terça-feira, agosto 28, 2018

Os Anjos










This he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return"
Eden Ahbez

Para Lincoln



A poeira provocada pela passagem do carro que carrega os exterminadores já pousou sobre as coisas vivas e mortas. O ermo é paisagem, quase miragem. Nada além de um chiado leve, gemido, indicando a presença do sofrimento onde parecia nada haver. Visagem. Assim, devagar, bem devagar. Primeiro uma gota, escura, amarga, exalando um cheiro horrível de podridão e dor, caindo para... de, não importa mais. Sem barulho algum além do da respiração ofegante e agoniada, no compasso da desgraça e do desespero que parecem se findar na marcação do metrônomo da tragédia. Gotas várias de um sangue muito negro e fétido escorrem pela terra, vermelha terra do cerrado, mergulham nas raízes da sibipiruna, alimentando a matriz exposta do capim seco prestes a arder-se em chamas... Longe, a escuridão pesada do abandono e da ausência de carinho. Só dor, profunda dor que preenche cada espaço do pensamento que tende a não mais pensar. Não é possível mais sentir onde não dói, onde não sangra, onde não fede, onde não escapa a seiva vital. Tudo massa disforme e pútrida, ainda movendo-se sobre e sob a respiração que parece desaparecer, assim, devagar, bem devagar. Envoltos em fita crepe, sob carne macerada que expõe ossos partidos, tutanos, artérias e tendões e alguns dentes arrancados, há sonhos que nunca se realizarão e outros que, realizados, se perderão na decomposição da matéria e repousarão, carbono e fósforo e potássio e cálcio, na frialdade inorgânica da terra; prazeres que nunca serão gratificados, gozos que não serão gozados, sêmen que apodrecerá na origem; medos que não terão mais razão de existir, pois a escuridão adentrou definitivamente o espírito; leituras que se perderão sob a o último lampejo neuronal e que levarão consigo, para lugares insuspeitados, os machados e clarices e rosas e pessoas e dantes e goethes e augustos e; sorrisos e lembranças e resquícios de outros corpos que não mais existirão ali, ali naquele monturo, naquela coisa, naquele traste, naquele treco, naquele troço, naquilo que já foi ha pouco um homem e que agora poreja, goteja um líquido escuro e de odor insuportável. Aquele pacote envolto em fita crepe, assim imobilizado para o exercício da pancada e para a delícia do mais profundo e escuro prazer bestial, com pêlos saindo pelas frestas manchadas de sangue e pedaços marcados de carne, foi um dia o amante que fodeu e foi fodido, que gozou e foi gozado, que deu prazer e recebeu prazer; o amigo que abraçou e que beijou e que chorou a ausência e que perdeu o sono e que sentiu sede e que chorou em Cinema Paradiso e sorriu em Morte em Veneza e que xingou o guarda de trânsito e que lamentou a perda de cabelos e o ganho de peso e que telefonou de madrugada se desculpando por ter esquecido o teu aniversário e que detestava comer fígado mas adorava carne moída com batatinha e ervilhas e que nutria o mais íntimo desejo oculto de fazer sexo grupal e que se preocupava com o fato de estar chegando aos trinta sem ter adquirido uma casa e que ultimamente andava insone por causa de; aquele objeto encolhido ao pé da árvore seca do cerrado continha o cidadão que reclamou na fila do banco e que votou para eleger o presidente da república. Aquela escultura de carne triturada, argamassa de tecido e sangue, um dia foi o sorriso que encantou mulheres e homens, o menino que soprou as cinco velas de um aniversário que, ocorrido há vinte e três anos, não mais existirá, a não ser nas fotografias guardadas na lembrança de um vulto feliz de mulher; foi o estudante que declamou poemas de Florbela Espanca...espanca. Ontem ainda acreditava num futuro. Mesmo quando, colhido pela inexorabilidade da peçonha e da traição, encarou a figura da morte e da crueldade, ainda havia dentro dele, pequenina, a esperança de que se lembraria daquilo um dia com pavor, mas vivo e pleno. Quem algum dia saberá realmente? Agora, parece não haver mais movimento no meio daquele espetáculo de sangue e fita crepe. É o último dos instantes, o ínfimo, o limiar. Tudo o que é efêmero é somente preexistência; O humano-térreo-insuficiente aqui é essência; O transcendente-indefínível é fato aqui; O feminil-imperecível nos ala a si. Só pequenos répteis e insetos presenciaram o momento em que, após Murdad, cortando o fio primordial que nos faz ser, separar com as mãos de éter e mistério o corpo da alma, Azrael, o imenso anjo de quatro mil asas e bilhões de olhos e línguas, desceu do não-onde-e-sempre trazendo a indesejada das gentes. Agora, apenas o vento seco do cerrado envolvendo o corpo sem vida do rapaz, assim, devagar, muito devagar.

quinta-feira, agosto 10, 2017

O Tecido da História



De que tecido é composta a História? Qual a matéria que forma os ídolos, os grandes eventos, as lendas? Enfim, de quantas pequenas e grandes mentiras é feita a verdade da História?  Em “Sitiado” (Editora Chiado, 2017, 210 p.), o escritor Edmar Oliveira toca nessas questões com grande elegância, criatividade e humor. Seu romance constitui-se de uma urdidura ficcional que permeia os fatos históricos que marcam a passagem, pelo Nordeste, da Coluna Prestes. Na verdade, o romance focaliza o cerco empreendido pelos colunistas à capital do Piauí, Teresina, cidade onde formou-se o escritor. A estratégia narrativa privilegia os diversos pontos de vistas dos personagens/testemunhas do evento histórico, pondo em destaque aqueles que sempre são meros coadjuvantes, pequenas engrenagens do carro da História. O olhar quixotesco de Teodoro, um pequeno proletário cheio de sonhos e fantasias, que, enviesado, confunde as histórias dos Pares de França, do clássico texto de cordel, com a situação histórica da qual participa ativamente. É pelo olhar de Teodoro que o autor se permite desarmar a versão oficial, abrindo possibilidades outras para a explicação de determinados eventos históricos. Nesse sentido, guardadas as devidas proporções, “Sitiado” é um texto irmão de “Viva o povo brasileiro”, de João Ubaldo Ribeiro. O intertexto, ferramenta fundamental na construção de “Sitiado”, configura-se na adoção, por analogia, das narrativas de cordel de autoria de Leandro Gomes de Barros, especialmente a história de Carlos Magno e “A história da donzela Teodora”, de onde o autor extrai as epígrafes de cada capítulo. As narrativas populares encontram eco na visão de mundo do matuto Teodoro e tornam a leitura de “Sitiado” num pequeno jogo de aproximações. Depreende-se dessa leitura que, no fim das contas, não existem fatos, mas versões de fatos. A História, podemos entender, é uma espécie de literatura de ficção que se quer absolutamente verdadeira, sem poder sê-la, pois a visão do historiador é sempre um recorte da realidade, assim como a versão das testemunhas trazem sempre seu ponto de vista. Se para Teodoro, o cidadão piauiense, suas leituras demandam o intertexto de cordel, outro personagem importante na narrativa, o imigrante de origem libanesa Abdon, incorpora os contos/causos do popular personagem turco Nasrudin. Em contraponto às diversas situações por que se depara o personagem, as narrativas do quase folclórico Nasrudin costuram humor e crítica refinados. Abdon, assim como Teodoro, ingressa na Coluna Prestes cheio de sonhos. O primeiro, pragmaticamente, vê-se colunista como forma de resolver um problema financeiro com o patrão. Julgando-se explorado, acredita que a Coluna trará um mundo melhor e aposta nessa possibilidade, ingressando em suas fileiras. Teodoro por sua vez, contaminado pelas fantasias cavaleirescas e pela sincera intenção de mudar sua situação de vida, abandona a farda e segue ao encontro de seu Carlos Magno. Esses dois personagens poderiam sustentar, sozinhos, toda a trama, e o fazem com coerência e substância a partir da construção literária empreendida por Edmar Oliveira que, não se contentando com isso, ainda nos traz a figura emblemática do Lenine do Maranhão, figura interessantíssima que, por si só, seria capaz de compor uma grande história. O personagem, baseado numa figura histórica real, atravessa a narrativa como um relâmpago. De revolucionário político torna-se ao final da vida um místico, cumprindo uma trajetória no mínimo peculiar de alguém que parte de Lênin para tornar-se Antonio Conselheiro. Curioso lembrar que sua vida nos remete à lembrança do processo de mudança em Tolstói que também, na velhice, abandona sua vida mundana e foge para a morte em seu misticismo. A galeria de personagens nos traz a figura de Geraldo, articulador político silencioso. Os personagens femininos são construções que ideologicamente se afastam: por um lado, Donana, mulher empreendedora e romântica, paradoxo que se resolve com a sua decisão de mudar de cidade por sugestão de um novo amor. Do outro lado, Ceiça, humilde e simplória. A primeira, dona de uma pensão, apaixonada pelo libanês Abdon, persegue seu desejo. A segunda, parideira, submissa ao marido, Teodoro, segue sua sina de parir filhos e sofrer ao lado do marido. Ceiça tem um quê de Sinhá Vitória, mas não tem a garra do personagem de Graciliano.

Os personagens Históricos se apresentam na narrativa a partir dos pontos de vistas dos personagens construídos por Edmar Oliveira. Assim, Juarez Távora surge como o prisioneiro garboso e poderoso que se entrega às forças legalistas e Prestes, como um fantasma, atravessa o texto sempre em fuga. “Sitiado” é uma grande coluna arrastando-se em nossas retinas, levando de roldão as gentes que fazem a História, mesmo quando dela não participam. 

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Hans, o banto

Contava eu, ao meu amigo Castro, as convenções que a novíssima crítica imbecil, com cheiro de mofo, prega na gente, quando me lembrei de relatar-lhe as peripécias de um conhecido meu. Tal lembrança me caiu na ponta da língua por conta de uma sua infeliz observação que muito me irritou: dizia-me ele que na formação do povo brasileiro havia um quê de preconceito para com os germanos. Ora, ora, ora. Pois não é que o Castro lembrou-me, e muito, uma figura singular da academia que costumava pregar a mesma idéia estapafúrdia? A menção a uma suposta germanofobia do brasileiro remeteu-me a esse folclórico pensador, autor de proezas fantásticas, contadas nos salões das casas do saber, e sobre quem não recai essa pequena história. Meu protagonista é outro e é com ele que passo a gastar meu verbo agora. Hans era afro-descendente (o que quer dizer, caro leitor, em bom (ou mau?) português, que Hans era negro para alguns, preto para outros, retinto para uma parte, framenguista para outra, tição pros basbaques, favelado para aqueles que atiram ovos podres da janela, bandido para esses, sarará para um bando, mano para outro, mulambo pro pessoal do Cansei, enfim, a verdade era que o menino Hans era afro-descendente, apesar do nome tipicamente alemão), pai nigeriano, mãe baiana de Santo Amaro da Purificação, terra de Canô e Caê, nascido no Hospital de Base, em Brasília, no longínquo ano de 1973. Corria no seu sangue a nobreza e a vulgaridade de antigos nobres e vassalos africanos, de escravos e reis de africabrasilis. Hans Nduka Olumayowa Santos era o seu nome estampado na certidão do Cartório do 1º. Ofício, Setor Comercial Sul, Brasília, Distrito Federal. Pai desconhecido, mãe doméstica. Como testemunhas o nome de Raimundo Nonato, brasileiro, casado, natural de Olhos d’água das cunhãs/MA, operário da construção civil, e Olindina Freitas, brasileira, casada, natural de Montes Claros/MG, do lar. Essas duas personagens periféricas da história de Hans terão suas vidas marcadas por encontros sucessivos. Olindina e Raimundo tornarão a se encontrar, talvez noutra história que eu componha, talvez só na menção destas palavras, mas com certeza aqui, na Certidão de Nascimento de nosso herói. Batismo não houve. A icterícia dos primeiros dias transformou-o num bebê magro, pele e osso simplesmente, quase sem recheio, amarelo-vilão-de-Frank-Miller-em-Sin-City, que o chá de picão, bebido às escondidas por conta da censura médica a esses remédios populares, apagou, trazendo de volta o negrume epitelial genotípico. Castro, entre uma baforada e outra, perguntou-me como o pai de Hans veio parar no Brasil. A memória e a invenção me dizem que Ngala Olumayowa chegou às terras tupiniquins como imigrante clandestino num navio de bandeira grega, o Atenaikos, que transportava leite em pó para os pobres da Bahia, doação de gentis governos europeus. Em Abrolhos, repleto de sede e leite em pó, descoberto entre sacos de batata por dois velhos marinheiros mal encarados que se masturbavam mutuamente no porão, esteve a ponto de ser jogado ao mar, como acontece com muitos de seus conterrâneos que tentam chegar ao novo velho mundo, mas a intervenção calorosa de um jovem médico alemão de nome Hans, que atendia à tripulação do Atenaikos, salvou-o de banhar-se em água salgada e ele veio, como um rei nagô de dentes brancos e olhar esperançoso, repousar num velho casarão no centro de Salvador, e foi ali, entre iguais de línguas diferentes, que ele viu, amou, engravidou, traiu e disse adeus a Maria de Lurdes Santos, a Lurdinha, empregada doméstica de um funcionário graduado da prefeitura de Salvador que, ao descobri-la grávida, após meses de uma tentativa vã de ocultar a barriga crescendo, temendo que algum de seus preservativos houvesse falhado, botou-a no olho da rua, para evitar complicações trabalhistas e paternalistas, enquanto ela, com a mesma nobreza nagô de seus ancestrais, uma mão na frente e outra atrás – perdoem-me a rima, mandava-lhe tomar no meio do olho do cu do toba, com o sotaque acentuado e cantado do Pelô. Às vezes me parece ainda ouvi-la berrar da porta da casa do Rio Vermelho: Seu Jorge, o senhor vá se foder, viu? Aproveite o feriado e rasgue seu furico. Sim, era feriado em Salvador, era 2 de julho. Lurdinha era assim, pavio curto, sem papas na língua, ousada e corajosa que só ela, e foi com essa ousadia e coragem que, decisão tomada, arrumou os paninhos de bunda e seguiu pra Brasília em um dia chuvoso de um ano de chumbo. Bucho cheio, rebentando, pariu seu filho na noite de 17 de setembro de 1971. Hans veio ao mundo esperneando como bom baiano, berrando como bom brasileiro. Nesse mesmo dia, no sertão da Bahia, morria Carlos Lamarca. Foi assim que o menino veio ter à terra brasílica. Castro, curioso que só ele, perguntou-se sobre o fim do pai de Hans. Por onde anda o sujeito? Ainda em dúvida quanto ao fim dessa personagem, respondi-lhe que Ngala sumiu num caminhão que rumava para Rondônia ou num catamarã que seguia para Fernando de Noronha. Confesso que eu não sei o que aconteceu com o pai desse amigo. Alguns afirmam tê-lo visto subir num ônibus que partiu para Maceió, outros juram tê-lo visto brigando num BaVi e, ferido na cabeça, levado inconsciente para o Hospital, de onde partiu sem rumo e sem memória e não se teve mais notícia dele. Presume-se que tenha voltado para a Nigéria ou tenha sido jogado ao mar com seus dentes de nobre linhagem africana. Outro dia me disseram que Ngala virou personagem num romance de João Ubaldo Ribeiro e que, culto e erudito que só ele, berra a plenos pulmões que sabe inglês melhor que qualquer doutor branco. Mas não posso confirmar essa versão, pois ainda não li João Ubaldo. O que lhe garanto, Castro, é que o menino cresceu nas ruas, jogando bola, batendo tambor, fazendo música, com uma delicadeza que contrastava com as rudes relações pessoais da cidade satélite em que morava. Aos 13 anos, após um troca-troca ofegante, surdo e sujo, lúbrico, com Aleixo, o filho de Dona Zilá, costureira paraibana cujo marido era fiscal de obras da administração regional de Ceilândia, o pequeno Hans sentiu-se arrebatado e descobriu-se homossexual. Não eram à toa suas ereções diante do professor Eduardo de Educação Física nas aulas do Centro Educacional 24. Nem era por acaso que adorava andar em pé, em ônibus lotado, só pra sentir o roça-roça com outros meninos e homens que se aproveitavam da situação para tocarem-se impunemente. Foi numa dessas viagens lotadas, Ceilândia/W3 Sul, que o menino conheceu, primeiro no toque, depois no sentido bíblico, o corpo do Senhor Ezequiel Carlindoga. Ficaram muito amigos. Na verdade, pela falta de assunto e ignorância, Hans percebeu-se fruta, baitola, fresco, viado, e dar o cu e chupar rola, valei-me Freud, passou a ser o seu princípio de prazer. Era feliz, muito feliz. Ganhava presentes do senhor Ezequiel, passara a freqüentar os cultos da igreja evangélica onde o Pastor Carlindoga pregava a palavra do Senhor e onde, muitas vezes, o pequeno Hans sentiu a língua do senhor. Lurdinha era uma mãe compreensiva e, apesar de todas as humilhações que sofria por conta da homossexualidade do filho, sempre apoiou o pequeno Hans em sua opção. Ser baitola é ser gente, gente! Baitola é filho de Deus como todo mundo, minha gente! Ela berrava àqueles que a censuravam por não reagir com violência aos “maus costumes” de Hans. Deixem meu menino em paz, é dele, dá pra quem quiser, e ninguém tem nada com isso, apelava. Ninguém tem realmente nada com isso, nem eu que escrevo essa história. Quem sou eu? Deixemos Castro e seu amigo por instantes, pois um valor mais alto se alevanta. Ora, ingressou nessa narrativa um negro, que é gay, uma mulher que é empregada doméstica, mãe solteira cheia de coragem, um imigrante clandestino, um branco alemão bonzinho, marinheiros punheteiros, uma população pobre e periférica, um guerrilheiro morto, um narrador ágil e bem humorado, um texto cheio de intertextos, que mais falta neste tecido de letras para uma representação por cotas da sociedade brasileira? Qual o percentual necessário de mulheres e gays e negros e meninos num texto literário de autor brasileiro? Ah, dirão que este conto, escrito por autor masculino, reforça o estereótipo e valida os preconceitos de classe, de gênero, pois quando um negro surge na literatura, é ladrão, ou gay, que o diga Adolfo Caminha e seu Amaro. E mulher? Ou ela é prostituta, ou dona de casa, ou doméstica, ou gostosona, ou tudo isso junto. Essa história de Hans só faz reforçar lugares-comuns perniciosos e preconceituosos e todos os osos ruins que a nossa literatura vende ao leitor burrinho, que não sabe julgar, discernir, separar, criticar. É por essas e por outras que se faz necessário dissecar os textos publicados ultimamente, parti-los fibra por fibra, identificando sua anatomia preconceituosa. Onde estão os negros na literatura contemporânea? Berra-se! Cadê as mulheres? Vocifera-se! Este é, por acaso literário, um país de brancos e ricos e classe média? Reverbera-se! Será que apenas de Capão Redondo vem uma literatura que represente a sociedade brasileira? A sociedade brasileira é Capão Redondo? É Zona Sul? É a cidadezinha provinciana de onde partem raparigas e rapazes sonhadores e fúteis e cheios de idéias ultrapassadas que julga modernas? Exaspera-se! Pau nesses escritores, estabeleçamos uma regra, uma camisa de força, uma cartilha social e estética que esteja totalmente baseada num modelo estatístico confiável. Um modelo que esteja assentado em variáveis coerentes e que se possa finalmente escrever literatura com percentuais adequados de mulheres cultas e burras e gostosas e feias e sabonete-Araxá e narradoras. Um modelo que prescreva o nível ideal da voz feminina e masculina no mercado editorial brasileiro das grandes editoras. Estamos às voltas com uma espécie nefasta de neo-zdanovismo. Muita estatística e pouca cultura os males do Brasil são. Façamos o seguinte: Hans continua negro, mas não é gay, ele é um sedutor tremendo. Desenhemos um negro de sucesso, pois, mesmo improvável num país como este, eles existem aos montes. Continuemos nesse novo simulacro, respire fundo, suspenda a descrença, é outra a história, siga-me. Sua mãe (de Hans, não tua, caro leitor burrinho), depois de muita luta honesta, conseguiu montar uma pequena empresa de limpeza e conservação e conquistou alguns contratos com órgãos públicos, que lhe renderam uma boa quantia e contatos, esses mais rentáveis que aquela. A coisa fluía a passos lépidos (quem fala lépido hoje em dia? Só mesmo um escritor pedante e metido a besta) e D.Lurdinha investiu na educação do filho. Hans ingressou na Universidade de Brasília para o curso de Medicina e, orgulhoso como ele só, negou-se a submeter-se à seleção de cotas, por achar que seria – e foi – capaz de conquistar a vaga dispensando a seleção por critério de raça. Questão de ordem: os representantes do movimento GLS certamente sentiram-se ofendidos pela mudança de opção sexual de Hans, isso demonstra preconceito do autor e é inadmissível, disseram-me. Como pode um autor submeter-se ao patrulhamento de quem quer que seja? Alguns representantes do Movimento Negro Unificado sentiram-se traídos pelo fato de Hans não validar a ação afirmativa do processo de cotas e, ao assumir-se de forma egoísta, não pensar naqueles que dependem desse instrumento de pagamento da dívida que a sociedade brasileira tem para com os seus negros. Terrível. A representação de Lurdinha como mulher vitoriosa num mercado machista de trabalho fez com que o texto ganhasse em importância como um instrumento de valorização da mulher que se revela um ser pensante e produtivo, coisa que, para muitos autores, não é. Mas o que não contei ainda, meu amigo Castro, é que Dona Lurdinha desenvolveu alguns hábitos muito excêntricos: ela costuma produzir ovos podres e jogá-los, da janela de seu duplex na 112 sul, nos carros que passam na quadra. Hans se diverte colocando partes de cadáveres nas mochilas de seus colegas brancos do curso de Anatomia. Ultimamente anda fechado, muito calado, casmurro, converteu-se ao catolicismo, esqueceu o Senhor Ezequiel Carlindoga que, dizem, suicidou-se na quarta-feira de cinzas e abandonou as sessões no Centro Pena Branca do pai Tonico de Xangô, para alegria de sua mãe, que há tempos havia se convertido ao pentecostalismo e rejeitado seu passado bantu. Dos males o menor, ela dizia nas reuniões sociais, melhor um filho papista e comedor de hóstia do que um macumbeiro que faça despacho com frango preto e farofa, não é mesmo? Ainda hei de vê-lo chutando estátua de santas na televisão, pois o sangue de Jesus tem poder, ela dizia. Pronto, falei de sincretismo, de alta sociedade, de alunos brancos nas universidades federais, mas ainda faltam negros nessa história. Pois que venham. Hans conheceu Padre Jacó, um judeu etíope convertido ao catolicismo, e os dois sofreram uma atração imediata. Hans projetava a figura paterna no sorriso branco do amigo de batina, e este, reconhecia no jovem Hans a beleza de um Tadzio negro. Eram óbvios, para Hans, os olhares famintos que Jacó lhe enviava durante, antes e depois das missas dominicais. Evidente o clima de sensualidade que sentia quando, na casa de Jacó, discutiam poesia e religião, ouvindo a 5ª.de Mahler e isso, ao invés de constrangê-lo, excitava-o bastante. Relembrou o que sentia algumas páginas atrás, antes do texto ser mudado, e sentiu-se de novo um fresco, baitola, viado, e retribuiu ao olhar do padre com um sorriso de orgulho e virilidade nigeriana que se afogava na malha da letra, na narração caótica de um autor perdido entre representações e estatísticas. Castro, me perdoe, mas isso está complicado. Ah, leitor, quer saber? Que se fodam Lurdinha, Hans, Jacó, negros, judeus, gays, heteros, padres, brancos, católicos, ricos, pobres, a sociedade brasileira, a crítica literária e, só para não perder tempo, que se foda você também. Fazer literatura está cada dia mais inviável. Tem mais não. Chega!

sábado, fevereiro 25, 2012

A curta vida de Mariazinha

Mariazinha nasceu sem nariz, respirava pela boca e fazia um barulho danado. O pior de tudo é que, ao alimentar-se, era comum engasgar-se. Nessas horas, o desespero era tamanho que ficou acertado entre todos, pais e irmãos, que na hora das refeições, todos estariam a postos para socorrer Mariazinha em seu desespero. Na escola, como de praxe nesses casos de gente diferente, pegou logo o apelido de Maria Sem Fuça, uma corruptela maldosa de focinho. Ora, para os moleques da Centro de Ensino Médio onde cursava o segundo grau, Maria da Imaculada Graça de Almeida era simplesmente Maria Sem Fuça. Até que não era de todo feia, tinha cabelos loiros, lisos e compridos, puxados à mãe. Olhos claros, de um azul brim desbotado, puxados ao pai. Lábios grossos, puxados da mãe. Bunda larga, puxada da mãe. Pés grandes, puxados do pai. Desprovida de nariz, sua voz assemelhava-se a de qualquer pessoa muito gripada. Tinha-se a impressão de que, ao falar, Mariazinha fosse uma paciente de rinite crônica. Pior, beirava o fanho. Era católica fervorosa, frequentando a Paróquia do Verbo Divino. Curioso quando ela dizia, compenetrada, Abém. De sacanagem, pediam-lhe que repetisse palavras com M. Mamãe, Mamanguape, Mamadeira. E ouvíamos Babãe, Bãbãguape, Bãbadeira. O pai, também muito católico, costumava dizer aos parentes, tentando se enganar, que havia coisas boas nisso tudo, que havia sim um plano de Deus para Maria Imaculada. E listava suas conclusões obtusas: ela nunca vai cheirar cocaína. Não vai sentir o mau cheiro dos peidos alheios. Não vai espirrar. Nunca vão poder dizer que ela meteu o nariz onde não devia. Nunca vai ter o nariz entupido. Nunca vão lhe ver tirando meleca, limpando o salão. E assim por diante. Ele realmente acreditava nisso. Mariazinha morreu jovem, durante um assalto. Para evitar que gritasse, ladrões amordaçaram-na com fita crepe. Ela foi ficando roxa, roxa, roxa e parou de se debater depois de poucos segundos.

A história de Francesco - Auto-ajuda é tudo de bom

Numa pequena vila na região do Piemonte, vivia um jovem chamado Francesco di Pietro Paulo. Seu pai, Guido di Pietro Paulo, um próspero comerciante da região, negociava azeite de norte a sul da Itália, era um pio homem, cidadão do bem, generoso, crente, fiel, fraterno, inteligente, bondoso, enfim, um chatólatra de marca maior e destinado ao céu. Na vida desse homem bondoso, uma tristeza enorme: as mazelas físicas do pequeno Francesco. Nascera sem pernas, sem braços, coração para fora do corpo, hidrocefalia, um monstrinho. A riqueza do pai conseguiu recuperá-lo de algumas dessas trágicas situações, mas pernas e braços ainda não fazem parte de seu dia-a-dia. Certa feita, uma mulher que passava com seu filho nas proximidades da casa de Francesco, ouviu seu filho reclamar da vida. Dizia ele: Mainha, que preguiça danada. Essa vida é tão chata, mainha. Queria tanto um show de axé, mas não tem por aqui. Que tragédia, minha mãe. Ela, muito magoada com as reclamações do filho, lhe dizia: Pare com isso, Reginaldo Kleberson da Silva. Você tem braços, tem pernas, tem molejo, sabe a dança da garrafa, do carrinho, do pirulito vesgo, sabe as letras de Ivete, de Claudinha e de Brown, tem saúde pra dizer que tem preguiça, não pode reclamar da vida, menino. E deu-lhe um puxão de orelhas. Francesco di Pietro Paulo, que tudo ouvia, sentiu-se iluminado, pois servira de bom exemplo para Reginaldo Kleberson. O único problema em não ter braços e pernas, cria ele, era a dificuldade de coçar o rego em dias de calor. Isso sim era uma tragédia. Não tem coisa pior do que chamar alguém pra limpar seu rabo, depois de obrar, ele pensava consigo. E quando o serviço é mal-feito e sobram pequenas pelotas de massa fézica que, ressecadas, acabam unindo os pelinhos em torno do brioco? Isso sim é terrível, ele pensava, aquela vontade de evacuar, o tijolo saindo e puxando os pelos todos. Quer dor mais profunda que essa? Ser chamado de “cotoco” na rua não lhe apoquentava tanto quanto excitar-se e não satisfazer-se. Membro em riste e ele tendo que esfregar-se na parede, no colchão, no poste, no cão. Caos dos caos. Foi ouvindo essa história, há tempos, que eu comecei a perceber o quanto somos egoístas. É preciso, caro leitor, que você reconheça suas qualidades e seus defeitos. Você que tem braços, que tem pernas, que dança axé, do que está reclamando? Por essas e por outras é que eu rezo todas as semanas diante da TV, olhando o Padre Fulano Rossi encarar uma santa e, em transe, repetir indefinidamente palavras de ordem. Ah, fala que eu te escuto, seu boçal. É também por isso que entôo mantras e loas, de krishna e de Murti. Também por isso que freqüento centro espírita e terreiro de candomblé. Francesco di Pietro Paulo não sabe, mas é graças a ausência de suas pernas e braços, que me dá um prazer enorme quando lavo a bunda ou quando, discretamente, coço o cu.

Sobre felicidade e miséria

Recebi de uma grande amiga uma mensagem que dizia: Ele começa o dia com um sorriso. E você? A mensagem trazia uma sequência de fotos com um lindo garoto branco, num local limpíssimo, e sorriso também branco estampado na cara bem alimentada. O detalhe trágico da foto era que lhe faltavam as pernas. O menino caucasiano de sorriso meigo aparecia exibindo suas próteses e se divertindo, dentro de sua limitação, com esportes telúricos e aquáticos. Ora, é evidente que essa minha amiga queria me dizer algo como: Não seja mal-humorado, pois você tem tudo e alguns que não têm nada são tão mais receptivos. Ou, pior ainda, talvez quisesse me dizer: Não reclame da vida, tem gente em muito pior estado do que o seu.

E aí me vêm duas perguntinhas cabais: Que estado é o meu? O que ando fazendo para merecer a culpa de não querer começar o dia sorrindo?

Peguei-me a pensar nisso e cheguei a algumas crenças fundamentais que vão pautar a minha vida:

1. Eu não sou obrigado a ser feliz. Não sou obrigado a procurar a felicidade. Não sou obrigado a ser sempre meigo e doce com quem quer que seja. Felicidade é invenção da literatura burguesa. Além do amor, os escritores e artistas burgueses, especialmente os românticos, inventaram esse negócio de ser feliz e sorrir toda manhã. Schopenhauer, e muito antes dele Sidharta e todos os budistas, já tinha desconfiado de que essa tentativa esquisita de ser feliz a qualquer preço é o princípio trágico da infelicidade. Ora, se gasto meu tempo tentando ser feliz e – cá pra nós – são raros os momentos de felicidade, é óbvio que na maior parte do tempo estarei frustrado e... triste. Portanto, não me submeto a ser feliz para agradar a ninguém.
2. Porque o fato de um pobre sem pernas sorrir pelas manhãs deve servir de paradigma para toda a raça humana e fonte de obrigação? Ora, se o garoto-toco sorri nas fotos ( que nem sei se realmente é sintoma de felicidade) é porque ele tem seus motivos que não são os meus. Se a nova prótese lhe causa menos dor, isso é sim um motivo para que ele sorria, né mesmo? O fato de ser um garoto-toco, por outro lado, não é condição primeira para ser triste. Claro que não. Ser triste também não é obrigação de ninguém.
3. Mensagens desse tipo sempre trazem como princípio lógico – ou que se quer lógica – o fato de que a miséria do mundo é sempre maior do que a minha e, portanto, eu devo agradecer aos céus por ser menos miserável. Ora, que desgraceira é essa? Se milhões morrem na Etiópia eu devo ficar feliz por ter comida em minha mesa? Se o garoto-toco é um toquinho caucasiano, eu devo regozijar-me por ter, intactos, meus cambitos? Claro que não, lamento muito a ausência de pernas nos homens-toco do mundo. A miséria de qualquer um no mundo me diminui. Sei que não resolverei nunca os problemas do mundo, até porque a única coisa de que disponho é a minha literatura pobre, tosca, mas nem isso me dá o direito de achar que estou confortável porque tenho pernas e comidas, coisas que outros não têm. E quero deixar registrado que ninguem no mundo sabe a incompletude dos seus semelhantes. Somos todos, mesmo que organicamente íntegros, homens-tocos sobre a terra.
4. Ser feliz é, ainda, uma invenção do diabo para nos provocar a gula, a ambição, a guerra. Ser triste, por sua vez, é coisa de um Deus que nos quer temerosos do fim do mundo e passemos a encher igrejas para garantirmos a felicidade...no céu. Nao quero ofender a crença de ninguem, meus amigos, apenas quero pacificamente expor minha descrença. No fundo, lá no fundinho, eu bem que gostaria de crer como vocês crêem, pois assim a vida seria muito mais suportável. Mas, como Drummond, creio que nasci gauche.
5. Na paz!

Comentários acerca de Salieri

Somos medíocres, leitor meu, meu irmão. Essa é nossa medida e natureza: mediocridade. Do dedão do pé ao último neurônio somos, doa a quem doer, medíocres com fumos de genialidade. Somos do reino da vulgaridade, da banalidade, somos zero. Gente envernizada, raspando-se nada sobra, apenas um tutano careado e ignorante, um mulambo espetacularizado.
É duro ler tal afirmação, mas é necessário fazê-la, é fundamental ser espelho: somos medíocres desde a raiz ancestral africana. Lucy, a pós-símia e pré-humana, aquele resto de osso e substância orgânica, já era medíocre e vã em sua savana arcaica. Vem de longe o tatear da vulgaridade em nossa espécie, e no entanto eis que cultivamos estátuas de heróis inatingíveis, bustos de geniais compositores, representações de titãs incomensuráveis, pegadas de fantasmas de películas. Somos mestres em cultuar as exceções, somos assim fazendeiros da raridade.
A cultura nos cobra a genialidade que, por padrão, ocorrência histórica e estatística, não temos, nem teremos. Devemos aceitar essa realidade: somos medíocres, não por necessidade ou opção - que não somos tão estúpidos assim - mas por predisposição genética. Nossa natureza é a mediocridade. Hão de um dia descobrir o gene dessa nossa bagaceira metafísica, tenho fé.
A propósito da ideologia embutida em “Amadeus” (assista a peça, leia o livro e veja o filme), é-me doloroso, porém divertido, dizer que estamos mais para Salieri que para Mozart. Refiro-me aqui aos personagens, fantasmas fictícios, e não às figuras históricas que respiraram um dia sobre a face desta terra. Óbvio ululante? Nem tanto, considerando que nos esforçamos sempre em ser Mozart , e nesse esforço vão tentamos matar o Salieri que todos temos. É a nota 10 que se cobra do filho na escola; o primeiro lugar no concurso para violino; o destaque do ano na indústria de velas; o Nobel da paz; o Jabuti de poesia; a cadeira de imortal; o Pulitzer; o Oscar; o pódium; a pole position, o funcionário do mês no MacDonalds... Todos os joões-ninguém queremos ser o Airton Sena e o Pablo Picasso que nunca seremos. Isso não nos torna pior ou melhor, pelo contrário, nos iguala a todos, resgata nossa verdadeira natureza: o banal, o vulgar, o trivial. Somos feijão com arroz e assim morreremos todos, sem nunca termos sido caviar. Fatalismo? Nada, meus vermes leitores, apenas pura constatação histórica. Somos todos salieris pomposos, orgulhosos, senhores de porra nenhuma, pajeando a aberração, a mutação, a transcendência inerente ao gênio. A genialidade como paradigma de nosso trajeto pela vida é a forma mais cruel de tortura. O gênio será sempre a odiada e invejada exceção. Este sim, excrescência, fruto máximo do sarcasmo divino. Brincadeira trágica que os deuses tecem sobre nossas expectativas rasteiras e comezinhas.
Somos nada e nos cobramos tudo, só podemos esperar conflito, neurose, amargor, angústia. O ser humano vale pelos sentimentos que desperta, provoca, sente. Somos raiva, ciúme, inveja, ódio, mesquinhez. Mesmo quando Mozarts, Bachs ou Camões, somos rasteiros e ofídicos. Somos um pouco Salieri, Otelo, Ahab, a madrasta dos contos de fada, Sísifo, Lafcadio. A exceção sempre são os outros. Os poucos outros. Essa frase tem seu sentido mais profundo para a grande maioria dos bípedes desse planetinha sujo. Sempre em linha reta.
Não estou aqui para questionar a obra de Antonio Salieri, não vem ao caso. Nem falo aqui do Salieri real, torno a declarar. Estou comentando a trágica personagem que sucumbe ante o gênio irresponsável e sifilítico da outra grande personagem, Mozart. Esta, o exemplo do que foge à regra. Porque não deixá-la à míngua? Porque não cultuarmos o ze-povinho? O jeca? O que realmente nos representa? Porque não? Não há que se tomar partido. Não se trata de uma disputa Brasil e Argentina. O que está em jogo é a supervalorização daquilo que em nossa trajetória pelo cosmo sempre foi e será exceção: o herói, o gênio, o super-homem. E por ser exceção, que tal abandoná-los e passarmos a nos guiar pela regra?
A regra somos nós e nossas dívidas, nossos carnês de prestação, nossas falcatruas rotineiras, nossas vidazinhas ordeiras e pacatas, nossos domingos infaustos repletos de faustões. A regra é o pai bondoso e cristão, cumpridor de suas obrigações para com a Igreja, o Estado e a Família. Essa é nossa regra, sermos medíocres integrais: bíblia embaixo do braço, código do consumidor à cabeceira da cama, o autor mais vendido citado de cor, o compositor mais meloso assobiado no churrasco de domingo. Esse indivíduo somos nós. Vocês acham que somos aquele que escreve obras-primas? Compõe sinfonias? Ganha batalhas gigantescas? Descobre a cura do câncer? Não se iludam, voltem ao seu joguinho de gamão ou à sua coleção de chaveiros, é melhor contentar-se com o esquecimento.
Somos nós que linchamos assaltantes de ônibus, violamos crianças, assistimos novelas e falamos da vizinha que trai o marido. Sim, esse medíocre indivíduo que aposta na loteria, palita os dentes no meio da rua, coça o saco e cospe de lado ao xingar homossexuais e mulheres independentes somos nós, eu e você. Aquela outra que rói o esmalte carmim e tenciona abortar o feto que carrega, sou eu e é você também. De alguma irônica e trágica maneira, somos a massa sem rosto que transita nas grandes cidades do mundo. Esse sim é nosso destino e nossa cara: uma raça de pequenos homens, com grandes e minúsculos sentimentos que nos fazem marcar a ferro e fogo nossa presença sobre a superfície do planeta.
Grandes são nossos sonhos, isso sim é real. O resto é mídia, purpurina, folhetim barato distribuído gratuitamente como encarte nos jornais de bairro.

A moça do vestido roxo

Não vi seu rosto, nem precisava. Não carecia de ver nada, pois já enxergava tudo. Todas as moças andavam graciosas naquele corpo que passou por mim na manhã de sol. Naquele vestido roxo todas as moças do mundo. Rosa? Maria? Dolores? Que nome carregaria a carne? Pedro? Paulo? Rosa? Que nome batizaria o espírito? Que nome arderia tatuado em sua pele branca e em seu coração de moça? Eu nunca saberia, lamentei.
Não notou meus olhos bestas diante de sua aparição, passou como quem andasse numa esteira rolante, olhar fixo no horizonte, sem se dar conta de mim. Fiquei algum tempo impressionado com o movimento de sua cabeleira sobre os ombros. Nada super, nada hiper, apenas pêlos muito lisos e negros – seriam de índia? Seria índia a minha moça de vestido roxo? – que transpareciam um perfume que só aspirei em pensamento. Ah , como são doces os cheiros de perfumes imaginados! Como são belos os rostos nunca vistos, porém desejados, como o da moça que partiu pela rua balançando cabelos e nádegas sob o calor da manhã.
Para onde ia com aquela graça e pressa? Encontrar-se com amigos? Amante? Buscar seu poodle na Pet shop? Ah...talvez a minha moça estivesse atrasada para uma entrevista de cobiçado emprego. Isso! Secretária de uma pequena firma de importação e exportação de vestidos roxos e perfumes inexistentes. Consultora de uma empresa de tecnologia metafísica. Atendente de um escritório de tabulação de esperanças e expectativas. Quem o saberia além de mim?
Vi, sem propriamente ver, vi em visão, visagem, que ela sorria...e que sorriso! A leve contração dos cantos da boca, os lábios delicados esticando o batom roxo que acabara de passar. E tudo isso interferindo em todas as esferas, derrubando astros, provocando furacões lá longe onde flambam caramujos, descrevendo arcos e órbitas e planetas e cometas que explodiam em constelações coloridas. Ah, como o desejo caminha caminhos impressionantes. Tudo isso vi e era belo. Mas não vi com olhos, que sempre maculam a imagem real, contaminando o que deveria ser com o que materialmente é. Vi com a vontade e com o desejo e por isso eram belos o sorriso e a cor de batom que usava a minha moça.
Hoje, um pouco cego da vontade e do desejo, que naturalmente se esgotam com o arrastar-se do carro da existência, quando morremos, lanhados corpo e espírito, quero me convencer de que a sua aparição naquela manhã de sol, fugaz e perene como toda ambulante manifestação do espaço no tempo, veio trazer a luz em que meus olhos míopes precisam mergulhar e que meu espírito escuro anseia absorver.
A moça de roxo veio cobrir com sua juventude, perfume e movimento, a lassidão de meu olhar e corpo contemplativos, como uma pequena deusa de cabelos negros manifestando-se diante de um velho e arrancando dentro dele um menino que seguiu com ela, apertando-lhe a mão.

A segunda senha

Toda revolução exige coragem. Coragem é, quase sempre, o outro nome para loucura. Mudar o que está posto, se o que está posto não satisfaz, é obrigação de qualquer animal político. O bicho homem carece de coragem para mudar-se, e me refiro a uma revolução muito mais profunda: a do ser. Não há revolução coletiva sem mudança individual, este é o único mandamento da história. As pessoas seguem suas vidas como quem tece um tapete sem graça, já escreveu um poeta desconhecido. Dia a dia, artesãos dessa peça desbotada e comezinha, vão amarrando cada ponta, da mesma maneira, desde sempre. Espécie de Penélope sem heroísmo algum, o que se observa é que em grande parte das histórias, esse artesão apenas continua o artesanato do pai, que já o trouxe do avô e que, por sua vez, aproveitou do bisavô. Romper essa cadeia exige coragem, pois é um ato revolucionário. Imagino que em todo inconsciente marcha um pequeno exército vigilante, violento, mantendo sob suas botas os mais puros e sinceros desejos de mudança. É a mulher de olhar triste que atravessa cinqüenta anos de um casamento sem carinho e sem orgasmo. O trabalhador que alimenta sua gastrite ao bater o mesmo ponto, sob o mesmo salário de fome, durante anos e anos e anos. É o sonho empurrado para baixo do tapete, o desejo recolhido no armário, as vontades amordaçadas no fundo das gavetas, as necessidades mal satisfeitas, os prazeres raros e negados, a comidinha parca, o sexo miserável, o dia-a-dia mais rasteiro e dolorido, como aquele esmalte descascando marçalaquinamente no dedo da puta velha... é preciso coragem para empreender uma revolução pessoal, ou, também dizendo em bom português, é necessária a loucura. Sim, porque é normal ouvir-se dizer de alguém que abraçou o mundo, abandonando casa e família em busca da felicidade, é louco, doida varrida. Aquele que largou um emprego bem remunerado e, feliz da vida, mudou-se para um pequena cidade no interior do país pensando em cultivar orgânicos ou maconha medicinal: Louco de pedra. Ou ainda aquela outra que, prestes a formar-se em Medicina, percebeu que seu destino era militar no jornalismo cultural e investiu num site, num jornal, num blog: Insana. O que dizer então daquela que, a poucos dias do casamento com promissor partido, resolve fugir com um grande amor? Doida, maluca. E eu me lembro daqueles jovens de classe média, bem alimentados, bons cursos, boas universidades, que adentraram o mundo violento da clandestinidade na utopia de empreender uma revolução no Brasil. Que palavra os define? Loucos. E aquele palestino que ousou falar de amor para romanos e judeus? Louco. Sem a coragem não há loucura e nunca haverá revolução alguma. Seremos todos um bando de infelizes, empurrando um carro pesado, cheio de sonhos calcificados, tornados pedras, numa estrada esburacada. Do nosso caminho, enxergaremos toda a possível delícia no horizonte, mas não teremos um pingo da loucura necessária para alcançá-la. Simples assim, triste assim.

O mal-estar

Aprendi a ser formal e cortês, canta o poeta argentino. Me ensinaram a falar baixo, a não alterar o tom de voz, a dizer calmamente “Senhor” ou “Senhora”. Como bom e dócil aluno que sempre fui, aprendi a ser alguém que não me conheço, mas que pelo menos vive muito bem nas instâncias do real, do social. Corto o cabelo uma vez por mês, não cuspo na rua, não mijo na tampa do vaso. Como vêem, eu realmente fui um ótimo aluno na escola da cultura: aprendi a viver em sociedade. Hoje eu me pergunto a que custo e sei que um outro em mim anda adormecido, acorrentado, mantido quieto como uma sujeira que se varre para debaixo do tapete. Esse outro, que também sou eu, tornou-se uma espécie de ameaça ao mundinho baseado em Senhor e Senhora, ao não cuspir ou arrotar, à obediência passiva. Daqui eu o vejo, olhar cansado de tanto peso nas costas, dentes a mostra querendo roer meus tendões. Ainda ontem senti que bicavam seu fígado, como um titã condenado numa ilha qualquer em mim. Quem sangra um sangue invisível, mas não menos dolorido, sou eu, este que freqüentou os bancos da igreja, da escola, do partido, do sindicato, da caserna, da vida real. Esse momento é só meu e eu pressinto uma necessidade urgente de que tudo se vá numa magnífica explosão zabrieskiepointeana, arremessando entulhos para todos os lados, tingindo de partes podres de mim os muros dessa vidazinha levada na flauta de Pã. Mas isso também é uma forma de aprendizagem, ou não? Hoje eu sei que aprendi a ser aquele que um dia vai libertar-se de todo aprendizado e ser feliz.

O aborto de Dida

Dida chegou de madrugada, num ônibus que, atrasado, fez o trajeto João Pessoa/Brasília, em 36 horas. Chegou assustada em minha casa, no Guará 2, nunca tinha arredado pé da Paraíba e por isso mesmo estava deslumbrada com a capital do país. Era baixinha e de cara engraçada. Atarracada e falante, apresentou-se com facilidade e, a primeira vista, nos convenceu de que seria capaz da trabalhar como doméstica em nossa casa. O tempo provou que era tudo apenas uma possibilidade que não se cumpriu, pois Dida não tinha traquejo algum para as tarefas do lar. Cozinhava muito mal, faxinava pior ainda. Era uma perda de tempo insistir com sua mão de obra. Para complicar a história, no primeiro mês de trabalho, revelou-se grávida de alguns meses. Nessa época, trabalhávamos muito, eu a minha esposa, e em casa, a minha finada sogra sobre sua cadeira de rodas nos auxiliava na administração das coisas do lar com a ajuda de uma paraibana prenha e ruim de serviço. Um belo dia, atendo o telefone no trabalho. Era minha sogra desesperada tentando me convencer que Dida estava abortando a criança. Estava presa no banheiro ha horas, sangrando, ela me dizia. Ora, o que realmente acontecia, descobriu-se depois, é que Dida, na tentativa desesperada de evacuar, acabou com um enorme tronco de fezes ressequidas no meio do caminho, ou seja, metade da “tora” ficou do lado de fora do anel que impedira a passagem do resto. Sabe-se lá que tamanho teria o “semelhante” resto. Ao forçar a saída do míssil, gemendo em dores, sangrou e manchou o vaso de louça branca. Minha sogra interpretou como aborto aquela situação esdrúxula de um “toletão” engasgado num toba nordestino. Ela, mulher fina que era, impossibilitada pela própria deficiência de acudir a pobre Dida, que começou a chorar de dor, sugeriu que a coitada fizesse uma massagem em torno do ânus mas Dida não sabia o que era ânus, no que foi bem esclarecida em bom português. Após manipular as partes próximas ao cu, o cagalhão sentiu-se afrouxar o caminho e começou a deslizar, para alívio de Dida, e mergulhar na privada. O aborto inicial deu lugar a uma criança enorme, marrom, que encheu o vaso de mau cheiro. A expressão de alívio de Dida tinha mais a ver com a evacuação daquele poste do que propriamente a inexistência de um aborto real. Coisas da vida.

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Rosicleide no Rio (uma história quase real)

Rosicleide Wanessa é funcionária do Ministério da Fazenda, em Brasília. Moçoila vibrante em seus trinta aninhos bem vitaminados, adora Carnaval e, por conta dessa paixão, não dispensa uma folia, onde quer que seja. “Ah, gente – ela costuma dizer – por Carnaval vou até no Inferno”. Mas é pura retórica, Rosicleide é, no fundo, uma boa moça. Há dois anos, empreendeu uma aventura no Galo da Madrugada, que lhe valeu algumas pedras nos rins (por não conseguir urinar nos banheiros públicos) e um tornozelo torcido, por conta de um mau passo de frevo e uma pisadela de um negro forte fantasiado de mulata. Conta-se à boca pequena que, nesse carnaval pernambucano, Rosicleide passou muito mal devido ao calor e ao aperto na bexiga. Sua tentativa de esvaziá-la nos banheiros químicos instalados no percurso do Galo, mostrou-se vã e, pior, problemática. “Gente – ela conta ingenuamente - havia bosta espalhada em todos os banheiros que eu fui. E não era bosta sólida não, menino – ela dizia envergonhada – era bosta líquida, pastosa, explodida na parede do vaso como bala de paint ball. Sabe aquela que sai em jato? Pareciah pintura abstrata. Horrível. Tentei usar, mas não deu mesmo.” Pobre Rosicleide Wanessa! Mas ela não desiste de seu sonho de passista, não. Este ano se preparou toda para o Carnaval do Rio de Janeiro. Descolou com uma amiga de uma amiga, que era casada com um o cunhado do primo da tia de sua futura vizinha em Águas Claras, uma vaguinha num conjugado em Copacabana. “Ah, gente, eu não consegui hotel, os que tinham vaga eram muito caros. Estava quase desistindo de ir.” Feliz da vida com a certeza de estar na cidade maravilhosa durante o Carnaval, comprou fantasia, adereços, passagens, cremes (o sol no Rio é de lascar, ela dizia), e partiu de mala e momo para o Santos Dumont. Primeira decepção: o tal conjugado devia ter 3m X 3m, contando o banheiro. Ficava num edifício muito velho e muito barulhento. Hospedadas na pequena quitinete, além, é claro, da amiga da amiga, que era casada com um o cunhado do primo da tia de sua futura vizinha em Águas Claras, outras 7 pessoas. Duas delas vieram de Marabá para desfilar na Porto da Pedra com a fantasia de lactobacilos no grande enredo sobre a história do iogurte. Outras três eram integrantes de uma igreja pentecostal que tencionava converter foliões às graças divinas, livrando-os do pecado. Rosicleide, é claro, tornou-se um alvo em potencial. A estas figuras, um homem que se dizia pastor, mas que tinha todo o jeito de tarado, e duas mulheres muito carolas, Rosicleide já foi logo demarcando território “Meu Deus é momo, o resto é do capeta. Vade retro, seu pastor”. Não foi mais incomodada pelo trio, embora tenha a nítida impressão de ter ouvido uma das mulheres amaldiçoá-la. As outras pessoas eram conhecidas de Rosicleide e com elas combinou de se unirem aos blocos pela cidade. Dormiram pelo chão, colados uns nos outros, e a mão do tal pastor passeando, boba, pelo quarto. “Ainda bem que não estava fazendo 40 graus – contou-nos Rosicleide – mas apenas 36. Deu pra dormir legal, apesar do suor correndo no pescoço. Dei muito tapa na mão do pastor.” No dia seguinte, muito excitada, fantasiou-se de Minie. Isso mesmo, Rosicleide Wanessa, aquela moçoila do Ministério da Faznda, alegre e vitaminada, tornara-se uma rata do Disney. Nem tomou café, tão ansiosa estava para seu primeiro evento momesco, abriu a porta e saiu animada. Primeiro impacto: a lembrança do banheiro de Recife. Um cheiro terrível de fezes pelo corredor do edifício. Rosicleide tapou o nariz e atravessou o corredor com ânsia de vômito. O pior vinha a seguir, no elevador. Duas “tuias” de uma substância que, pelo cheiro, só podia ser merda, estavam repousando no tapete do elevador. Rosicleide, a ratinha Minie, não se conteve e, batendo na porta, apertou a emergência, e foi resgatada pelo porteiro. “Cagaram nessa porra!” Ela gritou ao pobre funcionário que percebeu que um trabalhinho nada agradável lhe aguardava. “Onde já se viu isso, meu senhor? – continuava Rosicleide muito exaltada – Em que lugar do mundo alguém entra num elevador e deixa dois quilos de merda, hein?” . Seguiu pela escada, batendo pé no chão, com o cheiro de bosta impregnado na roupa, no nariz e no lacinho vermelho com bolinhas brancas que ela comprara num camelô na Prado Junior. Ia para Ipanema, para o desfile da Banda de Ipanema. Marcara com umas amigas do Ministério, a Maria das Graças e a Jussara Mariana, também vestidas de ratinhas da Disney. O tempo passando na velocidade de uma marchinha de carnaval. Como não conseguia pegar nenhum dos ônibus lotados que passavam na Barata Ribeiro em direção a Ipanema, criou coragem e entrou na primeira van, também lotada, e, em pé, curvada (pois o teto não lhe permitia ficar ereta), foi para o bloco, com a bunda na cara de uma rapaziada fantasiada, ouvindo uns bêbados cantarem pertinho de seu ouvido “Delícia, delícia, assim você me mata...ai se eu te pego”. Como era Carnaval, Rosicleide Wanessa não deu bola para a galera que, berrando em seu ouvido, insistia em dizer que ela era a nora que “mamãe sonhou”, “A empada da minha azeitona”, “a cerejinha da minha tortinha, gata”. Suada, descabelada, irritada, lacinho vermelho fora do lugar, Rosicleide se espremia na multidão buscando Maria das Graças e Jussara Mariana. Encontrou-as já animadinhas, bebendo caipirinha e cerveja e vodka e tudo mais que se lhes oferecessem. Tudo muito animado, muito cheio, muito quente. Carnaval é carnaval, ela pensava. Aquela vontade de deitar uma aguinha do joelho foi chegando, chegando, primeiro devagar, suportável, depois...ah, depois é só aquele desespero: quero mijar, mijar, mijar. A lembrança dos banheiros de Recife e das balas de paint ball ainda pairando em sua cabecinha de rata. Ainda assim, seguiu com as amigas para a fila dos banheiros químicos. “Não estou mentindo, gente – ela contou mais tarde – mas a fila dava voltas na Praça General Osório e minha bexiga não agüentava mais.” Procuraram desesperadamente um lugarzinho discreto para um agachadinha básica. Como achar um lugar discreto em Ipanema, com 100 mil pessoas se espremendo e cantando “Delicia, delicia, assim você me mata” ? Mas Rosicleide Wanessa não desiste tão facilmente e, de longe, enxergou uma árvore entre dois carros que estavam mal estacionados. Fez os cálculos “Duas ficam na frente, outra atrás, a terceira se abaixa perto da árvore...é isso, meninas, vamos.” E foram. Primeiro Jussara Mariana, depois Maria das Graças, depois fulaninha dos anzóis. Uma após outra foram se aliviando. “Anda gente, que porra de enrolação é essa? – berrava Rosicleide – eu to quase estourando”. Finalmente, antecipando o prazer da mijada, Rosicleide Wanessa Guedes Penteado Silva e Souza foi arriando a calcinha (também vermelha com bolinhas brancas – pra combinar com o lacinho). Em sua cabecinha, parecia cena de cinema, em camera lenta. Viu-se até balançar a cabeça, os cabelos surfando o ar, lentamente, ela arriando a calcinha, o vento fresco chegando por baixo, ahhh, como é bom mijar...ela já antecipava tudo. Foi quando um enxame de abelhas muito agressivas cobriu seu rosto e seus braços. A mulherada se dispersou como cavalos assustados. Era gente pra todo lado e as abelhas num bloco todo seu de carnaval e ferroadas. Rosicleide, coitada, com a calcinha nos joelhos, corria como um papagaio, tropeçando no meio fio, empurrando daqui, dali, gritando, pedindo ajuda “Socorro gente, socorro gente, ai, ai, ai” E o bêbado mais próximo, emendando, “Ai, ai, ai, assim vc me mata”. No desespero de livrar-se das abelhas, Rosicleide Wanessa perdeu os dois brincos (Ah, gente, eu adorava tanto aqueles brincos – ela nos contou depois), anéis, pulseiras, um sapato e calcinha vermelha com bolinhas, que ela teve que deixar pelo caminho, para escapar dos ferrões. Ainda bem que nem ouviu quando um garotão, tipicamente carioca, comentou com um amigo ao ver a cena do desespero da pobre Rosicleide: “Ih, maluco, uma abelha rainha correndo das escravas” e o outro respondendo “Colé, mane, é uma Minie procurando o Mickey”. Na farmácia tomou anti-alérgicos, analgésicos, cremes anti-inflamatórios, etc. A ratinha Minie chegou no apartamento com metade do rosto (a face direita) ainda muito inchada. Ambos os braços também inchados e, pior que tudo isso, o orgulho ferido e a vontade de encher de porrada uma das pentecostais que, ao vê-la nesse estado lastimável, sussurrou “Jesus castiga, Jesus não falha, eu avisei”. Contentou-se em xingar baixinho “Ah, tenha dó, copule-se, dona” Fim de carnaval? Que nada! No dia seguinte, já recuperada do susto, Rosicleide Wanessa, vestiu-se de Pedrita, aquela personagem que namora o Bambam, dos Flinstones, e saiu para a Praça XV, em busca de um homem das cavernas que a fizesse esquecer as abelhas.

quarta-feira, maio 04, 2011

Barbárie


Se você me atinge, tenho todo o direito de também atingi-lo. Se você me persegue, corra de mim quanto puder. Há um código que é válido para todos, outro para alguns poucos e ai de quem não cumpri-lo direitinho. Sua ditadura é minha amiga, pode então governar por 100 anos. Sua ditadura não me satisfaz, posso invadi-lo, derrubá-lo, julgá-lo, pendurá-lo pelo pescoço. Sua vida me pertence e não interessa se tens ou não razão, pois a razão está do lado da força, sempre. O meu código é o código do poder e ele me dá o direito de agir onde e como bem entender, em nome da minha proteção. Por uma questão de honra ferida, estouraram a cabeça de Bin Laden e multidões comemoram a carcaça do inimigo que, dizem, foi jogada ao mar. Não, não estamos em eras primevas e bárbaras, não estamos comemorando a cabeça perdida de um rei visigodo ou um chefe de tribo germânica no século II dC. Somos filhos do Iluminismo, da ciência, da civilização letrada e religiosa. Somos todos filhos de Darwin, Newton, Einstein. Jovens letrados, bem alimentados, cristãos, em sua maioria protestantes, foram comemorar o assassinato de um inimigo e as tevês do mundo inteiro vêm me dizer que isso é legal, que isso é bacana. Que povo civilizado pode se dar o direito de celebrar como um carnaval fora de época o assassinato de seu inimigo desarmado? Um povo que se julga dono do mundo, um milhão de prêmios Nobel, as melhores universidades do planeta, que já chegou a Lua e além dela, um povo assim difere daqueles mesmo árabes que comemoram a queda das torres gêmeas? Que diferença há entre o sorriso de Osama celebrando a explosão de inocentes no World Trade Center e a empáfia de Obama e Bush diante dos sucessos de seus meninos em Islamabad e Bagdad? Será que só eu estou enxergando a bestialidade inerente a essas cenas ou o silêncio de todos é uma espécie de condescendência temerosa? Os irmãos do império do mal acima do Rio Grande invadiram o Iraque alegando mentiras escandalosas, explodiram o país, acabaram com sua estrutura, depuseram e eliminaram o ditador, assassinaram milhares e milhares de civis e agora posam de defensores da liberdade do mundo? Quantos iraquianos morreram sob a mão pesada de Sadam Hussein e quantos sucumbiram ao exército norte-americano? Uma pergunta que sempre me percorre: Porque não julgar George Bush, filho, por crimes de guerra? Crimes contra a humanidade são para chefes de pobres Estados apenas? O que é preciso para que se faça esse julgamento Coragem? O que a comunidade internacional diria se qualquer outra nação invadisse o território de uma outra nação independente e, segundo seus critérios, eliminasse um inimigo? Que diferença há, grosso modo, entre a ação de escroques de Pinochet eliminando o ex-chanceler Letelier em Washington (1976) e os meninos de Obama explodindo a cabeça de Osama? Não haverá protesto algum se um comando italiano invadir Brasília e explodir a cabeça de Batisti. Haverá? Confesso que tanta hipocrisia e crueldade me deixam cada dia mais enojado com essa nossa política internacional. Nao te convido para brindar, não há motivo. Vem, vamos vomitar juntos.
Segue um poema do Eduardo Alves da Costa e que parece ter sido escrito hoje, diante das notícias sobre a morte de Osama Bin Laden:

No Caminho, com Maiakóvski


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

sexta-feira, julho 02, 2010

A flor do cão

Quando pequeno, curvado por tanto sonho, me disseram que aquela flor vermelha no cerrado era a “flor do cão”. Não me ocorre agora quem me a batizou naqueles tempos. Pode ser que tenha sido meu pai, um amigo dele, um colega de escola, não lembro agora. Mas de uma coisa nunca me esqueci, aquela era a “flor do cão”. Para quem a conhece, é flor de um vermelho agressivo, quase vivo, e que salpica o verde e cinza do cerrado com pontinhos escarlates, peludos. Sim, é uma flor peluda, minúsculos filamentos rubros que se expandem numa explosão de cor e volúpia. No menino que ouviu esse nome, ficou guardada a imagem de flor do Diabo, do Demo, não flor canina. As caminhadas para a escola, feitas numa trilha no meio do mato, eram testemunhadas por algumas dessas flores, que também me viam correr, ao fim da tarde, para assistir ao Batman na TV Tupi. Era 1968. Quantas vezes me peguei perguntando o porquê de “flor do cão”. Será que o inferno era assim vermelho? Mas se fosse, seria tão bonito o reino do capeta, eu cria, e ao mesmo tempo mergulhava num dilema que envolvia a idéia de não poder haver beleza no cão, nem em seu reino. Naquela época eu ainda temia papai do céu e as artimanhas do capiroto e era inadmissível haver coisa boa em Lúcifer. Então , menino bobo, me perguntava: Por que flor do cão? O menino que fui guardou a imagem e o nome. Hoje, caminhando, deparei-me com alguns exemplares dessas flores do cerrado e, por instantes, vi-me um menino velho, curvado menos por sonhos que por reumatismo, e me ajoelhei para flagrar-lhe a face rubra no meio do mato. Acho que tinha muito de resgate de um Léo que não volta mais, que perdeu-se naquelas trilhas do cerrado, cercado por flores do cão, em disparada para ver o homem-morcego derrotar pingüins e charadas. Sei que esse ponto vermelho no cerrado tem um nome, dizem–no Caliandra, nome sem graça, sem mito, sem fantasia. Ao adentrar cuidadosamente o mato, com medo de cobra e escorpião, e me apoiar num galho seco para registrar a flor, senti-me como o narrador do Aleph, ridículo e decidido, acomodando-me na melhor posição para ver, naquela flor peluda e vermelha, uma vida inteira. Sim, era essa a sensação que tinha ao fotografar a flor: estava lembrando de mim, menino morto e esquecido, abandonado lá atrás, de olhar perdido numa guirlanda fúnebre de flores do cão.

Sobre felicidade e miséria


Recebi de uma grande amiga uma mensagem que dizia: Ele começa o dia com um sorriso. E você? A mensagem trazia uma sequência de fotos com um lindo garoto branco, de sorriso branco, num local limpíssimo, e sorriso estampado. O Detalhe trágico da foto era que lhe faltavam as pernas. O menino caucasiano de sorriso meigo aparecia exibindo suas próteses e se divertindo, dentro de sua limitação, com esportes telúricos e aquáticos. Ora, é evidente que essa minha amiga queria me dizer algo como: Não seja mal-humorado, pois você tem tudo e alguns que não têm nada são tão mais receptivos. OU, pior ainda, talvez quisesse me dizer: Não reclame da vida, tem gente em muito pior estado do que o seu. E aí me vêm duas perguntas: Que estado é o meu? E o que eu ando fazendo para merecer a culpa de não querer começar o dia sorrindo? Peguei-me a pensar nisso e cheguei a algumas crenças fundamentais que vão pautar a minha vida:
1. Eu não sou obrigado a ser feliz. Não sou obrigado a procurar a felicidade. Não sou obrigado a ser sempre meigo e doce com quem quer que seja. Felicidade é invenção da literatura burguesa. Além do amor, os escritores e artistas burgueses, inventaram esse negócio de ser feliz e sorrir toda manhã. Schopenhauer, e muito antes dele, Sidharta e todos os budistas, já tinham desconfiado de que essa tentativa esquisita de ser feliz a qualquer preço é o princípio trágico da infelicidade. Ora, se gasto meu tempo tentando ser feliz e – cá pra nós – são raros os momentos de felicidade, é óbvio que na maior parte do tempo estarei frustrado e... triste. Portanto, não me submeto a ser feliz para agradar ninguém.
2. Porque o fato de um pobre sem pernas sorrir pelas manhãs deve servir de paradigma para toda a raça humana e fonte de obrigação? Ora, se o garoto-toco sorri nas fotos ( que nem sei se realmente é sintoma de felicidade) é porque ele tem seus motivos que não são os meus. Ora, se a nova prótese lhe causa menos dor, isso é sim um motivo para que ele sorria, né mesmo? O fato de ser um garoto-toco, por outro lado, não é condição primeira para ser triste. Claro que não. Ser triste também não é obrigação de ninguém.
3. Mensagens desse tipo sempre trazem como princípio lógico – ou que se quer lógica – o fato de que a miséria do mundo é sempre maior do que a minha e, portanto, eu devo agradecer aos céus por ser menos miserável. Ora, que desgraceira é essa? Se milhões morrem na Etiópia eu devo ficar feliz por ter comida em minha mesa? Se o garoto-toco é um toquinho caucasiano, eu devo regozijar-me por ter, intactos, meus cambitos? Claro que não, lamento muito a ausência de pernas nos homens-toco do mundo. A miséria de qualquer um no mundo me diminui. Sei que não resolverei nunca os problemas do mundo, até porque a única coisa de que disponho é a minha literatura pobre, tosca, mas nem isso me dá o direito de achar que estou confortável porque tenho pernas e comidas, coisas que outros não têm.
4. Ser feliz é uma invenção do diabo para nos provocar a gula, a ambição, a guerra. Ser triste, por sua vez, é coisa de um Deus que nos quer temerosos do fim do mundo e passemos a encher igrejas para garantirmos a felicidade...no céu.