Terça-feira, Agosto 11, 2009

TOPOGRAFIA DA HISTÓRIA DE JÚLIA

ABERTURA
Em algum lugar dentro de nós

PARTE I - ÍMPETO
1 – Guará II, pista central, madrugada de domingo
2 – Via L2 Sul, 609, Associação Cristã de Moços
3 – Aeroporto Internacional de Brasília
4 – Guará II, Edifício Saint Moritz
5 - Lago Sul, QL 05
6 -Universidade de Brasília
7 –Guará II, 4a Delegacia de Polícia
8 -Asa Sul, Edifício “The Tower”
9 -Aeroporto Internacional de Brasília
10-Asa Norte, SCLN 405
11-Setor de Motéis no Núcleo Bandeirante, Motel Ibiza
12-Asa Sul, Edifício “The Tower”
13-Setor Econômico do Sudoeste
14-Instituto Médico Legal

PARTE II – RELAXAMENTO
1 –Setor de Clubes, Iate Clube de Brasília
2 -Centro Comercial Gilberto Salomão, Restaurante La Cantina
3 -Guará II, Edifício Saint Moritz
4 -Ponte JK (ex-Mosteiro)
5 -Guará II, Edifício Saint Moritz
6 –Setor de Clubes, Iate Clube de Brasília

PARTE III – DANÇA
1 -Setor Comercial Norte, sede da Empreiteira Prado
2 -Asa Sul, Edifício “The Tower”
3 -Setor Comercial Norte, sede da Empreiteira Prado
4 - Guará II, pista central
5 - Guará II, 4a Delegacia de Policia
6 – Setor Comercial Sul, Companhia Telefônica
7 - Ibotirama, Bahia, casa dos Silva na Fazenda Congadinha
8 - Igreja Universal do Império Divino
9 - Centro de Polícia Especializada, Instituto de Criminalística
10-Lago Sul, QL 05
11-Centro de Polícia Especializada
12-Ibotirama, Bahia, casa dos Silva na fazenda Congadinha
13-Rodoferroviária de Brasília
14-Jataí, Goiás, cemitério municipal

PEQUENO GRAN FINALE
Em algum lugar dentro de nós

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 14

14


A velha ajoelha-se sobre a folha de jornal estendida no chão pelo marido, um velho magro, arqueado, de olhos embaçados pela catarata e pelo tempo, que masca um fumo de corda preto e cospe de banda. Chegaram há alguns minutos, acenderam algumas velas que o vento desta tarde fria insiste em manter apagadas. Têm os olhos marejados, as faces vincadas, são muitas histórias, algumas tristes, outras alegres, e neste momento rezam. Flores secas sobre a sepultura de terra ainda virgem e outros tocos de antigas velas, cujas luzes há muito se foram com o vento, compõem a paisagem imediata. Desolação é a palavra para a cena.
No olhar do velho, que fita o cruzeiro sobre o morro ao longe, se pode ver a figura de uma menina de cabelos longos e loiros, comendo carambola, sentada na cerca de madeira do curral, observando os homens que vacinam o gado. É a mesma menina que, nos olhos da mãe, aprende a bordar, prende o fino tecido branco na armação circular de madeira e, com os dedinhos miúdos, de unhas roídas “Menina levada, olha que cotoquinhos de unha, vou botar pimenta neles”, tenta seguir, com agulha e linha amarela, o traço que desenha uma pata e seus patinhos. As meninas estão ali, em olhos diferentes, e no entanto são a mesma menina que eles vêem deixar a cidade numa noite de chuva, “Vou pra Goiania, mãe, ganhar a vida”. Na pequena rodoviária, vêem-na embarcar com a mesma alegria e tenacidade com que chupava uma carambola e bordava o tecido. A cerca do curral não a viu mais, nem o bordado foi concluído, a pata ficou sem patinhos, as carambolas apodreceram. A menina virou mulher e sumiu por anos e anos, até que foram avisados que eram avós. Naquele momento, só lamentavam o fato que não tivesse marido, era muita vergonha para eles, e por esse motivo nunca aceitaram cuidar da neta.
Agora não tinham escolha, a menina, loira como a mãe, caminhava entre as sepulturas. A velha, apoiando-se no marido, levanta-se, rangendo seu reumatismo, acabou a reza. Vamos embora, ela diz, autoritária, chame a Laurinha, Hildefonso. Ele cospe a baba grossa e fétida, e resmunga: Arre, sô, donde foi essa diabinha? E espicha os olhos por sobre os túmulos, avistando-a ao longe, de prosa com um moço moreno estranho, de dentes muitos brancos e chapéu puído de feltro verde, que manca e anda de maneira estranha, como se estivesse de banda, mas parece estar se divertindo com as infantilidades da menina. Vem cá, Laura, tua vó te chama, grita o velho, engasgando-se no enfizema de estimação. Observa que o moço alisa a cabeça da pequena, acena gentilmente para ele em despedida, e some por trás de um túmulo muito antigo que ostenta uma imagem, em tamanho natural, do anjo Gabriel. O moço estranho sumiu, diz a menina, ele tava falando que viu mamãe e que ela está bem.




PEQUENO GRANDE FINAL


O velho não poderia ver que o diabo, pairando na respiração quente do cerrado, sorria seus dentes brancos sob o chapéu de feltro, flutuava sua graça pelas nuvens, jogando fora as botas que lhe comprimiam, desconfortavelmente, os cascos fendidos, cuspindo de banda ossinhos e dentes, gravatas, fardas e batinas, cipós e cartilhas, tudo mastigando com vontade: livros, laudos, bulas, artistas e desastres, desenhos e engenhos, missas e festivais de rock, missais e broquéis. Com sua boca imensurável engolia agora a terra e sua língua alucinante percorria gado e cientistas, assassinos e escultores, policiais e traficantes, santos e pecadores, putas e donas de casa, escritores e leitores, políticos e carcereiros, árabes e judeus, torre 1 e torre 2, bins e bushes, enfim, júlias de todas as espécies de júlias que infestam o planeta. De onde está e domina, ele tem a certeza de que essa história nunca terá fim, pois o tempo, seu companheiro de eternidade, escarradeira de deuses e demônios, esse rio escuro e lodoso, é voragem, é vertigem, é viagem, é passagem.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 13

13


A mulher tem os olhos inchados. Chorou demais e sente que não chorou o suficiente. Mais e mais lágrimas seriam necessárias para poder afogar tamanha dor. Se fosse possível, seria capaz de inundar o mundo e berrar seu sofrimento aos quatro ventos; tornar-se-ia a carpideira universal, a mãe de todas as desgraças. Aquela mulher de olhos fundos, encostada à parede suja, parece aguardar a morte e carregar toda a dor do mundo. Nenhum sentido, nada que signifique valer a pena estar viva.
Cantarola baixinho: “O perdido pecador/ Vem a Cristo, o Salvador/ Pois não quer que ninguém se perca/ Ó, escutai: /Reconciliai-vos já com Deus!”. Essa canção não lhe sai da cabeça e, embora ela não esteja mesmo prestando atenção ao que dizem os versos, continua, baixinho, como que orando: “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já!/ Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai.”
Há menos de três meses estava neste mesmo lugar, aguardando o mesmo ônibus, com destino idêntico ao que agora lhe é tão dolorido fazer. Naquela oportunidade havia esperança e medo; agora, apenas dor, vazio, saudade. Lembra que foi tudo tão rápido, não teve tempo para agir de outra maneira. Mesmo que tivesse, tem certeza de que não agiria de outra forma. O filho era tudo o que tinha. O que tinha, repete baixinho e maldiz o tempo verbal. Lutara muito por aquele menino, nunca toleraria perdê-lo. Nunca, ela diz baixinho, pensando alto, enquanto crava as unhas roídas na palma da mão.
Quando Zequinha era pequeno, por volta dos sete anos, ela relembra, ainda estava casada com o desgraçado do Valdemar, um mecânico musculoso, de bigode farto, que a seduzira com o cheiro de graxa e testosterona . Depois de alguns encontros e falsas juras de amor, passaram a morar juntos: ela, Zequinha, Valdemar e a cachaça. O que parecia ser um perfeito encontro de almas gêmeas, mostrou-se em breve ter sido o seu maior engano. Um inferno, isso sim. Brigas, hematomas, pratos quebrados, copos atirados contra a parede.
O menino sempre fora um garoto diferente, sensível, flor rara naquele ambiente de olhos roxos e palavras vulgares, cuspidas com o álcool de bebidas vagabundas. Não suportava ver a mãe chorando pelos cantos, o padrasto bêbado berrando palavras que não entendia, buceta, caralho, tomar no cu, porra, só pressentia, pelo tom em que eram ditas, que não eram termos muito gentis. Inferno, era o que a mãe costumava dizer, e essa palavra ele achava bonita, tinha graça, embora não soubesse o que significava. Trabalhava o dia inteiro, manicura excelente, freguesia fixa e crescente. Valdemar, por sua vez, apesar de bom mecânico, viu-se desempregado em virtude das cachaças diárias. Isso fez com que, a partir de um certo dia, de que não se lembra, mas que amaldiçoa com todas as suas forças, ele e Zequinha se aproximassem, o suficiente para se repelirem.
O homem passava os dias bêbado e o pequeno, assustado. Ela chegava do trabalho, os pés num estado lastimável de tanto chão e ele, já calibrado por várias doses da maldita, esperava o suado dinheirinho que ela trazia para abastecer-se de mais e mais aguardente. O tempo acabou por ensiná-la que, nessas horas, isso era o melhor que lhe podia acontecer, pois, ao sair para os bares, os brindava com um artigo raro naquela casa: sossego. Ficavam então, mãe e filho, sozinhos, entregues aos carinhos e carências um do outro, assistiam televisão, comiam pipoca, lambiam-se. Sentia que o pequeno precisava de atenção, andava a cada dia mais estranho, triste, calado. Irritava-se com uma facilidade incrível. Era outro menino. Não entendia o que se passava com Zequinha, aquela criança tão doce e alegre estava se tornando um menino triste e mudo. Precisava arranjar um jeito de passar mais tempo com o filho. Não podia contar com seu companheiro e, para ser sincera, há algum tempo estava pensando em separar-se dele. Só não tinha tomado ainda a decisão, pois julgava que o divórcio, agora, representaria selar o destino trágico do mecânico. No fundo, acreditava, Valdemar era um bom homem. A culpa de todo o mal que o mecânico fazia a si e aos seus era exclusivamente da cachaça. Sem seu apoio e sua paciência, Valdemar não teria muito futuro. Acreditava em sua recuperação. Por isso insistia para que fosse aos Alcoólatras Anônimos. Tudo em vão : um bando de frouxo, ele dizia, tá me estranhando, porra? Apertando os órgãos genitais e balançando-os na direção da mulher, concluía: sou é macho, tá me ouvindo?
Ela não viu quando Valdemar chegou em casa e flagrou o pequeno Zequinha brincando com a boneca da vizinha, uma dessas Barbie made in China, adquiridas nas mãos de camelôs por uma bagatela. Partiu para cima do pequeno aos murros e palavrões, arrancou violentamente a boneca de suas mãozinhas trêmulas. Agora é bichinha mesmo? Seu viadinho dos diabos, berrava, babando sua gosma, espumando ódio e frustração sobre o menino, que se encolheu no canto da sala e continuava a ouvi-lo. Seu filho de uma puta, tem que ser homem, seu corno. Com bonequinha, seu viadinho?
Encolhido, em seu pavor, o menino de apenas sete anos não tinha idéia do que se passava naquele momento. Aquele bêbado vociferava, era assustador. Ele, aterrorizado, quase não respirava. O fio amarelo de urina desceu quente pelo calção, percorreu suas pernas trêmulas, infiltrando-se entre o pé e a sandália de borracha que calçava. Medo absoluto. Valdemar foi à cozinha, pegou um martelo e partiu em sua direção. Sentou-se ao lado do menino, que tinha os olhos arregalados. Começou a desferir golpes na cabeça da boneca e a xingar cada vez mais forte. Boneca? Tu quer boneca, viadinho? Seu fresco, filho de uma puta. Seu mijão de merda, olha o que faço com tua boneca. O brinquedo esfacelava-se, tufos de cabelos, bracinhos e pernas de borracha para todos os lados. Em alguns segundos a boneca tornara-se um amontoado de plástico distorcido. Ora lembrava uma perna, ora um braço, um tronco.
Valdemar segurou o menino pelo pescoço e, depois de dar-lhe uns safanões, esfregou seu rostinho no chão, ferindo-o com os fragmentos da boneca. Não era isso o que tu queria, frutinha? Toma. Zequinha ameaçou um choro miúdo, tímido, mas foi impedido por sonora bofetada desferida pelo padrasto. Já sei o que tu queria, era isso né? E foi tirando o membro flácido para fora da bermuda jeans manchada de óleo. O menino engoliu o choro, estava em choque. Eu sei que é isso o que tu quer, tu é igual a tua mãe, gosta de macho, né? E, puxando Zequinha pelos cabelos, Valdemar enfiou a cabeça do menino entre suas pernas, esfregando a face doce e ingênua em seus pêlos pubianos, seu escroto, a aberração de seu corpo alcoolizado. Chupa seu paisinho, vai veadinho, faz igual sua mamãesinha, ele dizia, engrolando as palavras.
Ela chegou a tempo de ver a cena e ouvir a voz distorcida do companheiro dizendo ao menino: Vamos continuar nossas trepadas, fresco. Tudo se explicou da pior maneira possível. Naquele instante, conseguiu entender a razão de seu pequeno Zequinha estar mudando a cada dia, tornando-se um vegetal. Era isso o que deveria estar acontecendo em sua ausência, era essa a desgraça que estava matando o Zequinha que tanto amava. Desesperada, resgatou o filho das mãos da besta bêbada, xingando-o, batendo nele. Gritando por socorro, expulsou-o de casa com a ajuda dos vizinhos, que ainda ensaiaram um pequeno linchamento, dando-lhe uma surra no meio da rua, deixando-o desacordado e ferido, até que uma patrulha da Polícia Militar o levou ao Pronto Socorro. A última notícia, anos depois, dizia que tinha largado a bebida, casara-se com uma viúva, com quatro filhos pequenos, e se tornara pastor, dono de uma próspera igreja em Palmas.
O fato é que o que ainda havia de doçura, meiguice e inteligência no menino teve seu fim naquela tarde. Nunca mais foi o mesmo, trancou-se em si mesmo, enlouqueceu completamente, virou bicho. O garoto foi internado em clínicas de repouso. Locais que ela visitava e que, apesar de sabê-los não muito bons para tratar de seu Zequinha, era tudo o que seu mirrado dinheiro podia pagar. Sabia que mais cedo ou mais tarde o teria de volta, como antes, sorrindo, encantando a casa.
O menino cresceu entre tratamentos psiquiátricos, drogas pesadas, castigos, solitárias. Saía aparentemente curado, mas evidentemente histérico em função das drogas que lhe eram ministradas. Tinha recaídas, voltava para a clínica, saía novamente. Toda a sua adolescência transcorreu assim: internações, remédios controlados, fugas, convulsões, depressões, histeria, passividade, visões, delírios. Alternava momentos de lucidez - quando ela então alimentava esperanças de ter de volta aquele menino doce, meigo, inteligente - e momentos de total loucura, quando gritava assustado e dizia ver o diabo mastigando o rabo e cuspindo o sangue nele. Era terrível. Tudo se dissolvia, de repente, num ataque convulsivo, que incluía extrema agressividade, palavras desconexas, choro incontrolável. Depois de um tratamento que ela realmente nunca soube como se desenvolveu, o menino, agora quase um homem, acalmou-se e cresceu qual uma planta estúpida, uma coisa, um peso morto.
Até que, naquele domingo, sem que ela soubesse, ele bateu na porta da vizinha, uma loirinha jovem que há pouco se mudara para o prédio. Quando ela finalmente deu por sua falta, encontrou-o assustado na porta do apartamento. Lá de baixo, as vozes vinham subindo as escadas e traziam aquela melodia, os versos que lhe ficaram tão familiares: “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já!/ Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai”. De dentro do apartamento, a voz da vizinha era o que ela ouvia, a elevar-se acima da canção dos crentes. “Seu monstro, sai já daqui. Olha o que você fez com ela.” Júlia, transtornada, cuidava da pequena Laura que chorava muito. Ela viu que a criança, além das calcinhas rasgadas, tinha sinais de sangue entre as pernas. Zequinha, assustado, feito uma criança que é flagrada roubando um doce, permanecia como a ocultar-se atrás da parede. Nos olhos dele, a presença daquele mesmo menino de anos atrás, quando expulsara Valdemar. Chorava e deixava transparecer tamanho terror, que ela viu a poça de urina a formar-se no chão, aos seus pés descalços.
Que houve? ela perguntou, já sabendo o que tinha acontecido. Não era estúpida e sabia muito bem o que Zequinha tinha feito. Júlia levantou-se com a menina no colo, chorava e tentava acalmar a filha. Esse monstro, ela disse, apontando para Zequinha, abusou de minha filha. Vou chamar a polícia.
Naquele instante, anteviu a perda do filho. Pensava consigo mesma, com a velocidade e a tensão que a situação exigia, não poderia permitir que a vizinha denunciasse o filho. Sabia que se isso acontecesse o levariam e certamente não o teria mais de volta. Tentou argumentar, pediu que tivesse calma, aquilo era um mal entendido, Zequinha nunca fizera isso, era um menino bom, nunca faria tal coisa, você não pode fazer isso sem ter certeza, Dona Júlia, ela disse. Mas não adiantou, a moça estava decidida a tomar uma atitude. Eu vi, eu o vi em cima de minha filha, com o negócio de fora da calça tentando botar nela, não sou cega. Esse monstro feriu minha menina, tem que ir pra cadeia. Zequinha chorava, a menina chorava, Júlia chorava, ela chorava e ouvia as vozes que subiam as escadas e adentravam a sala: “Vinde a Deus sem receio/ Cristo já remiu/ Todo pecador/ Por Seu grande amor/ Dá perdão aos que crêem/ Pois Ele o garantiu”. Foi quando a moça fez menção de sair com a filha no colo e ela a segurou pelos braços, implorando que não fizesse aquilo: Eu o mando para a casa da minha irmã na Bahia, dona Júlia, por favor, não vá à polícia.
De repente, sem que ela pudesse entender o que estava se passando, Júlia tombou para a frente com menina, que ela prontamente recolheu, evitando que se machucasse. “Eis a ordem do céu/ Do Nosso Deus e Pai:/ O perdido pecador/ Vem a Cristo, o Salvador/ Pois não quer que ninguém se perca/ Ó, escutai:/ Reconciliai-vos já com Deus!” Zequinha, com um martelo em punho, havia desferido um golpe violento na cabeça da mulher e continuava, agora no chão, a golpeá-la, ensandecido, gritando: Boneca, boneca, boneca. “Eis o mandado que vem dos céus/ Aos pecadores, perdidos, réus/ Arrependei-vos já”
Ela soltou a menina no chão e tentou desesperadamente evitar tudo aquilo. Pára, Zequinha, pelo amor de Deus, pára, filho, mas ele estava tomado de ódio, deveras transtornado. Boneca, boneca, boneca, repetia, e, a cada sílaba, um golpe que espargia sangue. Isso parecia atiçar ainda mais a ira de Zequinha, que era muito mais forte que a mulher, mais forte até que muitos homens. “Reconciliai-vos já / com o nosso Deus e Pai/ Vinde a Deus sem receio/ Cristo já remiu/ Todo pecador”
Quando finalmente conseguiu controlá-lo, já não havia muito a fazer. Ele se encolheu num canto, suas roupas encharcadas com o sangue de Júlia, olhar distante, parecia estar prestando atenção nas vozes que dançavam pela sala: ”Por Seu grande amor/ Dá perdão aos que crêem/ Pois Ele o garantiu/ Reconciliai-vos já com Deus.” Ela também tinha respingos daquele sangue inocente em seu rosto, nos óculos, nas roupas.
A mulher, encostada na parede suja da estação rodoferroviária, morde os lábios e pensa que não podia ter agido de outra forma, não, nunca. Júlia estava no chão, a cabeça esmagada. Ela então tentou simular uma cena de estupro, foi o que lhe veio à mente naquela hora. Despiu a moça, amarrou-a, repassou, tudo num segundo, mil vezes a cena do crime, buscando algo que incriminasse o filho. Não poderia deixar vestígios. Nada. Tratou os ferimentos da menina, deu-lhe chá e analgésicos. Colocou-a para dormir e depois levou-a para o seu quartinho. Limpou tudo o que pudesse ter impressões digitais do filho ou dela própria naquele apartamento. Naquele momento, tinha a sensação de que sua cabeça trabalhava no limite máximo, tudo corria, tudo explodia, e ela tinha a necessidade vital de estar atenta a tudo, não podia deixar sinais, não podia dar bandeira. Foram horas em minutos. Despiu Zequinha e deu-lhe um banho demorado. Retirou dele todo o sangue acumulado na face, nas mãos, entre as unhas do pé. Sangue já coagulado e difícil de lavar. E ele estava catatônico, os olhos pareciam ver algo que ela não via. Temia por ele, que balbuciava coisas sem sentido. Insistia em dizer que o capeta estava cuspindo nele. Colocou num saco preto de lixo as roupas encharcadas pelo sangue de Júlia e o martelo que ele usara. Banhou-se também e parecia mesmo tentar, através do banho, livrar-se de tudo aquilo, daquele pesadelo, daquele inferno.
Esperou que a madrugada chegasse, roendo as unhas, repassando a cena da tragédia. Esquecera alguma coisa? Desceu as escadas em silêncio, pegou seu carro e andou pela cidade. Estava desorientada. Onde descartaria aquelas roupas? Estacionou, por fim, numa região escura, onde resolveu dar fim a tudo aquilo, e não percebeu que um bêbado a observava.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulo 12

12


A pequena casa é uma construção antiga, muito simples, dois janelões de madeira, azuis, ladeando uma porta branca, da cor parda das paredes. Está localizada numa bela região que, na época do inverno, ostenta um verde irritante e tedioso. Há várias pessoas pelo quintal da casa, uma vez que em seu interior não há mais espaço para bípede algum. Conversam enlutadas, caminham para lá e para cá, entre algumas cabras e galinhas soltas.
As luzes já foram acesas, pois ali escurece muito cedo. O sol desmaia repentinamente por volta das cinco e meia da tarde. Fica aquele vermelhão bucólico de crepúsculo alumiando o gado e os homens. E é nesse estágio fotocromático que a tarde desliza sobre as gentes neste momento. Lá em cima, em algum lugar de não-sei-onde, o demônio masca a cauda e cospe-se na terra, urrando e sorrindo, observando a tudo e a todos. Os homens, em pequenos grupos, mascam fumo e palitam os restos de dentes amarelos. As mulheres, carpindo e rezando o terço, revezam-se na cantoria religiosa e no choro convulsivo que se faz ouvir lá de dentro da casa. Algumas transitam seus corpos obesos e sinceramente tristes com bandejas de café preto e quente. Há dor e sofrimento.
Um recém-chegado pergunta pelo paradeiro do compadre Antonio. Respondem que sumiu no mundo, antes do delegado de Ibotirama aparecer. Foi pras bandas de Lençóis, arrisca um velho desdentado. Uma mulher que serve o café desdiz o velho: Cumadi Zefa diz que ele fugiu pra Salvador, sussurra ela, olhando para os lados, certificando-se de que ninguém a ouviu falar o paradeiro do compadre. Um homem cospe de banda o fumo mascado e levanta as sobrancelhas expondo sua resignação. No interior da casa, entre velas, flores e rostos velhos e plangentes, o corpo da pequena Rosa, filha de Zefa e Antonio, repousa sem vida sobre a mesa de madeira, como uma tétrica xícara de café frio no centro da sala. A cabeça está envolta em um lençol branco que deixa entrever manchas avermelhadas. A menina parece dormir um sono dolente. Definitivamente, não parece ser aquele tipo de cadáver que descansou da vida. A pequena Rosa tem expressão dorida, de quem não estava pronta para partir. E quem, em sã consciência, está pronto para esse tipo de partida? Quem?
Alguns homens estão no fundo da casa, no galpão onde Antonio costuma guardar os defensivos agrícolas e as ferramentas da lida diária. Há uma vela acesa e um corpo no chão de terra batida, envolto numa rede, frio, silente. Esse cadáver, pelo qual ninguém chora ou reza, abandonado num galpão fétido e escuro, não vai mais procurar por bonecas e sua mãe, moradora do edifício Saint Moritz em Brasília, ainda não sabe que o cunhado, o foragido Antonio, tratou de enviar seu amado filho único para o Inferno, logo após tê-lo pego em flagrante esmagando o cérebro da pequena Rosa, com o martelo de bater carne.
O rapaz, aproveitando-se de que Antonio estava para Ibotirama com a mulher, amarrou a menina na cama dos pais e, alucinado, após rasgar-lhe a vagina violentamente chamando-a de boneca, desferiu-lhe tantos golpes na cabeça quanto suportou seu braço. Transformou-a numa pasta humana. Antonio, cego pelo ódio, transtornado, armou sua espingarda e, sem piedade, despachou-o para a próxima taberna, antes de fugir para São Paulo prometendo à mulher mandar notícias em breve.
A polícia de Ibotirama acaba de chegar à fazenda. É noite completa, noite estrelada e fresca. O corpo de Zequinha, o louco, é levado para a cidade onde aguardará a chegada da mãe. A pequena Rosa será enterrada na manhã seguinte, num pequeno cemitério do sertão baiano. Em algum lugar acima de todos, o capeta lamenta o fato de estarem rezando, mas tem a certeza de muito trabalho ainda por fazer. Achou bonito o chapéu de feltro verde que um bêbado portava. Com simpatia, e sem que a vítima pudesse percebê-lo, surrupiou-lhe o chapéu. Ficou a mirar-se e a se achar bonito.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capitulo 11

11


O repórter de uma revista de circulação nacional entrevista o porta-voz da Secretaria de Segurança, delegado Fernandes, sobre a eficácia do trabalho policial no Distrito Federal. A revista, inspirada na onda de violência urbana que assola o país, prepara uma reportagem especial sobre capacitação dos policiais brasileiros, comparando-os com seus similares na Inglaterra e nos Estados Unidos. O repórter faz o levantamento das ocorrências policiais e verifica o número de casos resolvidos pela polícia brasiliense. Outros repórteres estão fazendo o mesmo levantamento em oito capitais brasileiras, dentre as quais Rio de Janeiro e São Paulo. O jornalista, um recém-formado e empregado, ouve incrédulo as explicações do delegado, um sujeito de bochechas vermelhas e barba e cabelos grisalhos, que lhe apresenta os registros de 526 homicídios nos últimos doze meses, 88% deles resolvidos pela perspicácia e pela competência de nossa Polícia Civil do Distrito Federal. Esse desempenho fantástico na resolução de casos de homicídios, diz o delegado, nos coloca como a melhor polícia do Brasil, e, em termos mundiais, só perdemos para os canadenses. O repórter fica impressionado com tudo aquilo e não percebe, e não é sua função perceber, pelo menos neste momento, que o assassinato de Júlia Buonarroti integra a relação dos 12% de homicídios sem solução. Isso não será comentado, 12% dos assassinos estarão provavelmente livres, 12% de vítimas estarão provavelmente sem justiça. Na reportagem, que será publicada algumas semanas depois, Júlia será um número, estará diluída num gráfico de barras que, apesar de representar a insolubilidade de alguns casos de assassinato, atestará a competência da polícia do cerrado.
Enquanto isso, a alguns quilômetros dali, na 4ª DP do Guará, Michel reconhece, na foto do jornal, o homem que acompanhava Geraldo Prado naquela tarde, há quase dois meses, em que foi esperá-lo no aeroporto. Os jornais estão se deliciando com o escândalo. A manchete é de uma grosseria tremenda: Socialite toma porrada do marido. A reportagem informa que “o executivo João Carlos, 52 anos, espancou barbaramente a sua esposa, Silvia Magalhães de Alencar Rego, 37 anos. Na delegacia, para onde foram levados pela polícia que socorreu a mulher, o executivo, visivelmente nervoso, restringia-se a dizer que não tinha nada a declarar. Silvia Magalhães, conhecida figura da corte, foi encaminhada ao hospital e ao Instituto Médico Legal para perícia.”
O que não podem prever os leitores que se deliciam com aquele escândalo é que, em breve, muito antes que os hematomas de Sílvia desapareçam, o casal estará às mil maravilhas, descansando em Aspen, onde ela terá um caso relâmpago com um musculoso instrutor de esqui que lhe aquecerá a cama na ausência do marido e que ele, por sua vez, pagará uma mixaria pelo companhia furtiva de um porto-riquenho, funcionário do hotel em que ficarão hospedados. Tudo uma maravilha, todos felizes.
As investigações estavam num beco sem saída, nenhuma pista a seguir, nada. Silvia havia confirmado o álibi apresentado por Gerado Prado. Garçons confirmaram a presença do casal no restaurante no dia e horário do crime. Pelo andar da carruagem, presumia, mais um caso sem solução. Um crime perfeito, pensava Michel. O criminoso, ou criminosos, tinha realizado uma obra-prima, tudo sem resposta, instigante. Por quê? Como? Quem? Tudo no caso Júlia indicava a perfeição do crime. Com certeza, pensava ele, aquilo tinha sido obra de um genial criminoso. Por mais que a equipe se aprofundasse, menos indícios encontrava.
Ele esteve diversas vezes no local, incomodou a vizinhança de tal forma que sua presença já estava virando fato comum. Chegou mesmo a crer que tinha encontrado o fio da meada quando um dos fiéis da Igreja Universal do Império Divino o procurou para denunciar o envolvimento do pastor Valter com a vítima. Aparentemente, o pastor tinha tudo para ser o criminoso, pois era amigo de Júlia, soube-se então que estava obcecado por ela, a perseguia escancaradamente. Aproveitando-se de sua posição de pastor de almas, tinha intenções nada evangélicas com relação àquela ovelha desgarrada. Tudo isso ele levantou junto ao suspeito mas, mesmo aqui, nada havia de concreto que pudesse ligá-lo ao crime. Nenhuma digital, nenhum pêlo, nada, nada. A partir dos depoimentos de membros da Igreja, Michel forçosamente teve que concluir pela inocência do pastor
O fato de ter sido constatada a montagem da cena no apartamento de Júlia, com indícios de limpeza geral no piso, nas paredes, móveis, apontando a preocupação do criminoso, ou criminosos, em ocultar impressões e dificultar ao máximo a resolução do homicídio, fez com que começasse a crer num trabalho de profissionais. Mas por quê? Que segredo poderia guardar a mocinha do Ministério da Saúde? Que grande importância poderia ter aquela garota de programa na vida dos assassinos?
Dois meses se passaram e quanto mais se distancia daquela manhã, quando lhe avisaram na academia que havia um homicídio no Guará, mais ele se convence de que aquele crime não terá condenados. E como é duro ter que admitir a ineficácia, reconhecer a impotência, a frustração, o ódio de pensar que um assassino cruel deve estar rindo de sua cara, de toda a equipe, da Polícia Civil, da vítima. O riso do fantasma que durante todo esse tempo perseguiu suas diligências, suas atitudes.
Nos depoimentos de Geraldo e de Sílvia ficou evidente a inocência do empresário. As cartas com as chantagens de Júlia a Geraldo e Heloísa, onde ela ameaçava promover um escândalo caso não fosse concedida uma ajuda para criar a filha, foram apresentadas e esvaziadas com a explicação do empreiteiro. Ele se submetera às ameaças da mulher e, mais que ajudar a filha, fez o teste de paternidade e reconheceu-a, dando-lhe dinheiro. Enfim, não havia nada que indicasse culpa do empresário. Michel, desde o início, duvidava que Geraldo tivesse cometido tal barbaridade. Não tinha o perfil requerido para tal atitude. Era criminoso de outra espécie de crimes. Nada de armas de fogo ou brancas. Nunca seria capaz de meter-se em sangue. Era bandido de papéis, negociatas, negócios escusos. O homem perfumado que a vizinha afirmou ter visto no dia do crime, descobriu o investigador, era João Carlos que, a mando de Geraldo, havia levado dinheiro para a vítima. Estaca zero.
Quem teria matado Júlia? E por quê? Nunca saberiam? No fundo ele pressentia que essas eram perguntas fadadas a permanecerem sem respostas e isso lhe doía demais. Muitas júlias morreram, morrem e morreriam ainda, ele não duvida disso e sabe também que nem tudo tem um sentido. Se tem, nos foge ao controle e ao entendimento. O que sobra? Um corpo em decomposição, algumas lágrimas e a certeza do dever cumprido.
Os outros policiais da equipe de homicídios já estavam concentrados em outros casos e ele ali, ainda remoendo os papéis do processo, relendo o laudo do Instituto de Criminalística pela fullésima vez, buscando uma pista, um vestígio qualquer. Nada. Um lance de dados jamais abolirá o acaso? pensava ele, um tira malarmaico.
Pela manhã, esteve na Universidade de Brasília. Resolveu inscrever-se para a seleção do Mestrado em Literatura. Perguntou pela professora Heloísa e lhe disseram que estava de sabática, que não se encontrava no Brasil. Apenas obteve a confirmação do que já sabia pelos jornais: Heloísa abandonara o marido e sumira no mundo.
Helena ligou para ele na parte da manhã. Convidou-o para pegar um cinema. Está passando Morte em Veneza, no cine Academia, vamos? Ele, surpreso com o convite, que obviamente aceitou, acendeu um cigarro, vício que, sucumbindo ao desejo, acabara por retomar, e pensou consigo mesmo: Hoje, depois de semanas, tenho nicotina e perereca. E riu-se escandalosamente, despertando os olhares curiosos do pessoal da delegacia.
Lembrou de como a conhecera, há tempos, numa apresentação tumultuada da Cassia Eller, ainda desconhecida, num barzinho cult da Asa Norte, o “Bom demais”. Estava com alguns amigos, ela com amigas. Foi tudo muito rápido e direto. Nessa mesma noite, dormiram juntos e iniciaram um relacionamento temperado por mal entendidos, separações, voltas. Agora, anos depois, nesse novo reencontro, após ele cochilar durante a projeção do filme, embalado por Mahler, ela lhe dirá que perdeu o bebê. Sangrou durante uma caminhada no Parque da Cidade e o médico, com a cara mais tranqüila do mundo, após checar os exames de sangue a que se submetera, informou que acabara de abortar. Ela vai confessar que esteve muito triste, que tudo aquilo doeu muito, que se sentiu inútil. Tudo isso ela lhe dirá enquanto comem uma boa massa. Ele, de início, demonstrará sinceramente o seu espanto: Como foi acontecer isso? Depois encenará remorso, numa performance convincente: Me perdoa, eu não deveria ter dito aquilo. E fechará com chave de ouro, dizendo que a ama e sente muito a falta de seu amor. Tudo isso lhe dirá, mas sabemos que estará pensando apenas em perereca.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 9 e 10

9


A sala é um amontoado de papéis e preocupação. Os peritos conversam, trocam idéias, sugestões. A matéria com que lidam não é das mais agradáveis, mas é necessário encará-la de maneira decidida, fazer, periciar, buscar explicação para essas pequenas tragédias diárias, tentar estar imune a elas, super-homens de nervos de aço: a mocinha que se suicida e deixa um bilhete ao namoradinho; a criança, de apenas dois anos, carbonizada no barraco de madeira; o velho homossexual, torturado e assassinado no banheiro; os presos mortos no motim na Papuda; e lá estão eles, os peritos, com suas maletas, suas bússolas, seus corações bombeando emoção contida, fitas adesivas e olhares atentos. Homens e mulheres debruçando-se sobre o fim de outros homens e mulheres. E não é essa a natureza humana, guiarmo-nos mesmo na morte? Michel conversa com um dos peritos que lhe entrega um pequeno dossiê onde está escrito: LAUDO DE EXAME DE LOCAL DE MORTE VIOLENTA. Falta assinar, mas já está pronto, pode dar uma folheada.
Ele então começa a ler aquela peça importante do processo, está revivendo a cena do crime:
“...2 Do Cadáver
Trata-se de adulto, do sexo feminino, de compleição mediana, de cor branca, com cabelos lisos, loiros, identificado como sendo JÚLIA DE ASSIS BUONARROTI, com 23 (vinte e e três) anos de idade, nascida em 14/05/1977. Ver fotografia número 32.
Encontrava-se em decúbito ventral, sobre a cama de casal, com a cabeça junto da parede e os membros superiores e inferiores atados às costas, a face voltada para o chão, conforme descrito a seguir. Rever fotografia número 09.

2.2.1 Das Vestes
A vítima não trajava roupa alguma, estando com os pés descalços. Portava um relógio no pulso esquerdo, em funcionamento.

2.2.2 Perinecroscópico
Examinando-se externamente o corpo, que se encontrava com rigidez cadavérica nos membros inferiores, foram observadas as seguintes lesões:
- feridas contusas de formatos irregulares, nas regiões fronto-parietal e occipital (fotografias números 35 e 36)
- uma ferida contusa no pavilhão auricular direito (fotografia número 37)
- escoriação em placa nos tornozelos e na parte anterior de ambos os pulsos (fotografias números 38 a 40)
- hematoma de formato regular no ombro esquerdo, evidenciando pigmentos de característica uniforme e constante (ver fotografia 41)
Apresentava, ainda, a língua protusa e arroxeada. Rever a fotografia número 42.
Encontrava-se com impregnações de sangue na cabeça, membros superiores e parte superior do tronco, sendo coletada uma amostra para pesquisa própria em Laboratório deste Instituto.”

Pobre Júlia, o que fizeram com você. Ele fecha o dossiê, evita olhar as fotos, bastam-lhe as lembranças ainda frescas, o cheiro de sangue, o som do choro da pequena Laura.

“4 Discussão
Ante a análise e interpretação dos elementos materiais assinalados e retrodescritos, assim os peritos interpretam a dinâmica do evento: encontrava-se Júlia de Assis Buonarroti próxima à porta de saída do apartamento, quando fora atingida por golpes de instrumento(s) contundente(s) não identificado(s) no local, nas regiões anatômicas retrocitadas, sendo que pelo menos parte dos golpes foi dada com a vítima deitada no piso de cerâmica; em seguida, fora arrastada até a cama, amordaçada e manietada com as mãos para trás, vindo a falecer devido à gravidade das lesões experimentadas.”
Michel entrega o laudo ao perito, agradece e parte.


10


Você tem certeza de que não quer me dizer nada, Silvia?
João Carlos fechou o livro que até então fingia ler com interesse e que, com a chegada da mulher, tornou-se dispensável. Ela, senhora de si, estranhando a reação do marido, simplesmente emitiu um “O quê?” João Carlos, ameaçador como nunca antes, levantou-se, foi em direção à mulher, que, assustada, desequilibrou-se em seu salto alto. Paciência tem limite e a minha paciência acabou. Afundando seus dedos nos braços da mulher, ele continuou num tom de seriedade e de acabou-a-mamata-baby, Seria interessante que você abrisse o jogo, não acha?
Ele tem andado muito estranho, pensa Sílvia, há dias tenho notado que o João Carlos não é o mesmo, peguei-o mexendo em minha bolsa, perguntando pela conta telefônica do meu celular, um absurdo, ele nunca fez tal coisa. Que estará pensando? Você está louco? Quem pensa que é? Silvia defende-se atacando, conhece a fundo a natureza pacífica e passiva do marido, sabe que um tom alterado de voz é o suficiente para recolocá-lo em seu devido lugar: o ponto cego. Pelo menos tem sido assim nesses treze anos de casamento, contabiliza.
Nenhum filho, alguns amantes, dois abortos, presentes, viagens. Pela primeira vez sente algo diferente, a situação lhe parece adversa, surpreendentemente adversa, age como um animal assustado que capta o cheiro do predador em seu território. Definitivamente aquele não é o João Carlos dos eternos sins. A falta de sexo sempre foi compensada por atenção, carinho, gentileza, subserviência e liberdade total para sair e chegar quando e como quisesse. Ele nunca se importou, nunca perguntou e, é claro, devia saber que ela não andava rezando, nunca foi lá muito católica. Uma mulher como ela, bonita, fogosa, não iria se contentar com diamantes e flores, faltava algo mais profundo, faltava pica, e isso ela conseguia facilmente, numa ida ao shopping, ao clube, a um dos estacionamentos do Parque da Cidade, num vernissage, muito embora gostasse de dizer que o melhor lugar para se conseguir um bom homem era, sem sombra de dúvidas, num supermercado. Nada de campo de futebol, oficina mecânica, quadra de tênis. O melhor mesmo era desfilar com um carrinho de compras pela seção de utilidades masculinas, ali onde se encontram chaves de fenda, parafusos, extensões elétricas, filtro de óleo. Bastavam alguns minutos e logo fisgava o primeiro olhar furtivo, geralmente de homens casados que deixavam as mulheres e a prole enchendo os carrinhos com arroz, macarrão, creme dental, e ficavam ali, oferecendo a ela um pepino duro e maltratado, carente.
Ela sabia muito bem como tratar devidamente um pau abandonado. Dizia à Madá, esposa de um falecido e jovem senador, que desistira de caçar em vernissages ou lançamentos de livros, Ali, minha filha, falava do alto de sua sabedoria, só tem veado e quem se diz não-veado é moderninho demais para uma mulher como nós. Sexo e intelectuais são coisas conflitantes, nunca conheci um homem de letras, ou das artes em geral, que soubesse valorizar a simplicidade de uma trepada bem dada. Eles vêm com certos requintes idiotas, quase patológicos, e acham que isso é refinamento, que isso dá sabor a uma transa. Qual o quê. Esses caras muito cheios de teorias não sabem mesmo o que é uma xoxota, eles chupam a gente como se estivessem lendo Jung, procurando simbolismos vesgos em vaginas. Tive uma vez uma transa com um artista plástico, meu Deus, que horror! O cara queria que eu rolasse com ele sobre uma tela enorme, lambuzados de tintas, dizia que era uma forma de deixar gravados nossos gozos. Que gozo porra nenhuma, como é que eu ia gozar com o rabo grudando de tinta acrílica? É como lhe digo, se quer um macho, comum, eficaz, eficiente, fuja dos intelectuais. Eles não entendem nada de mulher.
O caso com Geraldo se desenrolava há pouco tempo. Ela sempre o cobiçou, um homem desses, tão mal utilizado – suspirava - que desperdício. O fato de serem amigos, amigos de longa data, de partilharem almoços, festas, férias, hotéis, não significou muita coisa quando finalmente foram para a cama, que na realidade foi a própria mesa de trabalho do empresário, na sede da empresa. Ali, numa tarde em que fora visitar o marido, mas no fundo buscava outro macho, ele a penetrou violentamente. Deitou-a sobre a mesa, um móvel enorme de madeira, derrubando papéis, processos, porta-retratos, numa selvageria típica do tesão represado. Na sala ao lado, o marido, João Carlos, nem poderia imaginar que logo ali, tão perto, seu grande amigo estava a comer o cu de sua esposa, chamando-a vulgarmente de piranha, puta, gostosa, vou te mostrar o que é um macho, não é aquele corno do João, isso te garanto, safada, e ela só dizia, sim, sim, sim.
O marido sempre esteve numa espécie de sala ao lado, perto dela e ao mesmo tempo tão distante. É óbvio que ele deveria ter lá os seus casos, ela nunca se incomodou com isso, era uma forma diferente de gostar. Mas hoje, agora, ele não era o João da sala ao lado, estranhamente ele estava muito próximo a ela, como nunca tinha estado, daí porque ela berrou: Quem te deu o direito de falar assim comigo, João Carlos? Mas dessa vez sua estratégia é desmontada por uma sonora e violenta bofetada. João Carlos deixa marcados os cinco dedos da mão direita no rosto da mulher, que cai no chão, estupefata, sem fôlego. Ele estende a mão para ajudá-la a levantar-se. Vamos ter a nossa conversinha agora, querida?

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 7 e 8

7

Cadê Zequinha? Na beira do rio de novo? A gente tem que abrir o olho com esse teu sobrinho, Zefa. Tu sabe que ele não regula bem, tenho medo de ele fazer uma doideira e aí a gente tá no sal. Pastor Fábio andou me dizendo que o sangue do Senhor pode tirar esse mal dele. Disse pra nós levar ele pro culto do domingo, que ele vai exorcizar o diabo no corpo de Zequinha. Que que tu acha? Nós leva? Tua irmã pediu pra gente tomar conta dele, confiou ele a nós e tu sabe que sou homem de palavra, num sabe? Só não entendo porque carga d’água ela trouxe esse infeliz praqui, se lá em Brasília tem muito mais recurso pra cuidar dele. Aqui é que não dá certo, tu sabe que não gosto dele e ainda tem Rosinha, não confio naquela cara de tremelique que ele tem, mas fazer o que né? Se ela pediu num sou eu que vou dizer não, mas que é um desperdício da porra, lá isso é sim, um cabrão desse, cheio de sustança, e a gente nem pode contar com ele na lida. Ontem ele tava de novo procurando boneca, boneca, que diabo de boneca é essa que ele procura tanto, tu sabe?


8


Sim, é claro que eu conhecia a irmã Júlia. Ele disse isso sem titubear, foi direto, sem tremer, mas eu quase que podia perceber a alteração de suas pupilas, como Harrison Ford entrevistando um replicante. Disse a ele que tinha recebido uma ligação anônima me dizendo que ele tinha relação com a vítima, que fora visto no local na noite em que ocorrera o crime, e que eu não estava ali por acaso. Ele tinha muito a dizer e eu queria muito ouvir a sua história.
Sou casado, começou ele e sua voz já não tinha a mesma segurança, estava contaminada por algo que eu supunha ser medo, mas que poderia ser mera emoção. Muito bem casado, fez questão de reforçar. Ela me ajuda nos trabalhos da igreja, nos cultos, nas visitas aos doentes, cuida da casa, dos nossos filhos, de mim. Sou, para lhe ser sincero, um homem abençoado por Deus, que me deu essa mulher, essa família. Sem eles, eu nada seria. Mas... ela apareceu.
Ele estancou, enfiou o rosto entre as mãos ossudas e abaixou a cabeça, respirando fundo. Ela cruzou a porta da Igreja, eu conversava com os rapazes e moças do grupo jovem e não pude desviar os olhos daquela aparição. Trazia Laurinha pela mão e creio que levava um cigarro aceso na outra. Na primeira vez que a vi eu não podia supor que Deus estava me testando, me pondo à prova. Logo eu, que sempre fui fiel cordeiro. Por quê? Me pergunto, por quê? Serei Jó? Achei que a melhor estratégia era deixar que ele desabafasse. Não havia ninguém no escritório da Igreja, apenas eu e ele. O tempo parecia estar virando, talvez chovesse e já era mesmo tempo de chover. As mãos secas, a pele um horror, as narinas um corredor onde o ar costumava passar arrastando as sapatilhas com pregos. No caminho para cá, em frente ao Zoológico, o mato seco consumia-se em chamas e o ar era cinza e irrespirável. Sobre o viaduto perto do Shopping, antes de descer para o Guará, vi que, na direção do Gama, as nuvens estavam escuras, chumbo-chuva. Essa possibilidade de água no deserto animava-me a prosseguir o interrogatório. Eu tinha a certeza de que estava ali o assassino de Júlia e ele iria me confessar tudo. Perguntei se eles mantinham um caso e ele me fuzilou com o olhar úmido. Não, nunca tivemos nada. Eu me acostumei a vê-la chegar do trabalho, pois daqui da porta da Igreja temos visão total das pessoas que saltam no ponto de ônibus. Virou rotina e necessidade. Ela nunca percebeu que daqui eu a via passar, excitava-me seu jeito doce. Tinha um quê de prazer proibido, de roubar fruta madura no quintal do vizinho. Isso mexia comigo. Quando a visitei pela primeira vez, eu só queria convidá-la a participar de nosso culto, a visitar nossa Igreja. Ela me atendeu educadamente, disse que uma hora dessas ela viria mas é claro que nunca orou conosco. Ofereceu-me um pouco de café e logo se despediu de mim dizendo estar cansada. Algo que eu nunca sentira antes começou a se apossar de meu juízo, era ele, Satanás, que veio para mim sem que eu, acostumado a despachá-lo para o inferno, pudesse perceber sua aproximação. Veio disfarçado de Júlia, tocou-me no ponto fraco, soprou a brasa adormecida de meu desejo e pôs fogo em mim. Comecei a sentir os desejos da carne, e Júlia era o objeto desse desejo. Antes, eu a via passar como fruta madura, biscoito raro, mas agora eu, imaginava suas pernas, seus seios, seu corpo inteiro em chamas. Sua presença me excitava constantemente, não tinha mais sossego, perdera minha paz. A primeira vez que fomos para a cama eu paguei o que ela me pedira, paguei com prazer, valera todos os tostôes que gastei da Igreja. Já que não podia tê-la de coração, comecei a usar os serviços dela. No início, uma vez a cada quinze dias. Fazíamos amor no apartamento dela, depois do culto. Em casa eu dizia que tinha visitas a fazer a membros da comunidade, e então corria para os braços de Júlia. Só eu sei o quanto estava cego, louco, tomado por Satanás. De repente, sem que desse conta de mim, estava querendo mais e mais. Comecei a visitá-la com mais freqüência e notei que ela me desprezava completamente. No início ainda tentava ser gentil, mas logo me recebia à porta com um “Porra, você de novo?” e nessas horas o que eu mais queria era abraçá-la, contar a ela tudo o que eu sentia. Eu seria capaz de largar tudo, doutor, abandonar mulher, filhos, igreja, Deus, sim, seria capaz de abandonar minha vida por ela. E ela, aquela Madalena, ria de mim. Minhas investidas sempre foram repelidas, e quase sempre com violência. Alguns fiéis notaram que eu não era mais o mesmo. Minha santa esposa há muito percebera minha possessão e comentara com os pastores Caio e Fábio. Chegaram mesmo a me questionar claramente sobre o assunto e eu, cego e estúpido, disse que não havia nada, que estavam todos malucos. Em casa, minha vida virara de pernas para o ar. Não conseguia mais relacionar-me sexualmente com minha esposa, pensava em Júlia, queria apenas Júlia. E foi pensando nisso que a visitei naquela noite. Ó Jeová, como sou grato por me enviares os sinais.
Eu quis saber que sinais eram esses, o que aconteceu naquela noite. Notei que ele tremia muito, visivelmente exaltado. Eu acreditava que agora ele confessaria tudo, ajeitei-me na cadeira, e pedi que ele continuasse. Disse-lhe que nossa conversa ali era informal, que ele podia se abrir comigo. Fiz isso como forma de deixá-lo a vontade e confiante, para que me contasse como matara Júlia, pois o porquê ele já me tinha dito. Tínhamos um culto especial naquela noite - ele começou - a igreja estava repleta de irmãos.Estávamos recebendo a visita de irmãos de outra cidade e, como sempre, nesses casos, o culto estava a cargo do pastor visitante. Eu estava completamente ansioso, excitado, perdido, possuído por ele, o anjo negro. Aproveitando-me de um momento de desatenção de minha santa mulher, saí furtivamente, subi as escada correndo, o coração entre os dentes. Todos cantavam alegrement, e minha alma, naquele momento, cantava os salmos infernais do desejo. Bati à porta e ela se abriu sozinha, estava apenas encostada. Empurrei-a e entrei. Tudo estava estranhamente calmo. E então... ele olhou para mim, os olhos fundos clamando perdão.
Ao longe ouvimos o barulho de trovões e isso me alegrou. Chuva sempre me alegrou. Eu vi o sangue, ele continuou, muito sangue, e ela nua, amarrada, morta. Meu coração disparou, Deus estava a me mostrar o destino dos ímpios, a me dizer que havia tempo para a minha redenção, que Satanás deveria ser expulso de meu coração, que a tentação findara tragicamente e que eu deveria retornar ao caminho do sangue do cordeiro. Eu a vi, Júlia, amarrada, sem vida. Laura dormia um sono agitado, conferi que ela estava bem, graças a Deus. Eu voltei, não havia mais o que fazer, tinha que sair dali. O medo de ser flagrado no apartamento e não ter como explicar, aliado ao meu arrependimento por tudo que eu andara fazendo, fizeram-me cair em prantos. Encostei a porta, eliminei minhas impressões da maçaneta e desci as escadas chorando. Voltei para a igreja e louvei a Deus a plenos pulmões. Naquela noite, sob o sangue de Júlia, eu renasci, tornei-me outro homem. Quando viva, aquela mulher representou minha danação, sepultou minha alma no pecado mas, ao morrer, ela salvou-me do inferno. Ele tinha os olhos úmidos e eu podia notar um certo alívio no tom de sua voz, na respiração funda e compassada. Aquela conversa, que ele disse nunca ter tido com ninguém, tinha sido mais que desejada. A voz anônima que lhe telefonou, o fez porque pedi que fizesse. Minha esposa ligou para o senhor, a meu pedido. Não se surpreenda, eu não sabia como agir, e não queria escândalo. Eu o aguardava desde aquela noite, mas tudo tem seu tempo, tempo de matar e de morrer, de calar e de falar.
Eu não sabia o que dizer, aquela história que acabara de ouvir não era o que eu esperava ouvir e, por isso, não me soava convincente. A perícia não constatou nenhum vestígio que pudesse atestar a presença do pastor no apartamento de Júlia. Nenhuma impressão, fio de cabelo, nada. Conversei com vários fiéis e todos afirmaram que o pastor Valter não tinha se ausentado da Igreja naquela noite. Eu sabia que isso era uma inverdade, mas sabia apenas por que ele próprio me confessara essa ausência. Nada a fazer, o homem estava livre. Eu não tinha nada que pudesse incriminá-lo.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 5 e 6

5


Virou crente agora, Michel? pergunta o escrivão apontando os versos que ele rabisca no papel:

Ó cega cupidez! Ó ira ardente,
Que a tantos leva ao mal na curta vida,
E na eterna castiga eternamente!


Ele sorri e responde perguntando: Você acredita em inferno, Moura? O escrivão faz muxoxo de agnóstico e traga o cigarro que um dia o levará ao purgatório. Você acha que há castigo para esses elementos que a gente prende? E para aqueles que a gente não consegue prender? Moura, um gorducho bonachão, de bigode farto e cabelos parcos, responde mordendo o cigarro: Não entro nessas questões, poeta. Minha praia é outra, diz com o sotaque carregado dos chiados de Santa Teresa e Bonsucesso, e fazendo um gesto malicioso que une polegares e indicadores. Além do mais, chia ele no irritante carioquês, esse negócio de versinho é coisa de boiola. E ri escancaradamente com seus cinqüenta e dois dentes amarelos.
Michel aponta-lhe o dedo médio, expondo-lhe o característico gesto obsceno de domínio público, que inspirou o clássico conto A teoria do gesto de um de seus autores favoritos. Babaca, isso é Dante, Divina Comédia, Canto XII do Inferno, berra irritado e sua mente, por instantes, voa.
“As now can’t reveal the mystery of tomorrow
nut in passing will grow older every day
just as all is born is new
do know what I say is true
That I’ll be loving you always...’
Puxa, há tempos não ouvia essa canção. Linda!
Ela disse assim, de um jeito tão doce, e nem parecia a perua arrogante que eu julgava ser quando me ligou na delegacia marcando esse encontro. Disse que queria sigilo, escolheu este Café na asa norte e pediu-me que viesse sozinho. Encontrei-a nervosa, muito bem vestida, olhos úmidos, olheiras aparentes inutilmente disfarçadas, parecia ter chorado muito. Fui descobrir depois que tem chorado há tempos. Falou-me do marido, entregou-me a carta-chantagem, contou-me sobre a noite do crime, sobre o desaparecimento de Geraldo, suas desconfianças, que o amava, mas que tinha muito medo, não sabia mais em que acreditar. Da formalidade inicial, acabei passando involuntariamente a uma espécie de confessor sentimental, mais para padre que para tira.
Sempre tive esse lado messiânico. Messiânico não, que de Messias eu não tenho porra nenhuma. Quero dizer que sempre atraí pessoas querendo confessar algo, e não me refiro a crimes, mas a coisas de suas vidas que precisavam ser ditas a alguém que tivesse cara e jeito de orelha, olhar de tímpano. Eu sempre fui esse auditor ambulante. As mulheres adoram me confessar tristezas, sentimentos de perda, carências. Os homens normalmente me vêm com histórias de traição, de como se arrependem de não ter quebrado a cara de alguém, de como dizer à mulher que andaram comendo fora de casa. Coisinhas assim. E eu, de Cristo, ouvindo-os e invejando-lhes a grandeza de atitude, de buscar no outro o consolo, o conforto.
Nunca fui assim, nunca procurei ninguém para falar um xis da minha vida. Sempre achei que isso era agir covardemente, só a mim interessa o que sinto. Enquanto falávamos, George Michael começou a cantar essa canção de Stevie Wonder, “As”, que ela reconheceu imediatamente, vendo-se mesmo transportada para a Nova York de 1976, quando, ao lado do marido, um jovem engenheiro carioca chamado Geraldo Prado, cheia de planos, fazia o doutorado em literatura comparada. Era um verão maravilhoso, disse-me, costumávamos andar no Central Park e repartíamos nossas vidas, nossas descobertas, nossas frustrações. Foi um tempo esplendoroso aquele, e essa canção me leva melancolicamente àquele época.
Disse-lhe que preferia o original, na voz do velho Tirésias negro Stevie Wonder, rodando e chiando, no álbum duplo Songs in the key of life, que comprei num sebo em São Paulo. Ela se contentou em sorrir maravilhosamente e em dizer que eu deveria ser a musa inspiradora de um tal de Nick Hornby. Curioso diante do comentário quis saber de quem se tratava e ela falou-me de um romance inglês dos noventa, onde o protagonista é um cara que interpreta a vida e as pessoas a partir de sua loja de discos de vinil. Já de cara gostei do fulano e perguntei pelo título do livro. High Fidelity, disse-me ela, literatura pop, fast food literário interessante, dá uma idéia do que se produz agora na Inglaterra. Bom? Quis saber, e ela emendou “Quer mesmo saber?” e sorriu de um jeito tão doce e triste.
Me falou que infelizmente a arte involuía a passos largos. Estes são tempos de bijuterias, não existem mais diamantes. Continuou me dizendo que não era possível mais esperar grande coisa na literatura. O que se via, nesses dois milênios de letras, era realmente a queda de qualidade dos textos literários. Assim, com uma didática de doce de goiaba, ela me dizia de Homero aos trágicos uma primeira queda, o que diremos então dos trágicos aos latinos? E a queda continua, em ritmo acelerado, até chegar aos modernos. E moderno é Cervantes, não T.S.Elliot. E ela ria gostosamente. Não há como comparar Nick Hornby com nada disso. É a literatura contemporânea. É o resto pop e fútil com que nos brindam nesse fim de milênio, fast food literário, repetiu. É bom? Valem a pena a grana e o tempo gastos com ele? insisti, Não sei, é o que temos, ela me disse sem nenhuma ponta de rancor acadêmico, se é que existe tal tipo de rancor, mas o que quero mesmo dizer é que ela simplesmente constatava isso tudo, não sofria por isso. Concluiu essa história me dizendo Se eu fosse você, optava por ler Thomas Mann. Comece com Tonio Kröger, vai gostar. Confessei a minha preferência pela poesia, o que a surpreendeu claramente. Um policial e poesia? sorriu, que coisa mais surrealista.
Era essa a idéia de todas as pessoas. E eu achava que, no fundo, isso tudo era uma grande besteira. Tirei alguns pontos da professora Heloísa devido a esse comentário idiota. Disse-lhe, num tom de ensaio acadêmico, que não via motivo para tamanho espanto, uma vez que poesia e criminalidade tinham a mesma raiz. Disse isso assim, para provocar, para espantar, e consegui o meu objetivo, pois ela arregalou seus lindos olhos e fez cara de “My god!”. Sim, isso mesmo, continuei, um crime perfeito. O crime a que me refiro é o assassinato e, sendo ainda mais categórico, o homicídio premeditado. Um crime assim é como um poema perfeito, sem quebras que comprometam sua métrica, de rimas ricas quando as há, e aí entra o estilo do poeta, o padrão do assassino. Na criação de suas obras - e tente me ouvir e me entender sem um pré-conceito moral, ou ético; seja fria, acadêmica, por favor - ambos partilham o ideal do belo. Para matar ou compor sonetos há que se render à estética. Os grande assassinos são indubitavelmente grandes estetas, e não me refiro aqui a esses criminosos absurdos que vêm de roldão na insanidade, acompanhados de explosões de fúria, passionais ao extremo. Trato exclusivamente daqueles sofisticados matadores que compõem sua obra com paciência, que a planejam ardilosamente, escolhem sua vítima como se escolhe um tema para uma sextilha, seguem-na e estudam-na como se mergulhassem na sua alma, como faz qualquer bom poeta, e acabam por executá-la com requintes de inteligência e extrema sensibilidade, demonstrando esmero, como na composição de um hai kai, e nos deixando, policiais e críticos literários, simplesmente de mãos e pés atados. Não quero de forma alguma defender o assassino, minha função é acabar com eles, mas não vou aqui dizer ingenuamente que não existe crime perfeito, pois existe sim, há poetas e versos de sangue. Ela me olhava com a expressão de espanto agradável.
A conversa tornou-se amena e ela parecia querer aproveitar minha presença para falar e falar e falar, indefinidamente. Contou-me que era filha de militar e que, em função da atividade do pai, durante a adolescência, vivia mudando de cidade. Porto Alegre, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília consumiram bons a maus anos de sua vida. Fiquei observando os gestos suaves que fazia com as mãos ao falar. A cada opinião ou conceito emitido pela voz macia, as mãos emendavam um gesto que tinha a função de reforçar o que a boca dizia. Era delicioso notar a graciosidade desses movimentos. Tenho esse defeito terrível: para minha percepção, a linguagem do corpo fala mais alto que a própria voz e por essa razão, é comum eu sacrificar um pouco do teor de uma conversa em detrimento da análise do movimento das mãos, o franzir das sobrancelhas, a torção e o tremor dos lábios. Acho que tal vício tem sua origem nas porradas que brotavam repentinamente das palavras do meu finado pai.
Perguntou-me se não tinha interesse em fazer o mestrado em literatura, e sorriu. Disse a ela que o depoimento do marido estava marcado mas, pela conversa que tinha tido com ele, não conseguia ver nenhum sinal evidente de seu envolvimento na morte de Júlia. Afirmei que, pessoalmente, não acreditava nisso, pois Geraldo tinha sido muito coerente, embora realmente não me tivesse dito onde se encontrava na noite do crime. Ela sorriu irônica e sugeriu alguma mulher. Eu disse que não sabia, não era minha função. Ela me pareceu muito triste, e mesmo deixava transparecer, mais do que tristeza, uma mancha escura. Ódio, presumi. Saiu do Café da maneira mais linda que uma mulher pode sair, sem olhar para trás, nem para os lados. Neste momento, pelas caixas de som, a voz grave e máscula do finado Renato Russo me dizia “Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo, tende piedade de nós”
Tudo um grande quebra-cabeça. A cabeça quebrada, esmagada, de Júlia, atrai muitas alternativas e, por isso mesmo, ele se vê perdido e temeroso. A carta-chantagem de Júlia, que Heloísa lhe entregou pela manhã, toda aquela história do desaparecimento de Geraldo na noite do crime, a ausência de indícios, a falta de pistas e o silêncio da vizinhança, o escândalo com um grande empresário, tudo isso pesa em seus ombros. Sabe que a investigação ainda está no começo, mas a sensação desagradável de crime sem solução parece rondar sua enxaqueca. Antevê a impunidade, sangue sem sentença, vítima sem vingança, morte sem culpado, crime sem castigo. Lembra de Ana Lídia, do corpo mutilado da menina em pleno cerrado. Daquela época, menino ainda, Michel guarda o clima de tragédia que se abateu na cidade, o trauma provocado pela descoberta do corpo da criança e, o pior de tudo, o zum-zum-zum sobre a participação de filhos de políticos poderosos no crime. Sabe que, apesar de tudo, nada incrimina Geraldo Prado concretamente. Pressente mesmo sua inocência e não sabe para onde direcionar sua investigação. A arma do crime? Impressões digitais? Nada, nada. Quem? Vêm-lhe à mente os versos de Sófocles, em Édipo Rei: “Que disse? É pouco, mas um mínimo detalhe / talvez nos leve a descobertas decisivas / se nos proporcionar um fio de esperança.” E ele suspirou resignado, pois não acreditava em oráculo algum. Seu grande temor era que o caso de Júlia viesse a se tornar um segundo caso Ana Lídia.


6


Esta é a caixa de recados de 9987.6589. Após o sinal, deixe o seu recado:
Por favor, Gera, não faça besteira. Não vá dizer que estivemos juntos naquela noite, pelo amor de Deus. Não faça isso comigo. E meu casamento? E o seu? E sua amizade com o Jota? Vai arriscar tudo isso? Não, nunca. Eles nunca entenderiam, Agá e Jota nunca entenderiam, Geraldo. Ela nunca me perdoaria. Me liga, por favor. Não faça loucura.

Pmpj - Parte Final - Dança - Capítulos 3 e 4

3

Como ousa dizer que estou ficando louca? Até quando pensa levar essa mentira? Onde você estava ontem? Não me venha dizer que ficou em casa, não sou estúpida. E essa coitada? Júlia não sei de quê, foi você que fez isso com ela? Além de adúltero, agora é um assassino também? Eu tenho uma carta onde ela te faz ameaças, é tudo tão horrível.
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E por que nunca me falou nada? Por que, Geraldo? Monstro.


4


Um batalhão de empregados do Departamento de Obras Públicas está envolvido num mutirão de limpeza e saneamento. Homens e mulheres, de todas as idades, taras e fomes, portam, além da máscara da pobreza, vassouras, sacos de lixo, cortadores de grama, baldes de cal e tinta branca para o meio-fio. Riem, alguns maldizem-se, reclamam da situação econômica, do sol , da poeira, do salário, da derrota do time de futebol, do chefe de equipe que lhes cobra pressa e capricho, enfim, trabalham e comentam o que confere graça ou desgraça a suas vidas. Uma coisa os une indubitavelmente: a mesma vida dura e sem futuro. Seus filhos e netos, se sobreviverem à fome, ao frio, à poeira de suas favelas, ao tráfico, às drogas, aos maus-tratos em casa e na rua, à nossa insensibilidade doentia, também varrerão as nossas ruas, cortarão nossos gramados, servirão cafés e chás vestidos de branco e sisudez teatral, recolherão nossos lixos, passearão com nossos cachorros, dirão sim, exatamente como seus pais fizeram a vida inteira. Sim, sim, sim, senhor.
Não me engano com esperanças vãs de que algo nessa situação mude milagrosamente para melhor e, afinal de contas, que importa se eu me engano ou deixo de enganar? O que importa é que eles estão aí, com seus estômagos berrando sua fome em nossa porta, com sua anemia e subnutrição sujando nossas ruas, pedindo o trocado e vigiando carros nos estacionamentos, carregando seus filhotes de olhar apalermado, fruto de fomes e febres. Sua prole, farta e doentia, continuará a encher de terra os buracos das auto-estradas, a morrer soterrada em tempo de chuva forte nas favelas, elegerá os filhos dos mesmos homens que agora governam seus pais, perpetuará suas desgraças. Suas filhas serão empregadas domésticas, prostitutas, balconistas, professorinhas de beira de rio, donas de casa infelizes e chagásicas. Alguns, pouquíssimos, conseguirão concluir, com a ajuda de crédito educativo, um curso universitário vagabundo, a duras penas, e, de posse de um certificado de conclusão que, na realidade, ratifica sua pobreza de espírito, escaparão da vassoura e dos baldes de tinta, para se tornar profissionais liberais e se envergonhar dos pais que varreram ruas e pintaram meios-fios. Estes, que sobreviverão às mazelas da pobreza e da falta de esperança, certamente estarão limpando, com suas línguas covardes e pestilentas, o caminho por onde passará a elite que ajudaram a se manter no poder. Usarão seus corpos fétidos e miseráveis, de uma miséria mais profunda, uma miséria moral, para formar uma ponte cruel por onde cruzarão, como sempre cruzaram, os burgueses disfarçados de sociólogos, de intelectuais amigos do povo, de salvadores da pátria, todos camuflados e ardilosos, sugando as tetas de uma nação cuja miséria se encarregaram de compor com seus discursos de modernidade duvidosa, corretos gramaticalmente, de português castiço, de palavreado único e quase artístico, atrás de suas gravatas de seda pura, seus sorrisos de porcelana, sua vaidade globalizada e vã.
Nesta manhã, seus genitores, avós e tios, indefesos e alienados, mal alimentados e iludidos, honestos e humildes, estão cuidando de embelezar as ruas da cidade que os acha tão feios e assustadores, que os teme e repele. Olhem o que nós achou, Joaquim Paraíba exibe um martelo com o cabo de madeira chamuscado, acaba de recolhê-lo do fundo de um bueiro onde havia cinzas e lixo. Não percebe que a mancha escura na superfície contundente do objeto é sangue, um misto de sangue e pêlos que sobraram, reticentes ao fogo, nas ranhuras do metal. Levará a ferramenta para o barraco no final do dia e, com ela, poderá pregar algumas tábuas nas paredes mambembes de sua residência, para proteger do frio um moleque, o primogênito de três meses, que batizou com o sugestivo nome de Jeová.

Ppmj - Parte Final - Dança - Capítulos 1 e 2

1
Leia isso, disse João Carlos ao amigo, entregando-lhe um caderno de jornal. É de hoje. O tempo vai virar para você. A voz demonstrava evidente preocupação.

“MÃE É ASSASSINADA NA FRENTE DA FILHA
A funcionária do Ministério da Saúde, Júlia Buonarroti, de 23 anos, foi encontrada morta em sua residência, no Guará II. No apartamento de quarto e sala na comercial da QI 33, onde a vítima residia com a filha Laura, de 3 anos, policiais da 4a DP, alertados por vizinhos preocupados com o choro convulsivo da criança, encontraram-na nua, amarrada, com o crânio esfacelado.
Funcionários do Ministério da Saúde, colegas da vítima, se mostram chocados com o ocorrido e afirmam não terem conhecimento de motivo algum que possa explicar essa tragédia. “Júlia era uma moça maravilhosa, doce e meiga. Uma santa. Não entendo como fizeram essa barbaridade” depôs, visivelmente abatido, Otávio Fraga, 56 anos, chefe do Departamento de Projetos Sanitários, onde a vítima trabalhava.
A polícia trabalha com a hipótese de crime premeditado, uma vez que nada foi subtraído da residência da funcionária pública. Os vizinhos não souberam explicar como tudo pode ter ocorrido sem que ninguém percebesse um grito de socorro. Dona Maria Odete, costureira, vizinha de Júlia, declarou ao Correio: “É um absurdo, uma coisa que mete muito medo. Mataram ela na frente da filha, gente. Como é que pode?“ A população do Guará, que durante anos se orgulhou do reduzido número de ocorrências policiais, sente-se cada dia mais temerosa. Este é o terceiro caso de homicídio nas duas últimas semanas.
O corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal para autópsia e está sendo aguardada a presença de familiares para que seja liberado. O corpo será sepultado na cidade de Jataí, onde moram os pais da vítima.
As primeiras investigações indicam que Júlia Buonarroti mantinha relações com empresários e políticos da cidade. Um dos nomes é o de Geraldo Prado, empreiteiro envolvido em escândalos no governo, o que pode ser comprovado pela paternidade da pequena Laura, cujo teste de DNA, encontrado no local do crime, o aponta como genitor da criança. Além disso, segundo fontes extra-oficiais, um cartão da Construtora Prado, com o nome do empresário foi encontrado entre os pertences da moça.
Procurado por nossa reportagem, o empresário Geraldo Prado não quis dar entrevista e mostrou-se indiferente ao ocorrido.“
Geraldo fechou o jornal, olhar criogênico, encarou o amigo: “Que merda, João. Bote nossos advogados para trabalhar”.

2

Heloísa está ao telefone. Sua voz, em tom mais baixo que o normal, traz nervosismo e raiva. Um exemplar do jornal sobre o colo, a mão direita à boca, as unhas se vão roídas ao ritmo da conversa. Do outro lado da linha, Silvia se desespera.
Eu te disse, ele tem outra. Ou tinha, já que ela está morta. Não consigo acreditar no que está ocorrendo, mas não encontro outra explicação. Por quê? Não me venha defendê-lo, Silvia, você mesma leu no jornal.
Heloísa não sabe o que pensar, o que dizer. Sente que algo não se encaixa nessa história toda.
Não fica assim, amiga. É claro que deve haver explicação. Como você pode pensar isso do Geraldo? Meu Deus, Helô, ele precisa de apoio. Claro que o defendo, eu conheço vocês dois, defenderia vocês dois, amiga. Quer que eu vá praí agora?
Sílvia treme diante da possibilidade de que seu caso com Geraldo seja descoberto.
Ainda não sei o que fazer, Sílvia. Mas de uma coisa eu tenho certeza, teremos uma conversa definitiva. Que apoio que nada? Como vou apoiar um homem que tem outra vida? E que acabo descobrindo sobre essa outra vida nos jornais, junto com toda a Brasília? Não, não venha, não estou muito bem hoje. Não te disse isso, mas ontem, durante a festa no Iate, ele fingiu dor de cabeça e me deixou sozinha. Para onde foi? Quem sabe?
As duas mulheres, por motivos contraditórios, atiçam seus sentidos, e, embora unidas, é justamente essa união o que as afasta.
Nessas horas, Helô, a gente inventa coisas, a cabeça da gente cria coisas, sabe? Você precisa tomar um chá, pede a Gorete, amiga. O Geraldo sempre teve enxaqueca, eu sempre o vi se queixar. Não entendo essa sua desconfiança. Puxa vida, então você acha o quê? Que ele foi se encontrar com essa tal de Júlia? Ou que a matou?
Heloísa teme encarar suas desconfianças, mas sente necessidade de assumir que começa a crer nessa terrível possibilidade. O marido eliminou a outra. O que seria pior?
Não é por aí, Sílvia. Ele não tinha dor de cabeça alguma, eu sei, eu conheço o Geraldo em profundidade. Sei de todos os seus sinais. Quando sente dor, quando mente, quando pensa que engana, quando está enganando, eu sei, eu sinto, e tenho certeza que ontem ele estava bem. Usou a desculpa para me deixar sozinha e fazer sabe lá Deus o quê. Ele voltou tarde, cheirando à bebida, tinha trocado de roupa. O que posso pensar, meu Deus?
Silvia percebe que a voz de Heloísa adquire o tom do choro, aquele exato timbre que antecede o soluço e o gemido baixo e dolorido de quem chora. E ela nada pode fazer para aliviar aquela dor que se confunde agora com a sua. Traidora, pensa de si mesma e se tortura.
Acho melhor você parar por aí, Helô. Você já não está raciocinando direito, está começando a dizer bobagens, amiga. Cadê a Gorete? Já trouxe seu chá de jasmim? Olha, vou já praí.
O que dizer para Heloísa? Que andava saindo com o marido dela? Que naquela noite estavam juntos? O que? Sílvia sabia que tudo estava por um fio.
Não, Silvia, não venha. Vou sair, tenho algo a fazer. Não perca sua viagem, obrigada.
Do outro lado da linha, Sílvia não teve tempo de retrucar, ficou ouvindo o sinal do telefone que dizia em diapasão: des-li-gou...des-li-gou...des-li-gou...

Quinta-feira, Julho 23, 2009

Intermezzo II - Em nome do pai - uma leitura de "Lavoura arcaica"

Deixo aqui, para quem quiser se aventurar, uma leitura muito particular que fiz da obra de Raduan Nassar, Lavoura arcaica. Trata-se de um pequeno artigo que redigi durante o mestrado em Literatura Brasileira na Universidade de Brasília. Quero deixar claro que, por absoluta preguiça, nao fiz a revisão do texto para sua adequação às novas normas ortográficas. Sinceramente? Fodam-se essas normas, há revisores para isso, e eu não sou, nem estou revisor, portanto relevem os deslizes. O tema e todo referencial teórico têm sua validade e seu lugar, daí porque gosto muito desse pequeno ensaio. Para os que tiveram o prazer de ler o romance e a adaptação cinematográfica (maravilhosa, quero logo deixar explícita minha paixão pelo filme), que se divirtam com este ensaio.




EM NOME DO PAI

“Tudo tem seu tempo, há um momento oportuno para cada empreendimento debaixo do céu. Tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de colher a planta.” (Eclesiastes, 3:1-2). A voz ancestral ecoa ainda em nossos ouvidos, dissemina-se pelos quatro cantos da terra, assegurando-nos que devemos esperar o momento propício. Essa espera, para alguns, como André, o protagonista de Lavoura arcaica, romance de Raduan Nassar, é insuportável.

Este pequeno ensaio tem como meta mergulhar no tempo mítico do homem, resgatando junto ao texto de Raduan Nassar os elementos que vêm ao encontro de uma perspectiva humanista, vistos sob um filtro histórico que compreende a escalada humana.

Ao pensar a obra, o suporte material do artefato, como portadora de um conteúdo manifesto, racionalizado pelo autor, e oferecido aos leitores como sua visão peculiar, particular, de eventos que, à sua maneira, sob sua ótica, julgou compor, o crítico menos prevenido corre o risco de lançar seu olhar sobre a ponta de um iceberg, e nesse caso, estaria inconscientemente abrindo mão de mergulhar numa camada de texto mais profunda, e por isso mesmo, mais reveladora da obra. Nesse sentido, considerando a existência de um conteúdo latente sob a aparente capa da narrativa em Lavoura arcaica, conteúdo este que, independente da intenção do autor, está a emitir sua voz muda por entre as palavras, lançarei um olhar atento, analítico, sob certas estruturas ou elementos presentes nos discursos das personagens que julgo representarem, muito mais que a simples questão do incesto e o tabu, o choque entre o Pai (Iohána) , enquanto esfera apolínea da ordem e do cosmos, símbolo da civilização, e o filho (André) , elemento emblemático do homem em sua sede de liberdade e busca do prazer, representante dionisíaco da transcendência, do caos, do devir enquanto tal.
Em Lavoura arcaica, romance de Raduan Nassar, publicado em 1975, o autor compõe, numa narrativa vigorosa e de feição lírica, a tragédia de uma família de camponeses cujo pai comete o assassinato da própria filha sob suspeita de incesto com o filho André. O enredo do romance, em poucas linhas, não fornece ao leitor, de imediato, a força e a beleza com que é tratada a tragédia no texto, pelas mãos hábeis do desertor da literatura . No romance, o que salta aos olhos é o atrito, bem narrado e composto pelo autor, entre uma ordem que, de maneira comedida, quer se manter no poder e sobreviver, representada pelo pai, e outra via de entendimento do mundo, que é abraçada pelo discurso apaixonado do jovem André. Não é por outro motivo que o velho Iohána diz ao filho: “- Cale-se! Não vem desta fonte a nossa água, não vem destas trevas a nossa luz, não é a tua palavra soberba que vai demolir agora o que levou milênios para se construir; [...]; por isso, dobre a língua, eu já disse, nenhuma sabedoria devassa há de contaminar os modos da família!” (Lavoura arcaica, p.169)

Agindo como um psicanalista, de linha freudiana, e nesse sentido considerando o texto como um paciente, e que a verdadeira forma de sua consciência está, não no que nos diz, mas no que tenta esconder, devemos considerar os discursos de André, de seu pai e do irmão Pedro, como o afloramento de algo muito maior que o simples choque de gerações. A figura do pai é símbolo de duplo significado, ao mesmo tempo que podemos interpretá-la como representante da ordem, do valor, do trabalho, da norma, do todo organizado, englobando tudo o que decorre dessa representação: a repressão, o castigo, o comedimento, a dominação e a posse, e portanto assumindo ares de um símbolo castrador, por outro lado, podemos interpretá-la como a eventualidade do oposto, da possibilidade do novo, da geração, da viável , mas nem sempre possível, transcendência e superação.

Ele (o pai) é uma representação de toda forma de autoridade: chefe, patrão, professor, protetor, deus. O papel paternal é concebido como desencorajador dos esforços de emancipação, exercendo uma influência que priva, limita, esteriliza, mantém na dependência. Ele representa a consciência diante dos impulsos instintivos, dos desejos espontâneos, do inconsciente; é o mundo da autoridade tradicional diante das forças novas de mudança.

O Pai, assim como Uróboro – a serpente mitológica que morde o próprio rabo, encerra em si sua própria antítese: é caos e cosmos, apolo e dionísio, norma e anarquia, “contém ao mesmo tempo as idéias de movimento, de continuidade, de autofecundação e, em conseqüência, de eterno retorno” . Por esse caráter duplo é que, para a superação do reino do pai, faz-se necessário o confronto, a supressão do pai, a instauração de nova ordem que surge no filho. Iohána, em seu discurso de tom bíblico e sábio, não tem consciência de que é matriz de sua própria superação, seu filho André porta o discurso da inexorável nova ordem.

eu tinha de gritar em furor que a minha loucura era mais sábia que a sabedoria do pai, que a minha enfermidade me era mais conforme que a saúde da família, que os meus remédios não foram jamais inscritos nos compêndios, mas que existia uma outra medicina ( a minha!), e que fora de mim eu não reconhecia qualquer ciência, e que era tudo só uma questão de perspectiva, e o que valia era o meu só o meu ponto de vista, (Lavoura arcaica, p.111)

Então tudo não passa do choque entre potências opostas? O Pai na defensiva, paciente, moderado, senhor do discurso e da razão; e do outro lado, o filho, rebelde, ingênuo, ousado e petulante, empunhando a bandeira da paixão irrefreada? Aparentemente sim, mas o que me interessa no embate entre Iohána e André, é situá-los num esquema maior, como representantes da civilização (o homem coletivo) e do indíviduo (o homem por si).


EM NOME DO FILHO

Selton Melo na adaptação cinematográfica do romance "Lavoura arcaica"


Começo esta parte pela citação direta de Freud: “A palavra ‘civilização’ descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos”

A partir de uma definição como essa, de aparente simplicidade, e mesmo até de total falta de originalidade, podemos iluminar a via escolhida de interpretação do texto. Presumindo-se que o Pai encarna a civilização, e nesse sentido suas palavras são norma de conduta em comunidade, é de se esperar que encontremos no texto a ratificação dessa hipótese. E certamente encontramos, a cada discurso proferido pelo velho Iohána, ou mesmo quando é citado por seus filhos, principalmente por André, a ocorrência da regra, da lei. A família, encabeçada pelo pai, é o microcosmo da civilização, e é nela que se representa o duelo mítico do homem em face da comunidade. A família, como a civilização no conceito freudiano, dá abrigo, carinho, afeto, consolo: “O amor, a união e o trabalho de todos nós junto ao pai era uma mensagem de pureza austera guardada em nossos santuários, comungada solenemente em cada dia, fazendo o nosso desjejum matinal e o nosso livro crepuscular;” (Lavoura arcaica, p.22); “- Você sempre teve aqui um teto, uma cama arrumada, roupa limpa e passada, a mesa e o alimento, proteção e muito afeto.” (Lavoura arcaica, p.160)

Repousa sobre essa visão de comunidade, que aqui fazemos questão de identificar à esfera da civilização, a idéia de que apenas e tão somente dessa forma, é possível ao homem sobreviver e perpetuar-se. Ainda iluminados pelos estudos de Freud, percebemos que o preço pago pelo homem, para viver em sociedade, é justamente o que tem de mais característico em si: sua liberdade. Civilização, nas palavras do grande pensador, não combina com liberdade: “A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização.[...] O desenvolvimento da civilização impõe restrições a ela, e a justiça exige que ninguém fuja a essas restrições.”

humilde, o homem abandona sua individualidade para fazer parte de uma unidade maior, que é de onde retira sua grandeza; só através da família é que cada um em casa há de aumentar sua existência, é se entregando a ela que cada um em casa há de sossegar os próprios problemas, é preservando sua união que cada um em casa há de fruir as mais sublimes recompensas; (Lavoura arcaica, p.148)


É lógico então deduzir que, ao mesmo tempo em que a família se encarrega de proteger, cuidar e velar pelos seus, como forma de manter-se enquanto família, como grupo, deve apresentar também suas regras, suas normas, impor limites e sanções. E essa postura legalista tem seu fundamento na repressão aos instintos básicos do homem, na castração de suas pulsões vitais, do princípio do prazer.

Raduan Nassar


A civilização só é viável a partir do momento em que consegue, por mecanismos próprios, desviar o indivíduo do princípio natural do prazer para o princípio da realidade, sendo este assentado sobre o trabalho e sobre a abdicação forçada dos instintos sensuais primitivos. Se assim não fosse, o caos, na sua mais literal interpretação, estaria estabelecido, guiando-se o mundo pela sucessão selvagem do poder entre fortes. Marcuse afirma que “se tivessem liberdade de perseguir seus objetivos naturais, os instintos básicos do homem seriam incompatíveis com toda a associação e preservação duradoura: destruiriam até aquilo a que se unem ou em que se conjugam. O Eros incontrolado é tão funesto quanto a sua réplica fatal, o instinto de morte.”

Ao optar por viver em sociedade, o ser humano viu-se privado de sua liberdade, caracterizada fundamentalmente, pelo seu direito ao prazer. Civilização então, torna-se sinônimo de repressão à libido. Essa repressão, durante os séculos, foi efetivada por leis, por preconceitos, por procedimentos culturais, e infiltrou-se no inconsciente coletivo. A família de Iohána, prega suas leis, seja através do discurso paterno: “Por isso, ninguém em nossa casa há de dar nunca o passo mais largo que a perna [...]; e ninguém em nossa casa há de colocar nunca o carro à frente dos bois [...];e ninguém ainda em nossa casa há de começar nunca as coisas pelo teto” (Lavoura arcaica, p.55)

Ou através de Pedro, o filho mais velho:

e que para manter a casa erguida era preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta, respondendo ao pai quando ele perguntasse, não escondendo nossos olhos ao irmão que necessitasse deles, participando do trabalho da família, trazendo os frutos para casa, ajudando a prover a esa comum, e que dentro da austeridade do nosso modo de vida sempre haveria lugar para muitas alegrias, a começar pelo cumprimento das tarefas que nos fossem atribuídas, pois se condenava a um fardo terrível aquele que se subtraísse às exigências sagradas do dever; (Lavoura arcaica, p. 23)

Pedro, a quem competiu a missão de resgatar o irmão perdido e trazê-lo ao aconchego da família, é , sem sombra de dúvidas, a perpetuação do discurso conformista e legalista de Iohána. Encarna a cega obediência às leis, ao princípio da ordem e da razão. Por isso mesmo tem seu lugar à mesa, justamente à direita do pai “O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes” (Lavoura arcaica, p.156). A subjugação dos instintos, imposta pelo pai à família, encontra sua eficácia na figura de Pedro que acaba por encarnar o indivíduo escravizado que “introjeta seus senhores e suas ordens no próprio aparelho mental.” Também não é por outra razão que se chama Pedro, homônimo do apóstolo de Cristo, sobre o qual assentou sua igreja. Pedro, de pedra, rocha, é imutável, é o continuador, a sentinela atenta, completamente integrado aos ditames do pai, da família. Suas ações e palavras saem de uma mesma e atemporal língua: a do pai primordial, ancestral. Tem a incumbência de manter tudo como está, e a família, para tal objetivo, não vacila em emitir suas sanções quando ameaçada:

ai daquele que brinca com fogo: terá as mãos cheias de cinza; ai daquele que se deixa arrastar pelo calor de tanta chama: terá a insônia como estigma; ai daquele que deita as costas nas achas desta lenha escusa: há de purgar todos os dias; ai daquele que cair e nessa queda se largar: há de arder em carne viva; ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um banco frio, ou quem sabe sepulcral, mas sempre a negação de tanta intensidade tantas cores: acaba por nada ver, de tanto que quer ver; acaba por nada sentir, tanto que quer sentir; acaba só por expiar, de tanto que quer viver; cuidem-se os apaixonas, afastando dos olhos a poeira ruiva que lhes turva a vista, arrancando dos ouvidos os escaravelhos que provocam turbilhões confusos, expurgando do humor das glândulas o visgo peçonhento e maldito; (Lavoura arcaica, p.57/58)

O processo de transferência do princípio do prazer para o da realidade dá-se na caminhada humana, das estepes aos salões de chá elegantes. É óbvio que uma ruptura tão profunda, mesmo que lentamente efetivada, deixa marcas visíveis na psiquê humana. Os indivíduos trazem dentro de si, latente e sufocado, o desejo reprimido durante o processo histórico da barbárie à civilização. É de se esperar que eventualmente essas pulsões se manifestem, irrompam surpreendentemente no seio cálido e sereno das melhores famílias. André exercita o direito de afirmar-se e reivindica seu espaço, seu direito ao prazer, pois “o que a civilização domina e reprime – a reclamação do princípio do prazer – continua existindo na própria civilização. O inconsciente retém os objetivos do princípio do prazer.” Nesse sentido, uma das mais importantes estratégias utilizadas pela civilização para conter e controlar os impulsos individuais foi, sem sombra de dúvidas, a ênfase no trabalho.

Nenhuma outra técnica para a conduta da vida prende o indivíduo tão firmemente à realidade quanto a ênfase concedida ao trabalho, pois este, pelo menos, fornece-lhe um lugar seguro numa parte da realidade, na comunidade humana. A possibilidade que essa técnica oferece de deslocar uma grande quantidade de componentes libidinais, seja eles narcísicos, agressivos ou mesmo eróticos, para o trabalho profissional, e para os relacionamentos humanos a ele vinculados, empresta-lhe um valor que de maneira alguma está em segundo plano quanto ao de que goza como algo indispensável à preservação e justificação da existência em sociedade. (FREUD, Mal-estar na civilização, p.99)

Nessa luta surda do homem com sua máxima realização, a vida em sociedade, é de fundamental importância a interferência sempre presente do componente erótico. E erótico aqui não se reduz aos desejos sensuais de Afrodite, mas a algo muito mais amplo que está diretamente ligado ao princípio do prazer. Eros, portanto, tem um papel crucial na manutenção do espírito de liberdade e na erupção de comportamentos de revolta às normas estabelecidas. Apesar de toda a aparente calma com que se revestem os sistemas sociais, a presença incômoda de Eros está latente em todos os indivíduos, dos menores gestos e contravenções, aos grandes movimentos sociais.

Entretanto, Eros não está morto. Não obstante a tremenda conspiração ideológica adversa, ele sobrevive. A igreja pretende destruí-lo, o mercado manipulá-lo, a moral desqualificá-lo, mas o Homo eroticus aí está livre, indomável, ao menos em poucos exemplares. Não logrando espaço na sociedade oficial, ele assume formas alternativas [...] Em suma, os tipos desprivilegiados, cujo comportamento não se enquadra nos estreitos limites dos dogmas da sociedade burguesa.

Mas o que importa neste ensaio é verificar a sua ação decisiva no comportamento de André e na consecução da trama narrativa de Lavoura arcaica.

A fuga do protagonista, provocada pela sua insubmissão e revolta, motivada pelo suposto incesto e pelo desenvolvimento de um sentido sensual amplo que não encontrou espaço sob a rigidez de conduta na família, e sua volta, arquitetada pelo irmão mais velho, um personagem construído sob o molde paterno, com quem se identifica e mesmo se confunde, tem, obviamente a marca de uma ação erótica.

Na realidade, a grande ameaça à estabilidade familiar, que aqui estamos considerando emblema da civilização, é a quebra da estrutura de poder assentada na norma e na submissão. Mais que isso, há em Lavoura arcaica, sob o discurso de Iohána, o primado da razão enquanto regra de sobrevivência e controle social. A paixão, via dionisíaca de transcendência e concretização do princípio do prazer, é ameaça, é perigo, deve ser combatida sob pena de extinção. Iohána não está alienado quanto a esse perigo:

o mundo das paixões é o mundo do desequilíbrio, é contra ele que devemos esticar o arame das nossas cercas, e com as farpas de tantas fiadas tecer um crivo estreito, e sobre este crivo emaranhar uma sebe viva, cerrada e pujante, que divida e proteja a luz calma e clara da nossa casa, que cubra e esconda dos nossos olhos as trevas que ardem do outro lado; e nenhum entre nós há de transgredir esta divisa, nenhum entre nós há de estender sobre ela sequer a vista, nenhum entre nós há de cair jamais na fervura desta caldeira insana, onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo; (Lavoura arcaica, p.56/57)

Debatendo-se contra a perda do filho amado, que o velho pressente estar escapando a seu férreo controle, ele vaticina: “- Você está enfermo, meu filho, uns poucos dias de trabalho ao lado de teus irmãos hão de quebrar o orgulho de tua palavra, te devolvendo depressa a saúde de que você precisa.” (Lavoura arcaica, p.161)

E vemos então o trabalho sendo engenhosamente receitado como antídoto à peçonha das pulsões instintuais inoculadas por Eros.

Iohána, o pai

APOLO E DIONISO – O EMBATE NAS TREVAS

Como qualquer sistema, a família de Iohána , inconscientemente, sabe que traz em si a causa de sua própria ruína. A civilização, como prolongamento da família, tem consciência das ameaças que rondam sua sobrevivência, e certamente a questão erótica ocupa lugar de destaque como inimiga do equilíbrio. É de Pedro, ao conversar com o irmão na penumbra de um quarto, que parte o alerta: “mas que era preciso refrear os maus impulsos, moderar prudentemente os bons, não perder de vista o equilíbrio, cultivando o autodomínio, precavendo-se contra o egoísmo e as paixões perigosas que o acompanham,” (Lavoura arcaica, p.24)

É sintomático que o encontro entre os irmãos dê-se na escuridão. A luz é elemento apolíneo, portanto está diretamente ligada à ordem das coisas, ao equilíbrio, ao comedimento. André simboliza o indivíduo em busca de sua ordem própria, portanto não poderia estar sob a luz do mesmo mundo que seu irmão. Das trevas fez-se a luz e é a luz própria que André busca, e ele só poderá encontrá-la a partir da escuridão, que abraça o caos e engendra o novo cosmo.

André está engajado numa cosmogonia individual e ao encontrar o irmão, representante daquilo que ele combate e quer transcender, sacia-se com o vinho, símbolo do conhecimento e da iniciação, devido à embriaguez que provoca. Está associado ao sangue, à vida, à alegria, elemento dionisíaco de pura transcendência . Dioniso é o deus grego do teatro, do vinho. Encarna a possibilidade humana de tocar o divino, de transcender a esfera terrestre, de superar a ordem apolínea e, a partir do caos inebriante, alcançar o sagrado, e por esse motivo é elemento desagregador, subversivo. Através do vinho, cujo efeito inebriante tem a propriedade de desvelar o inconsciente, rompendo as barreiras do ego, André se expõe ao irmão. É óbvio o descompasso entre os discursos de ambos, mesmo porque falam a partir de dimensões distintas, praticamente opostas. Enquanto representante da velha ordem, Pedro cumpre seu papel de convencer o irmão a assumir o erro e retornar ao sistema familiar. André tenta arrastá-lo em sua desesperada luta pela liberdade e pelo direito de ser. Na tentativa de cooptá-lo e julgando harmonizar seus discursos, oferece-lhe vinho para que celebrem Dioniso: “Pedro, Pedro, é do teu silêncio que eu preciso agora,[...] por isso molhe os lábios, molhe a boca, molhe teus dentes cariados, e a sonda que desce para o estômago, encha essa bolsa de couro apertada pelo teu cinto, deixe que o vinho vaze pelos teus poros, só assim é que se cultua o obsceno” (Lavoura arcaica, p.69)

Há nesta passagem a representação típica do ritual dionisíaco enquanto via de acesso à outra dimensão humana. André sente que seu caminho está muito além do que o irmão tenta lhe oferecer. Pedro, por sua vez, pressente a ameaça que representa a atitude revoltosa do irmão, e estrategicamente aceita partilhar com ele o vinho. Vemos aqui a metáfora dos ardis da civilização, como o de qualquer sistema, que tenta sobreviver. Na realidade qualquer regime social, político ou econômico tem consciência de que é preciso haver certas concessões aos componentes antagônicos para que a estrutura inteira permaneça incólume, sob pena de explodir completamente. A civilização permite certos “excessos” não porque seja boazinha, mas porque sabe como controlá-los e mantê-los em seus limites e, mais que isso, tem a total consciência de que esses pequenos “excessos” lhe conferem uma falsa aparência de condescendência e democracia. Nada mais hipócrita, nada mais engenhoso. Por esse caminho é que Pedro acompanha o irmão na bebedeira daquele momento sagrado: “ ‘ah, meu irmão, começamos a nos entender, pois já vejo tua boca descongestionada, e nos teus olhos a doce ação do vinho fazendo correr o leite azul que espirra agora das pupilas,” (Lavoura arcaica, p.70)

Mas esse “leite azul” que mancha as pupilas de Pedro, não é o mesmo leite azul que inebria a alma apaixonada de André. De forma alguma falam a mesma língua, têm as mesmas visões, compartilham os mesmos anseios. Na realidade estão na postura de dois combatentes lutando acirradamente por espaço e por poder. André já tem consciência de seu caminho inexorável para a liberdade. Apesar de portar a cicatriz dolorida da velha ordem imposta pelo pai, já se sente o portador do caos e o desagregador da estrutura familiar. Neste momento, sabe que não há outra via, conseguiu desvelar a podridão de uma estrutura que não lhe cabe. André desceu ao inferno e de lá pôde ver com clareza o obstáculo que pretende ultrapassar:

tudo, Pedro, tudo em nossa casa é morbidamente impregnado da palavra do pai; era ele, Pedro, era o pai que dizia sempre é preciso começar pela verdade e terminar do mesmo modo, era ele sempre dizendo coisas assim, eram pesados aqueles sermões de família, mas era assim que ele os começava sempre, era essa a sua palavra angular, era essa a pedra em que tropeçávamos quando crianças, essa a pedra que nos esfolava a cada instante, vinham daí as nossas surras e as nossas marcas no corpo, veja, Pedro, veja nos meus braços (Lavoura arcaica, p.43)

Sua repulsa aos sermões paternos, enquanto instauradores da ordem familiar, é fruto de vasta observação e convivência. Tenta compartilhar sua visão com o irmão que julga estar compreendendo seu discurso fantástico. Há ingenuidade nessa postura de André, mas não se poderia esperar maturidade num processo de eterno crescimento. Mesmo assim, esse pequeno processo de cegueira, tem seu desfecho na coerência do irmão que, como representante do cosmo organizado, sabe a hora de reagir, pressente o perigo, e atento ao limite recusa o vinho que lhe é oferecido, num sinal evidente de que não compartilham o mesmo ritual: “ mas assim que esbocei entornar mais vinho foi a mão de meu pai que eu vi levantar-se no seu gesto ‘eu não bebo mais’ ele disse grave, resoluto, estranhamente mudado, ‘e nem você deve beber mais, não vem deste vinho a sabedoria das lições do pai’ ele disse com um súbito traço de cólera no cenho” (Lavoura arcaica, p. 40)

A cólera de Pedro tem sua razão de ser, é o momento de reagir, não se deixar levar pelas idéias subversivas do irmão embriagado, de não se deixar contaminar pela paixão desregrada, por não cometer nada que signifique apoio ao demolidor discurso que provém de seu sangue rebelado. André agora é uma ameaça, um tumor a ser tratado, um elemento desestabilizador da família. André é o homem assumindo-se indivíduo, enfrentando a repressão natural do sistema e ele tem consciência de sua postura, sabe muito bem que sua posição engendra um caminho sem retorno, e que sua figura agora é a do disseminador do caos. André neste instante é o anjo caído numa luta titânica. Ele, como uma espécie de Prometeu, porta o fogo da paixão e há de enfrentar a fúria do pai. Mas é em nome do pai que ele um dia será, em função desse destino que todo ser humano tem de cumprir, assumir seu próprio risco, tomar sua própria direção, que André, sem autopiedade, orgulhoso, assume a figura do enjeitado. Todo sistema organizado em sociedade rejeita aqueles que, de alguma maneira não se enquadram em suas normas. São os marginais da arte, os perniciosos, os devassos; para essas pessoas o espaço que lhes é concedido pela civilização é o ostracismo, ou quando muito, o lugar de figuras excêntricas. Nesse momento, não resta a André outra alternativa a não ser assumir sua posição:

pertenço como nunca desde agora a essa insólita confraria dos enjeitados, dos proibidos, dos recusados pelo afeto, dos sem-sossego, dos intranqüilos, dos inquietos, dos que se contorcem, dos aleijões com cara de assassino que descendem de Caim (quem não ouve a ancestralidade cavernosa dos meus gemidos?), dos que trazem um sinal na testa, essa longínqua cicatriz de cinza dos marcados pela santa inveja, dos sedentos de igualdade e de justiça, dos que cedo ou tarde acabam se ajoelhando no altar escuso do Maligno (Lavoura arcaica, p.139)

O choque inevitável entre Pedro (pai, família, civilização , ordem, Apolo, razão) e André, (homem, prazer, caos, Dioniso, paixão) é ponto crucial do texto, uma vez que Pedro está em pé de igualdade com o irmão, mas ocupando o galho “saudável” da árvore da família . Inebriados, discutem sua amargas diferenças e de André parte a cisão:

você pode como irmão mais velho lamentar num grito de desespero ‘é triste que ele tenha o nosso sangue’ grite, grite sempre ‘uma peste maldita tomou conta dele’ e grite ainda ‘que desgraça se abateu sobre a nossa casa’ e pergunte em furor mas como quem puxa um terço ‘o que faz dele um diferente? ‘ e você ouvirá, comprimido assim num canto, o coro sombrio e rouco que essa massa amorfa te fará ‘traz o demônio no corpo’ e vá em frente e vá dizendo ‘ele tem os olhos tenebrosos’ e você há de ouvir ‘traz o demônio no corpo’ e continue engrolando as pedras desse bueiro e diga num assombro de susto e pavor ‘que crime hediondo ele cometeu!’ (Lavoura arcaica, p.42)

E porque justamente o demônio invadiu sua alma? Porque acaba “se ajoelhando no altar escuso do Maligno” ? Lúcifer, Satanás, o anjo torto que ousou enfrentar o poder divino? Sim, é justamente essa faceta demoníaca que aflora nesta passagem. André tem o demônio no corpo e por isso ousa desafiar o pai, a família, o tempo, a estabilidade de um sistema que se mantém sob o gemido rouco dos submissos . Ele, o senhor das trevas e do caos é neste momento o senhor de André. A figura rebelde de Lúcifer comporta inúmeras interpretações mas o caráter de revolta e insurreição nesse mito bíblico é evidente. E a narrativa de Raduan Nassar em Lavoura arcaica é carregada desse sabor evangélico. Os discursos se sucedem, seja do pai, de Pedro ou de André, repletos de referências e tons bíblicos, realçando o caráter arcaico e mítico da obra, oscilando entre o sagrado e o profano; em certas passagens compondo maravilhosas parábolas. A narrativa em Lavoura arcaica é atemporal, as personagens são muito mais do que pretende seu autor. O conteúdo latente em cada sermão, cada discurso, nos permite visualizar o próprio movimento humano pela história, na sua luta árdua pela liberdade e pelo crescimento, apesar de toda a repressão, de todas as leis, de todas as normas.

CONCLUSÃO - EM NOME DO NOVO PAI

André aos poucos percebe que sua batalha o encaminha ao ponto de partida. É necessário suprimir o pai e tudo o que ele representa, mas ele sabe que essa supressão implica que ele assuma o espaço que há de lhe surgir. É evidente que não há espaço para duas visões díspares, o que os une é apenas a vontade de impor suas normas e regras; o que os distingue são suas normas e regras. André quer o seu lugar na mesa da família e é isso que diz ao pai com todo o vigor e clareza. Nesse ponto, André tornar-se-á de certa forma o novo pai, por isso ele diz que “não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: ‘estamos indo sempre para casa’ “ (Lavoura arcaica, p.36)

Nesse processo de natural de superação da figura paterna André, ao contrário de Pedro que é cópia fiel de Iohána e com ele partilha todos os preceitos, é, de certa maneira, a imagem do pai refletida num espelho turvo. Por seus pontos de contato se assemelham, são duas potências em conflito, de igual poder, de pólos contrários. Vem daí a incapacidade de comunicarem-se, de entenderem-se, é a linha prestes a se romper definitivamente: “- Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra.” (Lavoura arcaica, p.162)

Cena do filme "Lavoura arcaica"

Lavoura arcaica surpreende pelo estilo do narrador, por passagens que beiram a mais pura poesia; intencionalmente composto como uma quase trágica parábola, digo quase porque ao assassinato de Ana faltam a consciência do destino trágico e a assunção da fatalidade. Ana age como motivo para o desabrochar das paixões em André. É através dela que se revelam à personagem os meandros das relações familiares. É ela o portal pelo qual o protagonista, cruzando-o, assume sua perdição e redenção. As personagens em Lavoura arcaica são emblemas do homem e da civilização, e por esse motivo os conflitos são inevitáveis.

André ousa colocar o carro na frente dos bois, não lhe resta outra alternativa se pretende sobreviver enquanto homem, indivíduo. Sobre todos eles, notadamente sobre o pai, Pedro e André, o tempo mítico a cobrir suas paixões:

Tempo de chorar,
E tempo de rir;
Tempo de gemer,
E tempo de dançar.
Tempo de atirar pedras,
E tempo de ajuntá-las;
Tempo de abraçar,
E tempo de separar. (Eclesiastes, 3:4-5)

Em Eclesiastes, como em milhares de outros textos, populares ou eruditos, esse eterno conflito humano é retratado. Resta-nos a arte como consolo diante do inexorável: somos nada. Mas é justamente no reconhecimento de nossa pequenez, nossa insignificância perante a natureza e ao tempo, que reside nossa maior arma: a arte . É ela que nos brinda com o texto fantástico de Raduan Nassar, que nos faz compreender a beleza e o horror das coisas que construímos, e nos faz caminhar eretos e orgulhosos à beira do abismo misterioso.

André somos todos nós em algum momento de nossas vidas, Iohána também somos todos nós. Em algum momento de nossa caminhada acreditamos ser possível mudar o mundo, quebrar as normas, erguer barricadas, salvar o planeta. Com certeza lembramos com carinho esses momentos em que, como o jovem André, afundávamos os pés na terra, entre as folhas caídas, e dela nos apossávamos, senhores do mundo e de nossos próprios narizes. E é bem provável que naquele momento mágico não havia espaço para nossos pais. Com toda certeza, naquele instante raro que deixamos guardado em alguma gaveta empoeirada da memória, éramos, e isso nos bastava.

O poeta popular nos diz: “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo o que fizemos. Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” E um outro André, em algum lugar ou tempo indefinidos, poderá também dizer ressabiado: “o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra era ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinhos graves marcando as horas.” (Lavoura arcaica, p.49)


NOTAS
1 Leyla Perrone-Moisés no ensaio Da cólera ao silêncio publicado nos Cadernos de Literatura Brasileira, diz: “No progresso da rejeição ao mundo e às palavras que pretendem dizê-lo ou melhorá-lo, rejeição que atinge seu ápice em Um copo de cólera , prefigura-se a atitude posterior de Raduan Nassar: ‘abandonar a literatura’ e declarar com sarcasmo que a única criação a que se dedicaria doravante seria a de galinhas.” (Cadernos de literatura Brasileira, número 2, 1996, p.74)
2 Chevalier e Gheerbrant, Dicionário dos símbolos, p.678
3 ibid. p.922
4 FREUD, Sigmund, Mal-estar na civilização, in Obras Completas, Vol.XXI, p.109.
5 FREUD, Sigmund, op.cit., p.116
6 MARCUSE, Herbert, Eros e Civilização – Uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, 8a. ed., p.33
7 ibid., p.37
8 MARCUSE, Herbert, op.cit., p.37
9 NUNES FILHO, Nabor, Eroticamente Humano, 1994, p. 33
10Segundo CHEVALIER e GHEERBRANT, “o homem recorre à embriaguez física como meio de acesso à espiritual, libertando-se do condicionamento do mundo exterior, da vida controlada pela consciência.” (Dicionário de Símbolos, p. 364)
11 “Eram esses os nossos lugares à mesa na hora das refeições, ou na hora dos sermões: o pai à cabeceira; à sua direita, por ordem de idade, vinha primeiro Pedro, seguido de Rosa, Zuleika e Huda; à sua esquerda, vinha a mãe, em seguida eu, Ana, e Lula, o caçula. O galho da direita era um desenvolvimento espontâneo do tronco, desde as raízes;” (Lavoura arcaica, p.156)
12 “O demônio simboliza uma iluminação superior às normas habituais, permitindo ver mais longe e com mais segurança, de modo irredutível aos argumentos. Autoriza,mesmo, a violar as regras da razão em nome de uma luz transcendente, que é não só da ordem do conhecimento, mas também da ordem do destino.” (CHEVALIER e GHEERBRANT, Dicionário de símbolos, p.329)
13 “a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais profundamente sentidas renúncias culturais, e, por esse motivo, ela serve como nenhuma outra coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização.” (FREUD, O Futuro de uma ilusão, in Obras completas, p.25)
14 Versos do compositor popular Belchior, “Como nossos pais”, cantada por Elis Regina em belíssimo arranjo no álbum “Falso brilhante”, de 1976

Sexta-feira, Julho 17, 2009

Ppmj - Parte II - Relaxamento - Final - Cap. 6

6


Melhorou? perguntou de uma maneira tal que deixava claro o desejo de que o mal não houvesse passado e que ele estivesse se decompondo em dores horríveis. Ao entrar no carro, notou que ele havia trocado de roupa e cheirava à bebida. Para quem estava com enxaqueca, até que você está muito bem, disparou. Ele fingiu não notar a ironia, desculpou-se pelo atraso, disse que estava melhor, que tinha estado em casa, bebido uma dose para relaxar. Heloísa não estava satisfeita. Era óbvio que tinha estado com outra mulher. Porque trocou de roupa? quis saber, e ele respondeu querer algo mais confortável, razão pela qual estava naqueles trajes. Ela fuzilou-o com o par de olhos negros, duas granadas caseiras de pregos e cacos de vidro explodindo em sua pele. Heloísa estava um demônio, e ele podia sentir que ela o devassava com artifícios cruéis e insinuações venenosas. As mulheres têm esse poder mágico de fustigar seus homens, e elas sabem muito bem como usar esses talentos sádicos. São todas Medéias em potencial, Fedras costumeiras, Antígonas quando provocadas, Marias Bonitas armadas e cheirosas, Cleópatras peçonhentas e sedutoras, Salomés triviais, Eríneas adormecidas que às vezes, por infortúnio e maldição, acordamos. Mulheres têm esse dom de dissecar uma alma masculina, numa espécie de autópsia do espírito, e era justamente essa tarefa que Heloísa estava a desempenhar agora. Dissecava-o, olhar por olhar, gesto por gesto, cheiro por cheiro.
Ele, imune a tudo, pensava em Sílvia, nas coxas de Sílvia, na boca e no cu de Sílvia, e questionava se João Carlos seria tão devastador quanto Heloísa em seu ciúme. Acreditava que não, o amigo era passivo ao extremo, confiava na esposa, aquela devassa, e sorriu com a pélvis e com o prazer de ter saboreado cada pedaço daquela vagabunda, do dedão ao lóbulo esquerdo, por dentro e por fora, por cima e por baixo. O modo como, ao contato de sua língua, dedo ou falo, ela se inunda e se entrega. O lábio inferior mordido, a mancha sangüínea da sucção no pescoço, entre as coxas, naquela parte tenra e perfumada que emoldura a fruta úmida. O jeito de poderosa amazona quando ela, engatada em seu falo rígido, vibra e gira os cabelos e o tronco, ampliando nesse movimento a região de atrito, a glande, a caverna ardendo, o dragão liberto. E João Carlos, ela lhe dissera, ficara dormindo, descansando para a viagem ao Rio no dia seguinte e não aceitou o convite que ela lhe fizera para que fossem ao vernissage de Zello Visconti.
Incauto, dócil, manso, meu corno amigo João Carlos, não sabe ele que o que mais atraía aquela mulher, em termos de artes plásticas, era um bom pincel, grande e grosso de preferência, como aquele que lhe pertence e com o qual, com prazer, costuma ela se engasgar. O mesmo pincel que, sobre o corpo de Silvia, ele costuma usar para compor suas obras-primas. Piranha maravilhosa, mulher-tela onde ele cria sua La Grenouillère, seu Boulevard des Capucines. Ah, Silvia, teu sobrenome poderia ser Canvas, Silvia Canvas, onde eu pincelaria meu sêmen.
Quando João Carlos lhes disse, a ele e a Heloísa, durante um jantar há mais de quinze anos, que havia conhecido uma mulher fantástica e, com os olhos brilhando e língua engrolada pelo vinho, repetiu “É a mulher da minha vida, gente”, decerto não pensou que ela se tornaria essa vagabunda adúltera.
João Carlos e Geraldo conheceram-se no curso de engenharia da Universidade de Brasília, onde fizeram apenas algumas matérias juntos, pois João, diante da necessidade de trabalhar para manter-se, teve que trancar o curso diurno para estudar à noite numa faculdade privada, num esforço tremendo de paciência e limite físico. Naquela época, anos de chumbo, de porrada e militares nas ruas, costumavam beber e farrear com algumas garotas da Asa Norte, muito embora João Carlos sempre fosse esquisitão, caladão, e estivesse sempre na dele, num silêncio ensaiado e bem desempenhado. Costumava chamá-lo de mineirinho, numa alusão ao mito do come-quieto. Gostavam de aprontar algumas boas farras no Posto 7, onde Geraldo era tão assíduo que tinha conta para comer bocetas. Pendura aí mais uma boceta em minha conta, Genaide, dizia ele à gerente do estabelecimento depois de alguma noitada improvisada, depois te pago. Essas farras lhe renderam muito prazer e doses fartas de antibióticos. Vem dessa época a sua amizade com o ex-presidente. Divertiram-se muito juntos, aprontaram grandes confusões e distribuíram muitas porradas em garotos da cidade. Praticavam artes marciais, esporte pelo qual João Carlos, em sua natureza pacífica, tinha horror.
Geraldinho era um rosto conhecido na cidade, figurinha carimbada dos poucos eventos que ocorriam na capital naquela época, filho de um grande agiota que, após anos de especulação e grilagem, acabou por fundar uma instituição financeira de crédito e poupança, de cunho popular. Seu pai tinha grandes amigos no congresso, deputados, senadores. Sua teia de relações estratégicas era enorme, incluía pessoal do segundo escalão no Banco Central e alguns contatos no Tribunal de Contas. No final da década de setenta, a empresa faliu escandalosamente levando à ruína uma legião de pequenos poupadores, em sua maioria funcionários públicos de insignificantes cargos e salários, e queimando, de uma hora para outra, as economias de milhares de assalariados e aposentados. Tudo limpo, asséptico, sem culpados. O dedo certeiro de um amigo na fiscalização do Banco Central, o toque discreto de um senador querido, um telefonema de um desembargador muito chegado, e tudo se resolveu sem pena, sem réus, apenas as vítimas chorando suas perdas. Dizem que houve suicídios, não duvido.
João Carlos, por sua vez, era um garoto sem grana, um desses durangos que começam a trabalhar ainda cedo para ajudar a família e custear os estudos, levando marmita de alumínio para o escritório, comendo às pressas o feijão frio e a batata frita murcha, emendando a jornada de trabalho com um curso noturno, sem férias. Inteligente e esforçado, sim. Uma combinação explosiva, inteligência e persistência. Essas características, quando juntas num mesmo homem, são capazes de explodir Hiroshima e alcançar a lua. Mas para João Carlos, que era o mais velho de uma família enorme, pais férteis como ratos, um bom emprego já era uma explosão atômica, quiçá, um grande salto para a humanidade. Esse menino vai longe, costumava dizer dele o pai de Geraldo que incentivava a amizade dos dois. Era evidente a simpatia demonstrada pelo velho à figura tímida de João Carlos, quando este os visitava. Naquela época, moravam no Lago Norte e era comum, após agitadas noites de embalos, que João Carlos passasse os fins de semana com o amigo. Construir a fama de homem calado e discreto, era-lhe útil, pois o dispensava da obrigação de falar de seus familiares. Pouco se sabia a respeito da mãe hipertensa, do pai eletricista e da penca de irmãos desempregados. Quando perguntado sobre como estavam seus pais, mal conseguia disfarçar o mal estar evidente e contentava-se em dizer que estavam bem, como sempre. Isso era suficiente para que se mudasse de assunto.
Heloísa, recém chegada do sul, veio completar o trio em programas mais leves. Ela e Geraldo engataram um namoro ainda na faculdade. Tudo indicava que ela se tornaria apenas mais uma vagina na longa lista de conquistas de Geraldo. Ledo engano. João Carlos acompanhou ressabiado o recrudescimento daquele namorico. Notava que Geraldo estava mudando e, tinha que reconhecer, mudando para melhor. Logo, conformou-se em perdê-lo para Heloísa e, como se não bastasse, começou a gostar sinceramente daquela moça meiga, muito atenciosa, culta e de voz mansa. Identificava-se com o seu falar pausado e equilibrado, o tom de voz de quem acalenta, nunca demonstrando arroubos emocionais, destemperos. Conversavam muito sobre tudo e, nessas horas, ele admirava nela a maneira sutil de ver a vida. Quando Geraldo e Heloísa viajaram para os Estados Unidos com a intenção de fazer o doutorado, João Carlos, duplamente viúvo, permaneceu em Brasília, pois, além de não ter cacife para bancar os custos de tal empreitada, havia passado em concurso público do Banco do Brasil. Nesse período, já formado em Administração de Empresas pela AEUDF, mergulhou completamente na carreira profissional, ascendendo rapidamente no quadro funcional do banco.
Nos anos oitenta, a pequena empresa dos Prado tornou-se uma das maiores da cidade. Espalhados por várias quadras do Plano Piloto, os canteiros de obras com o logotipo da Construtora Prado eram tão comuns quanto as tesourinhas dos eixinhos norte e sul. O que ninguém nunca pôde provar é que negócios escusos, concorrências fraudulentas, contratos sem licitação e muito dinheiro, vindo não se sabe de onde, fizeram da empresa um “exemplo do caráter empreendedor dos Prado”, como frisou em sua coluna do Correio um popular colunista social da “corte”, como gostava de chamar a cidade. Geraldo, doutorado em Nova York, era agora o jovem e talentoso executivo e seu amigo João Carlos, ex-gerente de agência do Banco do Brasil, o seu braço direito na Construtora.
É nessa época que surge, para conquistar o coração de um homem 15 anos mais velho, a figura rutilante de Sílvia, uma jovem de 23 anos. Aquela peste nunca me enganou, pensava Geraldo, e eu sempre soube que acabaria traçando aquela galinhazinha. E Heloísa ali, puxando-o de volta à realidade, vomitava seu ódio sobre o marido, que viajava no corpo de outra mulher.

Ppmj - Parte II - Relaxamento - Cap. 5

5

Laura tem bochechas vermelhas e cabelos lisos e loiros. Lábios finos, como os da mãe, sugam o dedo polegar. Sonha com um gramado verde, princesas e cachorrinhos brancos. Ou nem sonha, sabe-se lá o que se passa naquele cerebrozinho de azeitona. Os olhinhos vibram acelerados sob as pálpebras e a expressão é de puro prazer, como se brincasse com um amigo invisível, ou voasse, ou simplesmente saboreasse um belíssimo doce. Dorme profundamente e nem imagina o quadro de terror no quarto ao lado, onde sua mãe não sonha mais, não tem planos nem reclamação a fazer, não vai freqüentar as grandes festas do Park Way, nem mais levá-la à creche. Entre uma piscadela e outras, Laura não pressente que sua mãe esfria lentamente, e nesse esfriar inexorável é envolvida numa rigidez de estátua. Nunca mais vai brincar de casinha, nem chupar mexerica ou pentear seus cabelinhos lisos e loiros, tampouco vai trabalhar no Ministério da Saúde obedecendo as ordens do senhor Otávio, sujeito amarrotado e malcheiroso que, sem sucesso, tentou diversas vezes comê-la depois do expediente. No quarto ao lado, longe dos gramados verdes, dos cachorrinhos brancos e das asas de altos vôos, Júlia não ouve o canto desvairado dos fiéis da Igreja que tiram o sono da vizinhança. Júlia não tem sono, ela é o próprio e definitivo sono, sono absoluto, irreversível, sem sonho. Júlia é agora uma massa disforme de sangue coagulado, cabelos e miolos. Sugando o polegar, Laura não percebe que alguém fecha a porta do apartamento e, antes de sair sorrateiro, limpa cuidadosamente a maçaneta. Laura diz palavras incompreensíveis, resmunga no dialeto próprio de quem sonha.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Ppmj - Parte II - Relaxamento - Caps. 2, 3 e 4

2

Você viu quem ela estava esperando? Diz um dos garçons, referindo-se à morena solitária que há mais de meia hora, sozinha, impaciente e perfumada, aguardava por alguém. É o Geraldo Prado, o empreiteiro. Tenho certeza que é ele. Viu? Nada como ter dinheiro não é mesmo? Olha só que gata o cara foi arrumar, rapaz. Do jeito que estão se beijando dá vontade de perguntar se vai comer aqui, ou manda embrulhar. Eu é que não sou maluco de me meter com gente da grana. Olha lá, aquilo tem cara de chifre, tem não? Essa dona deve ser casada, quer apostar? O corno nem sonha o que ela tá aprontando. É , talvez você esteja certo mesmo e o manso deve de estar sabendo o que a mulher faz, tem homem que até gosta disso sabia? Tem cabra safado que contrata macho para comer a mulher dele e ele fica só de butucão, com os bugalhos bem arreganhados, olhando e tocando uma bronha. Eu? Tu tá louco, seu porra? Sou macho, da Paraíba, essas modernidade não colam comigo não, visse?


3

Amanhã volta tudo ao normal: creche, trabalho; trabalho, creche. Ô vidinha monótona essa minha. Preciso pedir mais algum dinheiro ao Geraldo, as despesas que tive com o médico da Laura me deixaram lisa. Porra, também não sei por que fui parar com meus programas, além de me renderem uma grana boa ainda me animavam um bocado. Boca livre, puxa, há quanto tempo não vou para uma boa festa daquelas do Setor de Mansões do Parkway, carrões, políticos, empresários, muito camarão e caviar, e muita foda mesmo. Sinto falta disso, das Termas, mas com a Laura tudo fica difícil. Com quem deixaria ela? Pai e mãe não querem ficar com ela. Ô sina essa minha, meu Deus. Se não fosse isso já tinha ligado para Madame Lima, ela me arrumava cliente na hora, sei que ela gosta do meu serviço, mesmo ela ainda estando chateada por causa da gravidez e do Geraldo. Ela bem queria que eu abortasse, mas isso eu não faria nunca. Mas se eu resolver voltar, eu garanto que ela logo arranja uns encontros para mim. E esse povo cantando aleluia lá embaixo, não suporto isso. Isso é coisa do pastor Valter, ele canta alto que é pra eu ouvir daqui de cima. Esses merdas. Ainda vão controlar o país, esses evangélicos de merda, e aí sim é que o bicho vai pegar. Não quero nem pensar nisso, se o barulho que eles fazem agora já é irritante, imagina esse povo com o poder nas mãos? Quem será que está batendo?
E Júlia abriu um sorriso para o assassino, que entrou e fechou a porta.

4

O automóvel cruza o lago Paranoá sobre a ponte JK, lentamente, no ritmo de um domingo à noite, em harmonia com os arcos que envolvem seu trajeto. Seguindo sua ondulação sensual, lasciva, o veículo sobe a primeira metade do delicado e sinuoso arco de concreto, num pulsar tênue de ereção cinemática, constante. Em sua direção, o investigador Michel observa as luzes da cidade e lembra o comentário de uma antiga namorada. Anos 70, estavam na chácara de amigos no final do Lago Sul, e de longe viam as luzes de Brasília. Já anestesiados e inspirados pelo álcool, ela lhe disse que nunca tinha visto luzes mais parecidas com as de Manhatan do que as luzes de Brasília, da região central de Brasília, o Setor Comercial, o Hoteleiro, o de Diversões, a esplanada, tudo isso junto, à noite, de longe. Disse, com graça, que ver Brasília daqui me traz a impressão de estar em Nova York.
Ele lembra que, naquela noite, sorriu e, envergonhado, disse que nunca tinha estado fora do país. Não podia dizer que, mesmo hoje, fosse um sujeito viajado. Tinha passaporte, porém intacto, virgem. Sua grande viagem internacional aconteceu em 1987, quando, numa excursão de sacoleiros, paga com três cheques, foi ao Paraguai. Era o auge das bebidas adulteradas, joguinhos eletrônicos, perfumes falsificados, muambas e badulaques de todas as Taiwans que infestavam a cidade. Em cada esquina, uma banquinha com relógios que não funcionam, lapiseiras que se engasgam, canetas coloridas de todas as formas, relógios enormes para a parede da cozinha, enfim, um mundo de quinquilharias baratas importadas do Paraguai. Alguns colegas da delegacia tinham arriscado a viagem para comprar armas e munição, tudo muito discreto, pois tal aquisição lhes poderia render prisão e perda do emprego. Animado com o sucesso dos colegas, cheio de coragem, comprou passagem num ônibus de sacoleiros e voltou de lá com sua reluzente pistola, a que portava até hoje. Agora, cruzando sozinho a arrojada ponte, sob seus arcos imponentes, ele tem, pela lembrança dos olhos de alguém que há tempos não vê e nem pressente, a impressão de estar se aproximando dessa Manhatan dos 90, sem John Lennon, Andy Warhol ou torres gêmeas. Sem Basquiat ou Joe Ramone. Mas ele também é outro homem e porta outras cidades, é outro Michel, sem pai nem mãe, sem rumo na vida, sem amor. No rádio do carro, Zeca Baleiro canta uma canção com Zé Ramalho e ele ri do resultado estético bacana. Está cansado, passou todo o domingo bebendo numa chácara de amigos, pretende chegar em casa, beber mais algumas latas de cerveja e dormir. Se estiver disposto, vai acordar cedo e malhar. Se.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

PreteXtos para matar júlias - Parte II - Relaxamento - Cap.1

1
A orquestra Tabajara executa os primeiros acordes de “Anos dourados”, de Tom Jobim e Chico Buarque, dando início à grande festa de encerramento do II Encontro de Escritores e Editores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Durante uma semana, no Auditório Dois Candangos da Universidade de Brasília, revezaram-se, sob as luzes da ribalta acadêmica, escritores, representantes de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, além, é claro, do Brasil, professores, alunos e convidados de todas as áreas da cultura. O evento, que contou com o apoio do Ministério da Educação e Cultura, tem seu gran finale nesta seca e fria noite de domingo. Acabou de discursar o Ministro da Educação, seguido pelo presidente da Academia Brasileira de Letras. Nos discursos a mesma tonalidade solene. Texto rebuscado, pedante, aborrecido, de uma corressão e erudissão de dar nos nervos. Oratória torturante. Um saco.
Num curto passeio pelo salão, que está completamente tomado por lusófonos bem vestidos e empolados, é possível perceber o cheiro forte de sapato novo e perfume francês, tudo muito natural, de uma simplicidade estudada que chega-se mesmo a crer que todos ali são fantásticos, não suam, continuam sem levar porrada alguma e são, embora queiram nos fazer crer que não acreditam nisso, nossos intelectuais, nossos geniais mentores, nossos heróis.
As mesas, distribuídas pelas laterais do salão de maneira a formar uma discreta clareira onde os avatares poderiam chacoalhar seus corpos cultos, estão cobertas com simples, porém delicados e sofisticados, arranjos de flores. Tudo inspira nobreza, refinamento. Poder-se-ia mesmo crer, atendo-se aos detalhes do ambiente, que uma produção esmerada, de muito bom gosto e requinte, tinha cumprido seu papel: destacar o sublime daquela caterva sublime de homens e mulheres das letras sublimes. Náusea, é a palavra que sinto como narrador, náusea sublime também.
Continuando nosso passeio por essa paisagem cultural, é possível ouvir o sotaque lusitano de escritores irmãos de além mar, aquele sotaque típico que a nós brasileiros cai como uma irritante ladainha, quase uma outra língua, e, pensando bem, é realmente outra língua, outra história, outro povo, outra escritura. Não escrevemos nem falamos nem lambemos a língua de Luiz de Camões.
Toda a rica e profunda e metafísica literatura, música e criatividade das terras de oficialidade primeira reunidas ali, para que todos admirassem, deglutissem como um raro acarajé de prosa chocha, um vatapá musical de idosas rimas, um caruru comercial. Todos sob as luzes, para que babássemos de inveja e para que atestássemos no fim das contas como eles são belos, inteligentes, perfeitos. Supimpa!
Vejo, encostado à parede lateral, camuflado nas cortinas de veludo marrom do salão, o vulto bêbado de Lima Barreto. Parece-me que vocifera e cospe. Mais adiante encontramos alguns escritores catando migalhas no chão, comendo com as mãos, pedindo a benção, implorando espaço na lista dos mais lidos e vendidos. Eles têm bicos enormes, flores na lapela, sapatos de cores berrantes e usam o computador como ninguém. Alguns têm flautas atoladas no cu, organizam antologias com os mesmos nomes e textos e vícios de sempre, e tocam música barroca. São muito bons esses rapazes. Mostram bem os dentes, os caninos brilham ameaçadores, e disputam um osso roído e gasto, como cães sarnentos e famintos, rolam pelo chão, empurram cadeiras, e um deles, o mais sagaz, sai vitorioso carregando aquele prêmio por entre as mesas, abanando a cauda sob as luzes, submisso e realizado, aplaudido por todos os presentes. Esse menino com certeza estará na academia em pouco tempo, mas antes vai publicar uma dezena de romances estúpidos que lhe renderá muitos tostões.
Um único contratempo ameaçou manchar tão perfeita noite, mas foi providencialmente esquecido, uma jovem professora de literatura, oriunda de pequena cidade do interior do país, moça ingênua, insossa e imatura, arrogante e prepotente, partiu para cima de um grande e famoso editor brandindo recém lançado livro de autor matemático. Pego de surpresa, o tal editor foi obrigado a ouvir um enorme e cuspido discurso, recheado dos mais nobres e cultos palavrões, no mais típico acento açoriano. A moça protestava contra o que chamou “panelinhas literárias” e explicou: o senhor pensa que nós não sabe como funciona essa caralha toda? Nós sabe sim, seu mecenas da mediocridade, defensor da heráldica do mofo. Sabemos que o conluio se dá assim: alguém escreve uma porcaria de romance, conto ou ensaio, e o senhor publica, aí outro filho da puta vai pro jornal e faz boa crítica daquela grande merda, dizendo que é bom texto, com bom tema, escrito por bom autor, excelente aquisição para presente nas férias de verão, e esse fulano que se diz crítico, um chumbregado escrevinhador de porcarias, vamos descobrir, por uma coincidência danada, também publicou na sua empresa um romance, conto ou ensaio tão besta quanto este e que foi aclamado em crítica no mesmo jornal por aquele mesmo imbecil que acaba de publicar sua merda literária, e tem mais, é só abrir os olhos e vamos ver que eles, todos eles, esses porras metidos a grandes escritores, são seus contratados, filho da puta. Ainda me vem cometer o sacrilégio de publicar o romance do genial matemático pernambucano destruindo toda a forma do texto, suas equações tão bem pensadas,seus binômios escritos em catedrais medievais, suas mulheres com corpo de cidades, cada buraco uma boceta, cada boca um esgoto, cada cu um túnel, uma grande raiz quadrada, isso é sacanagem ! Tome vergonha, disse chorando finalmente a jovenzinha e imatura professora, antes de sapecar na cara do editor o calhamaço de setecentos e treze páginas, dizendo com sincera emoção: devia enfiar isso em seu rabo. Corre daqui, corre dacolá, e logo a moça era encaminhada ao serviço médico, e o editor recebia um pedido formal de desculpas da organização do evento. Outra nobre catedrática encarregou-se de pôr panos quentes no barraco acadêmico explicando que a literatura brasileira contemporânea é a representação machista de homens autoritários que não representam nada além do poderio másculo-falocêntrico de brancos cultos que excluem mulheres e negros e bichas e crianças e dragões e extra-terrestres, e que por isso mesmo a literatura brasileira da atualidade dos dias de hoje contemporâneos é uma literatura excludente, pois exclui tudo, segundo o ultimo levantamento do censo estatístico de personagens de ficção. Falou, falou e falou. Provou que o que se escreve hoje é a prova cabal de que nossos autores perderam definitivamente o cabacinho ético, pois escrevem para a burguesia e sobre a burguesia. Citou Ferrez, Mano Brown, Carolina Maria de Jesus e Paulo Coelho. No final, foi aplaudida de pé quando alertou: Vocês, escritores contemporâneos dos dias atuais, estamos de olho nos seus livros, façam o favor de atentar para nossos dados estatísticos. Lima Barreto, ainda bêbado e oculto entre as cortinas do salão, soltou um pum e vomitou um pedaço de lingüiça. Só ele, lá do seu cantinho, manifestou-se contra o discurso dizendo: Todo mundo aqui sabe javanês.
Há ainda, espalhados pelo salão, sob boleros, reitores de renomadas universidades brasileiras, jornalistas, colunistas sociais, professores do Departamento de literaturas da Universidade de Brasília. A inteligêntsia do planalto central está presente no salão do Iate Clube e cantarola “teus beijos nunca mais, teus beijos nunca mais.”
Os garçons correm apressados para todos os lados, vodka para o bigodudo de Moçambique, uísque para o professor de Coimbra, vinhos e refrigerantes para refrescar as gargantas dos intelectuais. Perto dali há invasores que nunca leram um livro, e nunca lerão. Nunca saberão o que é hermenêutica, no máximo pensarão tratar-se de um bom remédio para hemorróidas. Que dirão então de acordos ortográficos ? Que sindicato faz esse acordo? Perguntarão os mais politizados, que são tão poucos. Aquela festa, guardadas as proporções, tem um quê de Baile da Ilha Fiscal.
Heloísa aparenta estar cansada. Foi uma semana pesada, esteve envolvida diretamente com todo o desenrolar do encontro. Geraldo está ao seu lado, impaciente, o relógio mordendo o pulso. Dor de cabeça, querida, diz à mulher que se contenta em cruzar as mãos sobre a mesa e esticar o olhar em direção à estudada performance de enxaqueca do marido. Vou sair um pouco, está insuportável, volto mais tarde para buscá-la. Onze horas está bem? e deixou-a a discutir com uma professora de olhar flambado algo fundamental para a população sem esgotos do Recanto das Emas: a literatura feminina em Timor Leste. Segundo essa criatura de títulos e publicações em revistas literárias, a representação da mulher na literatura timorense deixa muito a desejar, posto que às mulheres cabem apenas os papéis de mãe, prostituta e desempregada. Isso é inadmissível para uma nação que pretende independente, não acha? É notória a postura bordada dessa militante feminista, de conhecimento geral seus fumos urbanos, sua ojeriza a tudo que significar província. Detesto regionalismos, nasci em beira de estrada, numa vila chamada “Cárcere”, portanto não me interessa histórias que falem com sotaque. O cérebro em espasmos constantes de pensamento faz com que pule de um assunto a outro, sem elo algum de ligação que não apenas sua vontade de comentar esse ou aquele assunto. Mas o que importa no fim das contas é que essa discussão existe, sobrevive, insiste, apesar de toda a falta de esgotos, de toda a população do Recanto das Emas e da inexistência de boas perspectivas. E o fato de essas pessoas estarem unidas nessa noite aponta a esperança de que um dia, distante é verdade, estaremos todos juntos num mesmo baile: os invasores, os intelectuais, os professores, os famosos e os decentes. Talvez isso ocorra solenemente, após a população miserável e faminta invadir a capital do país, se apossar de seus gramados, superquadras e monumentos, e declarar-se dona de seu destino, de sua língua, livre para introduzir o pronome onde bem entender, enfiá-lo no cu se assim o desejar, mesócuse, sem gramática alguma que lhe venha dizer em qual elevador deve subir para o trabalho. Isso também é literatura.
A morena de vestido negro repleto de lantejoulas, crooner da orquestra Tabajara, cantava “Night and day” quando Geraldo saiu do clube.

Terça-feira, Julho 07, 2009

INTERMEZZO

Traduzindo o mundo



Augusto dos Anjos, o anjo augusto da poesia brasileira do início do século XX, nos caracteriza, a nós feras humanas, como “monstro de escuridão e rutilância”(1). Sua visão do mundo e do homem, posta em versos, integra o percurso histórico do “filho do carbono e do amoníaco” em sua investigação das coisas do mundo. A arte, portanto, como a ciência, a religião, a filosofia, o mito, todos instrumentos de tradução do real inventados pelo homem, é uma forma de apreensão/construção da realidade. Apreensão quando consideramos como matéria do poema (ou do quadro, ou da escultura, ou da música) o “tempo presente, a vida presente”; e construção quando reconhecemos sua diferença substancial em relação ao objeto e sua matéria. De outra forma, constrói-se a realidade pela expressão artística. Há realidades.
A natureza ambígua do homem, expressa nos versos do paraibano, aponta para o problema deste pequeno ensaio que é sugerir um processo bipolar de visões do mundo. Reconhecer que somos escuridão, mas que também somos brilho e luz, é aceitar uma essência construída sobre paradoxos, sobre conflito. Somos todos uma espécie de antítese de calças (ou saia), como diria Maiacovski.
Se o pensamento mítico foi nossa primeira tentativa de traduzir (transcriar, como os Campos) o mundo e, ainda hoje, aceitamos o mito como elemento decodificador da criptografia da natureza, devemos então acolher o vário no singular e único, ou seja, ainda somos hoje, nesses tempos de bites e de vertigem tecnológica, o animal assustado que enxergou no relâmpago a ira manifesta de um Deus biliar, ou no destino trágico do herói o paleativo catártico da existência, uma espécie de emplasto brascubiano da angústia existencial. Tão válida quanto a tradução do mundo pelo método cartesiano é sua expressão pelo senso comum ou pela reflexão filosófica. Somos sim, monstros de escuridão (nas instâncias do mistério, do impreciso, da indefinição e do caos, da imprevisibilidade e do desconhecido) e rutilância (na órbita da ordem, da harmonia e do equilíbrio, do cosmos, do previsível), e é no equilíbrio dessas partes que caminhamos para não-sei-onde.
É óbvio que essa faceta ambígua do homem contaminará sua/nossa apreensão/construção do mundo, pois ela é o filtro pelo qual absorvemos e erigimos esse relacionamento do sujeito que somos com o não-sujeito que nos circunda, do eu com o não-eu. Expressão máxima desse conflito que se equilibra em arte reside na música, cuja composição é um exercício matemático e físico (acústica e ondas) da emoção. Compor uma sinfonia é brilhar na escuridão. Raimundo Fagner, compositor popular cearense, cobriu com notas, acordes, harmonia e melodia os versos do poeta maranhense Ferreira Gullar e cantou:


Traduzir-se (2)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


O poema, que se tornou canção e sucesso nos e nas rádios do país, deixa algumas questões: quem traduz? o que traduz? para quem traduz?

Na verdade, o poeta se diz partes. Como no poema:

Dentro, em mim, um anjo bom vive no inferno
Um mortal que anseia o dom de ser eterno
Eu sou Eus e, às vezes, posso ser bem mais. (3)

A poesia tenta mostrar que a complexidade do homem reside em sua natureza ambígua, oscilando entre vertentes opostas e, na maior parte das vezes, em equilíbrio. Somos razão, raciocínio, pensamento, palavra (LOGOS), mas também somos paixão, instinto, inspiração, mistério (PATHOS). Eu sou eus e posso mesmo ser bem mais.
Entre esses dois pólos construímos naves espaciais e sinfonias, máquinas de lavar roupa e sonetos, computadores e esculturas. Entre a ciência e a arte, entre a certeza e a dúvida, entre o sagrado e o profano, nós, humanos nascemos e morremos. Não há ser humano que seja totalmente LOGOS ou totalmente PATHOS, pois somos a mescla dessas duas potências.
Em “Traduzir-se” o poeta utiliza termos de exatidão para expressar essa natureza racional do ser: pesa, pondera, permanente, linguagem. Essas duas partes num só ser constituem um indivíduo social, político, histórico, coletivo, que o poeta faz questão de registrar com os vocábulos “multidão”, “almoça”, “janta” e com a expressão “todo mundo”, generalizando a composição bipolar, ambígua, paradoxal do homem.
Mas o poeta identifica outra distinta parte e a revela pelo uso de termos tais como: estranheza, fundo sem fundo, delira, se espanta, de repente, vertigem.
Os gregos tentavam interpretar (traduzir, transcriar) o mundo pela filosofia e pelo mito. Uma tentativa de tradução da realidade não exclui a outra, muito embora o mundo racional e, especialmente, a cultura cartesiana tenha expurgado o pensamento mito-poético do campo das traduções do mundo. Traduzir aqui é um termo que remete à constatação de que qualquer investigação da realidade implica a construção dessa realidade, pois não há uma e única verdadeira realidade, como dissemos amteriormente: há realidades.
Para os gregos, Apolo, o deus solar, traduziria a beleza, a perfeição, o equilíbrio, a harmonia das formas, o mundo do cosmos ordenado, da disciplina, do controle, da luz (pois só na luz tudo é visto e revelado), da razão, da linguagem. Apolo é, portanto, o elemento de LOGOS. Quando dizemos que tal ou qual visão é apolínea, presumimos que comporta todo o universo da ordem. Apolínea é a posição do pai cultural, poder e controle.
A outra parte é representada pelo deus bastardo Dioniso (também chamado Brômio ou Baco), que na tradição mitológica greco-romana era o deus do vinho. Dioniso carrega a alcunha de “o delirante”, “o murmurante”. Para seus adoradores, incorpora o princípio da fecundidade, deus da libertação, da supressão das proibições, deus da catarse. É uma entidade ctoniana, das instâncias do inconsciente, libertador dos infernos. Simboliza a ruptura das inibições, das repressões, dos recalques; é, no fim das contas, o símbolo das forças obscuras que surgem do inconsciente. A idéia comporta algo muito mais profundo. Dioniso, ao contrário de Apolo, representa os valores da noite, do mistério, da transcendência (pelo efeito inebriante do vinho, os homens encaram a morte sem medo e celebram a vida). Dioniso é símbolo das paixões, da coragem, do caos (a partir da desordem é possível criar algo novo, portanto simboliza também a criatividade). Dioniso é o espírito de revolta contra toda ordem, é a insurgência e a subversão do padrão e da norma, portanto, é do filho cultural a visão dionisíaca do mundo.
Podemos então dizer que Dioniso é a escuridão, Apolo a rutilância, e dentro de nós essas divindades medem forças e nos torna monstros. Estabelecemos então uma relação binária, ou se quisermos ser menos matemáticos ou “apolíneos”, fixamos dois pólos onde o homem apreende seu mundo e constrói o seu caminho.
As artes, e a literatura em particular, são frutos datados. Têm endereço e perfil histórico. O artista não está fora do mundo, dele retira sua obra, e é por isso que a visão que se tem do mundo em certo período contaminará os artistas desse mesmo período. As grandes “escolas” literárias ou artísticas também, de uma certa maneira, refletirão esse jogo eterno entre o impulso apolíneo e o dionisíaco. O que se observa é a predominância de uma ou outra visão (apolínea ou dionisíaca) em determinado período histórico, fruto do processo sócio-político-econômico da civilização.
É preciso deixar claro que compartilho a idéia de que a arte é, sim, uma forma muito especial de interpretação do mundo. Como exercício do espírito, está num mesmo nível da religião, da ciência, da filosofia. Não há que se discutir sua especificidade, está clara. Muito embora o poeta afirme que quando a ciência cala, a arte fala, acredito que a ordem de silêncio e som é irrelevante aqui.

Notas:
(1) “Eu, filho do carbono e do amoníaco
Monstro de escuridão e rutilância” , Psicologia de um vencido
(2) GULLAR, Ferreira. Na Vertigem do Dia (1975-1980)
(3) Almeida Filho, Leonardo. Eu sou eus (2006)

Vejamos na gravura abaixo um esquema básico desse jogo entre potências opostas e sua relação com as traduções do mundo pela arte.

Terça-feira, Junho 30, 2009

Pmpj - Fim da Parte I - Ímpeto - Cap.14

14


O médico legista, faces chupadas pelo tempo, um maracujá míope de profundos olhos negros e grossas sobrancelhas, num jaleco de brancura impecável, observa o corpo de Júlia e comenta em tom malicioso com o assistente: Linda, não? O rapaz, um estagiário visivelmente nervoso, examinando o cadáver pálido e rígido, responde afirmativamente com um desconcertado Hum-hum. O médico, calçando luvas, observa os seios de mamilos cinza, rígidos e frios, com alguns poucos pêlos eriçados. A região genital, depilada. As unhas, vaidosamente coloridas de um vermelho vivo, descascando nas pontas dos dedos. Os cabelos sujos de sangue coagulado. O crânio, uma pasta escura. Uma pequena tatuagem no ombro direito, a figura de uma bruxa em sua vassoura tendo a lua ao fundo. Não te excita uma mulher assim, jovem, indefesa, passiva? Pergunta ao rapaz que, assustado, responde que não, de forma alguma consegue excitar-se com quem quer que seja num local daqueles, com aquele cheiro horrível de morte, como pode perguntar uma coisa dessas? O médico sorri, desliza seus dedos sobre o corpo da mulher, lentamente, como se fizesse cócegas nas costas de uma criança, provocando o pupilo com aquele ar irônico e sacana, de quem sabe que ultrapassou os limites e goza com a ultrapassagem, saboreando o escândalo, a surpresa. Eu fico de cacete duro quando aparecem mulheres como esta. Não creio que seja anormal, desculpa-se, é bonita, é bonito, vê? disse comprimindo entre o médio e o anelar, como se fosse um cigarro, o bico do seio esquerdo de Júlia. O estagiário pediu licença e retirou-se, pisando forte, deixando evidente toda a sua repulsa. Imune àquela demonstração de revolta, o médico continuou se preparando para abrir aquele corpo que desejava possuir. É, meu amor, você é minha agora...enfim sós. E sua risada percorreu o longo corredor branco e gelado daquela tétrica hospedaria, o Instituto Médico Legal, sem importunar nenhum dos seu hóspedes.


13
Clara crocodilo fugiu, Clara crocodilo escapuliu, Vê se tem vergonha na cara, e ajuda Clara seu canalha, olha o holofote no olho, sorte, você não passa de um repolho.” Arrigo Barnabé cospe seus versos pela sala. De um bolachão, entre chiados, a música do maldito atonal e modernoso pipoca pelas paredes e Michel se diverte tragando sua cerveja. Quando bêbado, como todo bêbado, ele se acha um homem melhor e por essa razão o resto, para o gênio ébrio, é apenas resto. As coisas tomam uma proporção grandiosa em torno dele, tudo é grandiloqüente e, assim, aquilo que não lhe toca o espírito se mostra inútil, baboseira. Lembra-se de Pilatos, um poeta novo de poesia nova e que toca o controle remoto como quem acaricia o orifício anal. Nessas horas, Michel é um leonino babaca e liberal, como um velho baiano velho, e descobre que é capaz de falar bonito sobre coisas que ninguém, ele diz, entende ou entenderá. É interessante como as vanguardas são sempre tão antiquadas, pensa ele. Nada de novo além dos aviões de carreira, disse alguém cujo nome ele, alcoolizado, não encontra na memória. Imagina-se diante da platéia que, um dia, com certeza, irá presenciar sua grande conquista e testemunhar a entrega do grande prêmio de poesia ao jovem Michel, ex-policial. Discursa emocionado, gesticulando como forma de reforçar suas idéias fantásticas, originais, perfeitas, coçando o saco que tem uma das bolas murchas fora da área de cobertura da cueca. A novidade está sempre nos clássicos, ele filosofa. Vanguarda é Guido Cavalcanti seis séculos antes de Marinetti; é Sousândrade muito antes dos Campos; é Pixinguinha e Geraldo Pereira. Puxa, modernos são Giambatista Vico e Bach, e nós aqui babando diante de instalações modernosas e melodias tão sem alma. Modernos também são Pilatos e Schwantes e Kaq e Cagiano e Newtown e eu. Tudo isso ele comenta consigo mesmo, seu melhor intérprete e confessor, e chega mesmo a perceber o olhar de admiração dos fãs, a expressão de espanto submisso dos críticos, o desconforto de seus colegas de delegacia no fundo do salão nobre da academia sueca. Enquanto ouve Arrigo Barnabé, os metais amplificados pela cevada e pelo álcool, ele tece tratados estético-filosóficos que, eu sei, nunca vai escrever, mas isso não importa.
Uma raridade o vinil que roda alucinado no aparelho de som. Ouviu falar que já existe a versão digital, mas isso não lhe desperta o mínimo interesse. O que o faz teimar na contramão da tecnologia é muito mais que qualquer novo método ou processo ou material. Ali, naqueles sulcos empoeirados, ele procura uma parte de si. A parte rara, preciosa, a melhor parte. A não-triste. A parte durvalina-peterpanica-michelina.
Naqueles chiados, naqueles sulcos que a agulha devassa, está o Michel de sonhos e esperança, aquele menino que um dia teve o prazer de ser e que hoje busca resgatar no álcool, nos versos e na música empoeirada de velhos discos de vinil. Há muito se perdeu aquele protótipo de homem feliz que um dia havia sido. Logo após a morte do pai, a internação da mãe. Viram-se então, ele e as irmãs, donos da própria vida, livres. Naquelas músicas de bardos malditos, de finados roqueiros, de guitarristas mágicos e viciados; naquele movimento do braço da vitrola repousando nos sulcos do vinil, ele se viu intacto, puro, e chorou a perda irrecuperável de si mesmo.
Num pedaço de papel, os versos manuscritos de um amigo, um poeta, Francisco Kaq, ele leu : “asa / desquieta / de hendrix / roça / / o blues / inflama-se / elétrons / seguem-no / / ( ê brômio!) / dóceis / e bacantes / bacanas / / ( esta / fucker / lady / dá choque ) “ E ele se pegou então excitado, carente de vagina e de cigarro, desejando como nunca uma electric lady, man.
Os bares estavam fechados a essa hora, e Helena, certamente, mantinha ainda as pernas fechadas para ele. Outro dia lera uma entrevista com um grande artista pop nacional já falecido, e ficara muito chocado ao saber que, no fim dos seu dias, ele, o grande artista, vivia isolado num hotel, relacionando-se com garotas de programa, num estilo de vida depressivo e decadente. Como tinham coisas em comum, ele pensava. Não vivia ele, Michel, isolado em seu apartamento barato do setor econômico do Sudoeste? Pagando por sexo e normalmente pechinchando o preço das vaginas? Remoendo sua solidão e sua vida insossa? Regurgitando sua completa incompatibilidade com o trabalho policial? Oscilando entre sobreviver e ser feliz, duas coisas completamente opostas? E o pior, lamentava-se, era que nunca seria um gênio como aquele artista, nunca chorariam sua morte, nunca escrevera nada que pudesse conquistar a admiração de quem quer que fosse. Ele era uma nulidade. Incompetente, incapaz. Incapaz de fazer uma mulher feliz, de assumir e manter compromissos, de se entregar aos cuidados e aos carinhos de outro ser humano. Sempre na defensiva, sempre na rejeição às coisas que implicassem vínculos. E Arrigo Barnabé continua berrando pela sala : Clara Crocodilo fugiu, Clara Crocodilo escapuliu.

Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.11 e Cap.12

11

O casal se enrola nos lençóis, a pele em fresco atrito com o cetim, o suor dos corpos numa solução libidinosa, beijos e mordidas, fluidos e cheiros. Ele percorre os seios, morde os mamilos excitados, a língua deslizando pela barriga, o umbigo, o rosto mergulhando na fruta úmida e quente de cheiro forte, e ela gemendo baixinho, quase chorando, implorando morte e gozo, enquanto ele suga o clitóris e sorve o líqüido da bacante. Ele derrama um pouco de vinho entre as pernas dela e lambe as gotinhas rubras, prendendo com os lábios os pêlos pubianos de Sílvia, que suspira fundo. O festival dos sentidos. Ela olha em seus olhos, e eles dizem que querem possuí-la, à força, como um selvagem, e ele então a cavalga, mastro enterrado na nau desgovernada do prazer, bandeiras desfraldadas nos gemidos. Ela grita seu nome: Geraldo, Geraldo. E ele mergulha nesse poço sem fim e sem fronteiras. Como zilhões antes deles e zilhões que virão depois, esses dois animais se preenchem, saboreiam-se, trocam odores, substâncias, carinhos e palavras. E é isso, a palavra, o que os difere absolutamente dos cavalos no pasto, das feras pela selva, porque o resto é a mais pura fruição dos instintos, um lugar onde a razão não tem convite e não faz falta, exatamente como sabia o poeta que viveu tuberculando e sem fêmea: os corpos se entendem, as almas não.
Nesse instante não existe morte, vida, civilização ou adultério. Nesse momento, em que enterra a espada na vítima imolada, não existe amizade, não há ética, nem moral, só ele, o prazer, imperando nas gengivas expostas, na seiva que os percorre e alimenta, nos fluidos, nos cheiros. Ele a chama de vaca sagrada. Ela geme e se contorce, o falo enterrado entre as pernas. Sim, nessa hora, apenas dois mamíferos sequiosos, o macho, rígido e viril predador, e a fêmea, entregue, abatida, lânguida caça.

12


Tira o paletó, repousa a pasta sobre o chão, dirige-se ao bar e prepara uma dose dupla de um doze anos. Heloísa, sentada na varanda do apartamento, finge ler um livro e acompanha os passos do marido. Ele afrouxa a gravata, beberica o uísque, senta-se ao lado da mulher.
- Por que demorou tanto? Algum problema?
- Não, nada que não possamos resolver. E o encontro? ele se referia ao encerramento do encontro de autores lusófonos, promovido pela Universidade.
- Ainda estamos trabalhando nos relatórios.
Ela não se engana facilmente, sabe que algo está errado.
- O que está havendo, Geraldo? Poderia me contar?
Ele tenta disfarçar, diz que está cansado e que não há nada acontecendo. Diz que vai tomar um banho e a deixa com o fantasma do ciúme babando sua peçonha sobre as almofadas, o olhar pousado nas luzes distantes do Lago Sul.
Ela sabe que o casamento acabou, e acabou há tempos. Consegue até visualizar o momento exato em que sua união com Geraldo teve fim. Foi quando o médico, encontrando-os a sós no quarto do hospital, disse-lhes com todas as vogais, no tom solene e sepulcral que a informação exigia, que “o bebê se foi, infelizmente. Tivemos que retirar o útero, sinto muito.”. Naquele momento ela aprendeu que sorte é um conceito muito frágil, tênue, subjetivo; nos olhos úmidos do marido sentiu que nada mais seria como antes, perdia o homem que amava.
Sempre planejaram ter filhos, vários filhos, e agora, ainda jovens, essa tragédia. Ele ainda tentou disfarçar, mas sempre foi péssimo ator. Era evidente a frustração, estava lá estampada no jeito nada convincente de dizer “tudo vai dar certo, você vai ver, Lô”. Era questão de tempo, a frustração aumentou a cada dia, uma grande mancha escura em seu jeito de olhar. Naqueles funestos dias, ele ficou ao lado dela, deu-lhe atenção, carinho, apoio. Desdobrou-se em cuidados excessivos, quanto a isso ela não tinha do que se queixar, mas sentia que ele não era mais o mesmo homem. A partir de então soube que ele não comia mais apenas em casa. Ela voltou-se para sua profissão, para seus livros, ele para o mundo. Fomes,fomes.

Pmpj - Parte I - Ímpeto - Cap.10

10

O rapaz recebe o senhor de terno e gravata com um beijo. Eles se enroscam e se despem com fúria. Diante de um espelho, o jovem, cerca de 22 anos, abraça-o pelas costas, comprimindo em sua bunda flácida e branca o pênis ereto, enquanto morde sua orelha. Estava com saudade de mim, João Carlos? sussurra no ouvido do executivo que, de olhos fechados, entregando-se aos prazeres viris, sente o falo rígido introduzir-se entre suas coxas. Tudo é muito rápido e intenso, o gozo explode em gemidos graves de machos. O amor parece luta, luta de espadas, testosterona ardendo sobre a cama. Meia hora depois, vestindo-se, ele se vira para o jovem sobre a cama: Beto, deixei a grana sobre a mesa. Depois a gente se fala. E sai .
Há algum tempo vem se relacionando com esse garoto, um menino inteligente, muito sacana e ativo, exatamente do jeito que ele gosta. Conheceram-se pelo anúncio que o rapaz divulgara na seção de acompanhantes do Correio. Beto, lutador de jiu-jitsu, recém-chegado do Rio, belo dote, 100% ativo, hotel, motel,domicílio, local com vídeo privê, realmente lindo, corpo definido, carinhoso, 24 h Fotos disponíveis em www.betoclassic.hpg.com.br. Encantou-se com a inteligência fina do michê, destoava do padrão mauricinhosaradocomedor que costumava consumir. Percebia nele um talento muito maior que aquele que tinha entre as pernas, embora, reconhecesse, este talento também era digno de nota. Juntaram-se o útil e o agradável. Os longos e cansativos dias de trabalho eram sucedidos por sessões de massagem erótica, sexo puro e animal, imobilizações sobre tapete, golpes maliciosos de jiu-jitsu, pequenos tapas e gozo profundo. É vultosa a quantia que despende com o rapaz, e isso sem contar os presentes que costuma dar, as roupas e perfumes, sapatos, viagens que fazem juntos. Aos poucos vem descobrindo a história clichê do menino inteligente que saiu de casa, de sua vidazinha estúpida e provinciana, para ganhar o mundo. Esse roteiro, embora vulgar, é o que mais fascina o executivo bem sucedido. Esse filme ele conhece muito bem, e é justamente isso que o aproxima cada vez mais do jovem promissor do Rio. Agora é hora de voltar para casa, Sílvia não deve estar por lá, nunca esteve, lembra ele.
Quando a conheceu havia um pouco de esperança de que as coisas se acertassem. Ela e sua explosão de juventude injetaram nele um ânimo e uma euforia que nunca experimentara. Aos 35 anos, um velho, descobriu que podia ser feliz com uma mulher, com Sílvia. Enganara-se, nunca foram realmente felizes, nunca foram um casal. Eram uma dupla comercial, sócios de um empreendimento que tinha dado muito certo, um ótimo patrimônio, excelente rede de amigos, jantares e muita hipocrisia. Eram definitivamente dois estranhos. Na cama nunca se acertaram e ele sabia muito bem que muito do fracasso vinha de sua performance. Que performance? Nunca tinha tempo, sempre cansado, sempre viajando, sempre sem desejo por aquela morena fogosa. É óbvio que ela tinha lá os seus casos, ele sempre desconfiou. Nunca quis realmente aprofundar uma discussão a respeito, mas sabia muito bem que a mulher, com aquela peculiar euforia uterina, não se contentaria com jantares e passeios por Paris, Roma ou Milão. Ele sempre soube que, sem pica, Sílvia não era lá grande coisa, tornava-se amarga, irritada, irascível.
Quando lhe aparecia feliz, dentes expostos e humor besta, tinha então a certeza de que ela havia mantido relações com alguém. Está feliz, andou saciando-se de cacete, pensava ele, no fundo satisfeito, pois não se sentiria cobrado a satisfazê-la e, essa era a melhor parte, teria de volta aquela mesma mulher alegre, sorridente, leve, por quem há anos e anos atrás se apaixonara. Ultimamente ela andava mais feliz do que de costume, ele notara, e isso era perigoso. Isso sim ele não iria tolerar, jamais, que ela amasse outro homem. Uma coisa é sexo, filosofava, outra, amor. Nunca deixaria que a mulher se envolvesse emocionalmente com outro macho. Macho, para amor, era ele, João Carlos. Bastavam-se, ele cria. Se ela queria rola, tudo bem, isso é o que não faltava pela cidade, é usar e descartar. Que outro homem se divirta entre suas coxas, vá lá, mas deixá-lo habitar seu coração, nunca. Começava a desconfiar que isso talvez estivesse acontecendo. Notava o eterno sorriso nos lábios, as gentilezas ao tratá-lo, as fugidas constantes. Era o salão de beleza num dia, o dentista no outro, a casa de Heloísa numa tarde, uma amiga que chegava de Nova York, o chá beneficente de Maria Rita do Amaral Brejeiro, na realidade a mitológica Madame Lima, do Parkway, sessão de fotos para o “Bom dia, bela”, enfim, ultimamente tinha a agenda completamente tomada, e com certeza não estava indo para esses lugares.
Pela primeira vez na vida, investigara os passos da mulher, confirmara sua ausência em alguns locais onde ela afirmava ter estado. Era sério, então. Algo estava acontecendo e ele não poderia permitir que isso se tornasse mais sério do que parecia estar.
Tinham um ótimo arranjo nupcial, davam-se muitíssimo bem, formavam o casal perfeito nas festas e jantares. Sílvia lhe dava o equilíbrio que sempre buscara, o apoio feminino que lhe era fundamental. Ela lhe conferia estilo e virilidade pela simples companhia nos eventos sociais. Não. Ele nunca permitiria que outro homem roubasse aquela mulher.
Contratou um detetive particular que, há duas semanas, após horas de campana e uma quantia considerável de dinheiro, entregou-lhe um pacote contendo fotos e um relatório detalhado com os passos de sua Sïlvia. Nesse relatório, a transcrição das fitas gravadas a partir do grampo no celular da mulher. Ele não sabe explicar o que sentiu ao ouvir a voz de Geraldo, seu amigo, dizendo a sua Sílvia que “se o João não sabe comer, deixa comigo que você não vai se arrepender” Era vulgar, um diálogo de baixo nível, putaria pura, asquerosos adjetivos, perniciosas interjeições, uterinas exclamações. Tudo ali exalava sêmen e suor. Faltara apenas desejar ser um Tampax, só isso. Havia naquelas frases o que nunca houve entre ele e a mulher: o tesão e a lascívia naturais entre macho e fêmea. Tratavam-se por “minha vaquinha no cio” e “meu macho gostoso”. Era um tal de “gargantinha de ouro” para cá, “cavalão” para lá. Naquele texto mal escrito era possível aprender todos os nomes possíveis para uma mesma coisa: xota, chana, boceta, vagina, churanha, xinhanha, tabaca, priquito, perereca, perseguida, uma lista interminável de nomes para a mesma grota úmida. Pica, caralho, cacete, espada, jeba, peroba, naba, pinto, bilau, mandjola, mil palavrinhas que queriam dizer falo ereto, virilidade.
João Carlos leu tudo aquilo acompanhando atentamente as gravações, parecia duvidar do que lia e por isso conferia a voz da mulher dizendo todas aquelas coisas. Era-lhe dolorido ouvir o amigo falar com sua Sílvia como um cafetão barato. Teve que engolir as fotos onde se via o casal, em atitudes muito íntimas, no automóvel que ele mesmo dera de presente à esposa. A partir daquele instante, decidiu que precisava agir. Tinha que fazer alguma coisa. Mas o quê? pensou em voz alta, roendo as unhas.