciência de seu caminho inexorável para a liberdade. Apesar de portar a cicatriz dolorida da velha ordem imposta pelo pai, já se sente o portador do caos e o desagregador da estrutura familiar. Neste momento, sabe que não há outra via, conseguiu desvelar a podridão de uma estrutura que não lhe cabe. André desceu ao inferno e de lá pôde ver com clareza o obstáculo que pretende ultrapassar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tudo, Pedro, tudo em nossa casa é morbidamente impregnado da palavra do pai; era ele, Pedro, era o pai que dizia sempre é preciso começar pela verdade e terminar do mesmo modo, era ele sempre dizendo coisas assim, eram pesados aqueles sermões de família, mas era assim que ele os começava sempre, era essa a sua palavra angular, era essa a pedra em que tropeçávamos quando crianças, essa a pedra que nos esfolava a cada instante, vinham daí as nossas surras e as nossas marcas no corpo, veja, Pedro, veja nos meus braços  (Lavoura arcaica, p.43)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua repulsa aos sermões paternos, enquanto instauradores da ordem familiar, é fruto de vasta observação e convivência. Tenta compartilhar sua visão com o irmão que julga estar compreendendo seu discurso fantástico. Há ingenuidade nessa postura de André, mas não se poderia esperar maturidade num processo de eterno crescimento. Mesmo assim, esse pequeno processo de cegueira, tem seu desfecho na coerência do irmão que, como representante do cosmo organizado, sabe a hora de reagir, pressente o perigo, e atento ao limite recusa o vinho que lhe é oferecido, num sinal evidente de que não compartilham o mesmo ritual: “ mas assim que esbocei entornar mais vinho foi a mão de meu pai que eu vi levantar-se no seu gesto ‘eu não bebo mais’ ele disse grave, resoluto, estranhamente mudado, ‘e nem você deve beber mais, não vem deste vinho a sabedoria das lições do pai’ ele disse com um súbito traço de cólera no cenho”  (Lavoura arcaica, p. 40)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cólera de Pedro tem sua razão de ser, é o momento de reagir, não se deixar levar pelas idéias subversivas do irmão embriagado, de não se deixar contaminar pela paixão desregrada, por não cometer nada que signifique apoio ao demolidor discurso que provém de seu sangue rebelado. André agora é uma ameaça, um tumor a ser tratado, um elemento desestabilizador da família. André é o homem assumindo-se indivíduo, enfrentando a repressão natural do sistema e ele tem consciência de sua postura, sabe muito bem que sua posição engendra um caminho sem retorno, e que sua figura agora é a do disseminador do caos. André neste instante é o anjo caído numa luta titânica. Ele, como uma espécie de Prometeu,  porta o fogo da paixão e há de enfrentar a fúria do pai. Mas é em nome do pai que ele um dia será, em função desse destino que todo ser humano tem de cumprir, assumir seu próprio risco, tomar sua própria direção, que André, sem autopiedade, orgulhoso, assume a figura do enjeitado. Todo sistema organizado em sociedade rejeita aqueles que, de alguma maneira não se enquadram em suas normas. São os marginais da arte, os perniciosos, os devassos; para essas pessoas o espaço que lhes é concedido pela civilização é o ostracismo, ou quando muito, o lugar de figuras excêntricas. Nesse momento, não resta a André outra alternativa a não ser assumir sua posição:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem-sossego, dos intranqüilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim (quem não ouve a ancestralidade cavernosa dos meus gemidos?), dos que trazem um sinal na testa, essa longínqua cicatriz de cinza dos marcados pela santa inveja, dos sedentos de igualdade e de justiça, dos que cedo ou tarde acabam se ajoelhando no altar escuso do Maligno        (Lavoura arcaica, p.139)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; O choque inevitável entre Pedro (pai, família, civilização , ordem, Apolo, razão) e André, (homem, prazer, caos, Dioniso, paixão) é ponto crucial do texto, uma vez que Pedro está em pé de igualdade com o irmão, mas ocupando o galho “saudável” da árvore da família . Inebriados, discutem sua amargas diferenças e de André parte a cisão: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;você pode como irmão mais velho lamentar num grito de desespero ‘é triste que ele tenha o nosso sangue’ grite, grite sempre ‘uma peste maldita tomou conta dele’ e grite ainda ‘que desgraça se abateu sobre a nossa casa’ e pergunte em furor mas como quem puxa um terço ‘o que faz dele um diferente? ‘ e você ouvirá, comprimido assim num canto, o coro sombrio e rouco que essa massa amorfa te fará ‘traz o demônio no corpo’ e vá em frente e vá dizendo ‘ele tem os olhos tenebrosos’ e você há de ouvir ‘traz o demônio no corpo’ e continue engrolando as pedras desse bueiro e diga num assombro de susto e pavor ‘que crime hediondo ele cometeu!’ (Lavoura arcaica,  p.42)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porque justamente o demônio invadiu sua alma? Porque acaba “se ajoelhando no altar escuso do Maligno” ? Lúcifer, Satanás, o anjo torto que ousou enfrentar o poder divino? Sim, é justamente essa faceta demoníaca que aflora nesta passagem. André tem o demônio no corpo e por isso ousa desafiar o pai, a família, o tempo, a estabilidade de um sistema que se mantém sob o gemido rouco dos submissos . Ele, o senhor das trevas e do caos é neste momento o senhor de André. A figura rebelde de Lúcifer comporta inúmeras interpretações mas o caráter de revolta e insurreição nesse mito bíblico é evidente. E a narrativa de Raduan Nassar em Lavoura arcaica é carregada desse sabor evangélico. Os discursos se sucedem, seja do pai, de Pedro ou de André, repletos de referências e tons bíblicos, realçando o caráter arcaico e mítico da obra, oscilando entre o sagrado e o profano; em certas passagens compondo maravilhosas parábolas. A narrativa em Lavoura arcaica é atemporal, as personagens são muito mais do que pretende seu autor. O conteúdo latente em cada sermão, cada discurso, nos permite visualizar o próprio movimento humano pela história, na sua luta árdua pela liberdade e pelo crescimento, apesar de toda a repressão, de todas as leis, de todas as normas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CONCLUSÃO - EM NOME DO NOVO PAI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André aos poucos percebe que sua batalha o encaminha ao ponto de partida. É necessário suprimir o pai e tudo o que ele representa, mas ele sabe que essa supressão implica que ele assuma o espaço que há de lhe surgir. É evidente que não há espaço para duas visões díspares, o que os une é apenas a vontade de impor suas normas e regras; o que os distingue são suas normas e regras. André quer o seu lugar na mesa da família e é isso que diz ao pai com todo o vigor e clareza. Nesse ponto, André tornar-se-á de certa forma o novo pai, por isso ele diz que “não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’ “ (Lavoura arcaica,  p.36)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse processo de natural de superação da figura paterna André, ao contrário de Pedro que é cópia fiel de Iohána e com ele partilha todos os preceitos, é, de certa maneira, a imagem do pai refletida num espelho turvo. Por seus pontos de contato se assemelham, são duas potências em conflito, de igual poder, de pólos contrários. Vem daí a incapacidade de comunicarem-se, de entenderem-se, é a linha prestes a se romper definitivamente: “- Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra.” (Lavoura arcaica, p.162)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Smin_PbrlWI/AAAAAAAABLk/H4QB1oMrm3s/s1600-h/Lavoura-Arcaica-3.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 259px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Smin_PbrlWI/AAAAAAAABLk/H4QB1oMrm3s/s400/Lavoura-Arcaica-3.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5361720061300807010" /&gt;&lt;/a&gt; Cena do filme "Lavoura arcaica"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lavoura arcaica surpreende pelo estilo do narrador, por passagens que beiram a mais pura poesia; intencionalmente composto como uma quase trágica parábola, digo quase porque ao assassinato de Ana faltam a consciência do destino trágico e a assunção da fatalidade. Ana age como motivo para o desabrochar das paixões em André. É através dela que se revelam à personagem os meandros das relações familiares. É ela o portal pelo qual o protagonista, cruzando-o, assume sua perdição e redenção. As personagens em Lavoura arcaica são emblemas do homem e da civilização, e por esse motivo os conflitos são inevitáveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André ousa colocar o carro na frente dos bois, não lhe resta outra alternativa se pretende sobreviver enquanto homem, indivíduo. Sobre todos eles, notadamente sobre o pai, Pedro e André, o tempo mítico a cobrir suas paixões:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo de chorar,&lt;br /&gt;E tempo de rir;&lt;br /&gt;Tempo de gemer,&lt;br /&gt;E tempo de dançar.&lt;br /&gt;Tempo de atirar pedras,&lt;br /&gt;E tempo de ajuntá-las;&lt;br /&gt;Tempo de abraçar,&lt;br /&gt;E tempo de separar. (Eclesiastes, 3:4-5)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Eclesiastes, como em milhares de outros textos, populares ou eruditos, esse eterno conflito humano é retratado. Resta-nos a arte como consolo diante do inexorável: somos nada. Mas é justamente no reconhecimento de nossa pequenez, nossa insignificância perante a natureza e ao tempo, que reside nossa maior arma: a arte . É ela que nos brinda com o texto fantástico de Raduan Nassar, que nos faz compreender a beleza e o horror das coisas que construímos, e nos faz caminhar eretos e orgulhosos à beira do abismo misterioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;André somos todos nós em algum momento de nossas vidas, Iohána também somos todos nós. Em algum momento de nossa caminhada acreditamos ser possível mudar o mundo, quebrar as normas, erguer barricadas, salvar o planeta. Com certeza lembramos com carinho esses momentos em que, como o jovem André, afundávamos os pés na terra, entre as folhas caídas, e dela nos apossávamos, senhores do mundo e de nossos próprios narizes. E é bem provável que naquele momento mágico não havia espaço para nossos pais. Com toda certeza, naquele instante raro que deixamos guardado em alguma gaveta empoeirada da memória, éramos, e isso nos bastava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta popular nos diz: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.”  E um outro André, em algum lugar ou tempo indefinidos, poderá também dizer ressabiado: “o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra era ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinhos graves marcando as horas.”  (Lavoura arcaica, p.49) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTAS&lt;br /&gt;1 Leyla Perrone-Moisés no ensaio Da cólera ao silêncio publicado nos Cadernos de Literatura Brasileira, diz: “No progresso da rejeição ao mundo e às palavras que pretendem dizê-lo ou melhorá-lo, rejeição que atinge seu ápice em Um copo de cólera , prefigura-se a atitude posterior de Raduan Nassar: ‘abandonar a literatura’ e declarar com sarcasmo que a única criação a que se dedicaria doravante seria a de galinhas.” (Cadernos de literatura Brasileira, número 2, 1996, p.74)&lt;br /&gt;2 Chevalier e Gheerbrant, Dicionário dos símbolos, p.678&lt;br /&gt;3 ibid. p.922&lt;br /&gt;4 FREUD, Sigmund, Mal-estar na civilização, in Obras Completas, Vol.XXI, p.109.&lt;br /&gt;5 FREUD, Sigmund, op.cit., p.116&lt;br /&gt;6 MARCUSE, Herbert, Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, 8a. ed., p.33&lt;br /&gt;7 ibid., p.37&lt;br /&gt;8 MARCUSE, Herbert, op.cit., p.37&lt;br /&gt;9 NUNES FILHO, Nabor, Eroticamente Humano, 1994, p. 33&lt;br /&gt;10Segundo CHEVALIER e GHEERBRANT, “o homem recorre à embriaguez física como meio de acesso à espiritual, libertando-se do condicionamento do mundo exterior, da vida controlada pela consciência.” (Dicionário de Símbolos, p. 364)&lt;br /&gt;11 “Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na hora dos sermões: o pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda, vinha a mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes;” (Lavoura arcaica, p.156)&lt;br /&gt;12 “O demônio simboliza uma iluminação superior às normas habituais, permitindo ver mais longe e com mais segurança, de modo irredutível aos argumentos. Autoriza,mesmo, a violar as regras da razão em nome de uma luz transcendente, que é não só da ordem do conhecimento, mas também da ordem do destino.” (CHEVALIER e GHEERBRANT, Dicionário de símbolos, p.329)&lt;br /&gt;13 “a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias culturais, e, por esse motivo, ela serve como nenhuma outra coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização.” (FREUD, O Futuro de uma ilusão, in Obras completas, p.25)&lt;br /&gt;14 Versos do compositor popular Belchior, “Como nossos pais”, cantada por Elis Regina em belíssimo arranjo no álbum “Falso brilhante”, de 1976&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-9174141012721517744?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/9174141012721517744/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=9174141012721517744' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/9174141012721517744'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/9174141012721517744'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/intermezzo-ii-em-nome-do-pai-uma.html' title='Intermezzo II - Em nome do pai - uma leitura de &quot;Lavoura arcaica&quot;'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Smiq3mhDAAI/AAAAAAAABL0/LQdUQNmhovg/s72-c/lavouraarcaica.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-4400656705449927131</id><published>2009-07-17T17:59:00.002-03:00</published><updated>2009-07-17T18:00:41.829-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte II - Relaxamento - Final - Cap. 6</title><content type='html'>&lt;strong&gt;6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhorou? perguntou de uma maneira tal que deixava claro o desejo de que o mal não houvesse passado e que ele estivesse se decompondo em dores horríveis. Ao entrar no carro, notou que ele havia trocado de roupa e cheirava à bebida. Para quem estava com enxaqueca, até que você está muito bem, disparou. Ele fingiu não notar a ironia, desculpou-se pelo atraso, disse que estava melhor, que tinha estado em casa, bebido uma dose para relaxar. Heloísa não estava satisfeita. Era óbvio que tinha estado com outra mulher. Porque trocou de roupa? quis saber, e ele respondeu querer algo mais confortável, razão pela qual estava naqueles trajes. Ela fuzilou-o com o par de olhos negros, duas granadas caseiras de pregos e cacos de vidro explodindo em sua pele. Heloísa estava um demônio, e ele podia sentir que ela o devassava com artifícios cruéis e insinuações venenosas. As mulheres têm esse poder mágico de fustigar seus homens, e elas sabem muito bem como usar esses talentos sádicos. São todas Medéias em potencial, Fedras costumeiras, Antígonas quando provocadas, Marias Bonitas armadas e cheirosas, Cleópatras peçonhentas e sedutoras, Salomés triviais, Eríneas adormecidas que às vezes, por infortúnio e maldição, acordamos. Mulheres têm esse dom de dissecar uma alma masculina, numa espécie de autópsia do espírito, e era justamente essa tarefa que Heloísa estava a desempenhar agora. Dissecava-o, olhar por olhar, gesto por gesto, cheiro por cheiro.&lt;br /&gt;Ele, imune a tudo, pensava em Sílvia, nas coxas de Sílvia, na boca e no cu de  Sílvia, e questionava se João Carlos seria tão devastador quanto Heloísa em seu ciúme. Acreditava que não, o amigo era passivo ao extremo, confiava na esposa, aquela devassa, e sorriu com a pélvis e com o prazer de ter saboreado cada pedaço daquela vagabunda, do dedão ao lóbulo esquerdo, por dentro e por fora, por cima e por baixo. O modo como, ao contato de sua língua, dedo ou falo, ela se inunda e se entrega. O lábio inferior mordido, a mancha sangüínea da sucção no pescoço, entre as coxas, naquela parte tenra e perfumada que emoldura a fruta úmida. O jeito de poderosa amazona quando ela, engatada em seu falo rígido, vibra e gira os cabelos e o tronco, ampliando nesse movimento a região de atrito, a glande, a caverna ardendo, o dragão liberto. E João Carlos, ela lhe dissera, ficara dormindo, descansando para a viagem ao Rio no dia seguinte e não aceitou o convite que ela lhe fizera para que fossem ao vernissage de Zello Visconti. &lt;br /&gt;Incauto, dócil, manso, meu corno amigo João Carlos, não sabe ele que o que mais atraía aquela mulher, em termos de artes plásticas, era um bom pincel, grande e grosso de preferência, como aquele que lhe pertence e com o qual, com prazer, costuma ela se engasgar. O mesmo pincel que, sobre o corpo de Silvia, ele costuma usar para compor suas obras-primas. Piranha maravilhosa, mulher-tela onde ele cria sua La Grenouillère, seu Boulevard des Capucines. Ah, Silvia, teu sobrenome poderia ser Canvas, Silvia Canvas, onde eu pincelaria meu sêmen.&lt;br /&gt;Quando João Carlos lhes disse, a ele e a Heloísa, durante um jantar há mais de quinze anos, que havia conhecido uma mulher fantástica e, com os olhos brilhando e língua engrolada pelo vinho, repetiu “É a mulher da minha vida, gente”, decerto não pensou que ela se tornaria essa vagabunda adúltera. &lt;br /&gt;João Carlos e Geraldo conheceram-se no curso de engenharia da Universidade de Brasília, onde fizeram apenas algumas matérias juntos, pois João, diante da necessidade de trabalhar para manter-se, teve que trancar o curso diurno para estudar à noite numa faculdade privada, num esforço tremendo de paciência e limite físico. Naquela época, anos de chumbo, de porrada e militares nas ruas, costumavam beber e farrear com algumas garotas da Asa Norte, muito embora João Carlos sempre fosse esquisitão, caladão, e estivesse sempre na dele, num silêncio ensaiado e bem desempenhado. Costumava chamá-lo de mineirinho, numa alusão ao mito do come-quieto. Gostavam de aprontar algumas boas farras no Posto 7, onde Geraldo era tão assíduo que tinha conta para comer bocetas. Pendura aí mais uma boceta em minha conta, Genaide, dizia ele à gerente do estabelecimento depois de alguma noitada improvisada, depois te pago. Essas farras lhe renderam muito prazer e doses fartas de antibióticos. Vem dessa época a sua amizade com o ex-presidente. Divertiram-se muito juntos, aprontaram grandes confusões e distribuíram muitas porradas em garotos da cidade. Praticavam artes marciais, esporte pelo qual João Carlos, em sua natureza pacífica, tinha horror. &lt;br /&gt;Geraldinho era um rosto conhecido na cidade, figurinha carimbada dos poucos eventos que ocorriam na capital naquela época, filho de um grande agiota que, após anos de especulação e grilagem, acabou por fundar uma instituição financeira de crédito e poupança, de cunho popular. Seu pai tinha grandes amigos no congresso, deputados, senadores. Sua teia de relações estratégicas era enorme, incluía pessoal do segundo escalão no Banco Central e alguns contatos no Tribunal de Contas.  No final da década de setenta, a  empresa faliu escandalosamente levando à ruína uma legião de pequenos poupadores, em sua maioria funcionários públicos de insignificantes cargos e salários, e queimando, de uma hora para outra, as economias de milhares de assalariados e aposentados. Tudo limpo, asséptico, sem culpados. O dedo certeiro de um amigo na fiscalização do Banco Central, o toque discreto de um senador querido, um telefonema de um desembargador muito chegado, e tudo se resolveu sem pena, sem réus, apenas as vítimas chorando suas perdas.  Dizem que houve suicídios, não duvido.&lt;br /&gt;João Carlos, por sua vez, era um garoto sem grana, um desses durangos que começam a trabalhar ainda cedo para ajudar a família e custear os estudos, levando marmita de alumínio para o escritório, comendo às pressas o feijão frio e a batata frita murcha, emendando a jornada de trabalho com um curso noturno, sem férias. Inteligente e esforçado, sim. Uma combinação explosiva, inteligência e persistência. Essas características, quando juntas num mesmo homem, são capazes de explodir Hiroshima e alcançar a lua. Mas para João Carlos, que era o mais velho de uma família enorme, pais férteis como ratos, um bom emprego já era uma explosão atômica, quiçá, um grande salto para a humanidade. Esse menino vai longe, costumava dizer dele o pai de Geraldo que incentivava a amizade dos dois. Era evidente a simpatia demonstrada pelo velho à figura tímida de João Carlos, quando este os visitava. Naquela época, moravam no Lago Norte e era comum, após agitadas noites de embalos, que João Carlos passasse os fins de semana com o amigo. Construir a fama de homem calado e discreto, era-lhe útil, pois o dispensava da obrigação de falar de seus familiares. Pouco se sabia a respeito da mãe hipertensa, do pai eletricista e da penca de irmãos desempregados.  Quando perguntado sobre como estavam seus pais, mal conseguia disfarçar o mal estar evidente e contentava-se em dizer que estavam bem, como sempre. Isso era suficiente para que se mudasse de assunto. &lt;br /&gt;Heloísa, recém chegada do sul, veio completar o trio em programas mais leves. Ela e Geraldo engataram um namoro ainda na faculdade. Tudo indicava que ela se tornaria apenas mais uma vagina na longa lista de conquistas de Geraldo. Ledo engano. João Carlos acompanhou ressabiado o recrudescimento daquele namorico. Notava que Geraldo estava mudando e, tinha que reconhecer, mudando para melhor. Logo, conformou-se em perdê-lo para Heloísa e, como se não bastasse, começou a gostar sinceramente daquela moça meiga, muito atenciosa, culta e de voz mansa. Identificava-se com o seu falar pausado e equilibrado, o tom de voz de quem acalenta, nunca demonstrando arroubos emocionais, destemperos. Conversavam muito sobre tudo e, nessas horas, ele admirava nela a maneira sutil de ver a vida. Quando Geraldo e Heloísa viajaram para os Estados Unidos com a intenção de fazer o doutorado, João Carlos, duplamente viúvo, permaneceu em Brasília, pois, além de não ter cacife para bancar os custos de tal empreitada, havia passado em concurso público do Banco do Brasil. Nesse período, já formado em Administração de Empresas pela AEUDF, mergulhou completamente na carreira profissional, ascendendo rapidamente no quadro funcional do banco. &lt;br /&gt;Nos anos oitenta, a pequena empresa dos Prado tornou-se uma das maiores da cidade. Espalhados por várias quadras do Plano Piloto, os canteiros de obras com o logotipo da Construtora Prado eram tão comuns quanto as tesourinhas dos eixinhos norte e sul. O que ninguém nunca pôde provar é que negócios escusos, concorrências fraudulentas, contratos sem licitação e muito dinheiro, vindo não se sabe de onde, fizeram da empresa um “exemplo do caráter empreendedor dos Prado”, como frisou em sua coluna  do Correio um popular colunista social da “corte”, como  gostava de chamar a cidade. Geraldo, doutorado em Nova York, era agora o jovem e talentoso executivo e seu amigo João Carlos, ex-gerente de agência do Banco do Brasil, o seu braço direito na Construtora. &lt;br /&gt;É nessa época que surge, para conquistar o coração de um homem 15 anos mais velho, a figura rutilante de Sílvia, uma jovem de 23 anos. Aquela peste nunca me enganou, pensava Geraldo, e eu sempre soube que acabaria traçando aquela galinhazinha. E Heloísa ali, puxando-o de volta à realidade, vomitava seu ódio sobre o marido, que viajava no corpo de outra mulher.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-4400656705449927131?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/4400656705449927131/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=4400656705449927131' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4400656705449927131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/4400656705449927131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/ppmj-parte-ii-relaxamento-final-cap-6.html' title='Ppmj - Parte II - Relaxamento - Final - Cap. 6'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-2999739606861088171</id><published>2009-07-17T17:57:00.001-03:00</published><updated>2009-07-17T17:58:52.331-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte II - Relaxamento - Cap. 5</title><content type='html'>&lt;strong&gt;5&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Laura tem bochechas vermelhas e cabelos lisos e loiros. Lábios finos, como os da mãe, sugam o dedo polegar. Sonha com um gramado verde, princesas e cachorrinhos brancos. Ou nem sonha, sabe-se lá o que se passa naquele cerebrozinho de azeitona. Os olhinhos vibram acelerados sob as pálpebras e a expressão é de puro prazer, como se brincasse com um amigo invisível, ou voasse, ou simplesmente saboreasse um belíssimo doce.  Dorme profundamente e nem imagina o quadro de terror no quarto ao lado, onde sua mãe não sonha mais, não tem planos nem reclamação a fazer, não vai freqüentar as grandes festas do Park Way, nem mais levá-la à creche. Entre uma piscadela e outras, Laura não pressente que sua mãe esfria lentamente, e nesse esfriar inexorável é envolvida numa rigidez de estátua. Nunca mais vai brincar de casinha, nem chupar mexerica ou pentear seus cabelinhos lisos e loiros, tampouco vai trabalhar no Ministério da Saúde obedecendo as ordens do senhor Otávio, sujeito amarrotado e malcheiroso que, sem sucesso, tentou diversas vezes comê-la depois do expediente. No quarto ao lado, longe dos gramados verdes, dos cachorrinhos brancos e das asas de altos vôos, Júlia não ouve o canto desvairado dos fiéis da Igreja que tiram o sono da vizinhança. Júlia não tem sono, ela é o próprio e definitivo sono, sono absoluto, irreversível, sem sonho. Júlia é agora uma massa disforme de sangue coagulado, cabelos e miolos. Sugando o polegar, Laura não percebe que alguém fecha a porta do apartamento e, antes de sair sorrateiro, limpa cuidadosamente a maçaneta. Laura diz palavras incompreensíveis, resmunga no dialeto próprio de quem sonha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-2999739606861088171?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/2999739606861088171/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=2999739606861088171' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2999739606861088171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2999739606861088171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/ppmj-parte-ii-relaxamento-cap-5.html' title='Ppmj - Parte II - Relaxamento - Cap. 5'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6874807862107553151</id><published>2009-07-10T15:40:00.003-03:00</published><updated>2009-07-10T15:47:24.153-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte II - Relaxamento - Caps. 2, 3 e 4</title><content type='html'>&lt;strong&gt;2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Você viu quem ela estava esperando&lt;/em&gt;? Diz um dos garçons, referindo-se à morena solitária que há mais de meia hora, sozinha, impaciente e perfumada, aguardava por alguém. &lt;em&gt;É o Geraldo Prado, o empreiteiro. Tenho certeza que é ele. Viu? Nada como ter dinheiro não é mesmo? Olha só que gata o cara foi arrumar, rapaz. Do jeito que estão se beijando dá vontade de perguntar se vai comer aqui, ou manda embrulhar. Eu é que não sou maluco de me meter com gente da grana. Olha lá, aquilo tem cara de chifre, tem não? Essa dona deve ser casada, quer apostar? O corno nem sonha o que ela tá aprontando. É , talvez você esteja certo mesmo e o manso deve de estar sabendo o que a mulher faz, tem homem que até gosta disso sabia? Tem cabra safado que contrata macho para comer a mulher dele e ele fica só de butucão, com os bugalhos bem arreganhados, olhando e tocando uma bronha. Eu? Tu tá louco, seu porra? Sou macho, da Paraíba, essas modernidade não colam comigo não, visse?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;3&lt;/strong&gt;&lt;em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã volta tudo ao normal: creche, trabalho; trabalho, creche. Ô vidinha monótona essa minha. Preciso pedir mais algum dinheiro ao Geraldo, as despesas que tive com o médico da  Laura me deixaram lisa. Porra, também não sei por que fui parar com meus programas, além de me renderem uma grana boa ainda me animavam um bocado. Boca livre, puxa, há quanto tempo não vou para uma boa festa daquelas do Setor de Mansões do Parkway, carrões, políticos, empresários, muito camarão e caviar, e muita foda mesmo. Sinto falta disso, das Termas, mas com a Laura tudo fica difícil. Com quem deixaria ela? Pai e mãe não querem ficar com ela. Ô sina essa minha, meu Deus. Se não fosse isso já tinha ligado para Madame Lima, ela me arrumava cliente na hora, sei que ela gosta do meu serviço, mesmo ela ainda estando chateada por causa da gravidez e do Geraldo. Ela bem queria que eu abortasse, mas isso eu não faria nunca. Mas se eu resolver voltar, eu garanto que ela logo arranja uns encontros para mim. E esse povo cantando aleluia lá embaixo, não suporto isso. Isso é coisa do pastor Valter, ele canta alto que é pra eu ouvir daqui de cima. Esses merdas. Ainda vão controlar o país, esses evangélicos de merda, e aí sim é que o bicho vai pegar. Não quero nem pensar nisso, se o barulho que eles fazem agora já é irritante, imagina esse povo com o poder nas mãos? Quem será que está batendo?&lt;/em&gt; E Júlia abriu um sorriso para o assassino, que entrou e fechou a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;4&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O automóvel cruza o lago Paranoá sobre a ponte JK, lentamente, no ritmo de um domingo à noite, em harmonia com os arcos que envolvem seu trajeto. Seguindo sua ondulação sensual, lasciva, o veículo sobe a primeira metade do delicado e sinuoso arco de concreto, num pulsar tênue de ereção cinemática, constante. Em sua direção, o investigador Michel observa as luzes da cidade e lembra o comentário de uma antiga namorada. Anos 70, estavam na chácara de amigos no final do Lago Sul, e de longe viam as luzes de Brasília. Já anestesiados e inspirados pelo álcool, ela lhe disse que nunca tinha visto luzes mais parecidas com as de Manhatan do que as luzes de Brasília, da região central de Brasília, o Setor Comercial, o Hoteleiro, o de Diversões, a esplanada, tudo isso junto, à noite, de longe. Disse, com graça, que &lt;em&gt;ver Brasília daqui me traz a impressão de estar em Nova York&lt;/em&gt;. &lt;br /&gt;Ele lembra que, naquela noite, sorriu e, envergonhado, disse que nunca tinha estado fora do país. Não podia dizer que, mesmo hoje, fosse um sujeito viajado. Tinha passaporte, porém intacto, virgem. Sua grande viagem internacional aconteceu em 1987, quando, numa excursão de sacoleiros, paga com três cheques, foi ao Paraguai. Era o auge das bebidas adulteradas, joguinhos eletrônicos, perfumes falsificados, muambas e badulaques de todas as Taiwans que infestavam a cidade. Em cada esquina, uma banquinha com relógios que não funcionam, lapiseiras que se engasgam, canetas coloridas de todas as formas, relógios enormes para a parede da cozinha, enfim, um mundo de quinquilharias baratas importadas do Paraguai. Alguns colegas da delegacia tinham arriscado a viagem para comprar armas e munição, tudo muito discreto, pois tal aquisição lhes poderia render prisão e perda do emprego. Animado com o sucesso dos colegas, cheio de coragem, comprou passagem num ônibus de sacoleiros e voltou de lá com sua reluzente pistola, a que portava até hoje. Agora, cruzando sozinho a arrojada ponte, sob seus arcos imponentes, ele tem, pela lembrança dos olhos de alguém que há tempos não vê e nem pressente, a impressão de estar se aproximando dessa Manhatan dos 90, sem John Lennon, Andy Warhol ou torres gêmeas. Sem Basquiat ou Joe Ramone. Mas ele também é outro homem e porta outras cidades, é outro Michel, sem pai nem mãe, sem rumo na vida, sem amor. No rádio do carro, Zeca Baleiro canta uma canção com Zé Ramalho e ele ri do resultado estético bacana. Está cansado, passou todo o domingo bebendo numa chácara de amigos, pretende chegar em casa, beber mais algumas latas de cerveja e dormir. Se estiver disposto, vai acordar cedo e malhar. Se.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6874807862107553151?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6874807862107553151/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6874807862107553151' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6874807862107553151'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6874807862107553151'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/ppmj-parte-ii-relaxamento-caps-2-3-e-4.html' title='Ppmj - Parte II - Relaxamento - Caps. 2, 3 e 4'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-7846545349122199963</id><published>2009-07-09T10:25:00.002-03:00</published><updated>2009-07-09T10:30:12.763-03:00</updated><title type='text'>PreteXtos para matar júlias -  Parte II - Relaxamento - Cap.1</title><content type='html'>&lt;em&gt;1&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A orquestra Tabajara executa os primeiros acordes de “Anos dourados”, de Tom Jobim e Chico Buarque, dando início à grande festa de encerramento do II Encontro de Escritores e Editores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). &lt;br /&gt;Durante uma semana, no Auditório Dois Candangos da Universidade de Brasília, revezaram-se, sob as luzes da ribalta acadêmica, escritores, representantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, além, é claro, do Brasil, professores, alunos e convidados de todas as áreas da cultura. O evento, que contou com o apoio do Ministério da Educação e Cultura, tem seu gran finale nesta seca e fria noite de domingo. Acabou de discursar o Ministro da Educação, seguido pelo presidente da Academia Brasileira de Letras. Nos discursos a mesma tonalidade solene. Texto rebuscado, pedante, aborrecido, de uma corressão e erudissão de dar nos nervos. Oratória torturante. Um saco. &lt;br /&gt;Num curto passeio pelo salão, que está completamente tomado por lusófonos bem vestidos e empolados, é possível perceber o cheiro forte de sapato novo e perfume francês, tudo muito natural, de uma simplicidade estudada que chega-se mesmo a crer que todos ali são fantásticos, não suam, continuam sem levar porrada alguma e são, embora queiram nos fazer crer que não acreditam nisso, nossos intelectuais, nossos geniais mentores, nossos heróis. &lt;br /&gt;As mesas, distribuídas pelas laterais do salão de maneira a formar uma discreta clareira onde os avatares poderiam chacoalhar seus corpos cultos, estão cobertas com simples, porém delicados e sofisticados, arranjos de flores. Tudo inspira nobreza, refinamento. Poder-se-ia mesmo crer, atendo-se aos detalhes do ambiente, que uma produção esmerada, de muito bom gosto e requinte, tinha cumprido seu papel: destacar o sublime daquela caterva sublime de homens e mulheres das letras sublimes. Náusea, é a palavra que sinto como narrador, náusea sublime também. &lt;br /&gt;Continuando nosso passeio por essa paisagem cultural, é possível ouvir o sotaque lusitano de escritores irmãos de além mar, aquele sotaque típico que a nós brasileiros cai como uma irritante ladainha, quase uma outra língua, e, pensando bem, é realmente outra língua, outra história, outro povo, outra escritura. Não escrevemos nem falamos nem lambemos a língua de Luiz de Camões. &lt;br /&gt;Toda a rica e profunda e metafísica literatura, música e criatividade das terras de oficialidade primeira reunidas ali, para que todos admirassem, deglutissem como um raro acarajé de prosa chocha, um vatapá musical de idosas rimas, um caruru comercial. Todos sob as luzes, para que babássemos de inveja e para que atestássemos no fim das contas como eles são belos, inteligentes, perfeitos. Supimpa! &lt;br /&gt;Vejo, encostado à parede lateral, camuflado nas cortinas de veludo marrom do salão, o vulto bêbado de Lima Barreto. Parece-me que vocifera e cospe. Mais adiante encontramos alguns escritores catando migalhas no chão, comendo com as mãos, pedindo a benção, implorando espaço na lista dos mais lidos e vendidos. Eles têm bicos enormes, flores na lapela, sapatos de cores berrantes e usam o computador como ninguém. Alguns têm flautas atoladas no cu, organizam antologias com os mesmos nomes e textos e vícios de sempre, e tocam música barroca. São muito bons esses rapazes. Mostram bem os dentes, os caninos brilham ameaçadores, e disputam um osso roído e gasto, como cães sarnentos e famintos, rolam pelo chão, empurram cadeiras, e um deles, o mais sagaz, sai vitorioso  carregando aquele prêmio por entre as mesas, abanando a cauda sob as luzes, submisso e realizado, aplaudido por todos os presentes. Esse menino com certeza estará na academia em pouco tempo, mas antes vai publicar uma dezena de romances estúpidos que lhe renderá muitos tostões.&lt;br /&gt;Um único contratempo ameaçou manchar tão perfeita noite, mas foi providencialmente esquecido, uma jovem professora de literatura, oriunda de pequena cidade do interior do país, moça ingênua, insossa e imatura, arrogante e prepotente, partiu para cima de um grande e famoso editor  brandindo recém lançado livro de autor matemático. Pego de surpresa, o tal editor foi obrigado a ouvir um enorme e cuspido discurso, recheado dos mais nobres e cultos palavrões, no mais típico acento açoriano. A moça protestava contra o que chamou “panelinhas literárias” e explicou: o senhor pensa que nós não sabe como funciona essa caralha toda? Nós sabe sim, seu mecenas da mediocridade, defensor da heráldica do mofo. Sabemos que o conluio se dá assim: alguém escreve uma porcaria de romance, conto ou ensaio, e o senhor publica, aí outro filho da puta vai pro jornal e faz boa crítica daquela grande merda, dizendo que é bom texto, com bom tema, escrito por bom autor, excelente aquisição para presente nas férias de verão, e esse fulano que se diz crítico, um chumbregado escrevinhador de porcarias, vamos descobrir, por uma coincidência danada, também publicou na sua empresa um romance, conto ou ensaio tão besta quanto este e que foi aclamado em crítica no mesmo jornal por aquele mesmo imbecil que acaba de publicar sua merda literária, e tem mais, é só abrir os olhos e vamos ver que eles, todos eles, esses porras metidos a grandes escritores, são seus contratados, filho da puta. Ainda me vem cometer o sacrilégio de publicar o romance do genial matemático pernambucano destruindo toda a forma do texto, suas equações tão bem pensadas,seus binômios escritos em catedrais medievais, suas mulheres com corpo de cidades, cada buraco uma boceta, cada boca um esgoto, cada cu um túnel, uma grande raiz quadrada, isso é sacanagem ! Tome vergonha, disse chorando finalmente a jovenzinha e imatura professora, antes de sapecar na cara do editor o calhamaço de setecentos e treze páginas, dizendo com sincera emoção: devia enfiar isso em seu rabo. Corre daqui, corre dacolá, e logo a moça era encaminhada ao serviço médico, e o editor recebia um pedido formal de desculpas da organização do evento. Outra nobre catedrática encarregou-se de pôr panos quentes no barraco acadêmico explicando que a literatura brasileira contemporânea é a representação machista de homens autoritários que não representam nada além do poderio másculo-falocêntrico de brancos cultos que excluem mulheres e negros e bichas e crianças e dragões e extra-terrestres, e que por isso mesmo a literatura brasileira da atualidade dos dias de hoje contemporâneos é uma literatura excludente, pois exclui tudo, segundo o ultimo levantamento do censo estatístico de personagens de ficção. Falou, falou e falou. Provou que o que se escreve hoje é a prova cabal de que nossos autores perderam definitivamente o cabacinho ético, pois escrevem para a burguesia e sobre a burguesia. Citou Ferrez, Mano Brown, Carolina Maria de Jesus e Paulo Coelho. No final, foi aplaudida de pé quando alertou: Vocês, escritores contemporâneos dos dias atuais, estamos de olho nos seus livros, façam o favor de atentar para nossos dados estatísticos. Lima Barreto, ainda bêbado e oculto entre as cortinas do salão, soltou um pum e vomitou um pedaço de lingüiça. Só ele, lá do seu cantinho, manifestou-se contra o discurso dizendo: Todo mundo aqui sabe javanês.&lt;br /&gt;Há ainda, espalhados pelo salão, sob boleros, reitores de renomadas universidades brasileiras, jornalistas, colunistas sociais, professores do Departamento de literaturas da Universidade de Brasília. A inteligêntsia do planalto central está presente no salão do Iate Clube e cantarola “teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.”&lt;br /&gt;Os garçons correm apressados para todos os lados, vodka para o bigodudo de Moçambique, uísque para o professor de Coimbra, vinhos e refrigerantes para refrescar as gargantas dos intelectuais. Perto dali há invasores que nunca leram um livro, e nunca lerão. Nunca saberão o que é hermenêutica, no máximo pensarão tratar-se de um bom remédio para hemorróidas. Que dirão então de acordos ortográficos ? Que sindicato faz esse acordo? Perguntarão os mais politizados, que são tão poucos. Aquela festa, guardadas as proporções, tem um quê de Baile da Ilha Fiscal. &lt;br /&gt;Heloísa aparenta estar cansada. Foi uma semana pesada, esteve envolvida diretamente com todo o desenrolar do encontro. Geraldo está ao seu lado, impaciente, o relógio mordendo o pulso. Dor de cabeça, querida, diz à mulher que se contenta em cruzar as mãos sobre a mesa e esticar o olhar em direção à estudada performance de enxaqueca do marido. Vou sair um pouco, está insuportável, volto mais tarde para buscá-la. Onze horas está bem?  e deixou-a a discutir com uma professora de olhar flambado algo fundamental para a população sem esgotos do Recanto das Emas: a literatura feminina em Timor Leste. Segundo essa criatura de títulos e publicações em revistas literárias, a representação da mulher na literatura timorense deixa muito a desejar, posto que às mulheres cabem apenas os papéis de mãe, prostituta e desempregada. Isso é inadmissível para uma nação que pretende independente, não acha? É notória a postura bordada dessa militante feminista, de conhecimento geral seus fumos urbanos, sua ojeriza a tudo que significar província. Detesto regionalismos, nasci em beira de estrada, numa vila chamada “Cárcere”, portanto não me interessa histórias que falem com sotaque. O cérebro em espasmos constantes de pensamento faz com que pule de um assunto a outro, sem elo algum de ligação que não apenas sua vontade de comentar esse ou aquele assunto. Mas o que importa no fim das contas é que essa discussão existe, sobrevive, insiste, apesar de toda a falta de esgotos, de toda a população do Recanto das Emas e da inexistência de boas perspectivas. E o fato de essas pessoas estarem unidas nessa noite aponta a esperança de que um dia, distante é verdade, estaremos todos juntos num mesmo baile: os invasores, os intelectuais, os professores, os famosos e os decentes. Talvez isso ocorra solenemente, após a população miserável e faminta invadir a capital do país, se apossar de seus gramados, superquadras e monumentos, e declarar-se dona de seu destino, de sua língua, livre para introduzir o pronome onde bem entender, enfiá-lo no cu se assim o desejar, mesócuse, sem gramática alguma que lhe venha dizer em qual elevador deve subir para o trabalho. Isso também é literatura. &lt;br /&gt;A morena de vestido negro repleto de lantejoulas, crooner da orquestra Tabajara, cantava “Night and day” quando Geraldo saiu do clube.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-7846545349122199963?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/7846545349122199963/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=7846545349122199963' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7846545349122199963'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7846545349122199963'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/pretextos-para-matar-julias.html' title='PreteXtos para matar júlias -  Parte II - Relaxamento - Cap.1'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-7779596137983923413</id><published>2009-07-07T16:40:00.007-03:00</published><updated>2009-07-07T17:00:40.506-03:00</updated><title type='text'>INTERMEZZO</title><content type='html'>Traduzindo o mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Augusto dos Anjos, o anjo augusto da poesia brasileira do início do século XX, nos caracteriza, a nós feras humanas, como “monstro de escuridão e rutilância”(1). Sua visão do mundo e do homem, posta em versos, integra o percurso histórico do “filho do carbono e do amoníaco” em sua investigação das coisas do mundo. A arte, portanto, como a ciência, a religião, a filosofia, o mito, todos instrumentos de tradução do real inventados pelo homem, é uma forma de apreensão/construção da realidade. Apreensão quando consideramos como matéria do poema (ou do quadro, ou da escultura, ou da música) o “tempo presente, a vida presente”; e construção quando reconhecemos sua diferença substancial em relação ao objeto e sua matéria. De outra forma, constrói-se a realidade pela expressão artística. Há realidades.&lt;br /&gt; A natureza ambígua do homem, expressa nos versos do paraibano, aponta para o problema deste pequeno ensaio que é sugerir um processo bipolar de visões do mundo. Reconhecer que somos escuridão, mas que também somos brilho e luz, é aceitar uma essência construída sobre paradoxos, sobre conflito. Somos todos uma espécie de antítese de calças (ou saia), como diria Maiacovski. &lt;br /&gt; Se o pensamento mítico foi nossa primeira tentativa de traduzir (transcriar, como os Campos) o mundo e, ainda hoje, aceitamos o mito como elemento decodificador da criptografia da natureza, devemos então acolher o vário no singular e único, ou seja, ainda somos hoje, nesses tempos de bites e de vertigem tecnológica, o animal assustado que enxergou no relâmpago a ira manifesta de um Deus biliar, ou no destino trágico do herói o paleativo catártico da existência, uma espécie de emplasto brascubiano da angústia existencial. Tão válida quanto a tradução do mundo pelo método cartesiano é sua expressão pelo senso comum ou pela reflexão filosófica. Somos sim, monstros de escuridão (nas  instâncias do mistério, do impreciso, da indefinição e do caos, da imprevisibilidade e do desconhecido) e rutilância (na órbita da ordem, da harmonia e do equilíbrio, do cosmos, do previsível), e é no equilíbrio dessas partes que caminhamos para não-sei-onde. &lt;br /&gt;É óbvio que essa faceta ambígua do homem contaminará sua/nossa apreensão/construção do mundo, pois ela é o filtro pelo qual absorvemos e erigimos esse relacionamento do sujeito que somos com o não-sujeito que nos circunda, do eu com o não-eu. Expressão máxima desse conflito que se equilibra em arte reside na música, cuja composição é um exercício matemático e físico (acústica e ondas) da emoção. Compor uma sinfonia é brilhar na escuridão. Raimundo Fagner, compositor popular cearense, cobriu com notas, acordes, harmonia e melodia os versos do poeta maranhense Ferreira Gullar e cantou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Traduzir-se (2)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;é todo mundo:&lt;br /&gt;outra parte é ninguém:&lt;br /&gt;fundo sem fundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;é multidão:&lt;br /&gt;outra parte estranheza&lt;br /&gt;e solidão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;pesa, pondera:&lt;br /&gt;outra parte&lt;br /&gt;delira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;almoça e janta:&lt;br /&gt;outra parte&lt;br /&gt;se espanta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;é permanente:&lt;br /&gt;outra parte&lt;br /&gt;se sabe de repente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim&lt;br /&gt;é só vertigem:&lt;br /&gt;outra parte,&lt;br /&gt;linguagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traduzir uma parte&lt;br /&gt;na outra parte&lt;br /&gt;— que é uma questão&lt;br /&gt;de vida ou morte —&lt;br /&gt;será arte?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema, que se tornou canção e sucesso nos e nas rádios do país,  deixa algumas questões: quem traduz? o que traduz? para quem traduz?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na verdade, o poeta se diz partes. Como no poema:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro, em mim, um anjo bom vive no inferno&lt;br /&gt;Um mortal que anseia o dom de ser eterno&lt;br /&gt;Eu sou Eus e, às vezes, posso ser bem mais. (3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia tenta mostrar que a complexidade do homem reside em sua natureza ambígua, oscilando entre vertentes opostas e, na maior parte das vezes, em equilíbrio. Somos razão, raciocínio, pensamento, palavra (LOGOS), mas também somos paixão, instinto, inspiração, mistério (PATHOS). Eu sou eus e posso mesmo ser bem mais.&lt;br /&gt;Entre esses dois pólos construímos naves espaciais e sinfonias, máquinas de lavar roupa e sonetos, computadores e esculturas. Entre a ciência e a arte, entre a certeza e a dúvida, entre o sagrado e o profano, nós, humanos nascemos e morremos. Não há ser humano que seja totalmente LOGOS ou totalmente PATHOS, pois somos a mescla dessas duas potências.&lt;br /&gt;Em “Traduzir-se” o poeta utiliza termos de exatidão para expressar essa natureza racional do ser: pesa, pondera, permanente, linguagem. Essas duas partes num só ser constituem um indivíduo social, político, histórico, coletivo, que o poeta faz questão de registrar com os vocábulos “multidão”, “almoça”, “janta” e com a expressão “todo mundo”, generalizando a composição bipolar, ambígua, paradoxal do homem.&lt;br /&gt;Mas o poeta identifica outra distinta parte e a revela pelo uso de termos tais como: estranheza, fundo sem fundo, delira, se espanta, de repente, vertigem.&lt;br /&gt;Os gregos tentavam interpretar (traduzir, transcriar) o mundo pela filosofia e pelo mito. Uma tentativa de tradução da realidade não exclui a outra, muito embora o mundo racional e, especialmente, a cultura cartesiana tenha expurgado o pensamento mito-poético do campo das traduções do mundo. Traduzir aqui é um termo que remete à constatação de que qualquer investigação da realidade implica a construção dessa realidade, pois não há uma e única verdadeira realidade, como dissemos amteriormente: há realidades. &lt;br /&gt;Para os gregos, Apolo, o deus solar, traduziria a beleza, a perfeição, o equilíbrio, a harmonia das formas, o mundo do cosmos ordenado, da disciplina, do controle, da luz (pois só na luz tudo é visto  e revelado), da razão, da linguagem. Apolo é, portanto, o elemento de LOGOS. Quando dizemos que tal ou qual visão é apolínea, presumimos que comporta todo o universo da ordem. Apolínea é a posição do pai cultural, poder e controle.&lt;br /&gt;A outra parte é representada pelo deus bastardo Dioniso (também chamado Brômio ou Baco), que na tradição mitológica greco-romana era o deus do vinho. Dioniso carrega a alcunha de “o delirante”, “o murmurante”. Para seus adoradores, incorpora o princípio da fecundidade, deus da libertação, da supressão das proibições, deus da catarse. É uma entidade ctoniana, das instâncias do inconsciente, libertador dos infernos. Simboliza a ruptura das inibições, das repressões, dos recalques; é, no fim das contas, o símbolo das forças obscuras que surgem do inconsciente. A idéia comporta algo muito mais profundo. Dioniso, ao contrário de Apolo, representa os valores da noite, do mistério, da transcendência (pelo efeito inebriante do vinho, os homens encaram a morte sem medo e celebram a vida). Dioniso é símbolo das paixões, da coragem, do caos (a partir da desordem é possível criar algo novo, portanto simboliza também a criatividade). Dioniso é o espírito de revolta contra toda ordem, é a insurgência e a subversão do padrão e da norma, portanto, é do filho cultural a visão dionisíaca do mundo. &lt;br /&gt;Podemos então dizer que Dioniso é a escuridão, Apolo a rutilância, e dentro de nós essas divindades medem forças e nos torna monstros.  Estabelecemos então uma relação binária, ou se quisermos ser menos matemáticos ou “apolíneos”, fixamos dois pólos onde o homem apreende seu mundo e constrói o seu caminho.&lt;br /&gt;As artes, e a literatura em particular, são frutos datados. Têm endereço e perfil histórico. O artista não está fora do mundo, dele retira sua obra, e é por isso que a visão que se tem do mundo em certo período contaminará os artistas desse mesmo período. As grandes “escolas” literárias ou artísticas também, de uma certa maneira, refletirão esse jogo eterno entre o impulso apolíneo e o dionisíaco. O que se observa é a predominância de uma ou outra visão (apolínea ou dionisíaca) em determinado período histórico, fruto do processo sócio-político-econômico da civilização.&lt;br /&gt;É preciso deixar claro que compartilho a idéia de que a arte é, sim, uma forma muito especial de interpretação do mundo. Como exercício do espírito, está num mesmo nível da religião, da ciência, da filosofia. Não há que se discutir sua especificidade, está clara. Muito embora o poeta afirme que quando a ciência cala, a arte fala, acredito que a ordem de silêncio e som é irrelevante aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Notas:&lt;br /&gt;(1) “Eu, filho do carbono e do amoníaco&lt;br /&gt;     Monstro de escuridão e rutilância” ,  Psicologia de um vencido&lt;br /&gt;(2)  GULLAR, Ferreira. Na Vertigem do Dia (1975-1980)&lt;br /&gt;(3)  Almeida Filho, Leonardo. Eu sou eus (2006)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos na gravura abaixo um esquema básico desse jogo entre potências opostas e sua relação com as traduções do mundo pela arte. &lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SlOmuPABZ2I/AAAAAAAABLM/kibZ5Q2xQIM/s1600-h/tradu%C3%A7%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 201px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SlOmuPABZ2I/AAAAAAAABLM/kibZ5Q2xQIM/s400/tradu%C3%A7%C3%A3o.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5355807695104468834" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-7779596137983923413?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/7779596137983923413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=7779596137983923413' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7779596137983923413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7779596137983923413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/07/intermezzo.html' title='INTERMEZZO'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SlOmuPABZ2I/AAAAAAAABLM/kibZ5Q2xQIM/s72-c/tradu%C3%A7%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8881634264679544463</id><published>2009-06-30T18:05:00.005-03:00</published><updated>2009-06-30T18:12:24.116-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Fim da Parte I - Ímpeto - Cap.14</title><content type='html'>&lt;strong&gt;14&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico legista, faces chupadas pelo tempo, um maracujá míope de profundos olhos negros e grossas sobrancelhas, num jaleco de brancura impecável, observa o corpo de Júlia e comenta em tom malicioso com o assistente: &lt;em&gt;Linda, não?&lt;/em&gt; O rapaz, um estagiário visivelmente nervoso, examinando o cadáver pálido e rígido, responde afirmativamente com um desconcertado &lt;em&gt;Hum-hum&lt;/em&gt;. O médico, calçando luvas, observa os seios de mamilos cinza, rígidos e frios, com alguns poucos pêlos eriçados. A região genital, depilada. As unhas, vaidosamente coloridas de um vermelho vivo, descascando nas pontas dos dedos. Os cabelos sujos de sangue coagulado. O crânio, uma pasta escura. Uma pequena tatuagem no ombro direito, a figura de uma bruxa em sua vassoura tendo a lua ao fundo. &lt;em&gt;Não te excita uma mulher assim, jovem, indefesa, passiva?&lt;/em&gt; Pergunta ao rapaz que, assustado, responde que não, de forma alguma consegue excitar-se com quem quer que seja num local daqueles, com aquele cheiro horrível de morte, &lt;em&gt;como pode perguntar uma coisa dessas?  &lt;/em&gt; O médico sorri, desliza seus dedos sobre o corpo da mulher, lentamente, como se fizesse cócegas nas costas de uma criança, provocando o pupilo com aquele ar irônico e sacana, de quem sabe que ultrapassou os limites e goza com a ultrapassagem, saboreando o escândalo, a surpresa. &lt;em&gt;Eu fico de cacete duro quando aparecem mulheres como esta. Não creio que seja anormal&lt;/em&gt;, desculpa-se, &lt;em&gt;é bonita, é bonito, vê?&lt;/em&gt; disse comprimindo entre o médio e o anelar, como se fosse um cigarro, o bico do seio esquerdo de Júlia. O estagiário pediu licença e retirou-se, pisando forte, deixando evidente toda a sua repulsa. Imune àquela demonstração de revolta, o médico continuou se preparando para abrir aquele corpo que desejava possuir. &lt;em&gt;É, meu amor, você é minha agora...enfim sós&lt;/em&gt;. E sua risada percorreu o longo corredor branco e gelado daquela tétrica hospedaria, o Instituto Médico Legal, sem importunar nenhum dos seu hóspedes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8881634264679544463?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8881634264679544463/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8881634264679544463' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8881634264679544463'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8881634264679544463'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pmpj-fim-da-parte-i-impeto-cap14.html' title='Pmpj - Fim da Parte I - Ímpeto - Cap.14'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-812979916731740222</id><published>2009-06-30T18:00:00.006-03:00</published><updated>2009-06-30T18:05:18.406-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Skp9bJcpa6I/AAAAAAAABLE/95F8Fm7j3Tk/s1600-h/CapaLPFront.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 394px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Skp9bJcpa6I/AAAAAAAABLE/95F8Fm7j3Tk/s400/CapaLPFront.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5353229012429269922" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;13&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Clara crocodilo fugiu, Clara crocodilo escapuliu, Vê se tem vergonha na cara, e ajuda Clara seu canalha, olha o holofote no olho, sorte, você não passa de um repolho&lt;/em&gt;.” Arrigo Barnabé cospe seus versos pela sala. De um bolachão, entre chiados, a música do maldito atonal e modernoso pipoca pelas paredes e Michel se diverte tragando sua cerveja. Quando bêbado, como todo bêbado, ele se acha um homem melhor e por essa razão o resto, para o gênio ébrio, é apenas resto. As coisas tomam uma proporção  grandiosa em torno dele, tudo é grandiloqüente e, assim, aquilo que não lhe toca o espírito se mostra inútil, baboseira. Lembra-se de Pilatos, um poeta novo de poesia nova e que toca o controle remoto como quem acaricia o orifício anal. Nessas horas, Michel é um leonino babaca e liberal, como um velho baiano velho, e descobre que é capaz de falar bonito sobre coisas que ninguém, ele diz, entende ou entenderá. &lt;em&gt;É interessante como as vanguardas são sempre tão antiquadas&lt;/em&gt;, pensa ele. &lt;em&gt;Nada de novo além dos aviões de carreira&lt;/em&gt;, disse alguém cujo nome ele, alcoolizado, não encontra na memória. Imagina-se diante da platéia que, um dia, com certeza, irá presenciar sua grande conquista e testemunhar a entrega do grande prêmio de poesia ao jovem Michel, ex-policial. Discursa emocionado, gesticulando como forma de reforçar suas idéias fantásticas, originais, perfeitas, coçando o saco que tem uma das bolas murchas fora da área de cobertura da cueca. &lt;em&gt;A novidade está sempre nos clássicos, ele filosofa. Vanguarda é Guido Cavalcanti seis séculos antes de Marinetti; é Sousândrade muito antes dos Campos; é Pixinguinha e Geraldo Pereira. Puxa, modernos são Giambatista Vico e Bach, e nós aqui babando diante de instalações modernosas e melodias tão sem alma. Modernos também são Pilatos e Schwantes e Kaq e Cagiano e Newtown e eu&lt;/em&gt;.  Tudo isso ele comenta consigo mesmo, seu melhor intérprete e confessor, e chega mesmo a perceber o olhar de admiração dos fãs, a expressão de espanto submisso dos críticos, o desconforto de seus colegas de delegacia no fundo do salão nobre da academia sueca. Enquanto ouve Arrigo  Barnabé, os metais amplificados pela cevada e pelo álcool, ele tece tratados estético-filosóficos que, eu sei, nunca vai escrever, mas isso não importa.&lt;br /&gt;Uma raridade o vinil que roda alucinado no aparelho de som.  Ouviu falar que já existe a versão digital, mas isso não lhe desperta o mínimo interesse. O que o faz teimar na contramão da tecnologia é muito mais que qualquer novo método ou processo ou material. Ali, naqueles sulcos empoeirados, ele procura uma parte de si. A parte rara, preciosa, a melhor parte. A  não-triste. A parte durvalina-peterpanica-michelina.&lt;br /&gt;Naqueles chiados, naqueles sulcos que a agulha devassa, está o Michel de sonhos e esperança, aquele menino que um dia teve o prazer de ser e que hoje busca resgatar no álcool, nos versos e na música empoeirada de velhos discos de vinil. Há muito se perdeu aquele protótipo de homem feliz que um dia havia sido. Logo após a morte do pai, a internação da mãe. Viram-se então, ele e as irmãs, donos da própria vida, livres. Naquelas músicas de bardos malditos, de finados roqueiros, de guitarristas mágicos e viciados; naquele movimento do braço da vitrola repousando nos sulcos do vinil, ele se viu intacto, puro, e chorou a perda irrecuperável de si mesmo. &lt;br /&gt;Num pedaço de papel, os versos manuscritos de um amigo, um poeta, Francisco Kaq, ele leu : “asa     /      desquieta     / de hendrix   /  roça      / /  o blues   /  inflama-se   /  elétrons  /  seguem-no  / /    ( ê brômio!)  /  dóceis      /   e bacantes  /  bacanas   / /   ( esta  /  fucker   /  lady  /   dá choque ) “  E ele se pegou então excitado, carente de vagina e de cigarro, desejando como nunca uma electric lady, man. &lt;br /&gt;Os bares estavam fechados a essa hora, e Helena, certamente, mantinha ainda as pernas fechadas para ele. Outro dia lera uma entrevista com um grande artista pop nacional já falecido, e ficara muito chocado ao saber que, no fim dos seu dias, ele, o grande artista,  vivia isolado num hotel, relacionando-se com garotas de programa, num estilo de vida depressivo e decadente. Como tinham coisas em comum, ele pensava. Não vivia ele, Michel, isolado em seu apartamento barato do setor econômico do Sudoeste? Pagando por sexo e normalmente pechinchando o preço das vaginas? Remoendo sua solidão e sua vida insossa? Regurgitando sua completa incompatibilidade com o trabalho policial? Oscilando entre sobreviver e ser feliz, duas coisas completamente opostas? E o pior, lamentava-se, era que nunca seria um gênio como aquele artista, nunca chorariam sua morte, nunca escrevera nada que pudesse conquistar a admiração de quem quer que fosse. Ele era uma nulidade. Incompetente, incapaz.  Incapaz de fazer uma mulher feliz, de assumir e manter compromissos, de se entregar aos cuidados e aos carinhos de outro ser humano. Sempre na defensiva, sempre na rejeição às coisas que implicassem vínculos. E Arrigo Barnabé continua berrando pela sala : &lt;em&gt;Clara Crocodilo fugiu, Clara Crocodilo escapuliu.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-812979916731740222?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/812979916731740222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=812979916731740222' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/812979916731740222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/812979916731740222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/13-clara-crocodilo-fugiu-clara.html' title=''/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Skp9bJcpa6I/AAAAAAAABLE/95F8Fm7j3Tk/s72-c/CapaLPFront.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-3575719156077408043</id><published>2009-06-30T17:58:00.003-03:00</published><updated>2009-06-30T17:59:06.437-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.11 e Cap.12</title><content type='html'>&lt;strong&gt;11&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal se enrola nos lençóis, a pele em fresco atrito com o cetim, o suor dos corpos numa solução libidinosa, beijos e mordidas, fluidos e cheiros. Ele percorre os seios, morde os mamilos excitados, a língua deslizando pela barriga, o umbigo, o rosto mergulhando na fruta úmida e quente de cheiro forte, e ela gemendo baixinho, quase chorando, implorando morte e gozo, enquanto ele suga o clitóris e sorve o líqüido da bacante. Ele derrama um pouco de vinho entre as pernas dela e lambe as gotinhas rubras, prendendo com os lábios os pêlos pubianos de Sílvia, que suspira fundo. O festival dos sentidos. Ela olha em seus olhos, e eles dizem que querem possuí-la, à força, como um selvagem, e ele então a cavalga, mastro enterrado na nau desgovernada do prazer, bandeiras desfraldadas nos gemidos. Ela grita seu nome: Geraldo, Geraldo. E ele mergulha nesse poço sem fim e sem fronteiras. Como zilhões antes deles e zilhões que virão depois, esses dois animais se preenchem, saboreiam-se, trocam odores, substâncias, carinhos e palavras. E é isso, a palavra, o que os difere absolutamente dos cavalos no pasto, das feras pela selva, porque o resto é a mais pura fruição dos instintos, um lugar onde a razão não tem convite e não faz falta, exatamente como sabia o poeta que viveu tuberculando e sem fêmea: os corpos se entendem, as almas não.&lt;br /&gt;Nesse instante não existe morte, vida, civilização ou adultério. Nesse momento, em que enterra a espada na vítima imolada, não existe amizade, não há ética, nem moral, só ele, o prazer, imperando nas gengivas expostas, na seiva que os percorre e alimenta, nos fluidos, nos cheiros. Ele a chama de vaca sagrada. Ela geme e se contorce, o falo enterrado entre as pernas. Sim, nessa hora, apenas dois mamíferos sequiosos, o macho, rígido e viril predador, e a fêmea, entregue, abatida,  lânguida caça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;12&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Tira o paletó, repousa a pasta sobre o chão, dirige-se ao bar e prepara uma dose dupla de um doze anos. Heloísa, sentada na varanda do apartamento, finge ler um livro e acompanha os passos do marido. Ele afrouxa a gravata, beberica o uísque, senta-se ao lado da mulher.&lt;br /&gt;- Por que demorou tanto? Algum problema?&lt;br /&gt;- Não, nada que não possamos resolver. E o encontro? ele se referia ao encerramento do encontro de autores lusófonos, promovido pela Universidade.&lt;br /&gt;- Ainda estamos trabalhando nos relatórios.  &lt;br /&gt;Ela não se engana facilmente, sabe que algo está errado. &lt;br /&gt;- O que está havendo, Geraldo? Poderia me contar?&lt;br /&gt;Ele tenta disfarçar, diz que está cansado e que não há nada acontecendo. Diz que vai tomar um banho e a deixa com o fantasma do ciúme babando sua peçonha sobre as almofadas, o olhar pousado nas luzes distantes do Lago Sul.  &lt;br /&gt;Ela sabe que o casamento acabou, e acabou há tempos. Consegue até visualizar o momento exato em que sua união com Geraldo teve fim. Foi quando o médico, encontrando-os a sós no quarto do hospital, disse-lhes com todas as vogais, no tom solene e sepulcral que a informação exigia, que “o bebê se foi, infelizmente. Tivemos que retirar o útero, sinto muito.”. Naquele momento ela aprendeu que sorte é um conceito muito frágil, tênue, subjetivo; nos olhos úmidos do marido sentiu que nada mais seria como antes, perdia o homem que amava. &lt;br /&gt;Sempre planejaram ter filhos, vários filhos, e agora, ainda jovens, essa tragédia. Ele ainda tentou disfarçar, mas sempre foi péssimo ator. Era evidente a frustração, estava lá estampada no jeito nada convincente de dizer “tudo vai dar certo, você vai ver, Lô”. Era questão de tempo, a frustração aumentou a cada dia, uma grande mancha escura em seu jeito de olhar. Naqueles funestos dias, ele ficou ao lado dela, deu-lhe atenção, carinho, apoio. Desdobrou-se em cuidados excessivos, quanto a isso ela não tinha do que se queixar, mas sentia que ele não era mais o mesmo homem. A partir de então soube que ele não comia mais apenas em casa. Ela voltou-se para sua profissão, para seus livros, ele para o mundo. Fomes,fomes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-3575719156077408043?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/3575719156077408043/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=3575719156077408043' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3575719156077408043'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3575719156077408043'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pmpj-parte-i-impeto-cap11-e-cap12.html' title='Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.11 e Cap.12'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-256384842990864235</id><published>2009-06-30T17:56:00.002-03:00</published><updated>2009-06-30T17:58:06.472-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.10</title><content type='html'>&lt;strong&gt;10&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz recebe o senhor de terno e gravata com um beijo. Eles se enroscam e se despem com fúria.  Diante de um espelho, o jovem, cerca  de 22 anos, abraça-o  pelas costas, comprimindo em sua bunda flácida e branca o pênis ereto, enquanto morde sua orelha. Estava com saudade de mim, João Carlos? sussurra no ouvido do executivo que, de olhos fechados, entregando-se aos prazeres viris, sente o falo rígido introduzir-se entre suas coxas. Tudo é muito rápido e intenso, o gozo explode em gemidos graves de machos. O amor parece luta, luta de espadas, testosterona ardendo sobre a cama. Meia hora depois, vestindo-se, ele se vira para o jovem sobre a cama: Beto, deixei a grana sobre a mesa. Depois a gente se fala. E sai . &lt;br /&gt;Há algum tempo vem se relacionando com esse garoto, um menino inteligente, muito sacana e ativo, exatamente do jeito que ele gosta. Conheceram-se pelo anúncio que o rapaz divulgara na seção de acompanhantes do Correio. Beto, lutador de jiu-jitsu, recém-chegado do Rio, belo dote, 100% ativo, hotel, motel,domicílio, local com vídeo privê, realmente lindo, corpo definido, carinhoso, 24 h Fotos disponíveis em www.betoclassic.hpg.com.br. Encantou-se com a inteligência fina do michê, destoava do padrão mauricinhosaradocomedor que costumava consumir. Percebia nele um talento muito maior que aquele que tinha entre as pernas, embora, reconhecesse, este talento também era digno de nota. Juntaram-se o útil e o agradável. Os longos e cansativos dias de trabalho eram sucedidos por sessões de massagem erótica, sexo puro e animal, imobilizações sobre tapete, golpes maliciosos de jiu-jitsu, pequenos tapas e gozo profundo. É vultosa a quantia que despende com o rapaz, e isso sem contar os presentes que costuma dar, as roupas  e perfumes, sapatos, viagens que fazem juntos. Aos poucos vem descobrindo a história clichê do menino inteligente que saiu de casa, de sua vidazinha estúpida e provinciana, para ganhar o mundo. Esse roteiro, embora vulgar, é  o que mais fascina o executivo bem sucedido. Esse filme ele conhece muito bem, e é justamente isso que o aproxima cada vez mais do jovem promissor do Rio. Agora é hora de voltar para casa, Sílvia não deve estar por lá, nunca esteve, lembra ele. &lt;br /&gt;Quando a conheceu havia um pouco de esperança de que as coisas se acertassem. Ela e sua explosão de juventude injetaram nele um ânimo e uma euforia que nunca experimentara. Aos 35 anos, um velho, descobriu que podia ser feliz com uma mulher, com Sílvia. Enganara-se, nunca foram realmente felizes, nunca foram um casal. Eram uma dupla comercial, sócios de um empreendimento que tinha dado muito certo, um ótimo patrimônio, excelente rede de amigos, jantares e muita hipocrisia. Eram definitivamente dois estranhos. Na cama nunca se acertaram e ele sabia muito bem que muito do fracasso vinha de sua performance. Que performance? Nunca tinha tempo, sempre cansado, sempre viajando, sempre sem desejo por aquela morena fogosa. É óbvio que ela tinha lá os seus casos, ele sempre desconfiou. Nunca quis realmente aprofundar uma discussão a respeito, mas sabia muito bem que a mulher, com aquela peculiar euforia uterina, não se contentaria com jantares e passeios por Paris, Roma ou Milão. Ele sempre soube que, sem pica, Sílvia não era lá grande coisa, tornava-se amarga, irritada, irascível. &lt;br /&gt;Quando lhe aparecia feliz, dentes expostos e humor besta, tinha então a certeza de que ela havia mantido relações com alguém. Está feliz, andou saciando-se de cacete, pensava ele, no fundo satisfeito, pois não se sentiria cobrado a satisfazê-la e, essa era a melhor parte, teria de volta aquela mesma mulher alegre, sorridente, leve, por quem há anos e anos atrás se apaixonara. Ultimamente ela andava mais feliz do que de costume, ele notara, e isso era perigoso. Isso sim ele não iria tolerar, jamais, que ela amasse outro homem. Uma coisa é sexo, filosofava, outra, amor. Nunca deixaria que a mulher se envolvesse emocionalmente com outro macho. Macho, para amor, era ele, João Carlos. Bastavam-se, ele cria. Se ela queria rola, tudo bem, isso é o que não faltava pela cidade, é usar e descartar. Que outro homem se divirta entre suas coxas, vá lá, mas deixá-lo habitar seu coração, nunca. Começava a desconfiar que isso talvez estivesse acontecendo. Notava o eterno sorriso nos lábios, as gentilezas ao tratá-lo, as fugidas constantes. Era o salão de beleza num dia, o dentista no outro, a casa de Heloísa numa tarde, uma amiga que chegava de Nova York, o chá beneficente de Maria Rita do Amaral Brejeiro, na realidade a mitológica Madame Lima, do Parkway,  sessão de fotos para o “Bom dia, bela”, enfim, ultimamente tinha a agenda completamente tomada, e com certeza não estava indo para esses lugares. &lt;br /&gt;Pela primeira vez na vida, investigara os passos da mulher, confirmara  sua ausência  em alguns locais onde ela afirmava ter estado. Era sério, então. Algo estava acontecendo e ele não poderia permitir que isso se tornasse mais sério do que parecia estar. &lt;br /&gt;Tinham um ótimo arranjo nupcial, davam-se muitíssimo bem, formavam o casal perfeito nas festas e jantares. Sílvia lhe dava o equilíbrio que sempre buscara, o apoio feminino que lhe era fundamental. Ela lhe conferia estilo e virilidade pela simples companhia nos eventos sociais. Não. Ele nunca permitiria que outro homem roubasse aquela mulher. &lt;br /&gt;Contratou um detetive particular que, há duas semanas, após horas de campana e uma quantia considerável de dinheiro, entregou-lhe um pacote contendo fotos e um relatório detalhado com os passos de sua Sïlvia. Nesse relatório, a transcrição das fitas gravadas a partir do grampo no celular da mulher. Ele não sabe explicar o que sentiu ao ouvir a voz de Geraldo, seu amigo, dizendo a sua Sílvia que “se o João não sabe comer, deixa comigo que você não vai se arrepender” Era vulgar, um diálogo de baixo nível, putaria pura, asquerosos adjetivos, perniciosas interjeições, uterinas exclamações. Tudo ali exalava sêmen e suor. Faltara apenas desejar ser um Tampax, só isso. Havia naquelas frases o que nunca houve entre ele e a mulher: o tesão e a lascívia naturais entre macho e fêmea. Tratavam-se por “minha vaquinha no cio” e “meu macho gostoso”. Era um tal de “gargantinha de ouro” para cá, “cavalão” para lá.   Naquele texto mal escrito era possível aprender todos os nomes possíveis para uma mesma coisa: xota, chana, boceta, vagina, churanha, xinhanha, tabaca, priquito, perereca, perseguida, uma lista interminável de nomes para a mesma grota úmida. Pica, caralho, cacete, espada, jeba, peroba, naba, pinto, bilau, mandjola, mil palavrinhas que queriam dizer falo ereto, virilidade. &lt;br /&gt;João Carlos leu tudo aquilo acompanhando atentamente as gravações, parecia duvidar do que lia e por isso conferia a voz da mulher dizendo todas aquelas coisas. Era-lhe dolorido ouvir o amigo falar com sua Sílvia como um cafetão barato. Teve que engolir as fotos onde se via o casal, em atitudes muito íntimas, no automóvel que ele mesmo dera de presente à esposa. A partir daquele instante, decidiu que precisava agir. Tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê? pensou em voz alta, roendo as unhas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-256384842990864235?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/256384842990864235/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=256384842990864235' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/256384842990864235'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/256384842990864235'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pmpj-parte-i-impeto-cap10.html' title='Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.10'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-7407087777668728223</id><published>2009-06-22T15:36:00.001-03:00</published><updated>2009-06-22T15:37:05.436-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap. 9</title><content type='html'>&lt;strong&gt;9&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na área de desembarque de vôos domésticos, encostado ao balcão da locadora de veículos, o rapaz de calça jeans, camiseta branca sob camisa jeans azul, hesita em acender o cigarro. Sua ansiedade é evidente, e se mostra nos tiques nervosos, no trato que concede ao cigarro, cheirando-o, rolando-o nos lábios, entre os dedos, guardando-o no bolso. Uma tortura. Olhar atento aos que desembarcam. Não é possível notar, mas porta uma arma e está a mais de trinta minutos esperando por alguém. Seus olhos concentram-se na figura sedutora de Geraldo Borges Prado, que acaba de chegar do Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;Ele observa atentamente os movimentos do empresário, vê quando ele se despede de um homem dizendo Te vejo amanhã, João Carlos.  Assiste à abordagem de um jornalista que é gentilmente dispensado, mas que insiste até que a gentileza se vai num sonoro Deixe-me em paz, imbecil. Aparentemente é chegada a hora.&lt;br /&gt;Podemos falar um pouco em particular? diz Michel, após identificar-se. Geraldo, visivelmente perturbado, aceita conversar. Dirigem-se à lanchonete onde pedem um café. Que quer de mim esse policial? pensa, com a curiosidade flambada e oculta.&lt;br /&gt;Ainda tem na memória, desagradavelmente vivas, as lembranças de seus depoimentos na Polícia Federal, quando do processo de impeachment de seu amigo. Não são lembranças agradáveis todos os problemas causados pela contribuição financeira que fez à campanha do ex-presidente. Acusações de toda ordem, lavagem de dinheiro, sonegação, suborno, um mar de lama e seu nome exposto em todas as mídias. Um caos.&lt;br /&gt;De um instante para outro virara suspeito de tráfico, de corrupção, de malandragem explícita. Sua vida virara um inferno. Empresa, família, tudo arrastado pelo vendaval de escândalos. Todos num mesmo barco insano e enfurecido, todos culpados, todos condenados. Seu nome cuspido na lama, ao lado de criminosos comuns, de corruptos contumazes, assassinos de mulheres. Agora, oito anos depois, um policial se aproxima e procura conversa. Que conversa teria comigo? Questiona-se visivelmente preocupado.&lt;br /&gt;Quem observasse de longe, veria quando a expressão de Geraldo mudou, de preocupada e tensa, para aterrorizada. Michel contando-lhe sobre o assassinato e ele sentindo-se gelar, petrificado, incrédulo. Não é possível, restringe-se a dizer. Nessa conversa, ao cair da tarde no cerrado, ele reconhece sua relação com a vítima, e acrescenta que há dois meses vem depositando uma quantia na conta pessoal de Júlia, para ela e para a filha. Sim, Geraldo esclarece ao investigador que há cerca de seis meses foi procurado por ela, com quem teve um breve caso, que lhe pediu que fizesse um teste de DNA, pois tinha certeza absoluta de que ele era o pai da pequena Laura. O teste apontou positivamente para a paternidade e ele não teve dúvidas em assumir financeiramente a criança, apenas materialmente, frisou, já que era um homem casado e a última coisa que poderia querer seria um escândalo. Não tinha o mínimo interesse em ver a pequena Laura, não queria saber onde estava, nem com quem estava, não me diz mais respeito, sinto muito.&lt;br /&gt;Michel ficou espantado com a firmeza do empresário, com a transparência e a sinceridade de suas palavras, com a frieza, a insensibilidade cavalar. Se tudo aquilo tivesse sido mero teatro, então ele estava diante de uma máquina fria e calculista. Quando indagado sobre o que fizera na noite anterior, alegou que estava em casa, sozinho, com dor de cabeça. Infelizmente não tinha ninguém que atestasse o seu álibi. Uma pena, disse Michel, sozinho justamente no horário do crime. Geraldo contentou-se em dizer que dispensava a ironia do policial e pediu licença. &lt;br /&gt;Despediram-se friamente. Michel, observando de longe. Geraldo foi recebido pelo motorista que o aguardava. Entrou no carro, um importado qualquer, e partiu naquele fim de tarde do planalto central. Dentro de sua Mercedes,  mastigava a perda  que se fazia dolorida. Uma xota a menos, lamentou em voz alta.&lt;br /&gt; Lembrou-se, sem saudosismo algum, de quando encontrou-se com Júlia pela primeira vez numa das festas promovidas por Madame Lima, codinome de uma socialite do planalto, mais apreciada por sua atividade profícua de cafetina de luxo do que pelos chás beneficentes que promovia uma vez por mês e dos quais participava toda a elite brasiliense. Mantinha uma grande casa no Parkway, região isolada e tranqüila, longe do burburinho da cidade, onde realizava festas fantásticas. Essas festas eram produzidas com o dinheiro que nós, um grupo auto-proclamado PDC, os pervertidos do cerrado, entregávamos mensalmente a ela, que o gerenciava com a mesma competência demonstrada na arrecadação dos seus chás beneficentes. Apesar de nossa confraria autoproclamar-se do cerrado, havia, é claro, nomes do Rio, São Paulo, alguns do nordeste, notadamente políticos de reputação ilibada, cândidos exemplares da moral e da ética, enfim, todos uns putos de marca maior. Os mesmos que durante os escândalos da crise política me viraram as costas, estavam ali, comigo, dividindo espaço e corpos, disputando xanas e cus. Era uma espécie de consórcio, onde a mercadoria negociada era carne humana, carne de ótima qualidade e preço. &lt;br /&gt;Costumavam chamar o local de As Termas. Os clientes recebíamos, em linguagem cifrada, as informações sobre os eventos promovidos mensalmente. A clientela de Madame Lima, como era de se esperar, era composta por figuras de todos os escalões do governo federal, diplomatas, empresários, juízes e, é lógico, políticos. Estes desfilavam pelos salões da mansão comentando vaginas e medidas provisórias; aqueles oscilavam entre cabacinhos e ordenações filipinas, tudo uma grande putaria de classe.  Creio mesmo que deveria haver alguém do alto clero, muito discreto, oculto entre tantas gravatas e bravatas. Havia o que se chamava em tom de ironia o Trio Rosa, dois  deputados e um jovem  senador da república, recém falecido, que partilhavam o gosto comum por jovens rapazes afeminados e imberbes: os twinks. Eram casados, pais seríssimos, machos até a medula. No bar da mansão, era comum encontrá-los alegres, falando alto, sem pejo algum, brindando “Aos twinks que comemos e comeremos”. Ou então relembrando alguma boa farra no barco de um deles, no Lago Paranoá, onde usufruíam da solidão e do silêncio dos azuis da água e céu do planalto.&lt;br /&gt;Era de conhecimento geral a predileção do Trio Rosa por adolescentes de corpos frágeis, sem pêlos. Ouvia-se muito falar sobre festinhas privadas que eles promoviam num apartamento funcional na Asa Sul, residência de um assessor parlamentar, famoso por suas fantasias como destaque da Imperatriz Leopoldinense, nos carnavais da Marquês de Sapucaí. É quase lenda na cidade uma dessas festas, que ficou conhecida como o “Baile das borboletas”, que acabou em escândalo, convenientemente abafado a pressões poderosas e, é claro, muita grana. Corre à boca pequena que, nesse “Baile”, muitos cidadãos, de ilibada reputação e indubitável masculinidade, foram flagrados pela polícia, acionada por reclamações de vizinhos incomodados com a algazarra dos rapazes, usando calcinhas, sutiãs, perucas, acompanhados de garotões musculosos e muita bebida e pó. A polícia, é claro, nega tal ocorrência. Não há registros, dizem, tudo boato, coisa de políticos da oposição que querem desestabilizar o parlamento. Mas a verdade é que o Trio Rosa se diverte e chega mesmo a revirar os olhinhos quando relembra a festa que, para todos os fins, não houve.&lt;br /&gt;O mais falante deles, o jovem senador, uma estrela em ascensão no cenário político nacional, era um dos mais afoitos convivas daquele banquete de imberbes. Homem de grande erudição, gostava de chamar nossa anfitriã pelo estranho nome de Diotima. Nunca perguntei o que significava, mas certamente haveria de significar alguma coisa, ele não dava ponto sem nó. Era assim no Senado, onde liderava a bancada governista. Um grande homem. Madame Lima costumava levar os meninos para essas festas e entregava-os aos carinhos desse poder legislativo sui generis. Às vezes apareciam garotos orientais, miudinhos, magrinhos, numa afetação amarela peculiar, e nessas ocasiões cheguei a ouvi-los comentar: adoro um japinha pagando um boquete. &lt;br /&gt;Nunca entendi essas predileções. Para mim era estranho um homem gostar de afeminados. Se o que os atraía era o tom feminino nesses rapazes, por que então não o produto original, uma mulher ?Bote-se um consolo pendurado num fêmea e terás o feminino fálico, ou não?  Até entendo quando o cara gosta de travecos de pau grande e sente prazer em ser enrabado por eles. Entendo sim, é tara e tara não precisa de muita explicação. Mas comer garotinhos afeminados? Machinhos imberbes, veadinhos passivos ? Não, nunca entenderia isso. Mas também nunca censuraria o gosto de alguém. Para ser mais explícito e justo, naquele lugar ninguém censurava o prazer de ninguém. Não patrulhar os prazeres do outro era uma regra sagrada, implícita, aceita tacitamente por todos, afinal éramos uma grande comunidade de amantes. Amava-se a política, as negociatas, as leis, as bocetas, bundas e picas, as meninas, os meninos e, principalmente, dinheiro, muito dinheiro e poder, o sacro pleonasmo. Éramos todos animais especiais, requintados, amorais, escolhidos, intocáveis. Tudo girava em função de nosso orgasmo, os meninos imberbes, as garotas esculturais, Madame Lima, motoristas, garçons, músicos, seguranças, jardineiros, pais de família, moças direitas, mulheres decentes, enfim, tudo era simplesmente porque éramos e pagávamos bem por isso.&lt;br /&gt;Aqueles salões presenciaram grandes acordos, alguns deles evidentemente esconsos; testemunharam estratégias políticas, nem sempre éticas, mas a ética, eu aprendi logo cedo, é, no fundo, uma questão de ótica. As salas reservadas da mansão do Park way testemunharam a construção de candidaturas vitoriosas e o planejamento de derrocadas retumbantes. Tudo se comentava naquela casa, tudo se sabia. Se o presidente da República estava comendo uma jornalista famosa de uma grande rede de televisão, a notícia corria ali em primeira mão; se um famoso ator fora contratado para esquentar a cama de um conselheiro de embaixada européia, era ali que se sabiam os detalhes; se a taxa de juros sofreria aumento ou se haveria alterações de curso na política cambial, era ali, com antecedência, entre uma trepada e outra, que traçávamos planos e aplicávamos o dinheiro de maneira tal que acabávamos sempre mais ricos. Era ali que se desenhava, em sussurros, os desvios de dinheiro de obras públicas, as remessas ilegais de dólares, o caminho da lavagem de dinheiro.&lt;br /&gt;Num dos eventos mensais das Termas, nos reunimos para homenagear o falecido senador que, por obra de um acidente aéreo, desfalcara o Trio Rosa, agora uma dupla sem graça, enlutada. A noite foi de tristeza e pouca foda. Sobraram comentários e lembranças do político que não mais comeria afeminados. Nas Termas, tudo era a grande putaria de sempre. Havia festas bem planejadas, superproduções com artistas contratados no Rio de Janeiro ou São Paulo, shows eróticos de tirar o fôlego. Em algumas ocasiões especiais havia uma espécie de leilão de bocetas novas. A polícia nunca apareceu nesses eventos, a não ser como clientes na pele de delegados, secretário de segurança e, é óbvio, alguns graduados das Forças Armadas, todos uns tarados. Normalmente, esses picas-grossas do Exército, Marinha e Aeronáutica iam atrás de garotões fortes, recrutas catarinenses, branquelos de sotaque açoriano, bem dotados. Quanto maior a patente, mas a fome por rola jovem, creio ser esse o primeiro mandamento de nossa gloriosa escola de formação de oficiais.&lt;br /&gt;Foi num desses rega-bofes que conheci Júlia . Ela usava então, como é comum nessa profissão, um outro nome: Marisa.  Nessa festa, as novatas foram disputadas a ferro e fogo,  um jogo que alegrava a noite e tornava tudo muito mais interessante.  Disputei sua posse com um amigo deputado distrital, famoso pastor evangélico. O Ministro do Tribunal de Contas, também muito meu amigo, não quis competir pela menina loira com cara de teenager, e optou por ficar com a moreninha, que já tinha saboreado antes. &lt;br /&gt;Geraldo lembrou-se então dos outros encontros, quando ela já não cobrava e, dizendo-se apaixonada, só queria ficar com ele. E tudo isso ele relembrava sem saudosismo algum, sem sentimento, como se estivesse no banheiro, sentado no vaso sanitário, lendo um texto de Seleções do Readers Digest, insípido, inodoro, inútil, deixando cair fezes fétidas e liberando gazes. Uma loira que só não entrou na categoria de uma-a-mais porque lhe chegou certo dia com um teste positivo de gravidez, acusando-o de tê-la inseminado. Mandou-a embora, e só veio a revê-la há cerca de três meses. &lt;br /&gt;Omitira, na conversa com Michel, a informação sobre as cartas que Júlia lhe enviara, chantageando-o. Agora não tinha muita importância, concluía, graças a Deus tudo era passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-7407087777668728223?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/7407087777668728223/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=7407087777668728223' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7407087777668728223'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7407087777668728223'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pmpj-parte-i-impeto-cap-9.html' title='Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap. 9'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6953780182369249995</id><published>2009-06-22T15:31:00.002-03:00</published><updated>2009-06-22T15:35:14.668-03:00</updated><title type='text'>Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.8</title><content type='html'>&lt;strong&gt;8&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz um tempão que elas trocam palavras naquela sala, um cochicho sem fim. Só sei que não deve de ser boa coisa não, a Dona Heloísa já chorou um bocadinho. Ela anda tão tristinha, só vendo. Ouvi quando ela falou que acha que o doutor Geraldo tem outra mulher. É isso mesmo que tô lhe dizendo, sem tirar nem pôr. Viu? Gente fina também mete chifre. Ô raçazinha ruim é homem, não tem homem que preste, mulé. São tudo farinha do mesmo saco, pobre da mulher que acreditar em homem, minha amiga. Eu ouvi quando a Dona Silvia disse pra patroa que era bobagem dela, que não havia nada de mulher, que o patrão não era homem de fazer isso. Ela disse que o patrão é muito carinhoso e que gosta muito de Dona Heloísa. É verdade, eu acho isso também, ele é sempre muito atencioso com ela, não vejo porque ela desconfia de algo dele. Mas eu é que não boto a mão no fogo por ele, não boto nem pelo meu Zé, avalie por seu Geraldo, aquele homenzão bonito e cheiroso. A outra, a Dona Silvia é mais safadinha, eu ouvi ela dizendo que o marido dela não procura mais ela para fazer...você sabe, fazer safadeza. Foi, menina, ela falou isso pra patroa, e disse mais, disse que se alguém tem alguma amante é o Senhor João Carlos, o marido dela, pois ela disse que tem mais de mês que eles não fazem nada. Ela disse bem assim, ó: “Há mais de um mês não sei o que é um homem, Heloísa. Estou tão carente.” Pode uma coisa dessas? Tenho é que rir duma coisa assim, imagina se o meu Zé ia ficar tanto tempo sem me dar uma? Aquilo é que nem bicho no cio, não me larga quieta. E se ele algum dia se meter a me deixar assim sem nada, eu vou virar ele pelo avesso, pois uma coisa eu aprendi nessa vida, menina,  homem que não procura a mulé, se não for doente, é porque tem amante. Vixe, Ceição, depois te ligo, a patroa tá me chamando. Tchau.   &lt;br /&gt;Heloísa pede à empregada que traga um pouco de água. Está com os olhos úmidos, parece ter chorado, ou prestes a chorar. Silvia, num sensual tubinho negro, atende ao celular. Do outro lado da linha, no Rio de Janeiro, Geraldo diz algumas safadezas para a esposa do amigo. Sob os olhares curiosos de Heloísa, tenta disfarçar a excitação resmungando uns hum-hum , tá certo, tudo bem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6953780182369249995?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6953780182369249995/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6953780182369249995' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6953780182369249995'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6953780182369249995'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pmpj-parte-i-impeto-cap8.html' title='Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.8'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-7218789510372806437</id><published>2009-06-19T15:16:00.001-03:00</published><updated>2009-06-19T15:18:10.718-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte I - Ímpeto - Cap.7 (fim)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;(continuação do capítulo 7)&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não dá para negar, sinto falta dela. Do sorriso, do jeitinho de gemer quando mordo sua orelha, do perfume, da pele, de como enlouquece quando eu sugo levemente o mamilo esquerdo, sempre e somente o esquerdo... sinto falta disso tudo, mas trocaria tudo isso por um cigarro. Ah, se trocaria! Freud talvez interpretasse tal preferência como um sintoma de homossexualismo latente, uma vez que eu talvez projetasse na forma fálica do cigarro meu desejo oculto por pirocas, em detrimento das pererecas. É uma explicação viável, não? Meus amigos de delegacia talvez acrescentassem ainda a minha fixação por versos como agravante dessa suposta viadagem – com “i” fica melhor, não fica? Mas aí eu me lembro que Freud adorava charutos e até o fim da vida, canceroso, não os tirava dos lábios. E não me perguntem por que estou falando nisso tudo, nem eu sei, talvez apenas para encher lingüiça...ó meu Deus, lingüiça também é símbolo fálico, melhor parar por aqui. Mas, ainda lembrando Freud, às vezes um charuto é só um charuto...um cigarro, só um cigarro, uma lingüiça...bem, vocês me entenderam.&lt;br /&gt;Ela andava diferente. Sinto essas coisas no ar, apreendo as pessoas, sei pelo cheiro, pelo jeito de sorrir ou mesmo pelo tom de voz, quando elas estão diferentes. Como disse anteriormente, sou gauche e demoníaco. Não sou Blake, mas tenho cá minhas visões. Tenho esse dom, conheço as gentes todas e sei até onde podem ir e se vão. Foram anos de análise e aprimoramento que me fizeram ter certeza que ela andava realmente diferente. &lt;br /&gt;Um talento assim não se desperdiça facilmente. Tampouco se chega a tê-lo impunemente, sem esforço, sem pagar o preço, sem suar a alma. E suor de alma é a substância mais preciosa do universo, rende traumas, poemas, suicídios, milagres e descobertas. Tive treinos intensivos, diários, durante a infância, tentando adivinhar se levaria um beijo ou uma porrada do meu pai. Era um sujeito neurótico, de humor instável, rompantes violentos. Meu pai, devo admitir a vocês, era um louco. Um sujeito oscilando entre o carinho e o cacete. Quando adolescente, ao ler Infância, de Graciliano Ramos, fiquei impressionado com certas semelhanças entre minha vida e a do autor alagoano. A leitura da história do cinturão, particularmente, me foi devastadora. Mergulhei na pele do menino lembrado pelo escritor. Era eu, apavorado, temendo a pancada.&lt;br /&gt;Minha mãe, envolvida com suas garrafas de cachaça e vodka, ocultas no armário, entre as latas de óleo de soja, tinha tanto trabalho em fingir estar sóbria, coitada, que não percebia, ou fingia não perceber, a loucura do marido. Nós, eu e minhas irmãs, é que ficávamos espertos, pisando em ovos, sem saber de onde viria a porrada, ou a carícia. Sim, porque era assim que as coisas funcionavam com meu pai. Podíamos estar na maior das brincadeiras, coisa que ele gostava e sentia muito prazer em fazer, brincar conosco, e de repente, sem mais nem menos, lá vinha o tapa no meio do rosto. Sonoro e dolorido, sem aviso, antecipado apenas por um brilho diferente no olhar. &lt;br /&gt;Com o tempo aprendi a identificar alguns sinais que denunciavam a proximidade dessas mudanças bruscas de humor: o olhar gelado, perdido, músculos enrijecidos e, como se desatassem cavalos alucinados em seu cérebro, reagia com violência, gritando e nos deixando estupefatos. Lembro bem quando esse louco tão próximo quebrou meu violão na parede de casa, tudo porque eu estava dedilhando The house of the rising sun. “Todo babaca que pensa que toca violão mete essa música chata nos ouvidos alheios” berrou ele enquanto meu violão tornava-se bagaço. Uma vez, quando morávamos numa casa alugada na 705 sul, após cometer mais um desses disparates, ele, como se nada tivesse acontecido, imune ao choro de minhas irmãs, pôs a gravata e saiu pela W3, embaixo de chuva, caminhando sem rumo. &lt;br /&gt;Meu pai era decididamente um alienado. Minha mãe costumava dizer, bêbada e imbecilizada, que estávamos imaginando coisas. Acho que, no fundo, desarmando-nos e esvaziando nosso desespero em relação à doença de meu pai, ela queria mesmo era que acreditássemos em nossa fraqueza, na incerteza, em visões sem sentido ou fundamento, de forma que seu alcoolismo tornar-se-ia apenas e tão somente mais uma dessas tristes visões que eu e minhas irmãs tínhamos por hábito presenciar. Acho também, hoje passados tantos anos, que minha mãe, mais que seu alcoolismo ou a loucura de meu pai, queria mesmo era ocultar o fracasso de seu casamento e sua impotência em admitir tudo isso.&lt;br /&gt;Quando o velho morreu, após importunar médicos e enfermeiras por dias, eu não tinha por que ou por quem chorar, mas sentia algo na garganta a me dizer que deveria fazê-lo. Nessa época eu já não morava com minha mãe, que repartia a casa com minha irmã mais velha. A mais nova, ousada como ela só, tinha se mudado para São Paulo, onde fez faculdade e acabou conhecendo o futuro marido. Eu já morava comigo, que sou meu melhor e pior amigo, num quarto e sala na L2 Sul, num daqueles prédios tristes tipo JK. Devo dizer a contragosto que a única coisa que me lembra aquele tempo é o cheiro horrível de flores mortas, vindo daquelas que adornavam o esquife onde o corpo carcomido do meu desvairado pai foi colocado. No caixão escuro, tinha expressão atormentada como se até o último momento lutasse contra a morte e mesmo agora, vencido pelo câncer, ainda insistisse em demonstrar seu descontentamento. Morrer é foda, era o que dizia aos médicos enquanto agonizava. No velório havia poucas pessoas, não éramos o que se poderia chamar de sucesso social. Poucos parentes, amigos, colegas, conhecidos. Fazia calor, o tempo muito seco. Caminhamos pelo Campo da Esperança sob um sol que nos mordia a pele. Meu pai se foi sob terra vermelha. E foi tarde.&lt;br /&gt;Alguns anos depois, fizemos o mesmo trajeto em silêncio, carregando o corpo de minha mãe. Consumida pelo álcool, pele e osso, faleceu surpreendentemente plácida, tranqüila. Por ela deixei verter algumas poucas lágrimas, ocultas pelos óculos escuros. E tive então a certeza de que o passado se fora irremediavelmente. Por essas e por outras é que digo que não sou um sujeito fácil de ser engolido ou derrubado. Tenho alma calejada e espírito aguçado. &lt;br /&gt;Percebi que Helena estava diferente e queria me dizer algo. Temo lhe dizer algo, era a mensagem que seu olhar me dizia, quase pedindo socorro. Durante todo o jantar ela não disse uma palavra, ficou olhando a televisão, sem ver o que se passava. “Desembucha, sei que você quer dizer algo” e continuei lavando os pratos. “Estou grávida, dois para três meses” ela falou, encostada no balcão de mármore que separa a cozinha da sala, e apagou o cigarro. “Tenho um amigo, médico legista, ele pode fazer o trabalho”  eu disse a ela, enquanto jogava mais detergente na bucha. “Ele é de confiança, eu pago tudo, não se preocupe.” Ela sabia a que trabalho eu me referia. O trabalho de retirar de dentro dela aquilo que eu nunca quis colocar no mundo. “Você sabe que não quero porra de filho”. Ela saiu de minha casa, batendo a porta e me dizendo para passar mal. Não fiz menção alguma de impedi-la, de ir atrás dela. Não sei por onde anda, o que faz. Não sou de arrependimentos, não rastejo para ninguém. Não vou dizer que não sinto falta dela, sinto sim, à minha maneira gosto muito de Helena, mas agora eu juro, preferia um cigarro.&lt;br /&gt;Não me perguntem como, mas um jornalista me pediu que confirmasse a informação de que teriam sido encontrados com a vítima uma agenda e um cartão comprometedores. Um dos grandes mistérios da humanidade reside em saber como essas raposas conseguem esse tipo de informação. Arrisco dizer que isso é tão enigmático quanto responder quem fez os desenhos na planície de Nazca ou o que realmente ocorre no Triângulo das Bermudas. Eu não comentei nada a respeito do assunto e tenho certeza, ou já nem tenho mais, que qualquer policial agiu da mesma maneira, bico calado pra não atrapalhar as investigações. Então, como é que esses merdas arrancam essas informações? Na ocorrência policial o registro é simples, não constam esses detalhes. Um passarinho me contou, foi o chavão que ele vomitou em meu ouvido ao questioná-lo. Era só o que faltava, um crime escandaloso envolvendo figurões da cidade e uma garota de programa, prato cheio para a imprensa. Ainda há pouco, um telefonema anônimo me dizia para conversar com o pastor Valter, da Igreja Universal. A voz feminina, evidentemente nervosa, me pedia para ouvi-lo, pois desconfiava de uma desgraça. Em outras palavras, me dizia para averiguar o envolvimento do pastor com a “Madalena possuída”, foi essa a expressão que usou para denominar a vítima. Anotei o nome do pastor, iria ter com ele em breve. O delegado pediu-me para esquecer, pelo menos inicialmente, qualquer idéia que implique importunar os famosos da agenda da garota. Não vale a pena, nada aponta nessa direção, foi o que me disse em sua sala, tomando todo cuidado do mundo para que ninguém nos ouvisse. Era realmente muito estranho, mas eu sabia bem o que o estava incomodando. Havia nomes íntimos do governador e, além de a polícia já estar muito vulnerável aos mimos dos políticos, escarafunchar aquela agenda era mexer num vespeiro. Eu até que pensava como ele, nenhum daqueles fulanos teria interesse na garota, no máximo buscavam sexo fortuito e discreto, nada que pudesse apontar para assassinato. Mas não estava disposto a dispensar essa possibilidade assim tão facilmente. Há sempre a possibilidade de chantagem, estorsão, sei lá. Tencionava voltar ao local do crime com algumas fotos. Havia pedido ao arquivo que pesquisasse fotos de alguns dos figurões da agenda. Quem sabe algum deles seria o tal homem que visitou Júlia no dia em que morreu? Eu torcia para que a vizinha pudesse reconhecê-los.  &lt;br /&gt;De todos os nomes, o de Geraldo, sim, era uma possibilidade forte e, para falar a verdade, nossa única possibilidade até ali. Liguei para o telefone celular cujo número estava anotado a mão no verso do cartão e não consegui resposta. Desligado ou fora da área de serviço, foi o que me disse uma voz metálica. Na empresa telefônica me informaram que a linha pertence ao Grupo Prado, o que já era de se esperar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-7218789510372806437?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/7218789510372806437/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=7218789510372806437' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7218789510372806437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/7218789510372806437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/ppmj-parte-i-impeto-cap7-fim.html' title='Ppmj - Parte I - Ímpeto - Cap.7 (fim)'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-863134186038339507</id><published>2009-06-17T14:16:00.002-03:00</published><updated>2009-06-17T14:23:35.717-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte I - Ímpeto - Cap. 7</title><content type='html'>&lt;strong&gt;7&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou o tipo de homem que se deixa abater facilmente. Não sou mesmo. Minha história atesta essa fortaleza que, ultimamente, vejo sucumbir a cada miséria que presencio. Devo confessar que sou policial por absoluta falta de opção, me inscrevi num concurso, passei, fui ficando, ficando e ficando. Um bom salário e minha covardia galopante me fizeram policial. Exatamente como aqueles meninos do interior do país que ainda hoje enchem os seminários ansiando ser padres e ter comida, roupa e respeito. Sim, me sinto alma gêmea daqueles meninos que se vendem a Cristo, vendi-me ao Estado. Desde sempre soube que não tinha jeito para essa atividade, nunca tive traquejo para armas, nem para qualquer coisa que signifique controle, censura, segurança, vigilância. Não poderia nunca ser juiz, ou promotor, ou fiscal de qualquer espécie, não tenho perfil algum de policial. Incompatibilidade que contornei com muita paciência e perseverança. Se meus irmãozinhos de seminário venderam-se a Cristo na figura da santa madre Igreja Católica, a quem me vendi? Já disse, ao Estado. Uma grande porra, se me permitem o palavrão. Acho que sempre fui torto na vida, como o anjo profeta do finado itabirano. Gauche e demoníaco, isso é o que somos, eu e Drummond. Levo o meu jeitão de estranho no ninho, e como não haveria de ser assim? Por minhas parcas décadas sempre fui o cara errado na hora errada, do jeito errado, com a roupa errada ou a palavra errada. Acredito, hoje, que certas pessoas estão em descompasso com a história, em desarmonia com o tempo, numa sintonia estranha, dissonante. Eu sou uma delas, tenho certeza.&lt;br /&gt;Claro que nem sempre foi assim. Mas uma coisa eu sinto e sei, já nasci velho e triste, com o que a velhice tem de pior: o comodismo, o fatalismo, o medo. Minhas lembranças remotas, e remoto para mim é ser adolescente, sempre incluem um certo mal estar, um sofrido não estar no mundo, deslocado, esquisito. O jovem velho Michel. &lt;br /&gt;Quando, no início dos oitenta, a polícia estourou com estardalhaço o que, tempos depois, se passou a chamar “rockonha” - uma festinha alucinada promovida nos arredores da cidade - eu, por estar sendo operado de apendicite no mesmo horário, escapei de ser um dos garotos malucos que as veraneios vascaínas levaram naquele dia. Alguns amigos que muito tinham insistido para que eu os acompanhasse nessa maluquice, orgulhosos de sua participação em tudo aquilo e com a inconseqüência típica dos porra-loucas, me contaram depois os detalhes da operação, tentando me fazer invejá-los por conta daquela aventura boba. Ridículo, cara, eu pensava comigo. Que prazer idiota é esse que eles têm? Será que não crescem? Eu, em minha cadeira de balanço ideal, pensava incrédulo.&lt;br /&gt;Alguns anos antes, estava no Cine Márcia, no Conjunto Nacional, quando uma galera defumada depredou o cinema durante a exibição de “Rock é rock mesmo” ou, no título original, The songs remains the same, do Led Zepellin. Estava lá e vi, para meu espanto e frustração, aquela corja possuída de bacantes detonar os extintores de incêndio, as cadeiras estofadas, a tela do cinema, tudo ao som de Black dog e Whole lotta love. Que merda, cara, deixa eu ver o filme, era tudo o que eu pensava na hora. Neguinho na maior fissura, e eu lá, de cima de meus 17 longos anos, incomodado com tamanha algazarra e criancice. Acho que sempre fui meio velho para essas coisas. Para mim, nunca passou de babaquice tudo o que os moleques de minha idade achavam ser o máximo. Minha rebeldia sempre foi mais profunda que essa coisa de pintar cabelo, botar brinco ou fumar maconha. Meus amigos me olhavam estranho, me viam como um careta, um bundão. Nunca me importei com isso.  Entre um baseado e um bom livro, sempre fumei o segundo e sempre fez melhor efeito. &lt;br /&gt;Essa história de escolhas erradas parece sempre ter sido uma constante em minha vidazinha escrota. Mas, me pergunto, será que não é mesmo uma constante na vida de qualquer idiota as escolhas erradas? Às vezes, o tom de voz errado para a pessoa errada me fazia parar no lugar certo: demitido, no olho da rua. Um bicho estranho? Talvez. Por essas e outras é que nunca me casei, mas estive a ponto de cometer essa loucura. Deus é grande, e me alertou sobre os perigos e a verdadeira sandice que estava para cometer. Se para mim já é um sacrifício enorme tentar ser um profissional decente, cumprindo contrato de trabalho que é fruto das leis dos homens, imaginem ser um esposo exemplar, obedecendo fidelissimamente a todas as cláusulas de um casamento? Na saúde, na doença, na pobreza, na puta que o pariu. Eu? Nunca. Que grande marido seria? Despachei-a e a um noivado de três anos, com móveis, jogo de cama, mesa e banho. Fiquei com os carnês de prestação. Era o mínimo que poderia fazer depois de tê-la enrolado por tanto tempo. Não sou homem de estar acompanhado, me basta meu mau humor. Eu me completo, e me aturo.&lt;br /&gt;Vivo com meus livros de poesia que, normalmente, são motivo de chacotas para o pessoal da delegacia, que insiste em explorar uma suposta ligação entre versos e veadagem. Como se a masculinidade tivesse relação direta com a ausência de poesia. Um silogismo chocho e ridículo: Poesia é coisa de veado. Pura sacanagem que eu suporto e levo na brincadeira. Na realidade, não tenho lá muita opção. Que diriam eles se soubessem que arrisco meus próprios versos? Aí sim, para eles, seria a prova concreta de minha baitolagem. Versos como esses que fiz ontem à noite: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     &lt;em&gt;VASTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre um cigarro e outro&lt;br /&gt;o vento berra na janela&lt;br /&gt;e o que fazer quando o meu corpo tão pequeno&lt;br /&gt;insiste em conter o imensurável de minha presença ?&lt;br /&gt;Mastigo os livros e suas palavras&lt;br /&gt;mas nada me cabe, nada me comporta&lt;br /&gt;sou vasto como o vento na janela&lt;br /&gt;ou como a paisagem além da porta&lt;br /&gt;e me consumo entre um cigarro e outro.&lt;br /&gt;Escrevo coisas que antes de mim disseram&lt;br /&gt;jovens e velhos senhores de almas eólicas&lt;br /&gt;o que sabemos nós de nossas vagas&lt;br /&gt;de nossa marés e nossas tempestades&lt;br /&gt;senão que a dor do incabível é insuportável ?&lt;br /&gt;Abro então as minhas asas e agito o ar da sala&lt;br /&gt;                     eu não devia estar aqui. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostaram? Fodam-se, não importa, eu gostei. Toda noite malho e limo versos vesgos em minha boa e velha Remington. Versos como esses aí atrás. Não são lá grande coisa, eu sei, mas são eles que me ajudam a não enlouquecer completamente. Andei a arriscar algo em prosa, alguns contos, algumas cartas. Coisa de pouca monta, pequenos prazeres que cultivo e que acabam por evitar que o chato que sou o seja por completo. Coisas como ouvir música num antigo aparelho de som, e para isso tenho minha coleção de bolachões, saudosos discos de vinil, que atestam meu comportamento bicho-grilo, conservador, diriam alguns. &lt;br /&gt;Tenho um aparelho de CDs, que não sou de todo saudosista, mas confesso que quase não escuto música digital, e me satisfaço com o singular movimento do braço do pick up  descendo macio sobre os discos negros. O chiado me é fundamental, aquela sensação de adolescência que só um velho disco de vinil pode proporcionar, quando a agulha derrapa sobre os sulcos, ou engasga numa determinada parte da canção e fica nos clamando uma ação imediata: você é a ovelha negra da famí...você é a ovelha negra da famí...você é a ovelha negra da família. &lt;br /&gt;Quem sabe o prazer que se esconde nessas pequenas e antiquadas coisas? Quem? Não é qualquer mortal que aprecia esses raros prazeres. A poucos é dado vivenciar essa epifania. Percebem como sou, além de dramático, contundente, exagerado? Ouvir Emerson, Lake and Palmer, ou mesmo um   Deep Purple, Machine head, numa tarde qualquer de sábado, regada à cerveja, é simplesmente uma aventura única. Já experimentaram ouvir, sempre em vinil, é claro,  Journey to the centre of the earth, com Rick Wakeman ? Ou colocar na vitrola - esse termo tão sutil e mágico: vitrola -  uma raridade como Gerson King Combo cantando os  mandamentos black, e sair dançando de cueca pela sala, sentindo-se um verdadeiro negão dos anos setenta, cabelo black power, mão erguida e punho fechado, vestígios de  um possível e não vingado pantera negra? Um Shaft fajuto e ébrio. Tentem, vale a pena, se a idade e o reumatismo permitirem, ou se não envelheceram definitivamente antes dos quarenta, se é que me entendem.&lt;br /&gt;O tempo não nos perdoa a covardia e os mortos nos enterram a cada dia, com velas e missa de sétimo dia. Onde está aquele rapaz cheio de planos e sonhos que um dia fomos? Lembra? Quando você, deitado no colo de alguma garota, sugando sua juventude e seio frescos, achava que o sistema nunca tomaria posse de sua alma? Quando você lia, escondido de pais e mestres, alguma coisa de Marx, ou Trotsky, ou Mao, ou Zéfiro? Hein? ou mesmo cantava baixinho os versos de Geraldo Vandré, achando que fazia sua parte, e que iria mesmo mudar o mundo? Alguns de vocês talvez não tenham nem passado por isso, e, nesses casos terminais, o que posso fazer a não ser lamentar sua vidazinha estúpida e vazia? Quem nunca enfrentou seus sonhos, não deveria ter o direito de sonhá-los. Sabe lá o que é ser jovem? Alguns já nasceram velhos, outros nunca envelheceram. Nessas horas eu me contradigo: sou um velho jovem com saudades do jovem velho que fui. Onde me encontro?&lt;br /&gt;Caramba, a falta que um cigarro me faz, meu bom e velho Deus. É duro mas devo admitir, sinto mais falta de um cigarro do que de uma perereca. Sério. Meu vício é muito maior que meu tesão. É lógico que sinto falta de Helena, e ontem mesmo, enquanto tomava minha cerveja diante da televisão obesa e anestésica, lembrei-me de nossa última conversa, quando ela saiu batendo a porta e me dizendo com lágrimas e peçonha: Passar mal, babaca. Inspirou-me esse conto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;Uma mulher de Heidegger&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi assim:&lt;br /&gt;Ela não negou que me tivesse traído, tampouco confirmou as acusações que a carta anônima fazia: Maíra, sua esposa, anda a colocar-lhe grandes cornos, fique atento. E eu fiquei atento, olhando os olhos dela, que não piscavam e não negavam aquelas afirmações cruéis. Traiu ou não traiu? Peguei-me bentinhamente corno, corno em potencial, digamos, um corno espiritual, otelamente marcado pela suspeita, fustigando a face imaculada de Maíra. Ela tentou desviar o assunto acusando-me de inseguro, homem que é homem confia no próprio taco, ela me disse em clichê, e eu, tacanha criatura desconfiada e mansa, não confiava mesmo no meu taco, sentia-me cada vez mais ameaçado pelos tacos alheios, tacos que poderiam validar, legitimar, aquela letra torta que formigaveava pelo papel da carta anônima. Era uma situação caetense, reconheço, tinha ares de romance naturalista, mas não pensava em matar-me, nunca, não daria esse gostinho à Maíra. Queria apenas ver confirmadas minhas suspeitas, suspeitas que aquela carta vinha ratificar, faltava-me apenas ouvir dos lábios dela a confissão esperada. Impassível, fria como um bisturi, ela cortava a carne do tempo e da minha ansiedade com comentários frívolos: Esta tarde a chuva foi pavorosa, esqueci a janela aberta, encharcou-me as almofadas. Eu a seguia em seu raciocínio, talvez escapasse alguma coisa daquele rosário de banalidades. Ela continuava: Todo questionamento é uma procura. Toda procura retira do procurado sua direção prévia. Questionar é procurar cientemente o ente naquilo que ele é e como ele é. A procura ciente pode transformar-se em “investigação” se o que se questiona for determinado de maneira libertadora. Arra! Que raios ela queria com toda aquela lenga-lenga com cara de epígrafe de monografia? Na certa tencionava enrolar-me. Minha vontade era esfregar-lhe às fuças aquela carta anônima. Toma, vagabunda, quem anda a comer-te o rabo? Confessa, vadia. Ela cairia no chão, sobre o tapete, e eu aproveitaria para chutar-lhe a cara e fazê-la engolir a carta, morrer engasgada com o papel. Isso eu imaginava, apenas fantasiava, fumos de macho ofendido. Inofensivo.Quer mesmo saber? Ela me dizia então. Vou aliviar tua consciência. Dei sim, dei para todos os teus amigos, para todos os meus amigos, e, principalmente, para aqueles que consideras inimigos teus. Com estes, teus rivais, fui muito mais feliz. Confesso-te agora que, com teus adversários, eu gozei feito louca pois sentia que, pensando em foder-te a vida, eles fodiam-me com muito mais vontade. Ah, se tu tivesses a capacidade de gozar como goza uma mulher, entenderias esse meu ar de felicidade. Mas isso também era coisa da minha fantasia, elemento de minha imaginação, ela sequer abrira a boca, contentara-se em morder, delicadamente, o lábio inferior e baixar os olhos negros para enxergar meus pés, inquietos pés de corno em potencial, de corno espiritual, paulohonoriamente marcado pela suspeita. Conheces esta letra? Perguntava-me sobre a carta. Fiz que não, com a cabeça enfeitada de potenciais cornos, e tu? Devolvi-lhe a pergunta que me foi respondida na mesma moeda: Não, não conheço, deveria? Quanta arrogância, meu Deus, num pequeno pedaço de fêmea. Como ousava afrontar-me dessa maneira? Logo eu que a retirara das ruas, quando ninguém mais a queria? Sim, porque fui eu que lhe dei a mão para levantá-la da sarjeta em que vivia. Será que ela não se lembra mais disso? Alguns anos de boa comida, roupa e lençóis de seda, foram suficientes para que ela enfiasse no olvido seus tempos de fome, nudez e jornais velhos?&lt;br /&gt;Vou lhes contar a história de Maíra, é mais ou menos assim:&lt;br /&gt;Filha única de um velho beberrão, Maíra passou a infância de bar em bar, comendo sobras e presenciando os porres de seu velho pai. Com a morte do velho, passou a viver de esmolas e prostituição, atividades que lhe renderam erisipelas, gonorréia e freqüentes diarréias. Eu a conheci no Natal, quando distribuía sopa aos sem-teto na estação rodoviária. A fome com que sorveu o prato de sopa despertou-me a atenção para seu talento incomum em sugar e levantou-me uma deliciosa suspeita. Nada como o método para nos levar a conclusões interessantes e inusitadas sobre as mulheres: Deduzi, cartesianamente, que devia ser tão perita num pau, quanto o era num punhado de repolho ensopado. Mulher versátil assim não dá em árvore, concluí com ares de experiente engenheiro florestal. E por isso a trouxe para minha casa, dei-lhe banho, comida, remédios, e, é claro, rola, muita rola. E agora, depois de tudo que lhe fiz, o que mereço é um par de chifres e arrogância?&lt;br /&gt;Não, isso também não é verdade, minto, pro seu bem e seu deleite, minto. Continuo a imaginar coisas e a inventar histórias. Na verdade, conheci Maíra na faculdade de filosofia. Logo chamou-me a atenção aquela morena, meio índia, meio mulata-sargenteli, que discutia Hegel com a mesma facilidade com que contava piadas de baixo calão. Era interessante estar com ela, ouvi-la tecer comentários complicadíssimos sobre Heideger para, logo em seguida, maliciosamente descrever uma trepada do filósofo com Hanna Arendt. Seus comentários picantes tinham endereço certo: abri-me, ela entrou, fechei a porta e nos casamos pouco antes de abandonar-mos o curso de filosofia. Agora, decorridos sete longos anos de um casamento sem filhos, me vem essa surpresa: Maíra fez de mim uma mulher de Heidegger.&lt;br /&gt;Acreditou nessa? Se eu lhe disser que também aqui estou a divagar, onde você vai colocar sua crença? Quer saber? Estou pouco me lixando para sua descrença, não tenho tempo para me preocupar com você. Tenho problemas mais sérios a tratar. Esta carta veio me tirar o sono. Há dias não durmo. O problema não é me perceber um corno, também não estou preocupado com a traição. Meu problema, embora estético, não é ético. Não tem a ver com honra, ou desonra. Não tenho vergonha. Nem sei mais o que me aflige nessa história toda, talvez o medo de perder Maíra. Medo que anda me tirando o apetite. Ela sabe, ela sente, mas não confirma, nem desmente. Isso lá é vida? Como pode um cristão respirar normalmente com essa espada de Dâmocles a pender sobre sua cabeça enfeitada? Estará mesmo enfeitada pela espada de meus amigos e inimigos? Talvez. A solidão, como diria Nelson Rodrigues, é a cama na qual se deita um corno. Mas nessa cama, estou muito bem acompanhado. De Bentinho, tenho, talvez, a suspeita. De Otelo, tenho, talvez, a suspeita. De Paulo Honório, tenho, talvez, a suspeita.  De todos eles, tenho, com certeza, a atração de seus olhos e a sua atenção para a história que conto. Ao contrário deles, não perdi Maíra pelo suicídio, pelo assassinato ou pelo abandono. Estou perdendo-a dentro de mim, como se ela, a cada palavra não proferida, a cada silêncio desenhado, mergulhasse cada vez mais fundo, fundo, fundo. Finalmente, tocasse uma misteriosa região, inacessível e indescritível topografia pessoal. Ali, nesse inferno, sua imagem se tornasse semente de uma flor medonha que, cultivada e alimentada pela bile negra, regada pela lágrima não chorada, desabrochasse, oferecendo seu cheiro ruim e cor nefasta, crescendo com espinhos e cipós, ferindo-me a alma, asfixiando-me o espírito, lentamente, por segundos que duram horas, horas que são dias, dias...&lt;br /&gt;Foi assim.”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-863134186038339507?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/863134186038339507/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=863134186038339507' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/863134186038339507'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/863134186038339507'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/ppmj-parte-i-impeto-cap-7.html' title='Ppmj - Parte I - Ímpeto - Cap. 7'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8347121646018952839</id><published>2009-06-16T10:52:00.018-03:00</published><updated>2009-06-16T11:21:00.399-03:00</updated><title type='text'>Ppmj - Parte I - Ímpeto - Caps. 5 e 6</title><content type='html'>&lt;strong&gt;5&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Sjen15pYRuI/AAAAAAAABKc/lWbGVOtO9NQ/s1600-h/LS.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 258px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Sjen15pYRuI/AAAAAAAABKc/lWbGVOtO9NQ/s400/LS.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347927626975037154" /&gt;&lt;/a&gt;  Lago Sul/DF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Silvia, acabaram de entregar. &lt;br /&gt;A empregada em seu uniforme de impecável brancura estende um enorme buquê de rosas vermelhas para a patroa, que sorri apaixonada, com aquele olhar de fêmea saciada.  Um roupão de cetim com delicadas estamparias de motivos orientais cobre seus seios ainda orgulhosos, de mamilo eriçado e marcado pela saliva de um homem desejado. Cheira as rosas como se ajoelhasse aos pés de um amante e mergulhasse o rosto entre suas pernas, o nariz em seus testículos, o falo ereto escorregando em seu rosto. Suspira. O prazer tem sempre o mesmo cheiro: pecado. Beija o bilhetinho que diz:&lt;br /&gt; “Você me enlouquece completamente. Assim que voltar, continuamos nosso joguinho. Beijos, G.” &lt;br /&gt;Ela está feliz, o papaia tem sabor melhor nesta manhã, o suco, o pão, as torradas, tudo está mais saboroso neste dia e ela ainda sente o sabor do corpo do amante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;6&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Sjen2bHYIjI/AAAAAAAABKk/ASWmPmI-WNE/s1600-h/unb2.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 390px; height: 259px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Sjen2bHYIjI/AAAAAAAABKk/ASWmPmI-WNE/s400/unb2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347927635959226930" /&gt;&lt;/a&gt; UnB/DF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me dizem de tais versos: “O peso do mundo/é o amor./Sob o fardo/da solidão,/sob o fardo/da insatisfação/o peso/o peso que carregamos/é o amor.”? Uma moça de olheiras indecentes arriscou dizer que o classicismo perdera-se irremediavelmente entre versos quebrados, mas que o amor, matéria perene, continuava alimentando poemas e poetas. A professora sorriu da observação, que julgou romântica e ingênua, e pediu que cada um refletisse sobre aqueles versos e trouxesse um pequeno texto crítico para a próxima aula. Concluiu respondendo a um aluno que os versos eram de Allen Ginsberg.&lt;br /&gt;Ela é uma mulher discreta, de penteado discreto, olhares baixos, batons anêmicos e fragrâncias suaves. Tudo nessa mulher transpira carência, fragilidade, leveza. Inspira carinho, colo, dor. Um poeta certamente reconheceria a tristeza escondida ali, por trás dos óculos de aro de metal dourado, mas dificilmente poderia descrevê-la. A impotência da palavra diante da profundeza humana é matéria menos de estética que de estática. Ruídos, o homem é o equilíbrio de ruídos. Recolhe seu material sobre a mesa e, enquanto caminha em direção à sua sala no Departamento de Literaturas da Universidade de Brasília, ela se desloca no tempo e no espaço e se vê, adolescente, na vila dos oficiais em Porto Alegre, onde seu pai, tenente coronel do Exército, desempenhava suas atividades de repressão aos subversivos que, dizia ele, sob a influência das hostes vermelhas queriam entregar o país aos comunistas russos. A mais velha dos cinco filhos do coronel Darcy e da dona de casa Maria Laura é uma adolescente tímida, de olhar úmido e distante, sonhadora e silenciosa, e passa grande parte dos dias mergulhada em livros. Para ela, que não sabe que o mundo é muito mais que o tempo e o vento, que clarissas estão sendo torturadas no ambiente de trabalho do zeloso pai zeloso cristão, que os incidentes em antares só ocorrem em antares e que o capitão Rodrigo, agora Lamarca, abandonou a farda para se embrenhar em busca da morte no sertão baiano, o vestibular para o curso de Letras é o grande alvo, a meta gloriosa a ser alcançada. Diante da iminente remoção do pai para Brasília,  antevê sua formatura no planalto central do país e cantarola, tomando todo cuidado do mundo para que o pai não escute, sobre a cabeça os aviões, sob meus pés os caminhões, aponta contra os chapadões, meu nariz. Agora, décadas depois, Heloísa Ferraz Prado, professora doutora, titular da cadeira de Literatura Brasileira, especialista em Romantismo brasileiro, recolhe seus livros e memórias. Esposa do empresário Geraldo Prado, carrega no semblante um ar de mistério, de fadiga ou de mulher traída, o que é mais trágico. Uma Medéia moderna, arrastando sua bolsa e seus livros de teoria e crítica literária, sua poção de cicuta. A literatura é o que me mantém de pé, ela crê em meio ao vazio e ao tédio.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8347121646018952839?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8347121646018952839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8347121646018952839' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8347121646018952839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8347121646018952839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/ppmj-parte-i-impeto-caps-5-e-6.html' title='Ppmj - Parte I - Ímpeto - Caps. 5 e 6'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Sjen15pYRuI/AAAAAAAABKc/lWbGVOtO9NQ/s72-c/LS.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-2335863064996816983</id><published>2009-06-15T11:06:00.011-03:00</published><updated>2009-06-16T11:39:21.686-03:00</updated><title type='text'>Ppmj- Parte I - Ímpeto, Cap. 4</title><content type='html'>&lt;strong&gt;4&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjeuExEchXI/AAAAAAAABK8/uRXDQS1sX6E/s1600-h/GII.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjeuExEchXI/AAAAAAAABK8/uRXDQS1sX6E/s400/GII.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347934479440446834" /&gt;&lt;/a&gt; Comércio no Guará II/DF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia estava prometendo, e não era coisa boa não, logo cedo um cadáver me aguardava. Era pouco mais de oito horas quando cheguei ao local, um velho edifício de dois andares, repleto de pequenos apartamentos de quarto e sala. No térreo, algum comércio, quitanda, armarinho, locadora de vídeo, pizzaria, padaria, bar e uma placa enorme indicando Igreja Universal do Império Divino. Havia alguma movimentação de populares. Dois carros da Polícia Civil, uma viatura da Polícia Militar e o rabecão escuro do IML aguardavam estacionados, chamando a atenção dos que passavam. Cumprimentei os companheiros de ofício, que me indicaram o caminho. Ouvi quando um dos policiais militares gritou em direção ao interior do apartamento: O Investigador Michel tá na área. Permitam que me apresente: Michel, investigador da Polícia Civil do Distrito Federal. &lt;br /&gt;Na sala do pequeno apartamento, uma equipe do Instituto de Criminalística se revezava na busca por pistas, impressões digitais, fones, fotos, pentelhos, enfim, qualquer coisa que pudesse nos ajudar a resolver o crime. Os peritos marcavam o corpo no espaço, delimitando sua postura, um trabalho árduo, executado por homens e mulheres das mais diversas formações acadêmicas. A perícia técnica da cena de um crime é como a montagem de um quebra-cabeça funéreo. As peças estão quase todas lá, é necessário estar atento. Os sentidos estão aguçados sobre o local que, na medida do possível, fora preservado pela polícia militar e certamente teria muito a dizer. Nenhum indício de luta ou arrombamento. O apartamento tinha toda uma cara de república estudantil. Um quê de improviso e desleixo. Cheiro de perfume barato e desinfetante. Algumas roupas e brinquedos espalhados pela sala, pratos e copos sujos na pia da cozinha, plantas em evidente sinal de abandono, secas. E nessa época a secura do planalto é uma maldição para bichos e plantas. As pessoas secam, racham-se, como o leito seco de um rio. Brasília nessa época do ano é um exercício de persistência, testa nossos limites, a garganta seca, as freqüentes enxaquecas, a dificuldade para respirar, o nariz sangrando. Lembro que minha mãe costumava espalhar vasilhas cheias de água pela casa. Ainda hoje faço isso, complemento com toalhas encharcadas que deixo na cabeceira da cama antes de dormir e que, no dia seguinte, encontro completamente secas, nenhum sinal de umidade. Observei na estante uma estátua de São Francisco de Assis, algumas fotos de família, contas de água, luz. Num cinzeiro, algumas baganas de cigarro e sementes de mexerica. A equipe de peritos vasculhava gavetas, armários, geladeira, cesto de roupa suja, agenda telefônica, revistas da Seicho-no-iê, álbum de retratos. A cena que me esperava no quarto não era das mais agradáveis, embora já tivesse visto piores. Mas, como disse anteriormente, ao invés de me tornar insensível a cada tragédia dessas, estava em evidente processo de decomposição do espírito. Portanto, embora fisicamente não fosse imagem das mais grotescas que presenciei nos meus 14 anos de profissão, era com certeza das mais tristes. Declamei para meu asco: “In Goya’s greatest scenes we seem to see / the people of the world / exactly at the moment when / they first attained the title of  / ‘suffering humanity’ ” A poesia é para ser cuspida no beco sujo, ou do beco sujo. Trago versos de cabeça e coração. Nessas horas de asco absoluto, me são mais úteis que qualquer outra coisa. Uns citam salmos; eu, poesia profana. Eu destôo. Para começo de conversa havia uma criança chorando nos braços de uma policial que tentava acalmá-la. Uma menina de cerca de três anos, loirinha, de bochechas rosadas e cabelos encaracolados. Filha da vítima, alguém me disse com cara de consternação. A menina chorava e com certeza não era apenas fome. Tinha as mãos e a camiseta sujas de sangue, aparentemente não apresentava ferimentos, o que nos fez presumir que tenha se manchado no sangue da mãe tentando, inocentemente, despertá-la de um sono eterno. O perito Ozzy – apelido de um jovem bio-químico de visual hell angel, Harley Davidson e jeans desbotado, que tem como marca principal estar sempre, em qualquer cena de crime, com seu walkman berrando Sttepenwolf ou Jefferson Airplane -  havia coletado sangue da vítima e da criança. Em casos como esse, mesmo que a princípio pareça ser desnecessária, é importante a análise do material. Essa análise pode, em muitas das vezes, significar a resolução de um assassinato ao ligar um suspeito ao delito pela impressão do tipo sangüíneo na arma do crime, ou mesmo nas roupas do assassino. Coitada, lamentei olhando a menina a chorar no colo da policial. Sobre a cama, totalmente nua, em decúbito ventral, tornozelos e mãos amarrados para trás, olhos esbugalhados e frios, a boca lacrada pelo cinto de um roupão de banho, a vítima, uma mulher, loira, cabelos longos e lisos, cerca de 25 anos. Um enorme rombo na nuca, sangue espalhado pelos lençóis da cama e espargido pela parede. Alguém havia desferido fortes golpes na cabeça daquela mulher. Quem quer que tenha cometido essa atrocidade sujou-se, literalmente banhou-se em sangue, e suas roupas, se ainda intactas – duvido muito - têm a digital genética da vítima. Aparentemente nenhum sinal de abuso sexual, tudo no seu lugar, nenhum sinal de briga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjZZVLElF4I/AAAAAAAABKE/vymsNHVweIo/s1600-h/giger2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 370px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjZZVLElF4I/AAAAAAAABKE/vymsNHVweIo/s400/giger2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347559827833165698" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu Deus, que barbaridade. E nessa hora lembrei-me da criança chorando nos braços da policial. Porra,será que a garota presenciou tudo isso? Terá assistido ao assassinato da própria mãe? E a repulsa me invadia e tentava dessa forma nublar meu raciocínio. Isso não poderia acontecer. Pelo estado de rigidez cadavérica e pelos livores hipostáticos, um dos peritos estimou que estava morta há horas, a pelo menos dez horas. Isso delimitaria o horário do assassinato entre nove e dez da noite anterior. Ela foi trazida para a cama, continuou me dizendo o perito, há resíduos de sangue no rejunte do piso de cerâmica, tentaram limpá-los mas não conseguiram. Esses resíduos indicam que ela foi atacada perto da porta e só depois veio para cá, concluiu apontando para  a cama.&lt;br /&gt;O que pude levantar nessa manhã, ainda no local, com vizinhos, era que a vítima morava há pouco tempo ali. Moça de hábitos discretos, saía logo cedo com a filha, voltava no fim do dia. Apesar de bonita, jovem, tesuda, me disseram maliciosamente, não recebia visitas masculinas. Era uma mulher de pouca conversa, nenhum amigo, de estranha solidão. Ela não tinha nem namorado, me disse um vizinho, pelo menos nunca vimos, né Rosa? Pediu a confirmação da mulher. Uma das vizinhas, entretanto, uma gorda de oleosidade asquerosa, lembrou-se de que um certo senhor apareceu por lá algumas vezes. Normalmente à noite, rapidamente. Faz tempo que não dá as caras, concluiu evidentemente nervosa, enxugando as mãos na saia e ralhando com o filho, um rapaz encorpado, de olhar alucinado, que a todo instante perguntava por uma boneca. Ele é fraco das idéia, o senhor me desculpe. Eu fiz um “tudo bem” com um movimento afirmativo de cabeça, combinando da melhor forma um sorriso besta com um olhar estúpido, sabem como é, não é? Aquele jeito de idiota amarelado que a gente costuma liberar nas situações mais comuns, como quando encontramos alguém mais ou menos conhecido na rua, quando alguém nos cede a passagem gentilmente ao entrar no elevador, quando nossos olhares se cruzam com olhares desconhecidos já dentro do elevador ou quando, destilando nossa hipocrisia, elogiamos falsamente algum imbecil repulsivo que por acaso é nosso superior imediato ou detém poder suficiente para nos fazer hipócritas, enfim, quando a gente é mesmo besta e natural. Ah, puxou-me pelo braço e continuou a mulher ao lembrar-se de algo que julgou importante, quase ia me esquecendo, ontem esteve um homem na casa dela. Foi durante a tarde. Eu nunca tinha visto ele. Um moço vistoso, de terno e gravata, cheiroso que só vendo. Muito elegante. Mas saiu logo. Não que eu fique espiando a vida dos outros, sabe? Mas, nesse caso, por pura coincidência, eu vi quando ele saiu. Esse era um dado interessante e teria que buscá-lo, de uma forma ou de outra. É de estranhar que ninguém tenha visto nada, ouvido nada. Com a cantoria escandalosa que esses crentes aí do Jeová faz, ninguém pode ouvir nada, seu polícia; nem o Fantástico eu ouço direito desde que eles botaram essa franquia da Igreja deles aí embaixo. É um tal de regogijaivus que dá nos nervos da gente, me disse um senhor de óculos e prestações atrasadas. Deixei o número do telefone da delegacia e pedi que me fornecessem qualquer informação que julgassem pertinente. Tive que explicar com calma e paciência o que significava “pertinente”.&lt;br /&gt;Nos documentos encontrados, descobrimos chamar-se Júlia de Assis Buonarrotti, 23 anos, funcionária pública do Ministério da Saúde, sem familiares em Brasília. A filha, Laura Buonarroti, prestes a completar 3 anos, de pai desconhecido. Providenciamos comunicar o óbito aos parentes em Jataí, sudoeste goiano. Para nossa surpresa, uma pequena agenda telefônica trazia uma lista de nomes singular, alguns muito conhecidos, outros nem tanto, mas com certeza endinheirados da cidade, respeitáveis, casados, maduros, pessoas ilibadas, defensoras públicas da moral, dos bons costumes. Pelos nomes conhecidos, seus cargos, sua projeção pública, era inegável tratar-se da mais fina camada impoluta de nossa sociedade, homens dignos, de candura e retidão de princípios, quase santos. Não foi difícil concluir as atividades extra-ministeriais da moça. Pela importância em cifrões de alguns daqueles nomes, era de se estranhar que vivesse tão humildemente. &lt;br /&gt;Vi quando o pessoal do Instituto Médico Legal saiu carregando o cadáver numa cuba de aço imunda. Vênus estigmatizada, pensei. O rabecão levou sua presa. A menina foi encaminhada para exames médicos e posteriormente seria entregue à Assistência Social. O circo foi, aos poucos, baixando sua lona, cerrando cortinas, apagando as luzes. Findava-se mais um espetáculo cotidiano.  O acanhado apartamento do decadente edifício San Moritz  ficou em silêncio, com o sangue de Júlia enfeitando suas paredes e a imagem do assassino esquecida pelo ar. Tive a nítida impressão de estar sendo observado por um estranho homem vestido desleixadamente, chapéu verde escuro, destoando do grupo de curiosos. Nossos olhares se cruzaram e penso que ele sorriu antes de desaparecer entre os populares. Meu grande problema atualmente é acreditar no que vejo, desconfio muito de meus sentidos, e creio agora que tudo foi apenas impressão, apesar de ter ficado em mim aquela sensação estranha que me veio do sorriso do homem de chapéu verde. &lt;br /&gt;A arma do crime não foi encontrada no local. Pela natureza dos ferimentos, apontava-se para um instrumento de natureza contundente, um martelo, desses comuns, mas isso seria objeto do exame perinecroscópico. Era óbvio que o autor daquele crime se incumbira de fazer desaparecer tudo que pudesse incriminá-lo. O fato de não haver sinais de arrombamento em portas ou janelas, nem indícios de luta ou violência repelida, nos dizia que o assassino, ou assassinos, era conhecido da vítima. Um amigo? Ex-namorado? Amante? O homem cheiroso que a vizinha gorda vira durante o dia? Encontramos na carteira de documentos de Júlia, além de uma boa quantia em dinheiro, o cartão de visitas de Geraldo Borges Prado, empresário da construção civil. Seu nome era um dos que constavam da agenda apreendida no local. Certamente era um dos seus clientes. &lt;br /&gt;Para quem não se recorda desse nome, basta vasculhar na memória as denúncias envolvendo um ex-presidente. Geraldo Borges foi um dos nomes citados no relatório do impeachment como laranja do então presidente da república. Convocado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito pela suspeita de envolvimento com as fraudes no orçamento, acabou por ser inocentado de todas as acusações, nada foi provado contra ele. É um dos homens mais ricos da cidade, empresário agressivo e poderoso. Desde o escândalo evita badalações, casado, sem filhos. Meu estômago queima. Apenas café preto, um veneno para minha gastrite que quer ser úlcera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*)Iconografia - H.R.Giger&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-2335863064996816983?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/2335863064996816983/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=2335863064996816983' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2335863064996816983'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2335863064996816983'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-pra-matar-julias-parte-i_1736.html' title='Ppmj- Parte I - Ímpeto, Cap. 4'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjeuExEchXI/AAAAAAAABK8/uRXDQS1sX6E/s72-c/GII.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-2196918332793017374</id><published>2009-06-15T11:03:00.004-03:00</published><updated>2009-06-16T11:35:25.490-03:00</updated><title type='text'>Ppmj- Parte I - Ímpeto, Cap. 3</title><content type='html'>&lt;strong&gt;3&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjetjELXfyI/AAAAAAAABK0/K12D7ztBlTY/s1600-h/aerop.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 264px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjetjELXfyI/AAAAAAAABK0/K12D7ztBlTY/s400/aerop.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347933900454199074" /&gt;&lt;/a&gt; Aeroporto de Brasília/DF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A essa hora da manhã o saguão do aeroporto está repleto de homens de terno e gravata, políticos, lobistas, funcionários públicos, mulheres trajando vestuário de uma sutil masculinidade, olhos sonolentos de agressividade evidente. As filas serpenteiam pelo saguão seus corpos de alguns milhões de reais e petulância, de altos salários e jogatinas, de corrupção e consciência tranqüila. Alguma flatulência, é óbvio, pois executivos também peidam, mas camuflam seus odores com Chanel n.5 e CK. Aguardando seu lugar na fila, um homem muito bem vestido, Armani de corte perfeito e sofisticado, cabelo e barba grisalhos, cinqüenta e poucos anos, lança olhares ardentes aos seios da recepcionista, uma mocinha espargindo estrogênio, dentes e pulseiras, e uma invisível micose vaginal que a faz remexer-se constantemente na cadeira. Microscopicamente, entre as pernas, milhões de bactérias fazem a festa na parede interna da vagina de  Eliete, futura desempregada da VARIG. Pulam e dançam a patologia que constroem na cona da moçoila que socraticamente se questiona: De onde vieram? Do pênis daquele piloto do sábado? Ou terá sido daquele rapaz da lanchonete? Ela pensa e se remexe sobre o banco enquanto digita os dados de seu passageiro no monitor a sua frente. “Embarque às sete e quarenta e cinco, portão 9, tenha uma boa viagem  senhor”. A moça da companhia aérea não é de se jogar fora, pensa ele com a mão no bolso direito da calça de linho escuro ocultando um quase-priapismo, uns peitinhos orgulhosos que ...hummm, morde os lábios, me enchem a boca d’água. Ainda tenho alguns minutos, tempo suficiente para um cafezinho e uns cigarros. Assim mesmo, leitor besta, no plural, cigarros, pelo menos três destes venenosos cilindros de tabaco. A viagem para o Rio me tomará pouco mais de uma hora, e sem cigarro é foda. Todos os papéis estão aqui, não devo ter esquecido nada, D. Sofia marcou a reunião para as dez horas. Um expresso, por favor, ao rapaz da lanchonete. Repousa a pasta de couro preta sobre a bancada de mármore, retira o celular: Será que já está acordada? Não custa tentar. Oi, te acordei? Sim, sou eu, como está? Foi ótimo, estou ainda em estado de graça. Não, ele embarcou antes de mim. Também já estou com saudades. Verdade? Vai lá em casa hoje? Não, é claro que não te esqueço, ainda sinto seu cheiro, sabia? Que nada, ela não desconfiou de nada. E ele? Também te adoro. Quando voltar nos falamos, um beijo.&lt;br /&gt;Nos últimos três meses essa tem sido a rotina de Geraldo Prado, reunião toda segunda-feira com clientes no Rio de Janeiro, onde sua empresa toca um grande projeto, a construção de quatro enormes edifícios num condomínio de luxo na Barra da Tijuca, e disputa concorrência municipal e estadual para construção de um parque poliesportivo.  Costuma viajar num pequeno avião de propriedade da empresa, mas justamente neste dia, devido à manutenção do aparelho, está usando a ponte aérea de linha comercial. Integra sua equipe para essa viagem, o diretor financeiro, João Carlos, amigo de infância, seu braço direito, marido da mulher com quem acaba de falar ao telefone, e para a qual providenciou que entregassem um enorme buquê de rosas vermelhas com um cartão dizendo: “Você me enlouquece completamente. Assim que voltar, continuamos nosso joguinho. Beijos, G.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-2196918332793017374?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/2196918332793017374/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=2196918332793017374' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2196918332793017374'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2196918332793017374'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-pra-matar-julias-parte-i_15.html' title='Ppmj- Parte I - Ímpeto, Cap. 3'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjetjELXfyI/AAAAAAAABK0/K12D7ztBlTY/s72-c/aerop.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8913373732974601496</id><published>2009-06-12T20:10:00.004-03:00</published><updated>2009-06-16T11:31:06.811-03:00</updated><title type='text'>Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap.2 (continuação)</title><content type='html'>&lt;strong&gt;2&lt;/strong&gt; (continuação)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas pequenas tragédias me deixam cada dia mais descrente, portador de um pessimismo doentio, como se um vírus poderoso, amargo, medonho, tivesse se apossado de meu corpo, entranhando-se nas mais profundas regiões de meu espírito e a partir desse grande abismo que me preenche a carne, agisse como o abutre no fígado de Prometeu, dia a dia bicando meu corpo, minando minhas energias, apossando-se de minha alma, enegrecendo-a, apodrecendo-a, fazendo-a porejar um líqüido viscoso e fétido que me tem consumido lentamente, tornando-me o homem bizarro e triste que tenho visto no espelho. Um zumbi. Era de se esperar que meu coração já estivesse calejado com essas desgraças, mesmo porque trabalho numa região violenta, onde crimes como esse se sucedem de maneira crônica, quase banal. Outro dia presenciei a busca desesperada de alguns alunos do curso de Letras de uma faculdade em Valparaíso de Goiás, uma cidade do Entorno do Distrito Federal, por um professor de literatura que há dias não aparecia. As informações que dispunham sobre o rapaz apontavam para um provável seqüestro relâmpago. Dias depois dessa pequena manifestação à porta da delegacia, encontramos um corpo em adiantado estado de decomposição, numa estrada de terra na região rural de Luziânia. Tudo indicava ser o professor desaparecido, e os primeiros indícios desenhavam um quadro aterrador. O rapaz estava amarrado, marcas de tortura por todo o corpo, o membro viril arrancado. A cena do crime nos levava a crer que havia sido abandonado ainda vivo, amarrado a uma árvore, naquela estrada isolada, para morrer lentamente, sofrendo dores inimagináveis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“OS ANJOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;This he said to me&lt;br /&gt;"The greatest thing you'll ever learn&lt;br /&gt;Is just to love and be loved in return"&lt;br /&gt;Eden Ahbez, em Nature boy&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Lincoln, que não cheguei a conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poeira provocada pela passagem do carro que carrega os exterminadores já pousou sobre as coisas vivas e mortas. O ermo é paisagem. Nada além de um chiado leve, gemido, indicando a presença do sofrimento onde parecia não haver nada. Visagem. Assim, devagar, bem devagar. Primeiro uma gota, escura, amarga, exalando um cheiro horrível de podridão e dor, caindo para de, não importa mais. Sem barulho algum além do da respiração ofegante e agoniada, no compasso da desgraça e do desespero que parecem se findar na marcação do metrônomo da tragédia. Gotas várias de um sangue muito negro e fétido escorrem pela terra, vermelha terra do cerrado, mergulham nas raízes da sibipiruna, alimentando a matriz exposta do capim seco prestes a arder-se em chamas.. Longe, a escuridão pesada do abandono e da ausência de carinho. Só dor, profunda dor que preenche cada espaço do pensamento que tende a não mais pensar. Não é possível mais sentir onde não dói, onde não sangra, onde não fede, onde não escapa a seiva vital. Tudo massa disforme e pútrida, ainda movendo-se sobre e sob a respiração que parece desaparecer, assim, devagar, bem devagar. Envoltos em fita crepe, sob carne macerada que expõe ossos partidos, tutanos, artérias e tendões e alguns dentes arrancados, há sonhos que nunca se realizarão e outros que, realizados, se perderão na decomposição da matéria e repousarão, carbono e fósforo e potássio e cálcio, na frialdade inorgânica da terra; prazeres que nunca serão gratificados, gozos que não serão gozados, sêmen que apodrecerá na origem; medos que não terão mais razão de existir, pois a escuridão adentrou definitivamente o espírito; leituras que se perderão sob a o último lampejo neuronal e que levarão consigo, para lugares insuspeitados, os  machados e clarices e rosas e pessoas e dantes e goethes e augustos e; sorrisos e lembranças e resquícios de outros corpos que não mais existirão ali, ali naquele monturo, naquela coisa, naquele traste, naquele treco, naquele troço, naquilo que já foi um homem e que agora poreja, goteja um líquido escuro e de odor insuportável. Aquele pacote envolto em fita crepe, assim imobilizado para o exercício da pancada e para a delícia do mais profundo e escuro prazer bestial, com pêlos saindo pelas frestas manchadas de sangue e pedaços marcados de carne, foi um dia o amante que fodeu e foi fodido, que gozou e foi gozado, que deu prazer e recebeu prazer; o amigo que abraçou e que beijou e que chorou a ausência e que perdeu o sono e que sentiu sede e que chorou em Cinema Paradiso e sorriu em Morte em Veneza e que xingou o guarda de trânsito e que lamentou a perda de cabelos e o ganho de peso e que telefonou de madrugada se desculpando por ter esquecido o teu aniversário e que detestava comer fígado mas adorava carne moída com batatinha e ervilhas e que nutria o  mais íntimo desejo oculto de fazer sexo grupal e que se preocupava com o fato de estar chegando aos trinta sem ter adquirido uma casa e que ultimamente andava insone por causa de; aquele objeto encolhido ao pé da árvore seca do cerrado continha o cidadão que reclamou na fila do banco e que votou para eleger o presidente da república. Aquela escultura de carne triturada, argamassa de tecido e sangue, um dia foi o sorriso que encantou mulheres e homens, o menino que soprou as cinco velas de um aniversário que, ocorrido há vinte e três anos atrás, não mais existirá, a não ser nas fotografias guardadas na lembrança de um vulto feliz de mulher; foi o estudante que declamou poemas de Florbela Espanca...espanca. Ontem ainda acreditava num futuro. Mesmo quando, colhido pela inexorabilidade da peçonha e da traição, encarou a figura da morte e da crueldade, ainda havia dentro dele, pequenina, a esperança de que se lembraria daquilo um dia com pavor, mas vivo e pleno. Quem algum dia saberá realmente? Agora, parece não haver mais movimento no meio daquele espetáculo de sangue e fita crepe. È o último dos instantes, o ínfimo, o limiar. Tudo o que é efêmero é somente preexistência; O humano-térreo-insuficiente aqui é essência; O transcendente-indefínível é fato aqui; O feminil-imperecível nos ala a si. Só pequenos répteis e insetos presenciaram o momento em que, após Murdad, cortando o fio primordial que nos faz ser, separar com as mãos de éter e mistério o corpo da alma, Azrael, o imenso anjo de quatro mil asas e bilhões de olhos e línguas, desceu do não-onde-e-sempre trazendo a indesejada das gentes. Agora, apenas o vento seco do cerrado envolvendo o corpo sem vida do rapaz, assim, devagar, muito devagar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para meus companheiros de equipe, na delegacia, um fato assim é tão chocante quanto insignificante, um mero registro de ocorrência policial; algum espancamento no quarto dos fundos da delegacia e logo estão em forma, prontos para nova ocorrência, queima-se a neurose na pancada. Os hematomas que os pés-de-chinelo exibem na pele são diretamente proporcionais ao valor que se economiza em honorários de psicólogos. Lacan? Freud? Jung? Que nada! Uma boa sessão de pau-de-arara corresponde a uma eficaz descarga de catexia afetiva. E essa é a outra terrível metade desse jogo infernal, para aliviar a revolta, espanca-se, pendura-se no pau-de-arara, tudo se resolve com porrada cega e inexorável. E nessa roda viva acabam por espancar gatunos chinfrins, trabalhadores bêbados, travestis briguentos, punks drogados, assassinos, enfim, uma chusma de desvalidos. Todos nivelados pela terapêutica do chicote.&lt;br /&gt;Estava envolto nesses pensamentos leves quando o celular tocou e a voz familiar do Tadeu me avisou que tinha trabalho a fazer. Homicídio, disse-me, e passou-me um endereço. Para mim, apenas um trabalho a mais, um novo registro de ocorrência. Na sala ao lado, algumas mulheres transpiravam aos cântaros, malhas coloridas coladas ao corpo expondo a gordura que anos e partos trouxeram, fazendo ginástica ao som de Allways on my mind, com os Pet Shop Boys. Em Memphis, Elvis deveria estar chupando os próprios ossos. Já vai? Perguntou-me o rapaz musculoso, enquanto conferia os bíceps no espelho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8913373732974601496?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8913373732974601496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8913373732974601496' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8913373732974601496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8913373732974601496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-para-matar-julias-parte-i_172.html' title='Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap.2 (continuação)'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8526676147056025863</id><published>2009-06-12T20:06:00.007-03:00</published><updated>2009-06-16T11:30:37.342-03:00</updated><title type='text'>Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap.2</title><content type='html'>&lt;strong&gt;2&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madrugou hoje, hein? brincou comigo o rapaz da academia, um garoto com músculos demais, neurônios de menos, desses que têm como passatempo levantar ferros e principal atributo intelectual relacionar, um a um, todos os campeões dos Mundiais de Vale-tudo, e ele estava certo quanto a madrugada. Caiu da cama? Sapecou-me enquanto coçava o saco e conferia a carga de peso que uma moçoila sardenta preparava para levantar com os músculos da bunda maravilhosa que ostentava. Há tempos não acordava tão cedo e, principalmente, tão bem disposto. Praticar exercícios, para mim, sempre foi uma espécie de castigo, de ritual de auto-flagelação, algo que se devia fazer uma vez na vida, como a visita a Meca, e fazer apenas para sentir na pele o quão horrível é praticar exercícios. Uma perda de tempo. Não consigo entender como existem idiotas que perdem horas de seu tempo puxando ferros, fazendo flexões, suando em bicas. Para quê? Endorfina? Conversa para boi dormir. Um bando de masoquistas, isso sim. Podem perceber como sou dramático? Mas hoje realmente estou de bem com a vida. Tenho andado estressado, mais quilos gordos que saúde, o estômago sempre em brasa, uma gastrite a caminho de úlcera. Ou úlcera tímida oscilando entre ser e não ser. Sabe lá o que se passa dentro de mim! Esta é a minha zilionésima tentativa de largar o cigarro e desta vez, como das outras, não tenho intenção alguma de sair derrotado. Ontem, depois de muito tempo, consegui dormir cedo, antes da meia noite. Abri uma última cerveja e nem tive tempo de saboreá-la, apaguei na sala, de frente para a televisão. Adormeci assim, sem pecado e sem peso algum na consciência. Um anjo bêbado. Acordei por volta das cinco da manhã, arrastei-me ao banheiro e meti este corpo sedentário sob o chuveiro quente. Bebi um café forte e muito quente na panificadora da quadra e desci até a Academia onde me torturo. &lt;br /&gt;Ando precisando de férias, matuto enquanto pedalo a ergométrica e queimo minhas calorias que, no fundo, não são tantas assim. Sou magro e fumante e sedentário e solitário e punheteiro e poeta enrustido. Sou uma sucessão de “e”, aditivos que me compõem e me fazem existir. Cansado, necessito praia, sol e sombra, muita sombra e sol e praia. Necessito rede e água de coco. Meu corpo anda clamando por ócio, como um cão por osso. Cansaço é o meu nome. O trabalho na delegacia me toma todo o tempo do mundo, como se o mundo estivesse enlouquecido e enlouquecendo a todos. No sábado assisti à reconstituição do assassinato dos três rapazes no Entorno. Bárbaro, cruel, bestial. Os assassinos, dois viciados, ladrões pés-de-chinelo, não demonstraram remorso, nenhuma dor, nada, com relação àqueles três infelizes que eles desintegraram. Apenas a crueldade exposta em cada gesto, palavra, sob as unhas imundas. Um jeito orgulhoso e arrogante estampado nos dentes cariados, um desfile absurdo de barbaridades, imunes a qualquer sensação de pena. Durante o escabroso processo de reconstituição do crime, simplesmente riam de algumas passagens que, mesmo a homens escaldados com a violência, nos faziam ter engulhos físicos e emocionais. Um disparate. Ao serem inquiridos sobre o que acharam da tarefa de reconstituir o crime, um deles, o mais novo, contentou-se em dizer: Foi massa, véi. Assim, patético, estúpido, sem a mínima consciência da tragédia que causaram. Três jovens universitários, amarrados, seviciados e queimados vivos, numa noitada de muito crack e álcool. É óbvio que esses elementos tinham corpo e alma calejados de porrada e pico e fumo e coca e o escambau; óbvio que esses miseráveis atravessaram todos os infernos e ainda sofreriam e fariam sofrer; óbvio que não eram criaturas padrão; óbvio que sabiam muito bem onde iriam parar, as porradas que viriam anestesiá-los, que fim iriam ter. A simples visão de suas carcaças sem futuro despertava em nós os desejos mais bestiais, desejos que muitos não conseguem conter, razão pela qual é tão comum a ocorrência de presuntos nas redondezas.  Um maldito ciclo vicioso que acaba nos colocando num mesmo barco, a nau dos insensatos, condenada a soçobrar violentamente e sem esperança.&lt;br /&gt;Há muito compactuo com a idéia de que o ser humano é um ser inviável e o depoimento desses malucos só veio reforçar a minha crença - ou melhor seria dizer minha descrença? O homem é, por natureza, cruel, bárbaro, bizarro. E não me venham falar em franceses ingênuos escrevendo sobre o meio e o homem, em más companhias ou coisa parecida, o homem por si só já é péssimo exemplo. Devemos humildemente reconhecer, para o bem deste planeta que andamos fodendo, que somos uma espécie inviável. Um vírus, um tumor incurável. Olhem as crianças, esses animaizinhos de sorriso meigo, vestidas de mamíferos em publicidade láctea.Vejam como são lindas essas criaturinhas dóceis. Não são uns anjinhos? Que porra de anjo o quê! As crianças são o exemplo sagrado da natural crueldade humana. Esses anjinhos são víboras terríveis. Creio que o que a Igreja Católica expõe no conceito de pecado original é justamente nossa barbárie atávica. Já pararam para observar como quando têm algum interesse essas criaturas angelicais de mãozinhas gordas e macias conseguem ferir, magoar, espezinhar, com o sorriso mais inocente estampado nas faces rosadas? Ou mesmo quando não têm um interesse imediato o fazem apenas por prazer? Ah, querubins da crueldade, serafins medonhos. Tudo friamente. Elas torturam suas vítimas com a mesma inocência com que chupam um pirulito, lambendo os beiços. Para elas, espancar o amiguinho frágil na hora do recreio, humilhando-o, espezinhando-o diante de todos os outros que sorriem disso tudo, tem o mesmo sabor do algodão doce colorido que o moço vende na porta da escola.  Extrair do coleguinha tímido e fraco um punhado de lágrimas ou gritos de dor é, para esses serafins medonhos, mero e divertido passatempo. Elas não têm ainda a noção do que é certo, ou errado. Você tem? Elas simplesmente são venenosas. Mas as crianças são apenas exemplos de como a crueldade é um exercício que praticamos desde a mais tenra idade. Lembro de um amigo dos tempos de faculdade, um rapaz magro, curvado, tímido e carrancudo. Era um sujeito de poucos amigos, eu era um deles. Privando de sua rara amizade, era dos poucos a quem permitia ler os contos que escrevia, umas histórias muito estranhas e tristes, porém muito bonitas. Foi pra ele que mostrei, pela primeira vez, uns versos que cometi. A música e a literatura nos uniu durante certo tempo, período em que pude acompanhar seu processo de decomposição. Ele tinha uma doença estranha, rara, um tipo de reumatismo que lhe atacava as articulações. Recordo-me de uma vez em que fui visitá-lo no Hospital Sarah Kubitschek, numa de suas constantes estadias forçadas. Coitado! Ao me ver, estampava os dentes amarelos e eu podia perceber que, mesmo sobre aquela cadeira de rodas, o pescoço envolto num colar cervical incômodo e bizonho, estava mesmo feliz em me ver e isso era bom.  O episódio que pretendo contar aconteceu numa reunião na casa de amigos comuns da faculdade. Estávamos bebendo, conversando, comentando os shows do Rock Cerrado, a guitarra de Pepeu Gomes, as pernas de Baby Consuelo, e a toda fruta Rita Lee, quando percebi que algumas pessoas se divertiam em chamar a atenção desse amigo, apenas pelo prazer cruel de vê-lo, com toda a dificuldade do mundo, virar-se lentamente, como um robô, em direção à voz que lhe chamava. Todos sabiam que as vértebras de sua cervical estavam comprometidas, o que lhe deixava com o pescoço travado, sem nenhum movimento, e mesmo assim, revezando-se nessa brincadeira idiota, faziam-no mover-se como um C3PO nada reluzente. Não me contive, berrei alguns palavrões e saí do lugar chutando as portas, chutando padre e pedra. Quando, anos depois, esse amigo foi encontrado morto com o estômago cheio de veneno de rato, no seu apartamento na 407 sul, um bilhete ilegível no bolso da calça (soubemos depois que era um trecho de um poema de Sylvia Plath e outro de Ana Cristina César, unidos numa estrofe única, siamesa, calcificada como suas vértebras), eu só pensei naqueles que se divertiam sobre seu sofrimento e chorei. Cruéis, cruéis. Somos todos cruéis, com pequenas variações e graus de crueldade. Escolas, igrejas, clubes, associações, catecismo, missa, reunião de pais e mestres, vigilantes do peso, alcoólicos anônimos, filhos de Maria, reuniões de partido, tudo nos ensina a controlar o demônio que trazemos do parto. Somos hoje o resultado dessa tentativa de nos proteger de nós mesmos. Em alguns, a maioria, alcançam-se belos resultados. Quando bem sucedidos, nos tornamos doutores, advogados, operários, policiais, padeiros, coroinhas, coveiros, securitários, enfim, ordeiros e dóceis. Nesses casos de perfeita normalidade, assistimos ao desfile de pais exemplares, padres que não comem (ou não deveriam) menininhos, políticos que não roubam (ou não deveriam), professores que professam, contadores que descontam, velhos aposentados esperando a morte na porta de suas casas financiadas. Não preciso dizer que esses bons moços passivos são a maioria, e é graças a eles que podemos tomar nossos cafezinhos tranqüilamente e acreditar no futuro, sem frio ou fome. Devemos? Mas alguns insistem em romper essas amarras, em não levar a sério toda a conversa fiada de ordem e de progresso, a duvidar de céu e de diploma, de cultos e salários, de democracia e igualdade,  e observamos patéticos as guerras, os assassinatos, as obras-primas. O demônio controlado naqueles bons meninos, parece fazer a festa nestes outros. Lá, paz e pecúlio. Aqui, jaz e bagulho. Arte é subversão, ou deveria ser sempre assim. Arte que pede benção é ofício e cartório, não merece o plenitude da luz. O artista e o assassino partilham o mesmo princípio de subversão e crueldade. Cada um, a seu modo e sangue, tem como função de vida explodir as regras, as leis, os costumes. Não matarás. E matam. Não pintarás distorcido. E pintam. Não cometerás adultério ou incesto. E fodem à vontade a mulher, as filhas, as irmãs. Não escreverás em versos brancos. E cometem longos e estranhos poemas. A arte e o mal caminham de mãos dadas, não é uma idéia de originalidade absurda? São irmãs siamesas. Imagens refletidas. Frutos da mesma escarrada do demônio. Se a visão maniqueísta de mundo prevalece, optar pelo mal, quando o mal significa transcender o feijão com arroz de nossas vidas, é questão de ordem, de vida e de morte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(continua...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8526676147056025863?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8526676147056025863/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8526676147056025863' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8526676147056025863'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8526676147056025863'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-para-matar-julias-parte-i_12.html' title='Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap.2'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-2388034716239283955</id><published>2009-06-12T11:50:00.003-03:00</published><updated>2009-06-16T11:29:13.096-03:00</updated><title type='text'>Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap. 1</title><content type='html'>&lt;strong&gt;1&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjesEHPRtII/AAAAAAAABKs/AKEted_gPgc/s1600-h/guara_ii.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 269px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjesEHPRtII/AAAAAAAABKs/AKEted_gPgc/s400/guara_ii.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347932269188330626" /&gt;&lt;/a&gt;  Guará II/DF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abriu um dos olhos embaciados de álcool e nicotina e viu quando chegou. Estava escuro, fazia muito frio, e ele alcoolizado demais para levantar-se. Ficou observando de longe, pendendo a cabeça onde um caminhão carregado de batatas parecia estar estacionado, segurando a muito custo o próprio peso. Uma mulher? Um homem gordo? Ele comprimiu os olhos tentando em vão focalizar melhor o vulto, discerni-lo entre tantos pontos de luz que brincavam diante dele. Não, um homem magro. Ou não? Um fantasma qualquer. O espectro chegou em silêncio, levantou com esforço a tampa de ferro de um bueiro e jogou algo lá dentro. Ele ainda viu quando a criatura derramou um líquido no buraco e riscou um fósforo, ateando fogo. Fogo bonito que veio após o estampido seco e grave do álcool em combustão, queimando tudo e ofuscando o auxiliar de pedreiro que assistia a tudo, anestesiado. Era madrugada, fria madrugada de um domingo. Ele acordou no dia seguinte sem lembrar de coisa alguma do que se passara, de onde deixara os documentos, como chegara ali. Sonhara um fantasma atiçando fogo no meio da rua, um sonho estranho e real, como todo sonho que se preze. Tia Zélia, pensava ele, ia cortar-lhe o saco, Seu troço ruim, perdeu tudo de novo não é? E Leopoldo, Cabra, não te quero mais aqui, é uma carraspana atrás de outra? Ele antevia tudo enquanto levantava-se cambaleante, farrapo com dentes em ruínas, furúnculos crônicos, recorrentes, de hálito exalando necrose, carniça, olhos vesgos ocultos por lentes grossas quanto o fundo de uma garrafa de conhaque. A roupa imunda, dormira no chão de terra vermelha, um pó fino que tentou eliminar batendo vagarosamente, numa cautela sensata e necessária, uma dor de cabeça monstruosa, o caminhão de batatas ainda estacionado em seus miolos, freio de mão puxado e o pé fendido de Satanás bem fundo no acelerador.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-2388034716239283955?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/2388034716239283955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=2388034716239283955' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2388034716239283955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/2388034716239283955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-pra-matar-julias-parte-i.html' title='Ppmj- Parte I - Ímpeto - Cap. 1'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjesEHPRtII/AAAAAAAABKs/AKEted_gPgc/s72-c/guara_ii.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8980475697100133981</id><published>2009-06-12T11:00:00.011-03:00</published><updated>2009-06-16T11:41:31.267-03:00</updated><title type='text'>PreteXtos para matar julias (Ppmj) - Abertura</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-e146a281facf9c8d" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v2.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3De146a281facf9c8d%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331901895%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D14A018B05A28D742C226B8A1471BCF3AA3C01A38.1EB7CB6A21242B46C32872DD75263ACBCCE67D1B%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3De146a281facf9c8d%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DvoAjhNi3ErurOu8C3YWJVoFirCY&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v2.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3De146a281facf9c8d%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331901895%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D14A018B05A28D742C226B8A1471BCF3AA3C01A38.1EB7CB6A21242B46C32872DD75263ACBCCE67D1B%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3De146a281facf9c8d%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DvoAjhNi3ErurOu8C3YWJVoFirCY&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas são imagens do meu local de danação e redenção: meu escritório, em casa. Como podem ver, livros, discos, imagens. Um simulacro do mundinho protegido do autor. Da janela, o verde me vigia diariamente. É daqui que escrevo minhas histórias. A partir de hoje, publicarei a minha novelinha que deu nome a este blog: "Pretextos para matar julias". Diariamente, um capitulo do romance até aqui inédito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;PreteXtos para matar júlias&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;ABERTURA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    &lt;em&gt;Please to meet you, hope you guess my name&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diabo, como faz desde sempre, mordeu a própria cauda e sorriu medonho, não de dor, que diabo não sente dor, mas de prazer, que disso é feita a carne do anjo em desgraça. Mastigou-se, saboreando escamas, tecidos e cartilagens atemporais, com gozo e cólica profundos, e cuspiu sangue e pedaços seus pela testa escura da noite, sobre tudo e todos. Foi assim que tudo aconteceu e vem acontecendo desde que o grande pai pairava sobre as águas. Como dentes do dragão helênico, fragmentos do capiroto infiltraram-se pela terra fértil das almas humanas e ali, na lentidão típica das ameaças, brotaram como uma flor escura e perfumada, uma flor inebriante. O tempo, esse senhor sem pressa, rio lodoso e fértil, escarradeira do cão, deslizava sobre as gentes, inexorável, definitivo, brincando de apodrecer mangueiras e bambuzais, cultivando rugas, reumatismos e medo, desbastando esperanças e sorrisos, indiferente ao cancro, ao câncer ou ao bicho de pé - pois para isso existem os homens: para gotejar dores e humores, porejar rancores e vaidades, cuidar do passageiro, do fútil, do supérfluo. O humano é passagem, viagem, caminho. O diabo é vertigem, sonho, idéia. O tempo é voragem, vazio, saudade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjZZM5VIztI/AAAAAAAABJ8/ZBLXvnZ8WpM/s1600-h/giger.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 224px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjZZM5VIztI/AAAAAAAABJ8/ZBLXvnZ8WpM/s400/giger.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5347559685631823570" /&gt;&lt;/a&gt;              H.R.Giger&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8980475697100133981?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8980475697100133981/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8980475697100133981' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8980475697100133981'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8980475697100133981'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/06/pretextos-pra-matar-julias-novela.html' title='PreteXtos para matar julias (Ppmj) - Abertura'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SjZZM5VIztI/AAAAAAAABJ8/ZBLXvnZ8WpM/s72-c/giger.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-3512723440539230561</id><published>2009-03-01T16:47:00.003-02:00</published><updated>2009-03-01T16:56:20.163-02:00</updated><title type='text'>Gnomonia digital</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SarZffddpBI/AAAAAAAABJY/LOgY3V5xkvg/s1600-h/FeriasJampa2009+021.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 300px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SarZffddpBI/AAAAAAAABJY/LOgY3V5xkvg/s400/FeriasJampa2009+021.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5308294245853799442" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canyon Coqueirinho/PB&lt;br /&gt;Foto:LAF&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava lendo “Santo Sujo”, de Humberto Werneck, a biografia de Jayme Ovalle, e me deliciando com a legendária “Nova Gnomonia” desenvolvida pelo sujo santo Ovalle e registrada por Manuel Bandeira. Trata-se de uma categorização de homens, uma espécie de lista bem definida de tipos humanos, algo similar ao que o argentino J.L.Borges faz com os tipos de animais e que Foucault cita em “A palavra e as coisas”. Pensei imediatamente em meus amigos, tentando compor uma ou inúmeras características que os unissem e separassem, e pelo método analítico, como um antropólogo, ou psicólogo, eu os colocaria em categorias distintas, em compartimentos muito singulares. Muito difícil o tal trabalho. Mas acabei, dentro das várias tentativas que empreendi, coisa de quem não tem o que fazer, percebendo que meus missivistas eletrônicos carregam uma certa cara, muito específica, nas mensagens que me enviam por e-mail. Faça o seguinte: pense nos seus contatos, na sua lista de amigos no provedor em que mantém seu e-mail e você facilmente poderá identificar essas criaturas. Assim, cheguei a essa minha gnomonia digital:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anjos – são normalmente chatos, a gente até gosta deles (fazer o quê, né?), mas nos enchem a caixa postal com mensagens edificantes, normalmente acompanhadas de um “para sua reflexão”. Os anjos são pessoas boas, doces, ingênuas e muitas vezes, torno a repetir, chatas. Nos chegam com mensagens religiosas anunciando milagres, bondades, exemplos morais. Noutras, nos disparam suas correntes para alcançar o céu. Incluí nessa categoria todos os místicos, pois nem só de carismáticos e evangélicos é feito o mundo. Assim, recebemos mensagens de E.Ts. e anúncio do fim do mundo por um choque cataclísmico de um asteróide. Outro dia me enviaram uma mensagem dizendo que em 2012 passará por aqui um planeta chupão que nos levará, a nós os escolhidos, para um lugar melhor, ou será que é o contrário? Eu não presto muita atenção nesse tipo de mensagem e quero confessar aqui que normalmente deleto, sem ler, as mensagens dos “Anjos”. Essas pessoas caminham por Buda, Jesus, Astrologia, Ufologia, Chatologia, Nazca, Jerusalém. Recebo imagens de Cristo, de Maria, de galáxias, de Deuses e alguns diabos também. Os anjos gostam de nos desejar boa semana, bom dia, bom trabalho. Também são mestres em me avisar que Jesus me ama e que morreu por mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os putos – As mensagens dessas figuras normalmente trazem, por compromisso ético, um aviso “Cuidado ao abrir”. Está dada a deixa para um quase Atlas de Anatomia que acabamos de receber. Me vêm desses amigos um festival enorme de vaginas, e peitos, e fodas, e transas, que explodem na tela do PC sem pedir licença. Por eles aprendi o que é um himem, como se faz uma operação de mudança de sexo e uma lista de cornos e adúlteras. Haja close de cus, e bundas, e xotas, e pirocas, trabalhados pelo Photoshop. O mais comum é receber um arquivo com o seguinte assunto: “Confiou no namorado, caiu na net” ou então qualquer nome feminino no diminutivo “Patricinha, Sheylinha, Norminha...” e, é claro, o indefectível “Cuidado ao abrir”. Sempre sabemos o conteúdo da mensagem que um “puto” (ou puta, quero deixar claro, pois existem mulheres também nessa categoria) nos envia. Os anexos que suas mensagens nos trazem não podem ser vistos por menores, nem por certos maiores. Um anjo nunca poderia ver uma mensagem de um puto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Ongues – São aqueles que, preocupados com a extinção do bicho de pé da praia do Poço, nos encaminham enormes abaixo-assinados para preservação da espécie. São normalmente pessoas muito boas, de boa índole, e quase tão chatas quanto os “Anjos”. Por serem tão meigas, gostam de nos enviar apresentações em .PPS com fotos de animais, de crianças, de paisagens, todas elas com o fundo musical de Richard Clayderman ou algo tão horrível quanto. Os Ongues também gostam de encaminhar notícias sobre poluição, camada de ozônio, o fim de uma floresta, o efeito estufa, enfim, eles são uma espécie de GreenPEace digital, sempre atentos para nos infernizar com suas mensagens. Um Ongue não se contenta enquanto você não assinar aquela lista que pleiteia a libertação da baleia orca que estava em Free Willy ou então para que não se usem peles de animais. Um Ongue é sempre paradoxal, ou te encaminha uma mensagem pela liberdade total de expressão ou uma abaixo-assinado contra o aborto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vermelhos – Você reconhece um deles pelo assunto de suas mensagens: são sempre temas muito sérios, muito reais e, principalmente, políticos. Encaminham longas entrevistas de economistas sobre a crise mundial, de políticos sobre a reforma fiscal, de prefeitos sobre a responsabilidade fiscal, de artistas sobre a situação social do país, enfim, são especialistas em nos encher a caixa postal com assuntos muito sérios e muito chatos também. Os vermelhos são engajados, têm seu partido muito bem definido, ou são petistas (e dentro dessa subcategoria há os intragáveis, fanáticos como qualquer “anjo”) ou anti-petistas, afinal de contas a política do Brasil, nos últimos tempos, tornou-se um cenário maniqueísta por excelência. O que os une é justamente a visão messiânica que carregam: todos vão salvar o país da bancarrota e da crise. Um vermelho deve sempre ser tratado com cautela, pois pode ser que ele não fale nunca mais com você, no caso de alguma mensagem que fira seus pontos de vista. Os vermelhos raramente são putos e normalmente são mau-humorados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Tiriricas – Esses são muito bem-vindos, sempre. Suas mensagens são sempre piadas, das mais risíveis às mais desprezíveis. Os tiriricas, não se contentando em lhe enviar a piada (que você já leu diversas vezes, pois elas se repetem), ainda lhe contam pessoalmente, quando vocês se encontram num bar. E tome piada de português, de adúltero, de viados (com i mesmo, fica mais i-ncisiva a viadagem), de bêbados, de loiras etc. Um tiririca é, por princípio e essência, politicamente incorreto, afinal de contas, fosse o contrário, não haveria piada nunca. Um tipo de mensagem dos tiriricas é aquele indefectível “Frase do dia”. Quanta inteligência e poder de síntese nos trazem essas mensagens. Os tiriricas gostam de enviar tiras de sites de piada, vídeos, flagras, com o objetivo único de nos fazer rir. Suas mensagens, na maior parte das vezes, termina com a figura de um ratinho simpático morrendo de rir e o som disparando uma gargalhada. Muito cuidado ao abrir a mensagem de um tiririca, ele adora pegadinhas, sustos. São pessoas muito divertidas e às vezes muito sérias na vida real. Um tiririca pode ser um anjo decaído.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Treches – também conhecidos como “papa-defuntos”. O título já diz tudo, ou seja, ele identifica aquele seu amigo que adora enviar imagens que consegue com um amigo policial ou bombeiro, contendo corpos estraçalhados, muito sangue e tripas e tendões. As mensagens normalmente vêm acompanhadas de um singelo aviso “Conteúdo forte”, isso quando ele se lembra de te alertar que se trata de desgraça em desfile. E haja estômago. A gente abre a mensagem e cai logo uma perna no colo; depois uma cabeça decepada, um olho esmagado. São cenas de acidentes de carro, de moto, de avião. Corpos atacados por animais selvagens. Uma sucessão de desgraças que, se você não é um treche, tira sua alegria na hora e te dá uma vontade danada de dizer ao treche que copule-se. Notei que uma  certa recorrência de putos que são treches e isso talvez se explique pela psicanálise na junção de Eros e Tãnatos. Será?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os bate-volta – Esses não têm um tipo comum de mensagem, normalmente são mais sérios, menos tiririca. O que os caracteriza é o fato de que, num universo de mensagens que vão e nunca voltam, ou seja, espécie de mensagem retórica que não necessita resposta, eles insistem em responder. Um puto envia as fotos de uma morena, e eles retornam uma resposta comentando a morena. Um ONG lhe pede que proteja a sibipiruna azul do piauí e eles retornam uma resposta, que nunca é pedida devo destacar, comentando a situação do cerrado. Um tiririca lhe conta uma piada e ele, sem inspiração para comentar, mas pressionado pela necessidade inexplicável de responder, devolve a mensagem com um singelo KKKkkkkkk ou um ...rs. Os bate-volta não deixam mensagem sem resposta e a impressão que me passam é que sofrem pela ausência de bate-volta na sua lista de amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os velhinhas-de-taubaté – também conhecidos como Filhos de Orson. Para eles, tudo é verdade. São aqueles que mais distribuem correntes pela net. Pensei em batizá-los como correntistas, mas percebi que o seu problema é o excesso de crença. Sabe aquelas mensagens que te chegam dizendo que ao repassá-las para o maior número de amigos estarás ajudando uma criança a se curar de Fogo Selvagem na Patagônia? Aquela que afirma que a Microsoft vai te dar um Laptop novinho em folha caso comunique imediatamente a teus amigos a novidade tal? Ou então aquela mensagem que você já leu duzentas vezes e que diz que o filho de alguém está sumido há duzentos anos e o seu clique irá ajudar a resgatá-lo em Bornéus? Pois são essas as mensagens que os filhos de orson mais amam. Esse tipo de missivista também se caracteriza por disseminar as famosas lendas urbanas: o seqüestro de rins, os ataques de monstros, os chupa-cabras, o roubo de gasolina, etc. Apesar de assemelharem-se aos “Anjos”, o que realmente os diferencia é, por mais paradoxal que seja, a crença absoluta no lixo que circula pela grande rede. Toda velhinha-de-taubaté pode ser um anjo, mas nem todo anjo é filho de Orson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa é uma proposta simples e que não quer excluir o fato de que um Anjo pode ser um Tiririca e não abrir mão de ser um Ongue. Sei que normalmente um Anjo não tolera um Puto, e por essa razão, sempre que envio mensagens tenho que selecionar meu público, afinal de contas, enviar uma mensagem contendo imagens eróticas para um amigo evangélico é o mesmo que enviar uma foto de FHC para um amigo petista, não é mesmo? Essas categorias permitem uma certa mobilidade, não são castas, e por essa razão me surpreendo às vezes com uma mensagem maliciosa que me é encaminhada por Ongue com tendências a Anjo. Isso acontece sempre. Não sou anjo nem treche, mas tenho cá minha parcela de puto, de ongue, de vermelho e tiririca.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-3512723440539230561?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/3512723440539230561/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=3512723440539230561' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3512723440539230561'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3512723440539230561'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2009/03/gnomonia-digital.html' title='Gnomonia digital'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SarZffddpBI/AAAAAAAABJY/LOgY3V5xkvg/s72-c/FeriasJampa2009+021.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-6378755952925861472</id><published>2008-09-25T16:59:00.000-03:00</published><updated>2008-09-25T17:03:38.065-03:00</updated><title type='text'>Meu poema maior</title><content type='html'>Dia desses recebi, pela terceira vez, via e-mail uma mensagem “edificante” contendo, além da pergunta “Você é infeliz?”, uma seqüência de fotos impressionantes: registros da miséria ao redor do mundo. Tais imagens não me eram novidade, pois já havia recebido a mesma mensagem, com as mesmas fotos, mas a pergunta era “Você reclama da sua vida?”. Eu que, por natureza, só não sou mais pessimista que Graciliano Ramos (será mesmo que não sou?), senti efeito oposto daquele a que se propunha a tal mensagem: edificar em mim um sujeito acomodado e cheio de culpa, menos resmungão e menos infeliz com minha mazelas, uma vez que as alheias (as das fotos) eram muito maiores que as minhas. Ora, por esse princípio, a mensagem vinha me dizer: Fique feliz, por que os outros são infelizes ou, Não reclame da vida, pois tem gente pior do que você. Esse é um raciocínio raso e revela, sob uma capa de sentimentalismo tolo, uma miopia social tremenda. Pode espernear, caro leitor, mas grosso modo é justamente essa a conclusão que a tal mensagem me traz, pois ao questionar meu desassossego, minha infelicidade e meu desajuste diante do mundo, ela o faz esfregando em minha cara o desassossego, a infelicidade e o desajuste do outro, querendo construir em mim um cidadão que aceita seu destino e é feliz, por que outros são completamente infelizes.  A leitura desse tipo de “bem-intencionada” literatura da grande rede remeteu-me ao  poeta John Donne, metafísico inglês (1572-1631).&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SNvuR1ZNblI/AAAAAAAABJQ/30L18XN-754/s1600-h/Donne.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SNvuR1ZNblI/AAAAAAAABJQ/30L18XN-754/s400/Donne.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5250051780788448850" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Representante de uma poesia que sofreu a pecha de pedante, arrogante, devido principalmente a sofisticação e elaboração estética, ao “cerebralismo” de seus adeptos, Donne destacava o pensamento sincero de que “Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo” e por isso mesmo, concluía, “a morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim”. Sim, é por mim que dobram os sinos, eu quem sofro naquelas fotos que me enviam com “boa intenção”. Quando vejo essas imagens todas, sou o homem sem uma perna pulando pela estrada, sou a menina oriental pedindo esmolas, sou o grupo de negros africanos escrevendo no chão, sou todos eles, porque não sou ilha e sou cidadão do meu tempo. Reconheço nesses registros o punctum a que se refere Barthes na sua Câmara clara e sei que sou eu quem está naquela sensação que a imagem traz.. Você pode até dizer, com toda razão do mundo, que é um exagero eu querer comparar a minha situação com a do menino etíope que definha diante dos olhos do abutre, mas o que você não entende é que me é impossível ser feliz num mundo em que o menino definha diante do abutre e eu, do conforto do meu escritório, diante do meu computador, me sinto impotente para mudar esse retrato. Lembro Drummond: “Tenho todo o sentimento do mundo e apenas duas mãos”. Como cantava Gonzaguinha, pela voz de Fagner, “Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema maior (sob o prisma de Bandeira)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero cantar os passos matinais&lt;br /&gt;De minha prole, de meus irmãos&lt;br /&gt;Desses meus espelhos fraturados&lt;br /&gt;Louvar seus pés decididos, suas mãos&lt;br /&gt;Suas unhas com esmalte barato&lt;br /&gt;Sujas de óleo ou carvão&lt;br /&gt;Seus olhares destemidos, apavorados&lt;br /&gt;Tão carentes e tão senhores de si&lt;br /&gt;Nessa manhã fria de novembro&lt;br /&gt;Saudar os rostos sérios, os bocejos&lt;br /&gt;O cansaço estampado na expressão de sono&lt;br /&gt;Que invade meu caminho nesta hora&lt;br /&gt;Sou eu naquele par de sujos tênis&lt;br /&gt;Naquela saia de brim desbotado&lt;br /&gt;Na farda de vigilantes e policiais&lt;br /&gt;São minhas as costas onde se apóia aquela mochila&lt;br /&gt;É meu o ombro que suporta o mundo&lt;br /&gt;E a mão calejada que arrasta uma criança&lt;br /&gt;É meu o estômago de quem não se alimentou nesta manhã&lt;br /&gt;E as dores de quem veio em pé no coletivo lotado&lt;br /&gt;Sou eu, eu que mal dormi&lt;br /&gt;E corro atrasado para empacotar margarinas&lt;br /&gt;É minha a teta flácida na boca do menino&lt;br /&gt;É minha aquela boca ávida&lt;br /&gt;Confiro o pouco tempo no pulso falso e barato&lt;br /&gt;E lamento os meses que se foram pelo ralo&lt;br /&gt;Eu quem tosse, espirra, fuma e cospe&lt;br /&gt;Sou a prole que tece esta manhã&lt;br /&gt;Com seus fios de esperança e desencanto&lt;br /&gt;E seus gestos de homem&lt;br /&gt;Ou será a manhã, fria, de novembro&lt;br /&gt;Que, com sua melancolia e bruma,&lt;br /&gt;tece um novo homem em mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Leonardo Almeida Filho)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-6378755952925861472?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/6378755952925861472/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=6378755952925861472' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6378755952925861472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/6378755952925861472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2008/09/meu-poema-maior.html' title='Meu poema maior'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SNvuR1ZNblI/AAAAAAAABJQ/30L18XN-754/s72-c/Donne.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8781296093286882423</id><published>2008-09-08T18:03:00.000-03:00</published><updated>2008-09-08T18:24:19.053-03:00</updated><title type='text'>Viagem ao redor do meu saco</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SMWWPzJTN8I/AAAAAAAAAxI/OarIBPOfykA/s1600-h/demaistre-staal.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SMWWPzJTN8I/AAAAAAAAAxI/OarIBPOfykA/s400/demaistre-staal.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5243762539314231234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Xavier de Maistre (1763-1852)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero apresentar meu pequeno poema, mas antes devo dizer que ando encafifado com um texto profano que ousei começar. Há meses, entre pausas longas provocadas pelo desânimo, pela descrença e pela falta de inspiração,  e curtíssimos momentos de febril labuta e criatividade, venho lidando com esse bendito híbrido (não é conto, nem crônica, nunca foi ou será romance, não sei do que se trata). Posso confessar que o mote me veio de Machado. Não, mentira minha. Não foi propriamente de Machado que me surgiu a idéia de escrever a ladainha em prosa, mas de um escritor que habitava os favoritos do velho Bruxo: o francês Xavier de Maistre e seu divertido “Viagem ao redor do meu quarto” (1794). Comecemos pela constatação de que alguns leitores me acusam de caprichar na dose de veneno pornográfico em alguns dos meus escritos. Injusta acusação, grito cá com meus pentelhos. Grito em vão, pois até os amigos mais chegados adquiriram o hábito de me presentearem com  lembranças porno-eróticas que adquirem em suas viagens. São estátuas nuas, copos fálicos, cinzeiros com motivos pornográficos, enfim, uma parafernália de pequenos objetos profanos.  Devo confessar que gosto muito desses mimos. Olho-me no espelho e aquele menino que vejo não é o velho sujo e sacana que muitos enxergam nos textos e na vida real. Paciência. Certa vez, lá se vão bons 26 anos, num concurso de poesias, ouvi o seguinte comentário de um leitor acerca de singelos versos que inseri no certame promovido pelo Diretório Central de Estudantes “Parece coisa de Jorge Amado”. Em princípio, cheio de um preconceito alimentado pela burrice e pela ingenuidade, tratei que me xingava, pois como poderia me comparar ao velho Jorge Amado, um não escritor? Depois, curioso, ouvi sua explicação de que meus versos tinham muito palavrão, eram indecentes, como a prosa do baiano. Ora, ora, ora. Começou ali a minha fama de um escritor puto que almeja ser um puto escritor. Hoje, respeito o velho Jorge e sua capacidade ímpar de escrever uma boa história, coisa que eu, e muitos escritores deste país, principalmente da minha geração, carecemos absurdamente, mas continua pregada em mim a fama de um boca suja. Há uns dias, sofrendo com esse meu novo texto inspirado em Xavier de Maistre, comecei um longo discurso sobre o sexo, território de Afrodite e das bacantes em transe, pasto das vacas sagradas de nossa natureza. Batizei meu híbrido com o título paródico “Viagem ao redor do meu saco”, e mergulhei de corpo e alma em sua escritura. Que me perdoem os espíritos puros, que ainda há, e como diria meu mestre Manuel Bandeira, “as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade”, mas não faço concessões ao bom gosto quando escrevo e vem daí minha fama de boca gregoriana (do poeta barroco baiano). Palavrões são doces quando bem colocados na boca de um personagem. Nada melhor que um porra, que um cu ou uma buceta, com u, no momento propício da narrativa. Lembro-me de Rubem Fonseca e seus avós que nunca foderam. Ainda não terminei esta viagem em prosa, mas tenho meio caminho andado em volta de meu saco, e foi justamente no meio dessa caminhada que deparei-me com a lembrança feliz da “Arte de amar”, de Bandeira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SMWWYV42_HI/AAAAAAAAAxQ/moZ5fyq_4dE/s1600-h/manuel_bandeira.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SMWWYV42_HI/AAAAAAAAAxQ/moZ5fyq_4dE/s400/manuel_bandeira.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5243762686079466610" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manuel Bandeira (1886-1968)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte de Amar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.&lt;br /&gt;A alma é que estraga o amor.&lt;br /&gt;Só em Deus ela pode encontrar satisfação.&lt;br /&gt;Não noutra alma.&lt;br /&gt;Só em Deus — ou fora do mundo.&lt;br /&gt;As almas são incomunicáveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque os corpos se entendem, mas as almas não&lt;br /&gt;(in Belo, Belo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os versos desse belo poema cairam como espada na bainha lúbrica de meu texto, em epígrafe, pois toda a discussão do meu híbrido reside no embate entre tendões, nervos, fluidos, líquidos e sussurros e a matéria inefável do mistério: em onde reside o desejo? Devo logo deixar claríssimo que não tenho a mínima pretensão de descobrir de onde e para onde vai a libido, deixando-a a cargo do “desvão imenso do espírito”. Note como neste ponto começo a mastigar palavras que transcendem a concretude do real: falo de desejo, espírito, libido, no momento exato em que trato de falo, orgasmo, cópula, sêmen. Ao escrever a “Viagem ao redor do meu saco” estou, mesmo sem querer, invadindo a seara metafísica de Deus e das almas, apesar de querer falar de carne e corpos. Como minha matéria aqui é a linguagem e não a ação da cama, é óbvio que meu caminho passeia pela reflexão sobre o sexo, não é, portanto, o sexo; nem simulacro de sexo, apenas indagação, abstração, confissão, ficção em torno de sexo. Não se goza pela palavra, quando se escreve ou se a mastiga. Inspirado em Bandeira, escrevi meu pequeno poema, ainda sem título, que segue:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As almas&lt;br /&gt;Na cama são cegas&lt;br /&gt;Os corpos&lt;br /&gt;Em braile se enxergam.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8781296093286882423?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8781296093286882423/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8781296093286882423' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8781296093286882423'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8781296093286882423'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2008/09/viagem-ao-redor-do-meu-saco.html' title='Viagem ao redor do meu saco'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SMWWPzJTN8I/AAAAAAAAAxI/OarIBPOfykA/s72-c/demaistre-staal.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-662874244836369204</id><published>2008-07-22T17:12:00.000-03:00</published><updated>2008-11-13T03:49:08.357-02:00</updated><title type='text'>Sextina I</title><content type='html'>A sextina é um dos sistemas estróficos mais difíceis e raros. Criada por Arnaut Daniel, no século XII, foi usada por alguns dos grandes poetas, como Dante, Petrarca, Camões.&lt;br /&gt;Compõe-se de seis sextetos e um terceto final, a coda. Utilizando versos decassilábicos, tem as palavras (ou as rimas) finais repetidas em todas as estrofes, num esquema pré-determinado. Assim, as palavras (ou rimas) que aparecem na primeira estrofe, na seqüência de versos 1, 2, 3, 4, 5, 6, repetem-se na estrofe seguinte, na seqüência 6, 1, 5, 2, 4, 3. E se faz a a estrofe seguinte a seqüência 6, 1, 5, 2, 4, 3 em relação à estrofe anterior. E assim até a sexta estrofe, finalizando os sextetos. O terceto final tem, em cada verso, no início e no fim, as palavras (ou rimas) utilizadas no poema todo, na posição em que se apresentaram na primeira estrofe.&lt;br /&gt;Ezra Pound, referindo-se à sextina, disse: "A arte de Arnaut Daniel não é literatura. É a arte de combinar palavras e música numa seqüência onde as rimas caem com precisão e os sons se fundem ou se alongam." Ao que Edmir Domingues objetou, dizendo: "Mas é este o objetivo de toda a verdadeira poesia, o perfeito encontro entre a forma e o conteúdo, entre a linguagem e a música".&lt;br /&gt;(Disponível em http://recantodasletras.uol.com.br/teorialiteraria/47664, por Paulo Camelo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SIZAe-JPEPI/AAAAAAAAAww/DcVosa8NuxM/s1600-h/capalivro+006.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SIZAe-JPEPI/AAAAAAAAAww/DcVosa8NuxM/s400/capalivro+006.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5225935318432026866" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;"Tempo, lodo, limo" (2007), Leonardo Almeida Filho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue a minha sextina, construída ao som de "Grace" (1994), de Jeff Buckley.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEXTINA I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Andei aprisionado no meu corpo&lt;br /&gt;Curvado e triste e só, mascando a vida&lt;br /&gt;Não via então que a vida assim é morte&lt;br /&gt;Como se houvesse escuridão no dia&lt;br /&gt;Eu, que em nada cria, hoje não choro&lt;br /&gt;Nem temo a mão da noite, a morte fria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No espelho eu não percebo a face fria&lt;br /&gt;Que olha com desprezo o velho corpo&lt;br /&gt;Pressinto dois em mim, por isso choro&lt;br /&gt;Há um que encarna a morte, outro que é vida&lt;br /&gt;Aquele é medo e noite, e este é dia&lt;br /&gt;Do espelho, quem me fita é a morte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei jogar xadrez, que venha a morte&lt;br /&gt;E toque em minha face com a mão fria&lt;br /&gt;Que venha armada em rósea luz do dia&lt;br /&gt;Que hei de estar atento ao corpo a corpo&lt;br /&gt;Que travaremos: ela, morte; eu, vida.&lt;br /&gt;Aqui: não temo, não tremo, nem choro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim, que me perdi, é por quem choro&lt;br /&gt;E não pela iminência da morte&lt;br /&gt;Que é tão inevitável quanto a vida&lt;br /&gt;Há sempre o sangue quente na mão fria&lt;br /&gt;Existe alma fria em quente corpo &lt;br /&gt;e a noite ainda persiste pelo dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estrelas se ocultam quando é dia&lt;br /&gt;E o eu que ri é o mesmo quando choro&lt;br /&gt;Este que vos escreve é alma e é corpo&lt;br /&gt;E quando vos escreve enfrenta a morte&lt;br /&gt;Pois quando lhe cobrir a laje fria&lt;br /&gt;Nos versos declamados terá vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se para tanta arte é curta a vida&lt;br /&gt;E para tanta dor é longo o dia&lt;br /&gt;Eu devo almejar a boca fria&lt;br /&gt;da má sorte? Beijando-a quando choro?&lt;br /&gt;Pousá-la em minha cama, amante morte,&lt;br /&gt;E nela repousar meu velho corpo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preso num corpo que rejeita a vida&lt;br /&gt;cultiva a morte nas dobras do dia&lt;br /&gt;Por isso choro essa lágrima fria&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-662874244836369204?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/662874244836369204/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=662874244836369204' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/662874244836369204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/662874244836369204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2008/07/sextina-i.html' title='Sextina I'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SIZAe-JPEPI/AAAAAAAAAww/DcVosa8NuxM/s72-c/capalivro+006.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8421507023477146470</id><published>2008-06-03T17:26:00.000-03:00</published><updated>2008-11-13T03:49:08.853-02:00</updated><title type='text'>A fala que cala</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWqGk2pXfI/AAAAAAAAAwY/YCCkUcORLa8/s1600-h/NunoRamos+006.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5207755574072663538" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWqGk2pXfI/AAAAAAAAAwY/YCCkUcORLa8/s400/NunoRamos+006.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando a ciência cala, a arte fala. Sejam bem-vindas as frases feitas. Quero falar de sujeito e arte. Não do sujeito criador, não do artista, mas do consumidor do trabalho artístico, do mero expectador do fenômeno. Estou falando de mim neste momento. Estive na exposição do artista plástico paulista Nuno Ramos, que o CCBB oferece em Brasília neste mês de maio de 2008. O que me atraiu à exposição foi uma reportagem sobre a instalação intitulada “Monólogo para um cachorro morto” e a proposta de junção de literatura e artes plásticas. Nas minhas idas para Valparaíso de Goiás, o que mais observo pelo acostamento da movimentada via é a presença trágica de cães mortos. Já tive a oportunidade de contar quatro desses mamíferos num mesmo dia. Sempre me tocou bestamente aqueles corpos inertes, de pelagens sujas, alguns inchados, outros ainda frescos, sobre poças de sangue e esquecimento. Cheguei a pensar na origem, na ausência, alguém certamente daria por sua falta, choraria uma criança em algum lugar da cidade pela falta daquela massa de carne, pêlos e ossos esmagada na beira da estrada? Na velocidade diária a gente acaba nem ligando mais pra esse “fenômeno” de cães atropelados diariamente. Num tempo em que, além de cães, tenho observado motoqueiros estatelados no mesmo trajeto, numa freqüência assustadora de acidentes, a insensibilidade adquirida diante dos cachorros mortos vai, com certeza, transferir-se para motoqueiros acidentados. E aí, quando isso acontecer, se é que já não está acontecendo com alguns, pois cada um tem seu tempo, o que será de nós? Estava nesses pensamentos malucos quando li a matéria sobre a exposição do Nuno Ramos. Decidido a conferir a exposição, cheguei ao CCBB numa tarde de puro ócio. A primeira instalação que visitei, intitulada “Bandeira branca”, provocou-me estranheza profunda. É curioso como a arte contemporânea sempre nos inspira um lado lobateano de julgá-la mistificação, de botar tudo no mesmo saco de gatos. O que meus olhos tentaram ler foi uma montagem de grandes túmulos (era o que parecia) de granito negro, alguns monólitos eretos, e auto-falantes incrustrados em armações de metal, revelavam uma frieza tremenda. Esse cenário de pesadelo era agraciado com a presença viva de alguns urubus, que sonolentos descansavam sobre os monolitos. Ainda busquei girassóis na instalação na esperança de conferir um diálogo com “Tropicália”, de Caetano Emanuel, não vi. Acrescente-se a isso tudo a voz rouca de Arnaldo Antunes cantando “Bandeira branca”, duas vozes femininas cantando “Carcará” e outra canção que, infelizmente, não me lembro agora. Pronto: cenário mais onírico, impossível. É certo que o desconforto e a estranheza foram elementos desencadeados pelo inusitado da obra, e essa sensação de estar num pequeno pesadelo foi inevitável. Este foi o cartão de visita da exposição e a surpresa me atiçou ainda mais a curiosidade com relação às demais instalações. Adentrei a sala onde estava o tal “Monólogo” e minha primeira impressão foi de vazio. Uma sala enorme, no centro algumas placas de mármore branco (insinuando lápides), aos pares, presas por barras de ferro niquelado e parafusos, de tal forma que o pequeno espaço entre elas dificultava (para não dizer que impossibilitava) a leitura de um texto gravado na parte interna de uma das placas em pares: era o tal monólogo de autoria do próprio Nuno. A seqüência de placas de mármore findava numa abertura onde uma pequena tela de vídeo apresentava um filme, colorido, cuja cena era o corpo de um cachorro morto às margens de uma estrada. O vídeo mostra o artista compondo a cena trágica. Desce do seu carro com um aparelho de som e uma placa de mármore branco, dirige-se ao corpo do cão, delicadamente deita sobre o chão a peça de mármore e sobre ela o aparelho de som. Há cautela e cuidado nos seus gestos, respeito pelo defunto cão anônimo. No momento em que, no vídeo, o artista liga o som começamos a ouvir o tal “Monólogo para um cachorro morto”. Imagem, palavra, poesia, concreto, mármore, visão parcial, som...os sentidos todos ligados sobre o corpo sem vida do cão. Quem está morto? Pergunto ao final do texto e do vídeo. Se o artista se pergunta no “Monólogo”, quem é? Eu completo: Quem somos? A instalação acaba se tornando uma grande exposição de nossas mortes. Lembrou-me uma seqüência de fotos que recebi recentemente, por email, onde um cão protege o corpo de seu amigo cão atropelado. Por associação, remeteu-me à morte do replicante interpretado por Rutger Hauer, em “Blade Runner”: quem é mais humano nisso tudo? A instalação, que aparentemente se mostra dramática, mesmo na frieza do mármore, tem um quê de trágico e somos nós, no fim das contas, que estamos mortos, ou em vias de. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A outra instalação, presente na mesma mostra, é uma pequena brincadeira tragicômica sobre o mesmo tema: “Soap opera” nos remete à novelização (subproduto direto da carnavalização bakthiniana) de nossas vidas, muito além da palavra; de nossos roteiros de vida ou, para ser mais claro, do tratamento superficial e humorístico de dramas mais profundos. Temos mesmo a tendência de nos proteger sorrindo do perigo. Somos todos um mecanismo de defesa em permanente vigília. Ao associar a morte dos cães ao processo de feitura de sabão, e dentro dessas peças de sabão a inclusão de auto-falantes com cantores eruditos cantando canções populares, o Nuno acaba me fazendo pensar, por exemplo, naquele sujeito que ouve a terrível notícia de mortos e doentes de Aids na África e que, durante a notícia, chora, lamenta, resmunga, pragueja e verdadeiramente se comove com a desgraça de um seu igual, mas logo a seguir esquece tudo e continua distante da Aids, da morte, da doença, da África, e, o que é pior, de todo o sentimento de revolta que até então trazia estampado. De novo, o nosso lento processo de robotização e frieza diante do mundo. Juro que “Soap opera” só me fez pensar em Manuel Bandeira e seu “Pneumotórax”, ora, se tudo realmente está perdido, o melhor a fazer é tocar um tango argentino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWr9E2pXhI/AAAAAAAAAwo/_8kKsi9rwu8/s1600-h/NunoRamos+010.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5207757609887161874" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWr9E2pXhI/AAAAAAAAAwo/_8kKsi9rwu8/s400/NunoRamos+010.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem que deveria ter tocado um tango naquela exposição, mas na sua ausência, estava presente “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho, no vídeo “Luz Negra”, exposto no subsolo do CCBB. Tudo é já performance e arte, desde o fato de descer as escadas em queda ao antro de Trofônio da exposição do vídeo, até a escuridão e frieza do local. Não havia visitantes além de mim e por isso peguei uma cadeira e sentei-me diante do telão, confortavelmente instalado para, ainda só, saborear o vídeo. A primeira coisa que vemos/ouvimos é a luz e o céu azul sob a trilha sonora em ruídos de “Vidas secas”, de Nelson Pereira dos Santos. Um campo vazio, terra arada sem plantas, e alguns buracos cuidadosamente cavados, profundos. Logo, como coveiros de um sonho, personagens de algum vídeoclip experimental, alguns homens carregam enormes caixas de som e as depositam nessas “covas rasas”, nessas feridas sobre a pele da terra. Protegidas por uma cobertura de madeirite são então enterradas e ligadas ao som, que começa a emitir a gravação de “Juízo Final”, na voz do próprio Nelson Cavaquinho. A leitura dessa obra revelou-me um movimento interno que tenta romper limites e oferecer-se ao externo. Naquele momento, na imagem em movimento, eu entendi numa instância além do conceito e da razão, a idéia de punctum em Barthes em seu ensaio sobre a fotografia. Falo de vontade e desejo, lado a lado. Falo de necessidade também. Não dava mais pra separar uma da outra, necessidade e desejos eram uma coisa só. A voz asfixiada que canta, que força a terra sobre ela, que invade o escuro da sala de projeção, que pontua a cena do espaço vazio na paisagem do vídeo, imprimiu em mim pura angústia. Para Freud, a angústia é o resultado da transformação da libido sob a repressão aos desejos, ou seja, é ela própria um estado afetivo de desprazer. “Quando o ego é forçado a reconhecer a sua fraqueza, afoga-se em angústia: angústia da realidade, em face do mundo externo; angústia normal, ante o superego, e angústia neurótica diante das paixões do id.” Para Freud, a angústia é o primeiro trauma da perda do objeto na hora do parto. È ainda Freud que nos fala: “O nome Angust (angústia) – angustiae, Enge, um lugar apertado, um estreito – acentua a característica de compressão na respiração, que foi então, (no nascimento) a conseqüência de uma situação real e que é repetida subseqüentemente, quase invariavelmente, com um afeto. É muito sugestivo, também, que o primeiro estado de angústia tenha surgido na ocasião da separação da mãe.” A angústia, como a vejo nesse momento, é marca da solidão, e sós somos sempre incompletos. Dessa crença momentânea, busquei na lembrança a letra de “Luz negra”, a composição maravilhosa de Nelson Cavaquinho e como numa descoberta fui mergulhando na leitura da obra do Nuno. Diz o poeta, num lamento:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre só&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Eu vivo procurando alguém&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Que sofre como eu também&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;E não consigo achar ninguém&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Sempre só&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;E a vida vai seguindo assim&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Não tenho quem tem dó de mim&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Estou chegando ao fim&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;A luz negra de um destino cruel&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Ilumina um teatro sem cor&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Onde estou desempenhando o papel&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;De palhaço do amor &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ao batizar seu vídeo com o título homõnimo à composição de Nelson, o artista nos forneceu o fio de Ariadne pra passear pelo labirinto asfixiante das imagens: a busca por se completar. Ele não verbaliza diretamente esse sentimento, apenas insinua com o título da canção. Recalca essa confissão, mas ela flui nas imagens e transforma-se em angústia. Mas quem busca? O artista ou o seu expectador? Ora, sou eu próprio que estou em busca. A angústia é minha, toda minha, mesmo que seja do autor também. A leitura é minha, é própria, e pode não ter nada, absolutamente nada, com a proposta do artista. Isso é o que menos importa no momento de saborear uma obra de arte, de interpretá-la, de admirá-la. Sou eu quem está sob uma luz cruel, negra. Sou eu asfixiado, sou eu enterrado naquele campo, sou eu que canta a solidão. E não é assim que as coisas acabam acontecendo na leitura da arte? Não somos nós que matamos Desdêmona? Que lamentamos as escolhas? Ou que por elas lutamos até a morte? Não fomos nós que apertamos a corda no pescoço de Julião Tavares e nos amarelamos diante do soldado amarelo? Sou Antígona, mas sou rei Lear, sou Luís da Silva e sou Fabiano. Sou, portanto, o cachorro morto, mas também sou Nelson Cavaquinho, vivo, aos meus ouvidos internos, já que não cantava “Luz negra”, que era apenas o título do vídeo, revelando minha solidão numa sala escura do CCBB. Mas faltava agora ouvir com o o ouvido externo e de novo a voz de Nelson me encantava e redimia:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;br /&gt;O sol....há de brilhar mais uma vez&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;A luz....há de chegar aos corações&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Do mal....será queimada a semente&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;O amor...será eterno novamente&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;É o Juízo Final, a história do bem e do mal&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;O amor...será eterno novamente.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;O que posso mais dizer aqui? A experiência da arte é mais que cérebro, é também corpo. Não vou dizer que chorei, pois não era pra tanto, mas a emoção dessas leituras marcou-me tanto que resolvi escrever esse relato muito pessoal. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWq_02pXgI/AAAAAAAAAwg/ODDbOFqIQzE/s1600-h/NunoRamos+007.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5207756557620174338" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWq_02pXgI/AAAAAAAAAwg/ODDbOFqIQzE/s400/NunoRamos+007.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8421507023477146470?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8421507023477146470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8421507023477146470' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8421507023477146470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8421507023477146470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2008/06/fala-que-cala.html' title='A fala que cala'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/SEWqGk2pXfI/AAAAAAAAAwY/YCCkUcORLa8/s72-c/NunoRamos+006.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-3398139598298823228</id><published>2007-08-16T16:00:00.000-03:00</published><updated>2008-11-13T03:49:09.106-02:00</updated><title type='text'>Um Convite</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/RsSflSk6zyI/AAAAAAAAAwI/Yjp9abZfZz8/s1600-h/goya_sleep_of_reason.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5099376141080907554" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/RsSflSk6zyI/AAAAAAAAAwI/Yjp9abZfZz8/s400/goya_sleep_of_reason.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;                                                              &lt;span style="font-size:78%;"&gt;Goya, O sonho da razão produz monstros.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Não durmamos&lt;br /&gt;Não, não nos deixemos inebriar pelo sono mal&lt;br /&gt;Abramos os olhos para a noite escura e tudo enxergaremos&lt;br /&gt;Vamos, sem medo, sem pressa, ofuscarmo-nos com toda a possibilidade&lt;br /&gt;de sermos felizes e despertos e atentos,&lt;br /&gt;pois a felicidade é, mesmo tristes, sabermos seus limites&lt;br /&gt;seu alcance, seu fôlego e a dimensão de tudo isso.&lt;br /&gt;Vem, eu te convido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há os felizes que dormem o sono dos mansos&lt;br /&gt;e se embebedam com o vinho da auto-suficiência&lt;br /&gt;escorregam feito caracóis, lentos e lúbricos, em torno de umbigos enormes.&lt;br /&gt;Não os invejemos, mas lamentemos a formidável sorte.&lt;br /&gt;desses ébrios estúpidos que confundem felicidade com facilidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordemos todos e percebamos o quão tristes estamos – não somos! -&lt;br /&gt;Quando a felicidade que temos é nossa apenas&lt;br /&gt;Quando o sorriso que trazemos não se expande e, murcho, amarela na raiz&lt;br /&gt;Quando o que nos faz vibrar não tange aqueles corações que seguem mudos&lt;br /&gt;Quando a brisa que nos bafeja não refresca o corpo irmão&lt;br /&gt;Quando os anjos que nos cantam olvidaram outros espíritos&lt;br /&gt;Quando somos sós e sós e sós e não partilhamos o raro instante&lt;br /&gt;e nos deixamos tentar pela linha reta dessa vida tortuosa e vária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não existe felicidade individual se estamos despertos&lt;br /&gt;Mas tampouco é felicidade aquela que a noite do mal escuro alimenta e entorpece&lt;br /&gt;Vamos, não tema, vem depressa...corre!&lt;br /&gt;Não durmamos, pois o carro da história não espera e nem ampara os que dormem&lt;br /&gt;E não te quero ver sumir no horizonte quando a felicidade apontar no sem-fim dos trilhos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Leonardo Almeida Filho&lt;br /&gt;15/08/2007 &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-3398139598298823228?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/3398139598298823228/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=3398139598298823228' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3398139598298823228'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/3398139598298823228'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2007/08/um-convite.html' title='Um Convite'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/RsSflSk6zyI/AAAAAAAAAwI/Yjp9abZfZz8/s72-c/goya_sleep_of_reason.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-8087395575014561173</id><published>2007-06-20T14:13:00.000-03:00</published><updated>2008-11-13T03:49:09.450-02:00</updated><title type='text'>Logomaquia provoca celacanto</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Rnls1hbJVSI/AAAAAAAAAAM/KNqtxS_rItw/s1600-h/CAPA_LOGOMAQUIAa.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Rnls1hbJVSI/AAAAAAAAAAM/KNqtxS_rItw/s400/CAPA_LOGOMAQUIAa.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5078209721598039330" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Fotografia: Evgen Bavcar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uns, cocaína; outros, música baiana; pra mim, poesia, muita poesia e é por isso que ando lendo Augusto dos Anjos, logo eu, filho do carbono e do afrodisíaco, devorando versos de puro mau gosto, desafiando e desafinando o coro dos contentes...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:180%;"&gt;M                    E                      R                   D                              A&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; mil vezes merda... tudo já foi escrito, tudo burilado, são tempos de control C control V e pastiche e colagens e samplers e lindos os poemas do Zé, depois escrevo pra ele e comento, talvez faça uma resenha que não será publicada, um crime que não será desvendado, um ensaio que não será lido, um beijo que não será dado, uma crônica que não será divulgada, um filho que não será parido, um conto mal resolvido, quebrado, a porra de uma bula de remédio contendo arsênico, cianureto e bactérias da saliva do dragão de Komodo, um emplastro para dores de consciência, um testamento deixando a maldição da poesia ao próximo vate vil e vão e voraz leitor de poesia, escreverei com sangue para ser dramático e banal, em bites para navegar na rede, em fumaça de cigarro e incenso para acordar Caio Fernando Abreu do seu sono precoce e febril, para arrancar suspiros do cravo tatuado de Hilda Hilst, desenharei um poema épico narrativo contando a  história reles e comezinha de nossas vidas, pois lindos são os poemas do Zé, farei um manifesto pra amaldiçoar os Dantas desse país brega e pedante, pois sofisticação por estas praias soa sempre como coisa indecifrável, criptograma, hermetismos para iniciados, língua morta de tribos exterminadas e sempre e sempre e sempre o nosso complexo de vira-latas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-8087395575014561173?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/8087395575014561173/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=8087395575014561173' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8087395575014561173'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/8087395575014561173'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2007/06/logomaquia-provoca-celacanto.html' title='Logomaquia provoca celacanto'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ZBIfJbwXzI8/Rnls1hbJVSI/AAAAAAAAAAM/KNqtxS_rItw/s72-c/CAPA_LOGOMAQUIAa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-116914831234392300</id><published>2007-01-18T16:24:00.000-03:00</published><updated>2007-02-06T16:01:22.677-03:00</updated><title type='text'>O parco capim da existência</title><content type='html'>AS VACAS SAGRADAS E O PARCO CAPIM DA EXISTÊNCIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de ter nascido seis vezes, aquele espiritinho cansado já se dizia locupletado de gente. Chega, ele bramia. Não quero mais família, pátria ou religião. Quanto imbróglio, meu Deus! E espargia seu odor de ectoplasma pelo éter do abismo. Não por menos, seis vidas eram muita coisa para qualquer espectro, ainda mais tendo que vivê-las sempre no mesmo lugar. Filme repetido. Filme ruim repetido. Seis vezes brasileiro, pobre, duro. Não há quem agüente, uivava no caminho para a sétima reencarnação. Tinha uma aura verde-amarela que, impregnada em sua insubstância, o diferenciava dos outros espiritinhos que aguardavam na fila a hora de reencarnar. Essa aurazinha bicolor provinha, com certeza, de tanta vida nesse país de bananas que a grande maioria evitava encarar. Brasil? Tô fora, diziam eles, às vezes agarrando no sotaque ou mesmo afirmando No way, man. Mas esse fantasminha não, ele tinha que nascer aqui sempre. Nas seis vidas anteriores, onde fora índio, mameluco, negro, branco e nissei, aprendera a ser enganado, humilhado, sacaneado, fodido, traído, pisado, torturado, amordaçado, enfim, concluíra, com louvor, pós-graduação em ser brasileiro pobre e sem futuro. Ser cuspido e desesperançado. Pêagádê em brasilidade de vertente e linha negras. Disso ele entendia como nenhum outro espírito, até porque todos os espiritinhos, após uma temporada por estas bandas, sempre optavam por reencarnar na Europa ou América do Norte. Já paguei meus pecados por aí, ladrava um novíssimo canadense apontando o Brasil do céu. Purifiquei meu carma por essas bandas, ronronava com asco um brand new american boy. Mas ele, coitado, por absoluta e completa letargia - que ele já começava a desconfiar ter-se incorporado ao seu caráter por influências tupiniquins - descambava pela sétima vez num hospital sujo e lotado na periferia de uma grande cidade do Brasil. Chega, ele gritava ao nascer, mas, não compreendido, era tarde. Se tudo corresse como o previsto, morreria jovem, de forma violenta, desovado num terreno baldio ou chacinado com outros espiritinhos em um barzinho pé-de-chinelo, onde jogaria sinuca com amigos de futuro tão trágico quanto o dele. Se tivesse sorte, morreria no início da terceira idade, na porta de um posto de saúde, implorando atendimento, tendo à mão, amassado junto ao peito, um santinho católico. Quem sabe não pudesse mesmo padecer num asilo sujo, como já acontecera numa encarnação passada? De uma coisa ele tinha completa e absoluta certeza: na próxima vez, na oitava vez, nasceria muito longe dali, ou, ele se animava todo, viria para botar tudo abaixo e mudar de uma vez por todas esse destino triste que insiste em se perpetuar no Brasil. E mudaria tudo a ferro e fogo, pois, entre as várias coisas que aprendera, uma delas era que a democracia no Brasil é pasto para os que têm grana. Sempre fora assim, as mesmas vacas sagradas pastando o parco capim da existência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-116914831234392300?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/116914831234392300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=116914831234392300' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116914831234392300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116914831234392300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2007/01/o-parco-capim-da-existncia.html' title='O parco capim da existência'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-116690481069210654</id><published>2006-12-23T17:08:00.000-03:00</published><updated>2006-12-23T17:21:21.033-03:00</updated><title type='text'>O AMOR NA CÓLERA DOS TEMPOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/158373/investigacao.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/577501/investigacao.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hamilton Gondim, "Investigação I"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Investigação sobre a natureza do amor (*)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    E se nos montes, rios ou em vales&lt;br /&gt;    Piedade mora ou dentro mora amor&lt;br /&gt;    Em feras, aves, plantas, pedras, águas&lt;br /&gt;    Ouçam a longa história de meus males,&lt;br /&gt;    E curem sua dor com minha dor&lt;br /&gt;    Que grandes mágoas podem curar mágoas. &lt;br /&gt;                                                               Camões&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acostumou-se a não ser nada além de um saco de pancada. Carinho? uma palavra estranha, tinha cheiro, gosto de coisa não comida, travo e trevas. Palavras eram grunhidos, berros cuspidos, um gemido aqui, outro acolá. O que valia mesmo eram os vergões nas pernas, o galo na testa, o roxo-beliscão na pele, as cicatrizes que desciam pelas costas magras. Cresceu assim, apreendendo o mundo embaixo de porrada e gritos e palavras feias, por isso mesmo era uma menina burra, manquitola e desdentada, uma coisa, a epiderme uma titica manchada, tecido desbotado de uma macabéica figura, ser sem tempo. Confiava apenas na suspeita, era boa nisso, em suspeitar. Vivia esperando coices, de tudo e de todos. Passava horas roendo as unhas, arrancando cascas de feridas de antigas surras. Isso sim lhe era prazeroso, o sublime gesto de arrancá-las, as casquinhas pretas, devagar, introduzindo, após diversas tentativas, a unha roída entre aqueles montinhos escuros e secos de substância nova e sua parte velha do corpo, puxando-as levemente para cima, afastando-as com aquela dorzinha típica e familiar que redundava nos ferimentos abertos e sangue fresco, uma babinha rala e rubra que ela espalhava com o dedinho, antes de lamber.  Aprendera a gostar de lamber-se e daqueles raros momentos de silêncio absoluto, quando enfiava a cabeça na bacia d’água suja e o mundo desaparecia num silêncio turvo e aquático. Não sabia ler olhares, eram todos iguais, mordiam, ameaçavam. Sua cartilha era essa: olhos de dor e foda-se. A mãe, um tumor fétido coberto costumeiramente por homens sujos, farrapos bípedes e bêbados que muito raramente depositavam uns trocados por conta do gozo rápido que ela lhes oferecia e que em seguida lavava na bacia ao pé da cama. Era a própria metástase peniana disseminada numa vagina que berrava e xingava e batia e cuspia e lamentava e chorava sem razão. Assim, seus olhinhos amarelo-malária enxergavam a mãe. O pai que lhe restara na memória era aquela massa disforme e sangüínea que um caminhão carregado de cimento houvera por bem amaciar. O que mais a incomodava não eram as surras, que se sucediam tediosas e que por serem constantes ela já se acostumara, mas estar, às vezes, amarrada ao pé da cama. Nessas horas, sangrava-lhe o tornozelo e não lhe era permitido gemer, pois isso incomodava o sono materno. Assim aprendeu que toda dor é silenciosa, deve ser assim silenciosa, indefectivelmente silenciosa e solitária. Aprendia rápido e esquecia quase sempre na mesma velocidade. A vida era uma eterna investigação sobre a natureza de tudo. Desnecessário dizer que ela nunca saberia o que é investigação ou natureza ou vida ou tudo. Puro instinto. Mas nesta manhã, atada ao pé da cama, ela conheceu o amor. Foi despertada de um sono atribulado por uma barata que lhe cruzou toda a extensão da perna estendida. A sensação de algo além de dor fez com que abrisse os olhinhos amarelo-icterícia e ficasse, inerte, saboreando as coceguinhas que as patas da barata lhe faziam, primeiro nas pernas, depois, na virilha, na barriga. Era um trajeto de estranho gozo que ela saboreava desesperadamente. Não que esses insetos lhe fossem estranhos, pois baratas e ratos enormes infestavam aquele lugar, mas essa baratinha, especificamente essa e não as outras, pela primeira vez lhe tocara gentilmente o corpo, de uma forma diferente, de um jeito diferente, com patas diferentes. Ou seria ela, a coisinha murcha de olhar-cancro-e-herpes, o fato diferente naquela história toda? Não, ela era a mesma florzinha sem graça e triste atada ao pé da cama. Só podia ser a barata. Era mesmo a barata. Dessa ela gostava e nem sabia o que era gostar, estava aprendendo. Desconfiava agora que o gostar era o diferente que caracterizava essa baratinha e a distanciava de todas as outras. Sim, gostar é um algo diferente. Gostar é o-mesmo que um dia se torna um-outro. Talvez o gostar fosse essa coisa que ela sentia nessa manhã, muito além do princípio do prazer. Talvez gostar fosse, na verdade, o gosto de não sentir dor. Talvez o prazer de não sentir dor fosse o gostar.  Ou será que o gostar era a sensação de descobrir no toque, no contato, algo mais que a força bruta, que dor e ferimento? Gostar, ela sentia, era então querer que aquilo nunca acabasse. Era lutar para parar tudo que andava e para manter tudo como está. Ela tentava evitar, em vão e a duras penas, até respirar mais profundamente ou mover-se bruscamente com receio de que a barata fugisse e lhe deixasse só, com seu tornozelo ferido e atado à cama, onde a mãe, aquele furúnculo, dormia com outro homem sujo, babando-se. Então, gostar era também não respirar e ficar parada para que tudo não se acabasse. Gostar era ter medo de que tudo acabasse. Medo do acabar. O medo de perder era parte do gostar, ela descobriu. Estendeu a mãozinha e gentilmente colheu do chão a barata que já se afastava. Colheu-a como se colhe um caju, uma coca-cola, um Caetano na loja de discos, que ela nem sabia o que era. A barata debatia-se desesperada diante do olhar embaciado-hepatítico da menina. Ela, orgulhosa de suas descobertas, imune ao pavor do seu objeto de desejo que esperneava, levou-o à boca, muito aberta e receptiva, e mastigou-o, sentindo-lhe o sabor, a consistência, enquanto algumas lágrimas escorriam pelo rosto. Aprendia nesse gesto, finalmente, que o amor, o gostar, era algo que exigia ação e, mais que ação, paladar e sacrifício. Aprendia que o amor era integração de corpos e de almas, exigia que se guardasse o diferente, o amado, dentro de si; que o amado podia ter um gosto amargo e que, principalmente, tempos depois de provado, o amor era capaz de deixar traços muito dolorosos e tristes no coração, um buraco cheio de vazios... e resíduos de asas nos dentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/668735/Leo.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/207472/Leo.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Conto publicado no caderno "Pensar", do Correio Braziliense, edição de 23 de dezembro de 2006.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-116690481069210654?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/116690481069210654/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=116690481069210654' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116690481069210654'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116690481069210654'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/12/o-amor-na-clera-dos-tempos.html' title='O AMOR NA CÓLERA DOS TEMPOS'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-116569017887950667</id><published>2006-12-09T15:49:00.000-03:00</published><updated>2006-12-09T16:05:46.970-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/625597/pretextos.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/41860/pretextos.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;OS ANJOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;This he said to me&lt;br /&gt;"The greatest thing you'll ever learn&lt;br /&gt;Is just to love and be loved in return"&lt;br /&gt;Eden Ahbez, em Nature boy&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Lincoln, que não cheguei a conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poeira provocada pela passagem do carro que carrega os exterminadores já pousou sobre as coisas vivas e mortas. O ermo é paisagem. Nada além de um chiado leve, gemido, indicando a presença do sofrimento onde parecia não haver nada. Visagem. Assim, devagar, bem devagar. Primeiro uma gota, escura, amarga, exalando um cheiro horrível de podridão e dor, caindo para de, não importa mais. Sem barulho algum além do da respiração ofegante e agoniada, no compasso da desgraça e do desespero que parecem se findar na marcação do metrônomo da tragédia. Gotas várias de um sangue muito negro e fétido escorrem pela terra, vermelha terra do cerrado, mergulham nas raízes da sibipiruna, alimentando a matriz exposta do capim seco prestes a arder-se em chamas.. Longe, a escuridão pesada do abandono e da ausência de carinho. Só dor, profunda dor que preenche cada espaço do pensamento que tende a não mais pensar. Não é possível mais sentir onde não dói, onde não sangra, onde não fede, onde não escapa a seiva vital. Tudo massa disforme e pútrida, ainda movendo-se sobre e sob a respiração que parece desaparecer, assim, devagar, bem devagar. Envoltos em fita crepe, sob carne macerada que expõe ossos partidos, tutanos, artérias e tendões e alguns dentes arrancados, há sonhos que nunca se realizarão e outros que, realizados, se perderão na decomposição da matéria e repousarão, carbono e fósforo e potássio e cálcio, na frialdade inorgânica da terra; prazeres que nunca serão gratificados, gozos que não serão gozados, sêmen que apodrecerá na origem; medos que não terão mais razão de existir, pois a escuridão adentrou definitivamente o espírito; leituras que se perderão sob a o último lampejo neuronal e que levarão consigo, para lugares insuspeitados, os  machados e clarices e rosas e pessoas e dantes e goethes e augustos e; sorrisos e lembranças e resquícios de outros corpos que não mais existirão ali, ali naquele monturo, naquela coisa, naquele traste, naquele treco, naquele troço, naquilo que já foi um homem e que agora poreja, goteja um líquido escuro e de odor insuportável. Aquele pacote envolto em fita crepe, assim imobilizado para o exercício da pancada e para a delícia do mais profundo e escuro prazer bestial, com pêlos saindo pelas frestas manchadas de sangue e pedaços marcados de carne, foi um dia o amante que fodeu e foi fodido, que gozou e foi gozado, que deu prazer e recebeu prazer; o amigo que abraçou e que beijou e que chorou a ausência e que perdeu o sono e que sentiu sede e que chorou em Cinema Paradiso e sorriu em Morte em Veneza e que xingou o guarda de trânsito e que lamentou a perda de cabelos e o ganho de peso e que telefonou de madrugada se desculpando por ter esquecido o teu aniversário e que detestava comer fígado mas adorava carne moída com batatinha e ervilhas e que nutria o  mais íntimo desejo oculto de fazer sexo grupal e que se preocupava com o fato de estar chegando aos trinta sem ter adquirido uma casa e que ultimamente andava insone por causa de; aquele objeto encolhido ao pé da árvore seca do cerrado continha o cidadão que reclamou na fila do banco e que votou para eleger o presidente da república. Aquela escultura de carne triturada, argamassa de tecido e sangue, um dia foi o sorriso que encantou mulheres e homens, o menino que soprou as cinco velas de um aniversário que, ocorrido há vinte e três anos atrás, não mais existirá, a não ser nas fotografias guardadas na lembrança de um vulto feliz de mulher; foi o estudante que declamou poemas de Florbela Espanca...espanca. Ontem ainda acreditava num futuro. Mesmo quando, colhido pela inexorabilidade da peçonha e da traição, encarou a figura da morte e da crueldade, ainda havia dentro dele, pequenina, a esperança de que se lembraria daquilo um dia com pavor, mas vivo e pleno. Quem algum dia saberá realmente? Agora, parece não haver mais movimento no meio daquele espetáculo de sangue e fita crepe. È o último dos instantes, o ínfimo, o limiar. Tudo o que é efêmero é somente preexistência; O humano-térreo-insuficiente aqui é essência; O transcendente-indefínível é fato aqui; O feminil-imperecível nos ala a si. Só pequenos répteis e insetos presenciaram o momento em que, após Murdad, cortando o fio primordial que nos faz ser, separar com as mãos de éter e mistério o corpo da alma, Azrael, o imenso anjo de quatro mil asas e bilhões de olhos e línguas, desceu do não-onde-e-sempre trazendo a indesejada das gentes. Agora, apenas o vento seco do cerrado envolvendo o corpo sem vida do rapaz, assim, devagar, muito devagar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-116569017887950667?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/116569017887950667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=116569017887950667' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116569017887950667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116569017887950667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/12/os-anjos-this-he-said-to-me-greatest.html' title=''/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-116439117947487487</id><published>2006-11-24T14:58:00.000-03:00</published><updated>2006-11-24T15:08:05.776-03:00</updated><title type='text'>Nem tudo é mansidão</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/25630/cronos.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/877052/cronos.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francisco Goya&lt;br /&gt;Saturn Devouring His Son &lt;br /&gt;Oil on plaster transferred to canvas, 4' 9 1/8" x 2' 8 5/8"; Prado, Madrid &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A BOCA DE UM HOMEM VELHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiba, nem tudo é mansidão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olhares para a boca de um homem velho&lt;br /&gt;Pensa quantos lábios deve ter tocado &lt;br /&gt;Quantas línguas sugado&lt;br /&gt;Quantos sabores provado&lt;br /&gt;Pensa nos dentes dessa boca de homem velho&lt;br /&gt;Quanto terá mastigado?&lt;br /&gt;Que carnes, que frutos triturado?&lt;br /&gt;Que mamilos e tetas mordiscado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fitares a boca de um homem velho&lt;br /&gt;pensa, jovem leitor, na senectude daquela língua &lt;br /&gt;e em que ordens terá decretado&lt;br /&gt;quantas palavras mastigado? Quantos versos lambido?&lt;br /&gt;Que nãos... a quantos ferido?&lt;br /&gt;Que sins... a quantos acariciado?&lt;br /&gt;Pensa nos verbos no imperativo&lt;br /&gt;Nos substantivos gelados e lânguidos adjetivos&lt;br /&gt;Nos silêncios engolidos e gritos vomitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cravares teu olhar na boca de um homem velho,&lt;br /&gt;flor murcha decadente, lábios enrugados&lt;br /&gt;como pétalas costuradas em linho gris&lt;br /&gt;pensa nos sorrisos que brotaram em tempos viçosos, imprecisos&lt;br /&gt;em campos da alma fértil e fresca&lt;br /&gt;banhados por raríssimos orvalhos&lt;br /&gt;que o tempo fez questão de eliminar&lt;br /&gt;Pensa no hálito-brisa que então partia&lt;br /&gt;dobrando as flores da vida desejada&lt;br /&gt;anunciando a chuva definitiva&lt;br /&gt;que levaria a alma-seiva para outras safras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olhares a boca de um homem velho&lt;br /&gt;E dela ouvires “Filho, o que te aflige?”&lt;br /&gt;Responde, com calma, que teu olhar investiga&lt;br /&gt;O tempo, o tempo, o tempo, o tempo.&lt;br /&gt;E se ela tornar a perguntar a ti &lt;br /&gt;Na teimosia típica de um velho,&lt;br /&gt;“Filho, o que te assusta?”&lt;br /&gt;Olha firme para aquela boca, sem medo, &lt;br /&gt;E não deixe que ele perceba&lt;br /&gt;Que nela vês os corpos dilacerados de teus irmãos&lt;br /&gt;E os fiapos de carnes presos naquelas presas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-116439117947487487?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/116439117947487487/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=116439117947487487' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116439117947487487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116439117947487487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/11/nem-tudo-mansido.html' title='Nem tudo é mansidão'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-116301945755319822</id><published>2006-11-08T17:56:00.000-03:00</published><updated>2006-12-09T16:16:01.133-03:00</updated><title type='text'>Nessas manhãs de vento...</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/402269/pretextos2.jpg.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/983025/pretextos2.jpg.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou campa, epitáfio em carne&lt;br /&gt;Movo-me por uma lavoura de corpos&lt;br /&gt;Vasto campo de ossos e cabelos, vou...&lt;br /&gt;Repousam em mim velhos fantasmas&lt;br /&gt;Assombram-me nas noites de meus dias,&lt;br /&gt;Espantam meus olhos com sua invisibilidade&lt;br /&gt;Sussurram em meu ouvido sua ausência tão presente&lt;br /&gt;Tão presente, tão aqui, tão cá, presente...&lt;br /&gt;Sou curvo e torto pelo peso de meus mortos&lt;br /&gt;Carrego-os sobre os ombros, sob o peito&lt;br /&gt;Ouço-os chorar, cantar a minha finitude, cobrar palavras&lt;br /&gt;Sinto suas línguas frias em minha pele quente,&lt;br /&gt;Lamento-os. Alimento-os com a solidão do meu medo&lt;br /&gt;Saboreio sua língua em minha língua, sua pele em minha pele&lt;br /&gt;Sua insubstância compõe minha substância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;túmulo, cova,&lt;br /&gt;eu todo cemitério&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;catacumba, ossuário&lt;br /&gt;inteiro necrotério&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus defuntos defumam meu espírito&lt;br /&gt;Com seus vapores de saudade e sofrimento&lt;br /&gt;Este espírito meu que é também deles, &lt;br /&gt;tomam-no de assalto no estupor das manhãs nubladas &lt;br /&gt;Nas tardes de chuva ou no silêncio absoluto das madrugadas&lt;br /&gt;Escuto seu soluço no sabiá do quintal, seu riso no cantar das cigarras&lt;br /&gt;Quase posso vê-los no embaciado do olhar sonolento&lt;br /&gt;Invadem como sem-terras este latifúndio de vida e sentimento&lt;br /&gt;apossam-se de minha alma quando rio, ou choro, ou tremo&lt;br /&gt;Meus mortos, carrego-os e carregam-me.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;alma penada, &lt;br /&gt;morto-vivo&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;caça-fantasma,&lt;br /&gt;zumbi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/BISAV%3F%3FS.1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/BISAV%3F%3FS.1.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, ao ouvir uma velha canção no rádio,&lt;br /&gt;Reconheci a voz de um deles nos versos e na modulação&lt;br /&gt;Outros revivem quando leio seus poemas favoritos, quando sinto certos cheiros,&lt;br /&gt;Quando experimento o frio ou fome ou sede, quando como ou leio,&lt;br /&gt;Lá estão, todos eles, os maravilhosos eles que se foram&lt;br /&gt;com seus medos, sonhos, desejos e segredos mais sagrados&lt;br /&gt;seus planos, flores que a morte colheu com a mão fria e pestilenta&lt;br /&gt;flores raras e doloridas no jardim do inevitável,&lt;br /&gt;frustrados num buquê trágico de magnólias esquecidas.&lt;br /&gt;Meus fantasmas residem em meus sentidos, renascem neles&lt;br /&gt;Uma flor, um tato, um vento fresco que me bate ao rosto&lt;br /&gt;a visão de um pôr de sol, uma alvorada, um barco tosco&lt;br /&gt;me trazem seus cheiros, peles, risos francos, abertos&lt;br /&gt;depositam em mim suas carnes, suores e espermas e mênstruos e salivas&lt;br /&gt;e valsas dançadas e carnes mastigadas e roupas rejeitadas&lt;br /&gt;seus cabelos, palpitação de amores, rancores e vinganças não vingadas&lt;br /&gt;Meus mortos estão muito vivos nas coisas do mundo sensível que me cerca&lt;br /&gt;Vejo-os ressuscitar a cada lampejo de memória, cada lembrança&lt;br /&gt;Cada inexplicado momento de saudade.&lt;br /&gt;Vivos em mim, meus mortos não morrem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;eterno, passageiro&lt;br /&gt;Eu&lt;br /&gt;decrépito, derradeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia vou-me repousar em outro corpo&lt;br /&gt;Como matéria de lembrança, de euforia, talvez tristeza&lt;br /&gt;Estarei vivo na carne viva de meu filho?&lt;br /&gt;De meu amigo? De minha mulher? Do cobrador? Do bancário?&lt;br /&gt;Do ascensorista que me levou ao último andar da Matriz?&lt;br /&gt;Do médico que assinou meu atestado de óbito?&lt;br /&gt;A única certeza que tenho é que viverei neste poema&lt;br /&gt;Quando, ao leres, lembrares o nome do poeta que o compôs&lt;br /&gt;Um velho bardo, talvez sem rosto, perdido na poeira das manhãs de vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Léo (set/out/nov 2006)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/clarescuro.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/400/clarescuro.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foto minha, em 8 de novembro de 2006 (por volta das 18 horas e 30 minutos)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-116301945755319822?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/116301945755319822/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=116301945755319822' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116301945755319822'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/116301945755319822'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/11/nessas-manhs-de-vento.html' title='Nessas manhãs de vento...'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115989947347301865</id><published>2006-10-03T15:14:00.000-03:00</published><updated>2006-10-03T15:20:53.090-03:00</updated><title type='text'>OS JILÓFAGOS</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/jilo2.0.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/jilo2.0.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;...a marca, pai, a mancha...o labéu, o estigma, o vestígio... o sinal, pai, o sinal...do que você está falando? que mancha? que sinal? a maldição caiu sobre teu filho, pai, maculou o teu fruto, marcou tua descendência, meu pai... está delirando, filho? e ele, fora de compasso e harmonia, em perfeita dissonância, como se o mundo estivesse caindo sobre uma taça de cristal, gaguejava e sorria amarelo, aquele amarelo sem jeito de amarelo, cor de quem se pega diante de seu maior pesadelo... tenho a mancha, meu pai, a mancha, a praga, a peste, a desgraça, meu Deus, meu pai, a desgraça caiu sobre tua casa, sobre teu varão...soluçando...e o pai, estupefato, percebendo aos poucos o que o filho queria dizer, mas negando-se a acreditar, desconversava... filho, você anda estressado, pare com isso...não entendo o que você fala, meu filho, que mancha? perguntava já sabendo - e não querendo ouvir - a resposta...o medo estampado na cara enferrujada do velho..uma conversa que morreu por aí, sem conclusão, mas muitas suspeitas e feridas pulsando em ambos, pai e filho: a jilofagia. É certo que em certas culturas o desejo de consumir jiló é plenamente aceitável, chegando mesmo a ser incentivado durante determinados períodos da história, os clássicos são notórios jilófagos, por exemplo, mas agora, nestes tempos de alta civilização... impossível! Gostar de jiló é decididamente uma aberração, um mau costume, desprezível hábito, uma doença, degeneração do indivíduo, falha de caráter, e é por isso que o filho tremia ao tentar contar para o pai sobre sua fome, sua vontade de comer jiló, coisa que vinha fazendo às escondidas, coração na boca, tremores e suores, respiração apressada, o talhe no fruto, a mordida, o líquido a escorrer güela a dentro, o jiló devorado com requinte, prazer, pecado e... medo, muito medo, pavor, terror absoluto. Imagina se o filho do delegado Tavares ia suportar a pressão? E o próprio delegado Tavares? Como ficaria nessa história toda? Logo ele, o grande caçador de jilófagos, o grande muro moral contra o avanço dessas criaturas de maus hábitos alimentares, nem pensar...balançava a cabeça grisalha...nem pensar..meu filho um queimador de jiló? Um guisador de jiló? Um flambador de jiló? Ai, meu Deus, onde errei? Onde erramos, Mota? Onde erramos, meu amor? É a mancha, o sinal, o labéu dos desgraçados. Os Jilófagos, em nossa sociedade, durante tempos, foram tratados como doentes e, apesar de certos avanços na interpretação desse comportamento, ainda são considerados cidadãos de segunda categoria, excrescências, sem direitos, cem deveres. Ganham apelidos jocosos, humilhantes, ora são chamados de “machões”, ora “espadas”. Se queres pisar na garganta de um jilófago, chama-o de “comedor” e verás essa anomalia se encolher em sua própria maldição. Andam por isso em  bandos, em guetos, com a marca evidente de sua preferência. É uma forma de se protegerem, de sobreviverem a esses tempos absurdos de caça aos jilófagos. O horrível hábito de se alimentarem dessa fruta amarga é questionado por todos, principalmente por Deus, via sacerdotes, pastores e rabinos, pais, professores e policiais...comer jiló? Que desgraça! No livro sagrado está escrito “Não comerás da fruta amarga” e no versículo 24 “E o Senhor apareceu em sonho a Jessé, companheiro carnal de Malaquias, e determinou ao abençoado casal viril que não se comesse do fruto verde e amargo”. A campanha de erradicação de jilófagos já foi muito maior e poderosa, mas parece que atualmente, em função de certa liberalização nos hábitos gastronômicos, dos avanços significativos na hermenêutica sagrada e, principalmente, pela presença cada vez mais marcante de jilófagos enrustidos sob a pele de celebridades, do cinema, da música popular e da política, esses “anormais” começam a se sentir mais aceitos...devo destacar que este não é lá um bom termo, talvez fosse melhor dizer, tolerados...quando nos dizem que é preciso mais tolerância com esses doentes eu penso em quantos morreram de porrada por aí, mastigando um último jiló quando surpreendidos no ato... lembro de quantos devem ter chorado a perda de jilós que se lhes retiraram à força, apesar de todo amor que sentiam pelo fruto... lamento a legião de jilófagos que passaram suas vidas comendo escondido o fruto que nasce em todo e qualquer quintal, no quintal do papa, do presidente, do pastor, do rabino, do delegado Tavares, meu Deus, meu filho, meu filho, o sinal, a mancha, a marca...que vergonha. Como vou encarar os amigos? Meus companheiros? A confraria da sauna? Os rapazes da delegacia? A turma das peladas no clube? Como vou dizer isso ao Mota? Meu Deus, o Mota não vai resistir à revelação da jilofagia de nosso filho. Ele não anda bem, coração rateando, me deixando preocupado. Nem pensar em dizer a ele que nosso filho é...machão, um comedor de jiló... onde erramos, meu bom Deus...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115989947347301865?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115989947347301865/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115989947347301865' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115989947347301865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115989947347301865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/10/os-jilfagos.html' title='OS JILÓFAGOS'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115789640223731268</id><published>2006-09-10T10:06:00.000-03:00</published><updated>2006-09-10T11:06:29.980-03:00</updated><title type='text'>CONFRARIA EM CURTO-CIRCUITO</title><content type='html'>Ontem, 9 de setembro, manhã de sábado, alguns poetas reuniram-se para ler seus versos no meio da rua - na verdade, nas ruas estranhas do Centro Comercial CONIC - versos disparados a favor de uns poucos admiradores da poesia. Uma espécie de confraria lírica, capitaneada pelo quixotesco Paco Cac (cabra bom de trabalho e verso), ladeado pelo também incansável Luís Turiba e sua baladeira poética. Batman e Robin da moderna poesia brasileira, ou brasiliense (pelo menos ontem, genuinamente candanga), a dupla apresentou os poetas convidados à platéia, estimada pela PM (que fica logo ao lado do palco) em dois milhões de pessoas (eu e minhas mentiras). O mote foi uma justíssima homenagem ao poeta e crítico Cassiano Nunes, que luta contra uma interminável depressão e nao pôde, por isso mesmo, prestigiar o evento. Compareceram alguns poetas da cidade, o Leozinho aqui, um deles. Ouvimos a poesia concreto-vegetal-brasilúdica-brasilírica de Nicholas Behr. Os versos fixos de Alan VIgiano. A poesia regionalista-transcendental de Angélica Torres Lima (em performance arrebatadora de três fantásticas mulheres...lamento não ter em memória seus nomes pra registrar aqui), os poemas ecologicamente engajados da acreana Francis Mary, Jason Tercio e sua "fake-cascavel", Lisianny Oliveira acima do acima do acima, Nonato Veras...enfim, uns malucos que, como eu, estranhamente gostam de poesia. Seguem os poemas que li (pois nao sei declamar, nao sei recitar, nao sei rezar e só queria mostrar meu olhar, meu olhar, meu olhar...).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro dos poemas, um texto-manifesto, é dedicado alegoricamente ao Cassiano Nunes, e supõe a criação de uma ONG intitulada Fundação Cassiano Nunes, cuja função seria preservar poetas e poesia, bichos em extinção.&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/cassiano.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/cassiano.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Cassiano Nunes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FUNDAÇÃO CASSIANO NUNES PARA A PRESERVAÇÃO DA POESIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Eu vou torcer pela paz&lt;br /&gt;Pela alegria, pelo amor&lt;br /&gt;Pelas coisas bonitas eu vou torcer, eu vou"&lt;br /&gt;Jorge Benjor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;              a um poeta em depressão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os poetas são animais em extinção&lt;br /&gt;Tombam como sibipirunas e jacarandás&lt;br /&gt;Rarefeitos como ar puro&lt;br /&gt;Vão-se feito ararinhas azuis... minguando.&lt;br /&gt;Os bons versos são mico-leões dourados&lt;br /&gt;Carecem de que se lhes dêem o valor de sua raridade&lt;br /&gt;Somem-se em vez de somarem-se&lt;br /&gt;E nisso vai-se também nossa alma apaixonada.&lt;br /&gt;È preciso preservar os ipês e os poetas&lt;br /&gt;As Baleias e os versos&lt;br /&gt;A ética e o tigre albino de Pequim.&lt;br /&gt;É necessário proteger a mata atlântica&lt;br /&gt;E resgatar os bons sonetos&lt;br /&gt;Pois se morremos com rios poluídos&lt;br /&gt;Tornamo-nos tristes sem a poesia&lt;br /&gt;Bestas ficamos sem arte e sem ar&lt;br /&gt;Sem magia, sem estranhamento, sem ritmo&lt;br /&gt;Sem pulso, sem penas, sem escamas, sem rimas&lt;br /&gt;Sem vôo, sem delírio, sem mergulho, sem bicos&lt;br /&gt;Sem lábios, sem garras, sem fibras, sem vida.&lt;br /&gt;Temos mata, rio e bicho em nossa alma&lt;br /&gt;E se matamo-los fora de nós&lt;br /&gt;Morremo-nos também inteiramente&lt;br /&gt;Sobrando-nos a assustadora possibilidade&lt;br /&gt;De rimarmos o deserto ante nossos olhos&lt;br /&gt;Com o outro deprimente deserto, o de nosso espírito.&lt;br /&gt; (Leonardo Almeida Filho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo poema daquela manhã, um longo poema melódico, fala do amor - sempre o amor - e dos quatro elementos (água, ar, fogo e terra).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEMÓRIA DO LODO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            À maneira de Manoel de Barros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto as raízes cantando&lt;br /&gt;no tom do lodo e das pedras&lt;br /&gt;o cheiro doce da luz das rãs&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a carne farta da terra&lt;br /&gt;anoitecendo nas gias&lt;br /&gt;lesmando o sonho...desacordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhecerei orvalho&lt;br /&gt;entardecerei riacho&lt;br /&gt;anoitecerei no teu suor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;madrugarei tempestade&lt;br /&gt;vento ventando vontades&lt;br /&gt;serei semente vibrando ao sol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almas das águas dos rios&lt;br /&gt;borboletando no cio&lt;br /&gt;do faz-de-conta que não tem fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ao me perder, criar limo&lt;br /&gt;brotar canção, virar bicho.&lt;br /&gt;Sei do desgosto de ser capim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desandar das lagartas&lt;br /&gt;sobre o azul de fastio&lt;br /&gt;tanta saudade chovendo em mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pelas goteiras da alma&lt;br /&gt;sinto encharcar-me da calma&lt;br /&gt;de quem sabe que trilha seguir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saudade é a luz quando escuro&lt;br /&gt;o deslizar nobre e seguro&lt;br /&gt;das cobras d' água no pantanal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;bicho sem pé nem canseira&lt;br /&gt;eis a saudade...certeira&lt;br /&gt;ei-la, tocaia no meu quintal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se sabe a cruz, sabe a chaga&lt;br /&gt;de quem conduz pela espada&lt;br /&gt;de quem tem fé justo por não crer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;na paz das almas marcadas&lt;br /&gt;no chão das crias aladas&lt;br /&gt;no que se passa antes de chover&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem ver a noite emprenhada&lt;br /&gt;a cor da estrela abortada&lt;br /&gt;na marca-gosma das lesmas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esse evangelho do lodo&lt;br /&gt;vibra na parte e no todo&lt;br /&gt;num pergaminho de pedras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que a chuva leve o que há de pior&lt;br /&gt;que o vento traga o que há de melhor&lt;br /&gt;que o fogo nos purifique&lt;br /&gt;que a terra enfim frutifique&lt;br /&gt;o amor.&lt;br /&gt;(Leonardo Almeida Filho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/mbarros.jpg"&gt;&lt;img style="cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/mbarros.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Manoel de Barros&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115789640223731268?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115789640223731268/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115789640223731268' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115789640223731268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115789640223731268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/confraria-em-curto-circuito.html' title='CONFRARIA EM CURTO-CIRCUITO'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115774413387978261</id><published>2006-09-08T16:13:00.000-03:00</published><updated>2006-12-09T16:19:04.903-03:00</updated><title type='text'>HOLBEIN E AS ALMAS CEGAS E DESDENTADAS</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/1600/48636/pretextos4.jpg"&gt;&lt;img style="float:right; margin:0 0 10px 10px;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/x/blogger/709/3707/320/244955/pretextos4.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Infelizmente, para muitos de nós, bebida é - e será sempre - apenas água e comida, pasto (Viva os Titãs). Tudo, no fim das contas, uma questão de perspectiva ou situação social, ou as duas coisas ao mesmo tempo. Em tempos de espetáculo (como diria Débord), melhor mesmo é o capim verde e água cristalina, mesmo que falsos, mesmo que isopor, fast food, fast foda. Outros alimentos, nem pensar, nem mastigar, mesmo com dentes invisíveis e cariados. Chego a crer que somos todos, em maioria, almas banguelas num mundo de vampiros e grandes caninos. Este texto cifrado vem ao encontro de Holbein (1497-1543) e seus "Embaixadores", pois, para muitos, a mancha estranha na representação de duas ilustres e nobres figuras (de porte orgulhoso e feição autoritária), é apenas uma mancha estranha e nao representa ameaça alguma, não significa nada além de borrão colorido. E estranho, aqui, vem também dialogar com Freud, sim sinhô! Concluindo essa pequena introdução ao meu poema, o que realmente queria destacar é a total cegueira a que chegamos. Apaguem a luz, ninguém aqui vê nada, nao quer ver nada ou, oops, quer ver sim as fotos do pênis de Michael Jackson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hans Holbein - The Ambassadors (1533) - Oil on wood, 207 x 209.5 cm - National Gallery, London&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/holbein.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/holbein.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS FOTOS DO PÊNIS DE MICHAEL JACKSON&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  "A Pilati, pelo mote&lt;br /&gt;                   A Pessoa, pelo mito&lt;br /&gt;                   A Paco, pela mente&lt;br /&gt;                   A Leminski, pelo norte"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta atento, atado, assiste a tudo:&lt;br /&gt;Estes são tempos de luminosa escuridão e fastio&lt;br /&gt;São tempos de cio e de vícios, de ócio e de estio&lt;br /&gt;De olhos encandeados e almas cegas, tempos de vazios&lt;br /&gt;São tempos velozes, de afeto veloz, de eternidade veloz&lt;br /&gt;Fast food, fast sex, fast love&lt;br /&gt;São tempos de nãos, de muitos nãos&lt;br /&gt;Não à dor alheia, à lagrima do irmão&lt;br /&gt;Não à fome e ao cansaço do vizinho&lt;br /&gt;Não ao afeto, não à carícia, não às delícias&lt;br /&gt;Não ao meu, ao teu, ao desespero de nós todos&lt;br /&gt;Mil vezes não e não, infinitos nãos...&lt;br /&gt;Não ao sim.&lt;br /&gt;São tempos de valores cruéis, tempos de escura luz&lt;br /&gt;Pois é preciso ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Que importa se 800 mil tutsis são degolados em Ruanda?&lt;br /&gt;Se vários cobradores fonsequeanos andam pipocando inocentes?&lt;br /&gt;É preciso ver as fotos do pênis de Michael Jackson.&lt;br /&gt;Quem quer saber de Maria mula que morreu de overdose quando 15 pacotes de cocaína pura estouraram em seu estômago?&lt;br /&gt;Que notícias me dão daqueles imigrantes afogados no mar do Caribe tentando a Ítaca norte-americana?&lt;br /&gt;Que importa o choro que cultiva o ódio dos colonos judeus que enfrentaram a polícia na desocupação de Gaza?&lt;br /&gt;Quem olha pelo menino palestino cujo pai explodiu-se num mercado de Telaviv?&lt;br /&gt;É preciso ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;A quem interessa a agonia de periféricos soropositivos que definham sem auxílio e sem remédios?&lt;br /&gt;Quem fala daqueles que choram no apartamento ao lado?&lt;br /&gt;É preciso ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Quem há de acariciar e velar o sono agitado do pequeno órfão em São Paulo e Jacarta?&lt;br /&gt;Quem de nós, que não nos sabemos, irá falar pelos desempregados do subúrbio da cidade do México e da invasão da Estrutural em Brasília?&lt;br /&gt;Quem quer saber da rosa do povo que míngua à luz destes tempos de negros sóis?&lt;br /&gt;É preciso ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;O poeta estende ao sol a sua alma esfiapada&lt;br /&gt;Mostrando sua dor interminável concentrada&lt;br /&gt;E a poesia de fiapos que apresenta, condensada,&lt;br /&gt;morre lentamente...asfixiada:&lt;br /&gt;São estes, tempos de muita luz e cegueira iluminada&lt;br /&gt;De abandono e vastas solidões acompanhadas&lt;br /&gt;Tempos de um tudo que é nada&lt;br /&gt;Tempos de avesso e aversões.&lt;br /&gt;Estes são tempos de sins e de pecados&lt;br /&gt;Sim à mão fechada e punho erguido antecedendo a porrada na cara do inocente&lt;br /&gt;Sim ao escarro na boca que há muito não beija&lt;br /&gt;Sim ao linchamento do estuprador em Ibotirama e ao espancamento do sem-teto na Praça da Sé&lt;br /&gt;Sim ao ódio e seu combustível de reservas inesgotáveis.&lt;br /&gt;Sim ao não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher branca e a mulher negra querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;As mulheres, a branca e a negra&lt;br /&gt;O homem branco e o homem negro também querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os homens, o branco e o negro&lt;br /&gt;O menino e a menina, brancos, o menino e menina, negros, querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os meninos e as meninas, os brancos e os negros&lt;br /&gt;A avó branca e o avô branco, o avô negro e a avó negra, querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os avós, os brancos e negros&lt;br /&gt;Os tios brancos e os tios negros, todos querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os tios, os brancos e os negros&lt;br /&gt;O padre, o pastor, o rabino, o líder sindical, o delegado, o juiz e o detetive, brancos e negros, querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;O padre, o pastor, o rabino, o líder sindical, o delegado, o juiz e o detetive, brancos e negros A taquígrafa, o repórter fotográfico e o motorista da van que transmite o julgamento ao &lt;br /&gt;vivo, todos brancos, querem ver as fotos do pênis negro de Michael Jackson&lt;br /&gt;a taquígrafa, o repórter fotográfico, o motorista da van, os brancos&lt;br /&gt;Os transeuntes, brancos e negros, que lêem jornais , querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os transeuntes , os brancos e os negros&lt;br /&gt;Os internautas, ciberneticamente brancos e negros, querem na grande rede ver as fotos digitalizadas do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os internautas, os brancos e negros&lt;br /&gt;Os políticos, republicanos e democratas, brancos e negros, querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os políticos, os republicanos, os democratas, os brancos e os negros&lt;br /&gt;Na Alemanha e na Inglaterra brancas, todos querem ver as fotos do pênis negro de Michael &lt;br /&gt;Jackson&lt;br /&gt;Os alemães, os ingleses, os brancos&lt;br /&gt;Os virgens, os pedófilos, os abusados e os portadores de vitiligo, brancos, negros e malhados, querem ver as fotos do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Os virgens, os pedófilos, os abusados, os portadores de vitiligo, os brancos, os negros, os malhados&lt;br /&gt;Os santos, que não têm cor, querem ver a foto colorida do pênis de Michael Jackson&lt;br /&gt;Carros explodindo, gente explodindo, estômagos implodindo, corpos sofrendo ao frio e fome e sede e dores e, o pior, nenhum deles viu a foto do pênis do Michael Jackson.&lt;br /&gt;Escritores escrevendo, leitores lendo, prostitutas trepando, ladrões trabalhando, lesmas lesmando, e nenhum deles viu a foto do pênis do Michael Jackson&lt;br /&gt;Woytila morreu sem ver; os 111 policiais iraquianos mortos pelas milícias fundamentalistas em Bagdá não viram; a junkie belga encontrada morta num beco em Bruxelas também não viu a foto do pênis de Michael Jackson.&lt;br /&gt;A dona de casa ocupada em lavar, passar, bordar e foder com o marido, não teve tempo de ver; o operário que mergulhou vinte metros abaixo da terra para soldar os fios de cobre não teve jeito de ver; o trabalhador escravo na fazenda de um deputado no Pará não pensou em ver; a freira carmelita com febre, no claustro, não conseguiu ver a foto do pênis de Michael Jackson...&lt;br /&gt;E o mundo continua rodando, rodando, rodando em torno das minhas retinas fatigadas e que ainda não viram a foto do pênis de Michael Jackson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta atado, atento e atônito, assiste a tudo:&lt;br /&gt;Estes são tempos estranhos, de luz e escuridão.&lt;br /&gt;Não há dor capaz de mover a mão do homem em direção a outro homem&lt;br /&gt;Não há mais outro e todo sentimento do mundo parece estar&lt;br /&gt;Apenas no desejo de ver as fotos do pênis de Michael Jackson.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Leonardo Almeida Filho)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115774413387978261?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115774413387978261/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115774413387978261' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115774413387978261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115774413387978261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/holbein-e-as-almas-cegas-e-desdentadas.html' title='HOLBEIN E AS ALMAS CEGAS E DESDENTADAS'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115739618792359210</id><published>2006-09-04T15:53:00.000-03:00</published><updated>2006-09-05T12:38:24.966-03:00</updated><title type='text'>Flores Amarelas e Medrosas ou O Medo Além do Medo</title><content type='html'>Quem tem, tem medo. Isso é o que nos diz a sabedoria popular. Medo de que? De quem? Não importa, porque isso é o que nos mantém vivos: o medo. Irracional, não explicável, absoluto, o medo. Foi ele que nos tirou das árvores para a savana e, já eretos, desta para o chá das cinco em Buckingham. Sim, foi medo o que nos fez reagir, lançar mão de paus e pedras, e criar filmes e praças de guerra ou alimentação. Não foi outra coisa que não medo, o que nos fez cultivar mitologias, de gregos a incas, baianos, carismáticos e evangélicos. Somos decididamente uma espécie covarde. A raça humana é medo puro. Note bem, ou não note, apesar do blá-blá-blá que lhe impuseram na escola, creia, a história não se faz com coragem ou heroísmo, mas com medo. Vencedores e perdedores o foram por medo. Toneladas e toneladas de medo ergueram pirâmides e prédios da Sears; cavaram Suezes e Panamás; fincaram bandeiras na lua e nas mais altas montanhas; enfim, sem o medo não moveríamos uma pedra do lugar. Ou você acha mesmo que a falta de medo nos fez abrir mão de nós mesmos? Freud, outro medroso eminente, já sabia disso ao escrever O mal-estar da civilização. O medo nos ferrou, é verdade, mas também nos fez chegar à lua, criar a internet , a Microsoft , a bomba atômica. O medo nos deu Kafka e Graciliano Ramos, Goya e Portinari, Bach e Tom Jobim, Hitler e ACM, Tom &amp; Jerry, Paul &amp; John. &lt;br /&gt;Medo de barata, de perder o emprego ou o bonde da história, de broxar numa transa, de ser estuprada no beco, de não ir para o céu, de escuro, de injustiça, de descobrirem seus crimes, de não ser reeleito, de perder o poder, de escrever errado, de ficar órfão, de ir pra lista de inadimplentes, de mijar sangue, de ter câncer no pulmão, de estar com mau hálito, de que um asteróide louco e sem rumo choque-se com o planeta e você, sem mais nem menos, não tenha mais razão alguma pra ter medo....enfim, tudo se repete indefinidamente. Medo, medo, medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/drummimg.0.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/drummimg.0.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes são tempos de medo, como aqueles anos 1930/40 quando o Carlos Drummond de Andrade reflete, escreve e publica "Sentimento do mundo" (1940). É desse livro o poema a seguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Congresso Internacional do Medo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provisoriamente não cantaremos o amor,&lt;br /&gt;que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.&lt;br /&gt;Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,&lt;br /&gt;não cantaremos o ódio porque esse não existe,&lt;br /&gt;existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,&lt;br /&gt;o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,&lt;br /&gt;o medos dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,&lt;br /&gt;cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,&lt;br /&gt;cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,&lt;br /&gt;depois morreremos de medo&lt;br /&gt;e sobre nosso túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/cemiterio.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/cemiterio.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115739618792359210?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115739618792359210/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115739618792359210' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115739618792359210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115739618792359210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/flores-amarelas-e-medrosas-ou-o-medo.html' title='Flores Amarelas e Medrosas ou O Medo Além do Medo'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115738874289884296</id><published>2006-09-04T13:50:00.000-03:00</published><updated>2006-09-04T13:56:31.290-03:00</updated><title type='text'>A moral cinzenta do fatalismo</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/raimundocorreia.gif"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/raimundocorreia.gif" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Segundo Bosi, no seu referencial “História concisa da literatura brasileira”, a poesia de Raimundo Correia (1859 -1911) destila a moral cinzenta do fatalismo. Ao comentar, superficialmente, a poesia parnasiana desse “mestre seguro” , “menos fecundo e mais sensível” que os demais parnasianos, Bosi considera seus versos são “exemplo de uma poesia de sombras e luares que inflectia amiúde em meditações desenganadas”. Na verdade, como muitos outros bons autores dessa nossa língua, Raimundo Correia é um ilustre desconhecido. Admirado por muitos escritores (Manuel Bandeira e Mário de Andrade são seus fãs de carteirinha), dentre os quais me incluo, é autor de um dos mais belos sonetos de nossa literatura, “As pombas”, sob o qual revolteia uma polêmica acerca de “inspiração” em outra obra. Não me interessa aqui discutir esse pendenga. Em 1979, ganhei um exemplar de “Poesias” (6ª.Edição, 1958), coletânea do autor que inclui poemas de três de suas obras, “Sinfonias” (1883), “Versos e versões” (1887) e “Aleluias” (1891). Em dedicatória, leio: “Ficou muito tempo numa anônima livraria e foi encontrado por acaso. Para o Leo, meu amigo paraibano e ‘parnasiano’. Norma”. De parnasiano tenho apenas a paixão apolínea por um verso perfeito, como apreciador de poesia, não como poeta – que não tenho a paciência para limar versos, esmerilhar palavras, lapidar rimas. To fora!. Fiz um poema dedicado ao Raimundo Correia, mas antes registro aqui o maravilhoso poema III, conhecido como  “As pombas”:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai-se a primeira pomba despertada&lt;br /&gt;Vai-se outra mais... mais outra...enfim dezenas&lt;br /&gt;De pombas vão-se dos pombais, apenas&lt;br /&gt;Raia sangüínea e fresca a madrugada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E à tarde, quando a rígida nortada&lt;br /&gt;Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,&lt;br /&gt;Ruflando as asas, sacudindo as penas,&lt;br /&gt;Voltam todas em bando e em revoada...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também dos corações onde abotoam,&lt;br /&gt;Os sonhos, um por um, céleres voam.&lt;br /&gt;Como voam as pombas dos pombais;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No azul da adolescência as asas soltam,&lt;br /&gt;Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,&lt;br /&gt;E eles aos corações não voltam mais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Raimundo Correia)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora o do Leozinho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema para Raimundo Correia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sofra o coração, embora!&lt;br /&gt;Sofra! Mas viva! Mas bata&lt;br /&gt;Cheio, ao menos, da alegria&lt;br /&gt; De viver, de viver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Correia, meus pombos que não voltam&lt;br /&gt;E por não voltarem eu que me acabo&lt;br /&gt;E vou-me entre brumas de cigarros que não fumo&lt;br /&gt;E com notáveis fumos de defuntos que evaporam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Correia, meu poeta dos pombais desertos&lt;br /&gt;Eu com meus oníricos desenhos tediosos&lt;br /&gt;Suspirando o tédio úmido dessa chuva que não cessa&lt;br /&gt;E que por não cessar vai me afogando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, Correia, se soubesses o quanto dói não ter mais pombas&lt;br /&gt;E assim, sem asa ou vôo, seguir telúrico&lt;br /&gt;Chafurdando o que era sonho em lama e lodo e limo&lt;br /&gt;Apoiado no pombal vazio desses anos&lt;br /&gt;Agora, mais que nunca, só pombal, só pombal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Leonardo Almeida Filho)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115738874289884296?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115738874289884296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115738874289884296' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115738874289884296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115738874289884296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/moral-cinzenta-do-fatalismo.html' title='A moral cinzenta do fatalismo'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115720183079401580</id><published>2006-09-02T09:48:00.000-03:00</published><updated>2006-09-05T12:45:52.170-03:00</updated><title type='text'>NIHIL MAN</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/foundation_basquiat.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/foundation_basquiat.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;(Jean-Michel Basquiat, "Untitled", 1981 - acrylic and mixed media on canvas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se pudesse ser o autor do Eclesiastes, com certeza iniciaria assim o meu texto sagrado: Ironia, pura ironia! Tudo é ironia. Talvez, dependendo do meu estado de putifação (que é diferente de putrefação, embora possa, às vezes, ser a mesma coisa, mas que aqui quer dizer estado de raiva, de estar puto), pudesse ousar mais e iniciar dessa maneira: Sacanagem, pura sacanagem! Tudo é sacanagem. E porque isso ? Porque na vida, brother, tudo são ironias e sacanagens, enfileiradas como aquele bando de velhos na fila para aposentadoria do INSS. Que há de ser do incauto ser, pergunto eu, que mergulhasse no rio vital sem medo ou precaução? Sim, que poderia restar de um tolo assim que, impávido e decidido, metesse o peito na vida real sem escudo ou capacete? Zero, respondo-me, nada, vazio, nihil man. Ou não? Um todo em chagas e descrente, amargo, rancoroso, isso sim é o que restaria desse idiota mor que se entregasse de cara lavada ao bafo podre dos ventos dessa vida. Sou um desses, devo dizer, aspirei a podridão do ar num hausto fundo. Contaminei-me com a descrença da viabilidade da bela via. Ilusão, pura sacanagem. Tudo é sacanagem. Mas antes de escrever o Eclesiastes assim, dessa maneira desanimadora, certamente teria sido eu um desses homenzinhos estúpidos que crêem na natureza humana, uma besta, uma anta iluminista, um candidato ao troféu Asno Feliz. No primeiro golpe, que nem me lembro de onde partiu, devo ter titubeado, mas não perdido a fé. Continuei a mesma besta. O certo é que sucederam-se porradas e porradas, uma longa fila de sossega-leões, e eu oscilando entre o vergão e a cicatriz, o chão e a parede, o ajoelhar-se e o fingir-se de morto. Isso, aprendendo a ser hipócrita e a ser cruel, a desconfiar de tudo e todos, a ser humano. Desenvolvi o mais que comum hábito de ser frustrado, exatamente igual a você que me lê. Hoje, quando me dizem sorrindo na televisão que uma bomba matou tantas pessoas, eu fico louco esperando que venham logo as notícias do esporte. Se me enviam uma carta de apelo para salvação de uma mulher nigeriana, clico na tela do computador e sinto-me leve e redimido do meu pecado. Aprendi que há realmente tempo de plantar e de colher, mas que há um tempo sem controle e previsão: o tempo da praga de gafanhotos que destrói uma vasta plantação de bons frutos em mim. Hoje sou estéril, nuvem de gafanhotos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115720183079401580?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115720183079401580/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115720183079401580' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115720183079401580'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115720183079401580'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/nihil-man.html' title='NIHIL MAN'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-33724581.post-115714416857328205</id><published>2006-09-01T17:48:00.000-03:00</published><updated>2006-09-01T18:21:01.280-03:00</updated><title type='text'>Considerações acerca dos Ipês</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/Vmaia.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/Vmaia.0.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/1600/ipe_800.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/709/3707/320/ipe_800.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Só quem respira esta secura do planalto central, nesta época do ano, sabe e sente a epifania de um ipê amarelo rompendo o gris e a fumaça, típicos dos agostos e setembros. Conversando outro dia com o Marcus Correia, após sua aula de futurismo russo, me dizia ele sobre seu fascínio com a poesia de Maiacóvski. Esse assunto remeteu-me aos anos 80, saudosos e tediosos anos, quando eu, com mais cabelos e menos barriga, assinava versinhos tipo "escada" (como o próprio Marcus define a poesia em degraus do poeta russo), visivelmente inspirado pelo suicida. A lembrança de Maiacovski e sua camisa amarela, chocando os olhos e ouvidos da burguesia russa do início do século passado, por associação, lembrou-me a aparição de ipês amarelos pela estrada, quebrando nossa tediosa viagem urbana, causando estranhamento, tornando-se poesia. Tal conversa e associação, rendeu-me estes versos, cujo título é o título desta postagem inaugural:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Tu, maiacovski no cerrado,&lt;br /&gt;        Que me fitas em arrogante vaidade&lt;br /&gt;               Não imaginas o lugar em que me jogas&lt;br /&gt;Ó violência amarela nas retinas&lt;br /&gt;        Apolínea ereção que me fustiga&lt;br /&gt;                 Me cegas na seca que me cerca&lt;br /&gt;Tu, vlaidoso vladimir amarelo,&lt;br /&gt;         Cíclica presença da aparente morte&lt;br /&gt;                 Exibindo-te revelas minha pequenez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu, blusa amarela da botânica&lt;br /&gt;         Irrompes em virulenta epifania&lt;br /&gt;                 Pra que eu, metafisicamente de joelhos,&lt;br /&gt;                         Possa adorá-lo com espanto, na afasia&lt;br /&gt;Doce bala laica que profano&lt;br /&gt;          No sagrado deleite do olhar&lt;br /&gt;                   Tu, perfeição, pecado, engano&lt;br /&gt;                            Que a gula da visão vem devorar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu mostras o natural destino&lt;br /&gt;         Da beleza que carregas e que invejo&lt;br /&gt;                No frescor de tuas folhas que admiro&lt;br /&gt;                         Dança o vento quente seco que renego&lt;br /&gt;Tu, russo poeta feito árvore&lt;br /&gt;         Nuvem que calças cobrem e oculta&lt;br /&gt;                Mostra a novidade de ser belo&lt;br /&gt;                         No amarelo farto do estar vivo&lt;br /&gt;Doce laica bala que mastigo&lt;br /&gt;         Leigo é o meu contentamento&lt;br /&gt;               Perco-me no meu próprio castigo&lt;br /&gt;                         Não ser Ipê, poeta, nem ser vento."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/33724581-115714416857328205?l=pretextosparamatarjulias.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/feeds/115714416857328205/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=33724581&amp;postID=115714416857328205' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115714416857328205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/33724581/posts/default/115714416857328205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pretextosparamatarjulias.blogspot.com/2006/09/consideraes-acerca-dos-ips.html' title='Considerações acerca dos Ipês'/><author><name>LeonardoAlmeidaFilho</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03416706851552211321</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry></feed>
