segunda-feira, junho 01, 2020

Cenas de Copacabana - Os paraíbas




foto: João Gabriel A.









Experimente ler a crônica ouvindo:  https://www.youtube.com/watch?v=y7OEPImuOgU

Seu Luiz veio de Campina Grande ainda menino. O pai, já falecido, desceu pro sul lá pelos 1950, como previra Graciliano Ramos no finalzinho de “Vidas secas”. Morando em São Cristóvão, ganhou a vida como estivador, até que uma hérnia de disco o jogou para uma banca de balas e cocadas no Saara, pertinho da Uruguaiana. Seu Luiz é porteiro na Hilário de Gouveia, em Copacabana, e mora em Bonsucesso com a mulher e cinco filhos. No edifício ao lado, Raimundo, também paraibano - de “Serra branca, moço”, gosta de frisar, para marcar território e estabelecer a diferença – costuma comprar rapadura e outras guloseimas da “terrinha” no Centro Luiz Gonzaga de tradições nordestinas, a antiga feira de São Cristóvão. É lá que, quando tem algum tempo e dinheiro sobrando, gosta de ir aos sábados, para ouvir um bom forró de pé de serra. Hoje, enquanto seu Luiz varria a calçada em frente a entrada do seu condomínio, Raimundo, fumando, contava, meio invejoso, que um terceiro porteiro, o João, acabara de voltar da Paraíba, onde passara as férias, e onde não botava os pés desde 1971, ano em que chegou ao Rio, uma mão na frente, outra atrás, em busca de emprego.
            - Faz tempo que não visito meus irmãos em Campina. To precisando ir lá, mas não sobra dinheiro, disse seu Luiz caprichando num montinho de folhas secas.
             - Pois é, também não consigo - traga o cigarro e faz cara de quem refletiu muito em algo importante - não sei onde o João arranjou grana pras passagens... soube que ele foi com a tropa toda, mulher e filhos.
            - Bom pra ele, né, Raimundo? Diz seu Luiz, num tom de voz que, acentuando e estendendo a abertura do né, evidencia sua reprimenda.
            E ficaram nessa conversa mole, com uma saudade acochada e, no caso de Raimundo, uma ferroada de inveja.
           No edifício em que moro, há cinco porteiros que se revezam na função de faxina e portaria. São todos nordestinos, acredite. Tenho, às vezes, a impressão de que a grande maioria dos porteiros de Copacabana desceu do Nordeste para abrir e fechar as portas dos edifícios do Rio de Janeiro. Deveriam fazer um pequeno e particular senso para confirmar essa minha impressão. São profissionais zelosos, com exceções, é claro.   
Conhecem a fundo sua clientela, quem anda com quem, quem namora quem, quem brigou com quem, quem pode, quem não pode, quem manda e quem obedece. Porteiros são verdadeiros poços de informação do condomínio. Um conselho: não se meta em confusão com um porteiro, pois são quase donos do edifício. Como Raimundo, João e seu Luiz, muitos “paraíbas” integram o pelotão de porteiros da rua Hilário de Gouveia, Santa Clara, Domingos Ferreira, Prado Júnior... de toda Copacabana. Para os cariocas da gema, todo nordestino é “paraíba”, mesmo que baiano, piauiense, cearense. Assim, num mesmo balaio rubro-negro ostentando um NEGO, vão-se pernambucanos e alagoanos e maranhenses. É como se o mundo da portaria fosse todo ele de paraibanos. Para um carioca, ninguém nasce na Bahia, no Ceará ou Pernambuco. Todos somos – pois também sou – paraíbas. Não por outro motivo, há uma pracinha entre as ruas Siqueira Campos e Hilário de Gouveia, imprensada pela Nossa Senhora de Copacabana, que tem o singelo nome de Praça dos Paraíbas. Convenhamos, é muito mais agradável que chamá-la pelo nome real: Praça Serzedelo Correia, nascido no Pará, e que foi ministro de Floriano Peixoto, um paraíba de Alagoas.


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